Lágrimas De Crocodilo
17 Capítulo 16
Durante aqueles três anos no circo, Waylon Jones descobriu o verdadeiro significado da palavra lar. Pela primeira vez em toda sua vida, havia encontrado um lugar onde ele era plenamente aceito como era. Um lugar onde ele era respeitado como um ser humano, e tratado como um.
No começo, Richard se sentiu receoso em dar algum trabalho a Waylon. Porém, devido a insistência do mesmo, acabou por lhe dar como trabalho a limpeza das jaulas dos animais de pequeno porte. Quando este veio reclamar que aquilo era um trabalho leve demais, adicionou-lhe também a tarefa de limpeza da jaula dos animais de grande porte. Aquele trabalho em muito divertia o jovem Waylon, que conseguia se entender muito bem com os animais. Também fora ali que ele conhecera Camille, a jovem cega que alimentava os animais. Camille era, em toda a trupe, a pessoa mais próxima de Waylon em termos de idade — ele tinha 13 e ela 15 — o que fez com eles acabassem por se aproximar. Com o tempo, eles viriam a se tornar grandes amigos, quase irmãos, ainda que seus primeiros contatos tenham sido, no mínimo, embaraçosos.
Quando não trabalhava na limpeza, Waylon ora recebia aulas de Richard, que, ao descobrir que o jovem mal conseguia escrever seu nome, iniciou uma cruzada para ensiná-lo a ler e a escrever; ora ajudava Golias com seus pesos e, em troca, era ajudado pelo mesmo; ora conversava ou ajudava os demais participantes do circo que agora era sua família.
Essa sua rotina só foi mudada quando, cerca de um ano e meio depois de sua chegada, o circo começou a passar por sérios problemas financeiros.
– É a economia, Waylon. — limitava-se a dizer Richard, mal conseguindo esconder sua preocupação. — Os tempos estão difíceis para todos. E, além do mais, parece que o povo não tem mais interesse pelas excentricidades de um circo mambembe.
– Mas nós já temos dinheiro o suficiente? — perguntava Waylon, preocupado com o velho corcunda.
– Não. Ainda falta muito para conseguirmos comprar nossa fazenda. — respondeu Richard, a tristeza estampada nos olhos. A fazenda era seu plano de aposentadoria, ou melhor, o plano de aposentadoria de toda a trupe. Um lugar que eles comprariam com o dinheiro de longos anos de trabalho e onde, após tantos anos se expondo ao escárnio e servindo como diversão para a plateia, poderiam descansar em paz, longe dos olhos de qualquer um.
– Mas nós vamos conseguir! — disse Waylon, tentando animar Richard. — Nós vamos!
Ao ouvir as palavras de Waylon, Richard sempre sorria. Não acreditava que realmente ia conseguir sua fazenda, assim como os outros integrantes do circo. De fato, aquele plano era mais uma esperança vaga utilizada para que eles pudessem aguentar o seu dia a dia de apresentações e viagens. Mas, para não desiludir o pobre garoto, eles continuavam com a farsa — mesmo que, a cada dia, se tornasse mais difícil mantê-la.
No auge da crise, Waylon teve uma ideia. O povo realmente podia ter se cansado de ver as excentricidades de um circo itinerante como o Circo Adams, mas a questão era que as excentricidades de lá era, praticamente, as mesmas de qualquer outro circo. E se eles apresentassem algo que nunca fora visto antes? Algo completamente novo?
Quando Richard ouviu essa ideia, sua resposta foi ríspida e veemente.
– Não. Eu sei no que você está pensando e você não vai fazer isso, Waylon.
– Mas, eu posso....
– Você não está entendo! — cortou-lhe Richard, desesperado. — Você é só uma criança, Waylon. Por maior que seja, por mais forte que seja, você ainda é uma criança! Eu não vou permitir que você se exponha desse jeito!
– Eu agradeço por sua preocupação, Richard. — respondeu Waylon, firme em sua crença. — Mas essa escolha é minha, e é isso que eu quero.
