Notas iniciais
Pessoal, esse capítulo ficou grande. Espero que entendam o comportamento da Clara no capítulo anterior e desistam de me matar! Tomara que a leitura não seja cansativa!

Clara caminhou até o carro sem enxergar muito bem o que fazia. As lágrimas borravam sua visão. Parou várias vezes, pensando em voltar. Tinha vontade de gritar a verdade, de obrigar Marina a ouvir o que tinha vindo dizer e ao mesmo tempo sabia que não podia fazer isso. Havia pedido que Marina dissesse que queria ouvir, mas ela não respondera. Sabia que a jovem estava sofrendo, pior, sofrendo sem motivo nenhum e acreditava que uma conversa não tinha muitas chances de dar certo, em grande parte porque ela própria, Clara, tinha dificuldades desde sempre com aquele tipo de situação.

Ciúmes e desconfiança eram duas coisas que a deixavam desestabilizada desde a adolescência, desde o primeiro namoradinho. A história da sua família tinha sido abalada, alterada, por conta desses sentimentos. Sempre vira a morte de seu pai como uma consequência do ciúme doentio do primo. E Marina estava com ciúmes, ela sentia. Provável que Vanessa estivesse alimentando aquilo desde a sexta feira, quando a vira sair do bistrô. Na hora Clara não havia dado importância à presença da ruiva, mas agora tinha certeza de que ela usara aquilo para tentar afastá-la de Marina.

Não, ela não permitiria que aquilo a afastasse da mulher que havia despertado seu amor. Se tantas vezes rompera relacionamentos ao menor sinal de ciúme, dessa vez não poderia fazê-lo, ela não suportaria encerrar um romance que nunca havia começado. Ela iria esperar que Marina se acalmasse e então falaria com ela. Longe de Vanessa, sem espaço para interrupções venenosas.

***

As lágrimas de Marina pararam de cair. Clara havia ido. Ela permitira que Clara se fosse. O desespero tornou-se maior que a angústia que a consumira durante todo o fim de semana: e se ela não voltasse? E se ela desistisse de tudo que viera dizer e que Marina se recusara a ouvir? Por um breve momento a pena que Marina vinha sentindo se si mesma transformou-se em raiva. Que droga, Clara só pedira que ela a ouvisse! E, para ela, aquela mulher era totalmente transparente, a verdade podia ser sempre lida nos seus olhos. Que droga, ela havia dito que não estava ali para magoá-la, porque não lhe dera ouvidos?

Sem pensar em mais nada, Marina saiu do estúdio, na esperança de que ela ainda não tivesse saído. E ela realmente ainda estava lá, pode ver o carro à distância. Conteve o impulso de correr até lá, obrigou-se a caminhar devagar, tentando se recompor ao menos um pouquinho, pensando em como reiniciar aquela conversa.

Clara estava sentada, segurando a chave do carro, ainda perdida em seus pensamentos, sem coragem para sair daquela casa sem ter feito o que a levara até lá. Não viu quando Luís, o motorista de Marina, se aproximou do carro, que ainda tinha a porta aberta.

– Dona Clara? Desculpa, acho que a assustei. É que levei o carro para lavar ontem e encontraram isso aqui, é da senhora, não é? – Luís lhe estendia o celular, com a inconfundível capa vermelha. Dentro do possível, sorriu para ele. Agradeceu, aliviada. Não via o aparelho desde que jantara com Marina, mas com tanta coisa acontecendo, achava que este estivesse perdido no meio de suas coisas, entre as que tinha deixado para trás, talvez. Agradeceu mais uma vez.

Marina assistiu a cena a poucos passos dos dois. Para sua sorte, Clara estava de costas para ela, pois a raiva que há pouco sentira de si mesma voltou, intensa. Cerrou os punhos e bateu com um deles na testa, mais forte do que pretendia. Deixou escapar um pequeno gemido – “Idiota, idiota! Tivesse deixado ela falar! Como é que ela podia atender o celular, se ele estava aqui? Ahhh, que droga!” – O motorista afastou-se e Clara voltou para dentro do carro, batendo a porta. Quando o motor deu sinal de vida Marina saiu do seu transe e correu até lá, gritando.

