Luz dos meus olhos
40 Capítulo 40
Notas iniciais
Foi Clara quem acordou primeiro. Demorou a abrir os olhos, permitiu-se ficar ali, desfrutando do cheiro suave que vinha dos cabelos de Marina, cujo corpo estava encaixado à frente do seu. Tinha a perna direita sobre as pernas da namorada e a fotógrafa segurava a sua mão junto ao peito. Apenas quando teve certeza de que ela realmente estava ali, na sua cama, ergueu o corpo e, sem soltar a fotógrafa, apoiou-se no cotovelo para observá-la dormir, coisa que gostava de fazer desde sempre. Somente tentou sair daquela posição quando ouviu os primeiros barulhos vindos da cozinha.
– Não sai não – a frase manhosa de Marina foi acompanhada de um pouco mais de força no aperto em sua mão – Tá tão bom aqui...
– A senhorita tava acordada esse tempo todo? — Clara se debruçou sobre a namorada e lhe beijou o rosto – Sacanagem, isso, dona Marina!
– Sacanagem – Marina segurou a morena pela cintura e se virou, ficando sobre ela – é você querer me deixar aqui sozinha – colou os lábios nos dela, num selinho demorado – depois de tanto tempo de saudade!
– Eu até acho que você tem razão, mas tá ouvindo? — Clara apontou para a porta e as duas fizeram silêncio para ouvir melhor – Tem um Ivan acordado, e ele tá mexendo na cozi...
A frase ficou pela metade. O barulho que ouviram não deixava dúvidas de que algo tinha dado errado na cozinha. O som de algo quebrando e o grito assustado do filho fizeram com que a morena rolasse por sobre o corpo de Marina e saísse voando pela porta. A fotógrafa foi imediatamente atrás dela.
– Marina, não – Clara estendeu o braço, impedindo que a namorada ultrapassasse o balcão que separava a cozinha da pequena sala de jantar – Você tá descalça.
Junto da pia, Ivan estava parado, cercado pela poça de suco de laranja e pelos cacos de uma jarra. Tinha respingos no pijama e nas pernas. O pequeno parecia assustado.
– Filho, não sai daí, espera um pouco – Clara pediu com calma – Marina, pega os chinelos do Ivan no quarto, por favor. E pega alguma coisa pra você calçar também.
Enquanto a fotógrafa dava meia volta e seguia em direção aos quartos, a morena avançou até o filho e o pegou no colo, tirando-o da cozinha.
– Machucou, filho?Você se cortou? — quis saber enquanto o colocava na cadeira e examinava ela mesma as pernas e os pés molhados do pequeno.
– Não, mãe. Tô bem. A jarra escorregou, eu não consegui segurar – o menino falou meio sem jeito, visivelmente receando uma bronca – Eu queria fazer uma surpresa pro café da manhã – hesitou um pouco antes de perguntar – Vai brigar comigo por causa da bagunça, né?
Clara respirou fundo antes de soltar os pés do filho e olhar para o rosto dele. Mexeu carinhosamente nos cabelos claros, afastando a franja dos olhos do pequeno. Ele estava crescendo e ela não podia impedir que ele corresse alguns riscos. Fazia parte do processo.
– Não, filho, eu não vou brigar pela bagunça, nem pela jarra quebrada. Sabe, eu acho muito legal você querer ajudar com o café, acho muito bacana quando você me ajuda assim – viu o rostinho do menino ir da apreensão ao alívio – Maaaas, escuta só: eu não quero você descalço de novo quando for mexer na cozinha, entendeu? Você podia ter se machucado com aqueles cacos. E nada de mexer com as facas afiadas se eu não estiver perto.
– Eu usei a faca que a gente usa pra comer...
– Aí tudo bem – a morena passou as mãos pelos braços do filho, num gesto de carinho – Nada de mexer sozinho no fogão também, certo?
– Certo — o menino já sorria e deu um soquinho leve na mão fechada que a mãe ofereceu a ele.
Marina, que tinha assistido quase toda a cena, aproximou-se e envolveu os ombros da morena, entregando com a outra mão os chinelos de Ivan, que os calçou rapidamente.
– Então, já que tá todo mundo bem, melhor você levar o garotão pro banho enquanto eu limpo a cozinha.
Vendo que Ivan fechou a cara para a sugestão de Marina, Clara se apressou a socorrer a namorada, explicando ao mesmo tempo que guiava o filho até o banheiro:
– Nem precisar fazer essa cara, filhote. A gente sabe que você é crescido e toma banho sozinho. Eu só vou separar a toalha e a sua roupa, porque você tá todo melado e nem sonhando que eu vou te deixar mexer no armário desse jeito.
A limpeza da cozinha foi rápida. Marina recolheu os cacos e, enquanto ela os embrulhava em jornal para jogar fora, Clara limpou o chão. Antes que Ivan saísse do banho, Marina já tomava o seu na suíte de Clara e a morena foi para o outro banheiro assim que o filho saiu de lá.
– A gente podia tomar o café lá em casa – Marina sugeriu.
