Lágrimas De Crocodilo
4 Capítulo 3
Em algum lugar nos labirínticos subterrâneos de Gotham, o grande predador dorme. Sua fome foi saciada — ao menos por hora — e isso lhe permite gozar de um pequeno,porém intranquilo, descanso.
Em sua mente — ou nos fragmentos do que um dia já foi uma mente — memórias emergem e voltam a submergir no negrume do passado. As que mais aparecem são as de seu período no Inferno para o qual foi enviado depois de ser vencido pelo Morcego. Essas memórias fazem com que ele revolva no sono como se as correntes elétricas ainda percorressem seu corpo, ou como se ainda lhe fosse possível ouvir os ecos da gargalhada histérica que o impedia de dormir todas as noites.
Mas essas memórias, apesar de serem as mais frequentes, são também as mais rápidas a desaparecer. A elas se seguem outras vindas de um passado tão remoto que ele mesmo já se esquecera de sua existência. Elas se misturam em uma dança caótica, cada uma disputando por um momento de atenção. Ele não tem o mínimo de controle sobre elas, muito menos sabe qual conseguira seu lugar ao sol.
É uma experiência aterradora que faz o grande predador se contorcer e chutar no sono, pelo menos até que a memória do cheiro de grama úmida o tranquiliza.
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No pequeno jardim de um acabado barraco, uma criança brinca sozinha com seus carrinhos lascados e brinquedos de segunda mão. Ele deveria estar na escola, mas ele gostava de lá — e muito disso se devia à sua condição. Não era por causa dos apelidos, muito menos por causa das frequentes surras, mas por causa dos olhares. Aqueles olhares de nojo e repulsa, quase sempre lançados de lado, que lhe eram dirigidos toda vez que ele passava por algum lugar. Os olhares que lhe diziam que ele jamais teria um lugar em meio à eles.
Ele não precisava de muito esforço para ficar ali. Tia Marcy, a única família que Waylon chegou a conhecer, pouco se importava com o que ele fazia ou deixava de fazer. Para ela, Walyon era apenas uma grande cagada que seu irmão mais novo deixara para ela resolver — como sempre fazia. A bem da verdade, Marcy odiava Waylon. Ela o odiara ter que olhar para ele; odiava ter que falar com ele; odiava o jeito como ele andava arrastando os pés como se fosse um maldito jacaré. Ela o odiara desde a primeira vez em que o vira, ainda envolvido nos trapos sujos de sangue, e se lamentava por não ter tido a coragem necessária para afogá-lo na banheira quando teve a oportunidade, e não media esforços para dizer isso a Waylon em todas as oportunidades possíveis.
Waylon também não gostava dela. Ele sentia que ela não gostava dele, e retribuía o sentimento. Ele nunca soube o que fizera para que ela o tratasse daquele jeito. Talvez tivesse sido porque ele matara o velho gato persa gordo que ela tinha quando ele era mais novo, mas aquilo fora um acidente! De qualquer forma, Waylon a evitava sempre que possível, e isso era muito fácil. Durante a semana ela sempre trabalhava até tarde da noite em acabado supermercado da cidade, e aos fins de semana ela se trancava no seu quarto onde bebia e fumava o dia inteiro. Ultimamente, no entanto, ela vinha bebendo a semana inteira.
Ele não se incomodava com isso. Na verdade, ele gostava muito quando ela fazia isso, pois significava menos tempo de contanto um com o outro. O único ponto negativo era que nesses dias era que não tinha almoço ou jantar, mas isso para isso ele já havia encontrado uma solução na forma do pequeno lago próximo de casa. Ali havia um bom suprimento de peixes e tudo o que ele precisava fazer era se jogar ali e nadar até apanhar um peixe.
Ele gostava muito daquilo, nadar era para ele algo tão natural quanto andar ou respirar. Waylon jamais teve aulas, mas foi só cair na água para ele saber o que deveria fazer, e fazia como ninguém. Ele nadava melhor do que o maior dos atletas olímpicos e seu fôlego também era fora do comum, de modo que ele podia chegar a passar quase horas debaixo d´água. E como ele gostava daquilo. Na água ele sentia um alívio, uma liberdade, que jamais sentira na terra. Ali ele podia ser ele mesmo, e ninguém poderia incomodá-lo.
Aquele era o seu paraíso na terra.