– Clara! Clarinha, espera, por favor! – segurou-se na janela do carro, decidida a impedir que ela saísse.

Um pequeno sorriso de alívio tomou o rosto de Clara. Tinha visto Marina pelo retrovisor, e ela parecia discutir consigo mesma. Sequer tinha soltado o freio do carro, apenas ligara o motor na esperança de que a fotógrafa não a deixasse partir. Sem desligar o carro, pôs suas mãos sobre as delas na janela e pediu:

– Vem comigo?

– Oi? Ir pra onde? Assim, desse jeito, eu...

– Vem, por favor – os olhos de Clara pediam com uma intensidade mil vezes maior que os lábios e Marina não tentou recusar o pedido. Deu a volta e entrou no carro.

– Clarinha – Clara sorriu ao ser chamada daquela forma carinhosa – eu preciso te... – foi interrompida pela mão que segurou a sua e um “shiii” delicado.

– Espera. Vamos conversar longe daqui, longe dessa tristeza toda. Aproveita o caminho pra relaxar.

– Pra onde a gente vai?

– Você vai ver. É lindo.

***

Clara seguiu um por caminho que Marina já conhecia, mas há tempos não fazia. E sim, o próprio caminho era capaz de fazê-la relaxar. Não tinha uma ideia exata de onde estavam indo, mas Clara seguia pelo Parque Nacional da Tijuca e a paisagem era simplesmente linda. Todo o ruído da cidade ficara para trás. Árvores enormes ladeavam o caminho, e ela se sentia acolhida por toda aquela natureza exuberante. Viu as duas cachoeiras que havia no caminho, onde uns poucos destemidos se aventuravam com a temperatura não muito convidativa daquela tarde. Sentiu que um sorriso se insinuava em seus lábios e deixou que ele brotasse de vez quando Clara voltou a segurar sua mão. Aquele simples toque fez Marina sentir seu coração aquecido outra vez

Pararam junto à Vista Chinesa. Caminharam em silêncio, lado a lado, do carro até lá. O lugar estava quase vazio naquela tarde de domingo. Clara apoiou as mãos na amurada, respirou fundo olhando para a cidade que se descortinava aos seus pés. Dali se via a Lagoa, o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara... Olhava tudo aquilo fascinada e Marina a observava, dividida entre a vista privilegiada da zona sul carioca e a visão ainda mais privilegiada do rosto agora sereno de Clara, que agora fechara os olhos e inclinara a cabeça para trás, como se fosse capaz de absorver toda a tranquilidade que aquela paisagem oferecia.

– Sabe, Marina – Clara virou-se para ela e segurou a mão que estava apoiada ao lado da sua. Estava sorrindo – faz tempo que eu venho aqui pra pensar em você. Essa luz, essa vista... A mata aqui em volta, tudo isso me tranquilizava quando eu me obriguei a ficar longe de você – Clara chegou mais perto e tomou a outra mão de Marina, segurando agora as duas entre as suas. Observou Marina, o cabelo preso de maneira displicente, os olhos, agora tranquilos, ainda inchados por conta das lágrimas – Ah, Marina, acho que tinha que ser mesmo aqui pra gente conversar, sabe. Eu tenho que te...

Marina a interrompeu, pousando o indicador sobre seus lábios. Ainda temia o que estava por vir, mesmo com a tranquilidade que Clara lhe transmitia. Por fim, retiro o dedo dos lábios dela e pediu:

– Eu não sei se um dia eu vou estar pronta pra ouvir, mas diz, diz o que você tem pra me contar. Eu quero ouvir até o fim, Clara.

– Marina. Olha só, foi a Vanessa que te contou sobre eu ter saído com o Cadu de lá do bistrô, não foi? – a fotógrafa acenou com a cabeça, confirmando – Então, isso aconteceu mesmo. Eu fui até lá pra conversar com ele, e no fim deu tudo certo, sabe, a gente não pode ficar brigando, ele é o pai do meu filho – Marina sentiu que o ar fugia dela ao ouvir isso e desviou os olhos dos de Clara.

