Notas iniciais
Gente, não aguento mais esse namoro década de 30. Em breve vou providenciar cenas mais calientes aqui, afinal vivo imaginando aquilo que não aparece na TV!

Enquanto dirigia até Santa Teresa, na tarde de domingo, Clara pensava nas muitas mudanças pelas quais tinha passado nos últimos dias. As melhores lembranças eram, sem dúvida, da manhã de sexta feira, manhã em que, após a discussão com Cadu, se perdera em carinhos, confidências e cumplicidade com Marina. Desde então não haviam se falado novamente. Tantas coisas haviam acontecido naqueles três dias que Clara mal podia esperar para contar.

A conversa definitiva com Cadu fora surpreendentemente positiva. Quando chegara ao bistrô, sentiu que ele esperava por ela. Nenhum dos dois gostaria tratar daquele assunto perto de Ivan, isso era óbvio, mas Cadu demonstrava tanto receio de olhar seus olhos que ela compreendeu de imediato: ele se envergonhava do que havia feito pela manhã e falar daquilo sob o teto em que haviam sido uma família feliz seria como estapeá-la outra vez, seria outra vez indesculpável.

Ele lhe pediu apenas alguns minutos de paciência. Já não havia clientes, então disse à funcionária que assim que terminasse de recolher as louças poderia ir embora. Quando a moça se retirou, ele foi o primeiro a falar. Sentou-se diante dela à mesa onde ela aguardava e, olhando as próprias mãos, pediu perdão. Afirmou que perdera o controle, que jamais quisera machucá-la. Sua voz indicava que estava próximo das lágrimas e ela se comoveu. Estendeu suas mãos e tocou as dele, mantendo o toque até que ele enlaçou as pontas dos dedos nos dedos dela. Então ela pediu que ele a olhasse nos olhos.

Ele ouviu em silêncio enquanto ela falava. Clara também pediu perdão a ele: não achava que tivesse conduzido a situação de maneira adequada mas também não podia mais voltar atrás. Reafirmou tudo que dissera naquela manhã, tentando não ser tão dura com ele, mas deixando absolutamente claro que não o havia traído, que realmente amava outra pessoa, que essa pessoa era Marina e que não havia nenhum culpado nessa história. Afirmou que não poderia mais seguir casada com ele.

Ele havia tentado argumentar, dito que ainda a amava, sugerido que eles tentassem novamente ser felizes juntos e então as lágrimas correram pelo rosto de Clara, quando ela teve que lhe dizer que não conseguiria tentar além do que já havia tentado, que há meses tentava reencontrar dentro de si a alegria de estar com ele, sem nenhum sucesso. Conseguiu não falar sobre como a simples visão de Marina a fazia vibrar de alegria. Com o fim do amor, a separação era inevitável, e assim seria ainda que Marina não existisse ou não demonstrasse qualquer afeto por ela.

– Você quer que eu saia de casa, então? – quando Cadu fez aquela pergunta, Clara percebeu que ainda não havia pensado no que faria. Mas em seu coração já sabia a resposta, então disse a ele que ficasse, por algum tempo ela mesma sairia. E quando ele tentou argumentar, afinal o apartamento era dela, herança de seu pai, ela, sem saber como, colocou seus motivos, absolutamente emocionais, em palavras. Ela precisava sair até que ele se recuperasse definitivamente, afinal não estaria tranquila se o deixasse, depois de tantos anos juntos, sozinho ainda durante a recuperação do transplante. Ele ficaria no apartamento até estar plenamente recuperado, pois assim, se precisasse, teria a família para socorrê-lo, afinal ele já era um membro da família dela, querido por todos, isso era fato.

–Clara, o que você tá falando? Você vai simplesmente se mudar pra casa da Marina, é isso? – foi o único momento daquela conversa em que ele alterou a voz, mesmo permanecendo sentado e contido nos gestos. E ela explicou que não. Não sabia ao certo porque, mas preferia sair de casa por um tempo, não iria para a casa da mãe nem da irmã. Precisava de um tempo para si mesma. Queria se afastar dos conselhos que ouvia desde sempre, queria, pela primeira vez na vida, ouvir a si mesma e trilhar um caminho apenas seu.

Depois de muito tempo, saíram do bistrô em paz. Tinha havido lágrimas sim, mas ambos estavam bem e aliviados por conseguir manter uma atitude adulta e amigável. Após trancar as portas, Cadu abriu os braços para ela, em sinal de paz e Clara aconchegou-se em seu peito, deixou que ele a abraçasse e seguiram, abraçados, até o carro.