Waylon estava concentrado na brincadeira quando seu estômago começou a roncar. Ele largou seus brinquedos e correu até o lago e lá pescou dois peixes de tamanho regular. Ele estava na metade do segundo quando algo chamou sua atenção. Embora ainda pouco desenvolvido na época, seu olfato foi quem primeiro captou a presença estranha em seu meio, e sua audição o seguiu. De pé, ele começou a vasculhar a área com o olhar minucioso de um caçador, mas foi só ele se virar um pouco para a direita que algo o acertou na testa. Aquilo não chegou a machucá-lo muito — sua pele já era consideravelmente grossa na época — mas para alguém desacostumado com a dor, aquilo doeu muito. Ele levanta o rosto e é atingido novamente, desta vez ele cambaleia. Outra vez ele é atingido , e é então que ele percebe que estão jogando pedras nele.
Waylon tenta se proteger com os braços, mas a chuva de pedras caí sobre ele com intensidade e máxima e só para quando ele caí no chão.
– Olha só, é o Menino-Jacaré!
As risadas de escárnio das outras crianças ferem os ouvidos de Waylon como pequenas facas. Ele não precisou ver para saber quem estava ali. Era Johnny Maldorado e seu grupinho, seus eternos e cruéis algozes. Apesar de sempre agredi-lo, as pedras agora eram uma novidade.
– Me deixa em paz, Johnny!
– O quê? Eu não tô entendendo, eu não falo jacarenês!
– Eu disse...
Uma pedra atinge o rosto de Waylon, e o impede de terminar sua frase. Uma vez mais as risadas voltam.
– "Eu disse...." — começa Johnny fazendo uma imitação grotesca da voz de Waylon, o que arranca mais risadas. — Você disse o que, aberração?
Waylon não responde, ele está concentrado demais em tentar se levantar.
– Sabe, eu começo a achar que é verdade o que dizem dele...
– E o que é que dizem dele, Johnny?
– Que a mãe dele dormia com jacarés e crocodilos e por isso ele naisceu desse jeito.
– Não fala da minha mãe!
– Eita, olha só, a aberração tá irritada! Ele não quer que fale mal da mamãe dele.
As risadas voltam, mas desta vez, Waylon não as ouve, ou se as ouve, ele não percebe. Lentamente, a raiva começa a nascer em seu interior. Uma raiva quente que faz seu corpo inteiro tremer enquanto se espalha. Sua visão começa se nublar, e a única coisa que ele vê é Johnny Maldorado. Ele arreganha a boca, pondo os dentes brancos e afiados como pequenas navalhas à mostra. Isso, mais o filete de sangue que escorre por um lado de sua boca formam uma visão macabra e aterradora.
– Eu aposto que a mãe dele deve ter colocado um ovo e....
É então que tudo vira um borrão vermelho para Waylon. Ele não sabe como ele chegou a derrubar Johnny no chão, muito menos como esqueceu a dor, ou como se moveu tão rápido, ele só sabe que suas mãos estão em torno da garganta dele, e que ele não vai afrouxar o seu aperto. Desesperado, Johnny pede ajuda enquanto tenta retirar as mãos que mais parecem tenazes de aço de seu pescoço. A ajuda vem em seguida. Várias e pequenas mãos o agarram e tentam puxá-lo para longe, mas é inútil. Depois pedras começam a voar em sua direção, mas isso também é inútil. Ele não as sente, ele não sente mais nada a não ser a vida se esvaindo de um roxo Johnny Maldorado. Por fim, alguém o acerta na base da nuca com um bastão, e isso, apenas isso, ele sente.
Waylon caí para o lado, semi consciente, de modo que não sente quando o bastão e as pedras voltam a atingir seu corpo. Toda a dor, todo o mundo desaparece em um mar de trevas insensíveis e gélidas.
Ele não sabe por quanto tempo ficou desacordado, mas ao acordar, as estrelas já começavam a aparecer no céu do começo da noite. A dor emanava de cada parte de seu corpo, mas isso não o incomodava. Na verdade, ele mal a sentia pois agora uma nova emoção lhe dava forças e motivação, e essa emoção era o mais puro e completo ódio.
Foi o ódio que fez com que ele se levantasse e se arrastasse para casa.
Foi o ódio que o fez fazer uma promessa silenciosa diante das estrelas que começavam a surgir no céu.
Naquele dia, algo morreu dentro de Waylon Jones. Algo que foi logo submerso em um abismo negro e profundo, de onde nunca mais voltou.
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Em algum lugar nos labirínticos subterrâneos de Gotham, o grande predador dorme. Sua fome foi saciada — ao menos por hora — e isso lhe permite gozar de um pequeno, porém intranquilo descanso. Ele se retorce e se debate enquanto fantasmas do passado surgem e desaparecem em seu sono até que, finalmente, o grande predador caí em um profundo e imperturbável sono, envolvido pelas úmidas e aconchegantes sombras do sistema de esgoto de Gotham.
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