Lágrimas De Crocodilo
3 Capítulo 2
- Phelps! Por onde anda a perícia? Vem um temporal aí e eu não quero perder nenhuma evidência da cena!
- Ele está à caminho senhor!
- Bullock, arranje algo para cobrir a cena até que a maldita equipe de perícia chegue.
- Pode deixar, comissa!
Um flash vindo aparentemente de lugar nenhum cega momentaneamente o Comissário de Polícia James Gordon. Em pouco tempo um pequeno microfone está quase grudado em sua boca. Ao perceber o que se passa, Gordon empurra bruscamente o jornalista baixinho para longe de si e ordena:
- Phelps, pelo amor de Deus, mantenha a área isolada e longe desses jornalistas!
"Malditos parasitas!", pensa o Comissário enquanto se afasta do local para acender o seu cachimbo. Suas mãos tremiam e ele temia ter que fechar os olhos. Mesmo depois de quase 30 anos naquela cidade ela sempre parecia querer lhe impressionar com algo novo e perturbador como ele jamais vira, e desta vez, ela conseguira. Parecia haver algo naquela cidade que despertava o pior existente na alma dos homens, e dos animais. E, pior do que isso, que se alimentava dessa perversidade alheia.
Eram quase 22:47 da noite quando ele recebeu o telefone. Mesmo sem ter atendido, ele já sabia do que se tratava. Era ele, Waylon Jones, o Crocodilo. Só poderia ser ele. Gordon esperava por aquele telefonema — mesmo que rezasse para não recebê-lo tão cedo — desde o dia em que fora informado que o monstro fugira de Arkham, vitimando 3 guardas, 1 paciente e deixando muitos outros feridos. Ele sabia que era só uma questão de tempo até receber notícias do Crocodilo.
"Mas aquilo era...Não, não pense nisso, Jim. Foi apenas outro homicídio perpetrado por um demente. Não lembre que a vítima foi...
- Olá, Jim.
Ele já estava familiarizado com aquela voz e aquela abordagem, mas isso não queria dizer que ela ainda não o assustasse. "Ainda preciso saber como ele consegue fazer isso." pensa Gordon antes de responder.
- Olá. Você veio rápido.
- Eu estava na região. — a voz faz uma pequena pausa antes de prosseguir. — É ele, não é, Jim?
- Nós dois sabíamos que era só uma questão de tempo até algo assim acontecer.
- Você está pálido, o que houve?
- Quando você acha que já viu de tudo, Gotham vem lhe provar que não. Venha, dê uma olhada no corpo antes que caía a chuva.
O vulto alto e encapuzado saiu das sombras vagarosamente, como que calculando cada mínimo movimento seu. Gordon jamais havia visto seu rosto ou o olhado diretamente nos olhos, mas por algum motivo a sua mera presença conseguia lhe passar uma sensação de segurança e confiança.
- O corpo foi encontrado por um sujeito chamado Eddie Willers. Eddie trabalha como gari e encontrou o corpo, ou o que sobrou dele, durante o serviço. Tudo o que podemos dizer até agora é que é uma mulher na casa dos vinte e três anos e que o corpo foi desovado aqui.
Os dois caminhavam lado à lado, cada um ouvindo atentamente o que o outro havia a dizer. Os demais policiais se afastavam para abrir caminho com um sorriso ou olhar de admiração.
Se havia alguém naquela cidade capaz de deter o monstro, esse alguém seria ele.
Os dois pararam diante de uma caçamba de lixo amarela e enferrujada encostada na parede de um beco deserto e sujo. Na parede que servia de apoio para à caçamba podia se ver a marca ensanguentada de uma palma monstruosa. No chão, aos pés da caçamba, um lençol cobria algo pequeno e rígido.
- Aquele é o corpo?
- Sim. Sinta-se à vontade para olhar.
O encapuzado se ajoelhou ao lado do corpo e removeu o pano com um único movimento de seu braço esquerdo, revelando um torso semi devorado de uma mulher.
Gordon ficou bastante surpreso — e espantado — ao ver como o homem à sua frente parecia incrivelmente calmo. Ele não sabia, mas a mente daquele homem não era como a de um homem qualquer. Ela fora treinada até o limite para se tornar uma ferramenta precisa e fria que funcionasse perfeitamente em qualquer ocasião. Ainda assim, ela não foi incapaz de reprimir um estremecimento momentâneo.
- Eu sei quem ela é.
- Como?!?
- Ela é Ann Sheppard.
- Ann Sheppard? A jornalista que estava em uma cruzada contra os grandes chefões do crime de Gotham? A mesma que publicou a ligação dos Montecchio com aquele carregamento de heroína apreendido na semana passada?
- A própria.
- Você não acha que eles contrataram o Crocodilo para apagar ela?
- É uma possibilidade. Lembre-se de que Jones já fez alguns trabalhos para chefões do crime antes de ser preso. No entanto, eu não creio que tenham sido eles, a morte dela seria ligada à eles muito facilmente.
- Haviam rumores de que o Pinguim e o Máscara Negra estavam entre os próximos "alvos" de Sheppard. Você acha que eles o teriam contratado para se livrar de problemas futuros e incriminar os Montecchio para diminuir a concorrência?
- É outra possibilidade. E bem mais promissora do que a anterior.
Uma sombra de preocupação pareceu tomar o vigilante encapuzado ao cobrir o corpo novamente com o lençol.
- Ele não deveria ter ido para Arkham, Jim. O lugar dele era em Blackgate, não em Arkham. Jones era perverso e sádico, mas não louco.
- Eu sei. Mas o advogado dele....
- Nós poderíamos ter questionado a alegação de insanidade, Jim. Poderíamos ter mandado algum psiquiatra discutir o laudo.
- Você sabe tão bem quanto eu que isso não adiantaria de nada. Você não estava lá quando o júri viu as provas do que ele fez...O medo, o pavor, a certeza de que nenhum ser humano são poderia fazer algo como aquilo... Mas por que você está tocando no assunto justo agora?
- Porque há uma outra possibilidade, Jim.
- Você não quer dizer que...
- Veja os fatos Jim. Ele não é visto desde a fuga. A mulher parcialmente devorada. O corpo largado sem o menor cuidado. Apenas as partes menos ósseas do corpo faltando.
- Meu Deus, você não acredita mesmo nisso, acredita?
- É uma teoria, Jim. Eu não gosto dela, mas, se não encontrar nenhuma prova do contrário, podemos dizer com toda a certeza que Waylon Jones rompeu seu último elo com a humanidade.
Notas finais
Fiquem ligados pois, quando vocês menos esperaram, ela estará de volta. Assim como um crocodilo...
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