***

O sorriso tomou conta de seu rosto ao passar pelo portão da casa de Marina. Estava morrendo de saudades e totalmente ansiosa para compartilhar com ela as mudanças que fizera em sua vida desde que tinha assumido que a amava. Quando não a viu na piscina soube, que mesmo sendo domingo, ela estaria no estúdio. Era no ambiente de trabalho que a jovem mais se sentia bem, mesmo nos momentos de folga.

E ela realmente estava lá. O som ligado, ela ouvia blues sentada no chão, de costas para a porta, cercada de fotos, como se as selecionasse para algum trabalho. Clara observou da porta e percebeu que ela estava só. Sorriu para si mesma e aproximou-se em silencio, agachando-se às costas dela.

– Marina! – Clara a chamou ao mesmo tempo em que tocava seu ombro. Quando ela se virou, o rosto sério, os olhos tristes, o sorriso de Clara se desfez na mesma hora – Ei, que cara é essa? Aconteceu alguma coisa? – Clara se inclinou para abraça-la mas a fotógrafa se esquivou e levantou, quase num pulo. Clara se pôs de pé também.

– Você tá bem? – Clara perguntou, verdadeiramente preocupada. Marina parecia aflita, perdida. Aproximou-se, tentando novamente abraçá-la, mas ela se esquivou.

– Se eu tô bem? Você tá mesmo querendo saber se eu tô bem, Clara? – ela falava num tom baixo, dolorido. Irônico também.

– Marina, que tá havendo? Porque você tá assim? Eu posso te ajudar?

– Ajudar? Você quer saber se eu tô bem e quer me ajudar, Clara? O que é que há com você? O que você pensa que eu sou? – A última pergunta saiu quase num grito, abafado pela angústia.

– Marina – Clara levantou as mãos, como quem pede calma – o quê é que tá acontecendo? Porque você tá me tratando assim?

Marina não respondeu. As lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto e ela tentava controlar a respiração, numa tentativa frustrada de evitar o choro. Estava magoada. Com Clara, sim, estava magoada com ela. Só queria que ela tivesse sido sincera, poderia aceitar qualquer decisão que ela tomasse, desde houvesse sinceridade entre elas. Tomou coragem e perguntou:

– O que você tá fazendo aqui, Clara?

De frente para ela, tentando olhar em seus olhos, Clara respondeu:

–Eu vim falar com você, eu vim te ver, Marina – Clara sabia que havia algo errado, só não entendia o que –eu preciso te contar umas coisas.

– Contar umas coisas... Contar que você se entendeu com o Cadu, é isso? – a voz de Marina já não se alterava. Tinha um tom horrivelmente triste, decepcionado, desde o início da conversa. Clara abriu a boca e foi interrompida antes de começar a falar:

– Eu esperei que você me avisasse, mas agora não precisa dizer mais nada. Por favor, não diz mais nada que possa me ferir. Acho que eu não posso suportar mais.

– Mas Marina, do que você tá falando? Como assim, você acha que eu vim pra te ferir? – Clara estava perplexa. Não entendia nada do que Marina falava e vê-la assim decepcionada, mesmo sem saber o motivo, a deixava mortificada.

– Eu esperei que você ao menos me ligasse pra dizer que vocês tinham se entendido – Clara continuava não compreendendo – Não, Clara, não me olha assim. Depois de tudo que aconteceu entre a gente, você se entende com seu marido, me ignora, não me atende quando eu ligo, não responde minhas mensagens e faz essa cara de quem não entende o que tá acontecendo? Isso machuca, sabe? Você não tinha o direito de vir aqui agora, só vai fazer doer ainda mais! – agora ela chorava e Clara, sentia que as lágrimas caiam também de seus olhos.

– Marina, de onde você tirou essa ideia de que eu me entendi com o Cadu assim, desse jeito?

– Por favor, Clara, para com isso! – Marina apoiou as mãos no alto de uma poltrona, de costas para ela – Para – pediu outra vez – para, por favor! – as últimas palavras saíram num sussurro. Marina deixou que seus joelhos dobrassem e escorregou para o chão, apoiando-se de lado na poltrona e abraçando os joelhos.

– Gente, olha só quem veio fazer uma visitinha? Tudo bem Clarinha? – Vanessa estava parada junto à porta, com um sorriso irônico. Clara bufou, de costas para ela. Não sabia há quanto tempo ela estava lá, mas sabia que ela só iria tornar qualquer tentativa de diálogo com Marina ainda mais difícil. Respirou fundo e falou:

– Oi Vanessa. A visita não é pra você – Clara virou-se para olhá-la mas só conseguiu ver Marina, com o olhar perdido, totalmente desamparada, junto à poltrona vermelha. As palavras perderam-se em sua boca.