– Meu Deus, garoto! Eles vão rir de você! Vão jogar coisas em você!
– Não é nada que já não me tenham feito antes. Além do mais, essa pode ser nossa chance de salvar o circo e conseguir dinheiro para a fazenda.
– A fazenda? A fazenda? Ora, Waylon, a fazenda...- Porém, percebendo aonde iria chegar seu argumento, Richard parou, receando ferir os sentimentos do garoto. — Quantos anos você tem?
– 14, agora.
– 14....Bem, pelo seu tamanho, eu diria que você já é um adulto...
Waylon sorriu, mas parou ao ver os olhos sérios de seu mentor.
– E o que exatamente você faria?
– Bem, eu poderia ficar parado em um tanque ou algo assim....que tal comer a cabeça de algumas galinhas?
– Não, não faremos nada que o degrade tanto assim.
– Então, quem sabe se eu lutasse contra os alligators que temos aqui?
– Lutar contra alligators? Meu Deus, Waylon, isso é perigoso demais! Digo, eu sei que você é forte, mas aqueles animais são máquinas de matar! Uma só mordida e você pode se considerar morto!
– Bem, eles têm que conseguir me morder para isso. — respondeu Waylon, cheio de confiança.
– Não sei, é muito perigoso...
– Mas eu dou conta, Richard. Pergunte para o Golias, ele vai te confirmar o quanto eu sou forte.
– Eu vou pensar nisso. — disse por fim — e a contra gosto — o mestre de picadeiro. — Não lhe garanto nada, mas vou pensar.
Naquela mesma noite, Richard convocou os demais integrantes do circo para uma discussão sobre o assunto. Disse-lhes tudo o que Waylon lhe dissera, sem omitir nenhuma palavra. Por um longo tempo, eles deliberaram sobre o assunto. Waylon era, afinal, um membro da família, e eles não poderiam expô-lo dessa forma. No entanto, seu ponto era válido, uma atração nova poderia fazer maravilhas para as finanças do circo. Por fim, chegaram à uma conclusão, ainda a mesma não agradecesse Richard, que adicionou uma cláusula extra ao que fora decidido.
Na manhã seguira, fora até Waylon e lhe dissera, sério:
– Eu conversei com o resto do pessoal, Waylon, e, por mais que isso não me agrade, eles concordam com você. — e, ao perceber o sorriso no rosto do garoto, o velho prosseguiu. — Eu, porém, não concordo. Ainda assim, se é isso que você realmente quer, eu não posso impedi-lo. Todavia, você tem que me prometer uma coisa.
– O quê? — perguntou um ansioso Waylon Jones.
– Quero que cuide, está bem? Nada de riscos desnecessários para conseguir chamar atenção. Pode me prometer isso?
– Claro que sim! — disse Waylon, abraçando o corcunda e lhe tirando quase todo o ar.
– Calma...Calma! — disse Richard, retribuindo o abraço da melhor forma que pôde. — Mais uma coisa, se eu ao menos pensar que você está correndo algum perigo, eu cancelo seu número, fique avisado. Já pensou em um nome?
– Nome?
– É, você tem que ter algum nome de palco. Algo que chame a atenção e, ainda assim, seja elegante ao mesmo tempo.
– Hm.....que tal Garoto Jacaré?
– Não.
– Garoto Crocodilo?
– Hm....que tal tirarmos o "Garoto"?
– O que, só Crocodilo?
– Exatamente.
– Não sei não. Parece tão simples.
– Sim, mas na maioria das vezes, a simplicidade é o segredo da coisa.
– Tem certeza? Parece um nome tão bocó.
– Confie em mim, Waylon, esse nome ainda vai pegar.
Na próxima apresentação do Circo Adams, havia, no cartaz promocional, uma imagem de um grande homem segurando um alligator com ambas as mãos, em baixo dele, se lia, em letras garrafais;
A GRANDE E ESPETACULAR ESTREIA DO CROCODILO!
UM HOMEM LUTANDO SOZINHO POR SUA VIDA EM UMA JAULA CHEIA DE ANIMAIS!
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