Lágrimas De Crocodilo
16 Capítulo 15
Uma gama de cheiros e sensações chegaram até Waylon à medida em que ele despertava. O cheiro de alfazema, era predominante, assim como a sensação de calor e conforto. Porém, nem mesmo a alfazema conseguia se sobrepor ao cheiro bom de frango cozido em legumes.
Abrindo lentamente os olhos, como alguém que teme acordar de um bom sonho, Waylon Jones foi tomando consciência de onde estava. Surpreendeu-se ao se ver deitado em uma cama macia e seca, uma vez que sua última memória era do frio gélido da terra enlameada de um forte dia de chuva, assim como se surpreendeu ao se ver em um quarto pequeno, porém bastante aconchegante. Ao seu lado, em um tamborete, uma tigela de sopa fumegante. Ainda tonto de seu sono, ele se pegou tentando entender o porquê da sopa tremer tanto.
Quando finalmente se viu desperto, tentou se levantar, sem sucesso. Quase que no mesmo instante, ouviu uma voz cheia de preocupação falar com ele:
– Não tente se levantar, filho. Você ainda está fraco demais para fazer um esforço desse tipo.
Percebendo pela primeira vez que não se encontrava sozinho na sala, Waylon se virou na direção da voz.
–Q-Quem?
Como que em resposta à sua pergunta, ele viu um corcunda sair da sombra da porta e se aproximar de seu leito. Quando a atarracada figura já se encontrava bem próxima, Waylon ficou na dúvida de estaria de fato acordado ou se este era apenas algum tipo de sonho, uma vez que o corcunda vestia uma roupa de mestre de picadeiro de um vermelho quase berrante, o que contrastava com a sua barba e o rosto austero e orgulhoso — que lhe conferiam um ar de respeito e, por que não, nobreza.
– Meu nome é Richard, meu jovem, e, assim como meu homônimo, pode ver que não partilha de uma postura "perfeita".
– O-Onde eu estou?
– Você está em uma das carroças de meu circo, jovem. O bom Goliás cedeu sua cama para que você pudesse descansar um pouco.
– Circo?
– Sim, e seja muito bem-vindo ao Circo Itinerante Adams! Mas é confusão isso que vejo em seus olhos? Mas é claro, você não se lembra, não é? Nós o encontramos caído no meio da estrada em um dia de chuva, você estava realmente mal e, comovidos com sua situação, o trouxemos para cá sem pensar duas vezes.
– Obrigado, senhor.
– Ora, me chame de Richard, filho. E não há por que agradecer, nós apenas fizemos o que era certo.
– Não seria isso que eles fariam lá em casa. — murmurou Waylon e, pela expressão de Richard, percebeu que falara alto demais.
– Ah, o mal que os homens fazem.... — disse o corcunda com uma expressão de extrema tristeza nos olhos. — Sempre perseguindo o que lhes é diferente ou estranho. De certa forma, foi por isso que nós nos juntamos e abrimos esse circo.
–C-Como assim?
– Nós nos cansamos de ser explorados ou virar alvo de chacota pelos membros dos circos em que trabalhávamos então, juntamos algum dinheiro e compramos o circo para nós, nos tornando assim seus donos e criando um lugar onde não importa o quão diferente você seja, você sempre será aceito e terá o melhor dos tratamentos. Mas, por favor, perdoe-me pela grosseria, eu ainda não perguntei seu nome.
– Ah, é Waylon. Waylon Jones.
Nesse instante, o velho corcunda sorriu e estendeu a mão para o jovem que a apertou e sentiu, pela primeira vez, o contato de alguém que não tinha medo ou repulsa dele.
– Seja bem-vindo à nossa família, Waylon.
E, ainda que ele não soubesse, foi assim que começou a melhor fase de toda a vida de Waylon Jones.
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