– Ah, nossa, assim eu vou ficar magoada – Vanessa continuou irônica – Como é que tá o seu maridinho? Já marcaram a nova lua de mel?

– Como assim, lua de mel? – Clara forçou um riso de deboche – Você tá louca – e virou-se para Marina, que continuava sentada no chão, ainda chorando. Ia na direção dela quando ouviu Vanessa dizer, antes de sair do estúdio:

– Você por acaso pretende negar que saiu do bistrô abraçadinha com ele, no mesmo dia em que se declarou pra Marina? Ah, nem precisa responder, você nunca sabe o que quer mesmo, né? – e com isso Vanessa saiu.

As palavras da ruiva surtiram mais efeito na fotógrafa do que em Clara. O choro de Marina, que era silencioso, transformou-se em soluços e Clara finalmente entendeu. Ajoelhou-se diante de Marina e puxou as mãos dela para si.

– Marina, me ouve. Por favor, não fica assim – pediu em um sussurro. Tinha acabado de entender o que havia com Marina e percebeu que só poderia esclarecer a verdade quando ela estivesse disposta a ouvir.

– Me diz que não é verdade, por favor – Marina pediu entre os soluços – me diz que ela não viu você nos braços dele naquela noite... Por favor, Clara, diz que é mentira!

Ver aquela mulher chorando fez com que o ar deixasse seus pulmões. Precisava acalmá-la, precisava secar suas lágrimas. Mas não podia mentir. Ainda ajoelhada, envolveu o rosto dela em suas mãos, erguendo-o de forma que pudesse olhar em seus olhos.

– Marina, olha só, não é mentira, mas – Marina tentou esquivar-se de suas mãos, ela não permitiu – Olha pra mim, Marina, essa não é a verdade inteira. Por favor, me ouve – as lágrimas rolavam pelo rosto de Clara, um choro contido. Chorava porque sabia que Marina tinha sofrido, porque ela ainda sofria.

Marina soltou-se das mãos dela. A aflição e a dor a consumiam há dois dias. E agora havia também o medo. Tinha medo do que Clara poderia falar, medo de perdê-la, medo de ter que dividi-la com o marido, medo de sentir uma dor ainda maior se ela dissesse que não a amava. Não estava preparada para isso. Já de pé, de costas para ela, forçou-se a falar:

– Clarinha — Clara sorriu ao ouvi-la falar assim – olha só, acho que é melhor a gente não ter essa conversa. Sabe, tá muito difícil pra mim. Essa situação toda, eu... – conteve o choro com esforço – eu não aguento mais. É muito difícil pra mim, sabe. Cada vez que você se aproxima, eu fico feliz e aí você se afasta tanto que acaba mais longe do que antes. Eu não consigo mais suportar...

Clara se aproximou e pôs a mão em seu ombro e, delicadamente, fez com que ela se virasse. Novamente levantou seu rosto, de forma que se olharam nos olhos.

–Marina, olha pra mim. Você sempre disse que enxergava a verdade dentro dos meus olhos. Então olha pra mim e diz que você sabe que eu não vim aqui te machucar, diz que quer ouvir o que eu vim te contar. Por favor.

As lágrimas borravam a visão da fotógrafa e o medo impediu que as palavras de Clara tocassem seu coração . Havia tanto tempo que não sentia tamanho amor. Talvez nunca tivesse sentido. E o pior, nunca tinha passado por aquela situação, nunca precisara disputar um amor. Pior ainda era saber que perdera tantas batalhas, afinal era óbvio que Clara também a queria, e ela mesma já o havia dito. Mas mesmo que a desejasse, a mulher à sua frente já havia recuado tantas vezes...

Clara esperou uma resposta. Cada vez mais angustiada, esperou por um tempo muito longo e Marina não disse uma única palavra, nem demonstrou de qualquer outra forma que queria ouvi-la. As lágrimas correram mais forte pelo seu rosto e ela finalmente não suportou. Soltou o rosto de Marina.

– É melhor eu ir embora – sua voz era um sussurro sem esperança – Eu ... Marina, eu jamais quis ... – não conseguiu terminar a frase, já não encontrava o que dizer. Abraçou a fotógrafa com força, beijou seu rosto e então saiu.

Notas finais
Sei que ficou muito descritivo e enooooorme... Por favor não me odeiem, vou tentar melhorar isso.