Lágrimas De Crocodilo
2 Capítulo 1
Há um antigo ditado em Gotham que diz: "Se você pretende sair à noite, é bom levar uma arma consigo." Ann Sheppard sempre achou isso um exagero. É claro que Gohtam é ma cidade perigosa — ainda mais para uma jornalista investigativa como ela era -, mas desde que você andasse pelos lugares certos nada de mal iria lhe acontecer. Além disso, Gotham tinha uma força policial que, se não era excelente, ao menos trabalhava muito para garantir a segurança de seu povo.
E ainda havia ele.
Ann nunca o vira, mas já ouvira falar muito nele. Todos em Gotham já haviam. Um vigilante solitário, um cruzado de capa em uma batalha incessante em prol do bem da cidade, de acordo com algumas versões. Um morcego gigante que se alimentava da maldade existente no coração dos homens, diziam outros. Um espírito vingativo que vagava nas sombras da cidade, atacando qualquer um que cruzasse o seu caminho, de acordo com alguns mais voltados para o misticismo. Em todas essas definições, no entanto, parecia haver um consenso. Ele era um predador e sua existência — ou suposta existência — dava a Ann a confiança necessária para sair de casa à noite para caminhar.
Infelizmente, ele não era o único predador presente em Gotham. Haviam outras espécies de predadores na cidade, algumas muita mais mortais ou cruéis do que o Morcego.
E uma delas estava bem abaixo dos seus pés.
A criatura que se agora se move nos esgotos outrora já fora um homem, e nessa época era chamado de Waylon Jones. Hoje, no entanto, quase nada havia sobrado de sua humanidade, e a criatura atende agora pelo nome de Crocodilo.
Assim como o animal que lhe dá nome, a criatura vaga a esmo pelo sistema de esgoto de Gotham sendo guiada apenas por seus instintos e vontades mais primárias. Agora, por exemplo, ele é guiado pela fome. A fuga do Inferno havia lhe sido muito trabalhosa e não lhe dera tempo de se alimentar bem, e os ratos que havia encontrado não foram suficientes para aplacar a fome do grande predador. Ele precisava de algo mais substancial, um animal maior que pudesse saciá-lo e é então que um leve odor chega às suas narinas.
O grande predador já o havia sentido antes, apesar de agora ele possuir um gosto doce que o faz salivar. Era o cheiro de suor, apesar de este estar encoberto pelo cheiro forte do esgoto e de um shampoo barato e ser sutil demais para ser captado por qualquer olfato humano. Mais, era o suor de uma mulher relativamente jovem, mas o monstro não pensava nesses termos. Para ele, não era uma mulher jovem que corria nas ruas acima, mas comida. Comida fresca, farta e, acima de tudo, macia.
Com um movimento inacreditavelmente rápido e preciso para um corpo tão grande e musculoso, a criatura mergulha na água e nada até a escada mais próxima, sempre seguindo a trilha deixada pelo cheiro. Em pouco tempo, sua mente primitiva percebe que a presa corre em linha reta de modo que ele pode interceptá-la na escada mais próxima. Ele salta para ela e inicia uma subida rápida e ansiosa.
Na rua acima, Ann Sheppard caminhava distraída pela música de seu celular. Ela estava tão envolvida pela sensação de segurança proporcionada pela visão de uma projeção em uma nuvem que não percebeu os olhos vermelhos que a observavam de um bueiro. Muito menos viu o grande e musculoso braço que se esgueirou para fora dele, mas viu a mão que agarrou seu calcanhar e a puxou para baixo.
No entanto, Ann Sheppard pôde gritar, e seu grito de medo e desespero ecoou brevemente na noite iluminada pelo símbolo do morcego antes de ser sufocado pelas águas do esgoto.
Naquela noite, um predador se alimentou bem.
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