– Hei, olha pra mim, vai! – Clara puxou seu rosto delicadamente – Marina, olha só, naquela noite ele me levou pra casa e, depois que o Ivan foi pra cama, o Cadu me ajudou a fazer as malas. Clara olhava agora de um modo extremamente firme, seguro, dentro dos olhos de Marina – Eu saí de casa ontem de manhã.

– Saiu? Como assim, saiu? Tá falando sério? – Marina queria sorrir, queria chorar e queria fazer um monte de perguntas ao mesmo tempo – Como assim, saiu pra onde?

Clara, delicadamente, puxou Marina até um banco e se pôs a contar sobre a conversa com Cadu e sobre como os dois haviam passado o sábado com o filho, para que o pequeno entendesse que os pais, mesmo separados, permaneceriam sempre perto dele.

Marina fez um monte de perguntas, do motivo dela ter saído do próprio apartamento até a reação de Ivan. Por fim criou coragem e perguntou se Clara não queria ficar em sua casa.

– Não, Marina, ainda não. Olha, não fica chateada comigo. Mas é que simplesmente não dá pra ir assim, tão rápido. Eu vou...

– Chateada? Não, claro que não. Eu entendo, sério. Mas me diz, pra onde você foi?

Marina esperava que Clara estivesse na casa da irmã, talvez da mãe. Estava enganada. Clara queria um tempo para si, para estar mais consigo do que com os conselhos que toda família sempre dá em momentos de “crise”. Por fim, como não poderia pagar por um hotel por muito tempo, menos ainda alugar um apartamento, resolvera falar com a sobrinha, Luiza, que dividia um apartamento com uma amiga. Luiza com certeza não tentaria dar palpites em sua vida e, como estava brigada com os pais e quase toda a família, Clara estaria mais distante dos conselhos que pretendia evitar.

– Eu sei, parece ridículo, né – Clara ria de si mesma, no caminho de volta – depois de tanto tempo casada, com um filho de dez anos, eu vou morar numa república!

– Não, não é ridículo. É um recomeço – Marina procurou a mão dela e a apertou – Um recomeço, Clara.

O sol estava se pondo quando passaram pelo portão da casa de Marina. Marina levou Clara pela mão até o estúdio. Queria pedir desculpas pela cena que tinha feito ali, pelas cobranças que fez pelas ligações não atendidas. Sentia que tinha sido infantil.

Clara a interrompeu com um beijo delicado, que logo ficou mais intenso, com as duas envolvendo fortemente o corpo uma da outra num abraço desesperado, o beijo consumindo todo o ar de que dispunham. Caíram juntas sobre as almofadas que estavam no chão, rindo.

– Quer saber? Você devia era ter acabado com aquela minha cena de ciúme aqui mesmo. Podia bem ter gritado a verdade, pra me fazer parar de dizer todos aqueles absurdos... Me fazer parar de te acusar.

– Nunca, Marina. Olha só, eu não consigo lidar muito bem com essas coisas de ciúme. E acho que entrar na discussão só piora as coisas, porque aí ninguém ouve nada e as coisas ficam piores do que antes. Mas a senhorita, heim? Não tinha dito que não era exclusivista? – Clara provocou e, com um sorriso zombeteiro, roubou outro beijo de Marina.

Aos poucos, Marina tornou-se mais exigente, sua língua buscando a de Clara, explorando o contorno de seus lábios e o interior de sua boca. Com um leve gemido, Clara mordeu o lábio inferior dela e essa foi a deixa para que o abraço se tornasse mais estreito. Sentada de frente para Clara, Marina passou suas pernas sobre as coxas dela, o que praticamente colava o corpo das duas, e retomou o beijo, segurando-a pela nuca, enquanto as mãos de Clara iam da sua cintura até o alto das costas. Quando interromperam o beijo para poder respirar, Marina deslizou os lábios pelo rosto de Clara, distribuindo pequenos beijos, até se aproximar do seu ouvido.

– Nem acredito que isso tá acontecendo – sussurrou, e começou a descer os beijos, pelo pescoço, onde a pele já estava totalmente arrepiada. Clara só conseguiu emitir um gemido em resposta.

Notas finais
Se não rola beijo na novela, o jeito é fazer acontecer aqui mesmo. Não deixem de me avisar o que acharam!