– Mas você mora longe, Má. Eu tô cheio de fome.
Clara vinha entrando na sala e ouviu o final da conversa entre eles. Ela já tinha a solução para aquele problema.
– Pois eu acho que a gente tem que ir ali na outra quadra e tomar café na padaria mesmo.
– Com pão de queijo, mãe?
– Com pão de queijo, com rosquinha de coco e com sonho. Com tudo que a gente tem direito.
Foram até a padaria conversando sobre a viagem de Marina. Ivan queria saber de tudo e perguntava se um dia também poderia ir numa exposição dela. Durante o café Clara aproveitou para contar que iria com a namorada para Paris e isso só fez o menino ficar curioso:
– Quer dizer que você não tem mais medo de avião, mãe?
– Medo ela ainda tem – foi Marina quem respondeu – Mas um carinha muito esperto me disse que se eu prometesse segurar a mão dela o tempo todo, ela topava viajar comigo – terminou a frase com uma piscadinha na direção do pequeno, que sorriu de volta.
Passaram o dia juntos, os três, na casa de Marina. A fotógrafa e o menino aproveitaram cada minuto possível na piscina, ficando fora da água apenas tempo suficiente para comer e fazer a digestão (essa última parte por exigência de Clara). Procuraram Flavinha para se juntar a eles, mas ela não estava em casa, apesar de seu carro estar na garagem.
A morena estava na cozinha, preparando o lanche da tarde quando sua mãe ligou, querendo saber se Marina realmente estava de volta.
– É, mãe, ela chegou ontem.
– Aposto que vocês nem desgrudaram mais depois disso, né? Você nem pra em avisar...
– Mãe – Clara falou em tom de reclamação – A gente tava com saudade, não deu tempo de falar com ninguém ainda.
– Não deu tempo, é? Sei. E o Ivan, tá com o Cadu?
– O Ivan tá aqui com a gente. Ele se dá tão bem com a Marina, tá super feliz com ela por perto.
– Também, né, filha? Mesmo se ele não gostasse, só de saber que você deixou aquela tristeza toda de lado ele já ia começar a amar a Marina.
– Mãe...
– Sério, filha, sua voz tá diferente dos últimos dias, dá pra sentir que só dela chegar você já tá melhor, alegre – a mulher fez uma pausa, que encerrou com um suspiro – eu fico feliz por você, minha filha.
Conversaram mais um pouco, o suficiente para Chica intimar a morena a almoçar em sua casa no dia seguinte, junto com Marina. E ao final, num gesto que não deixava dúvidas do quanto a mãe estava decidida a apoiar seu relacionamento, Clara ouviu a proposta para que Ivan dormisse na casa dela.
– Assim vocês podem aproveitar mais, se curtir um pouquinho pra matar a saudade.
– Mãe, você é a melhor, sabia? Eu deixo ele aí umas oito horas, pode ser?
Ivan gostou da ideia de dormir na casa da avó e Marina sorriu maliciosamente ao ouvir a notícia. Clara sabia que, tanto quanto ela, a fotógrafa ansiava para que ficassem sozinhas.
Combinaram que Marina buscaria Clara para jantar e dormiriam no apartamento da morena, afinal queriam muito estar apenas as duas e, ao mesmo tempo, não gostariam de excluir Flávia, caso ela estivesse em casa. Parecia que a melhor opção era passar a noite no Leblon.
Quando a fotógrafa chegou, subiu direto ao apartamento da namorada. Suas palavras se perderam por algum instantes quando Clara abriu a porta usando um body vermelho vivo com decote provocante, um short preto de alfaiataria e uma jaqueta da mesma cor. Cabelo solto, exibindo as ondas e o brilho naturais, maquiagem leve destacando os olhos. Nos pés, trazia discretas sapatilhas.
Foi a morena quem quebrou o silêncio, abraçando a fotógrafa e beijando o seu rosto, para depois dizer, enquanto a puxava para dentro do apartamento:
– Você pode entrar, sabia? Também pode falar alguma coisa...
E outra vez Marina demorou a achar as palavras. Olhou à sua volta e percebeu que Clara não tinha qualquer intenção de sair para jantar. O apartamento estava iluminado apenas por velas, pequenas velas em quantidade suficiente para criar um clima aconchegante. Percebeu que a mesa de centro, a poltrona e o sofá tinham sido afastados, deixando mais espaço livre na sala. Percebeu, no trecho do corredor que seus olhos alcançavam, que também havia velas flutuantes em pequenos vasos ao longo das paredes, e deduziu que elas traçavam o caminho até o quarto.
– Amor – Marina falou em meio a um sorriso – Você tá tão linda... E isso tudo aqui – fez uma pausa, a boca entreaberta devido à surpresa – Não acredito que você preparou tudo isso!
Clara acariciou o rosto da namorada e, com a mão na sua cintura, deu a volta no seu corpo, envolvendo-a num abraço carinhoso pelas costas. Beijou-lhe o rosto e o ombro.
– Preparei, pra gente. Pra curtir essa noite de chamego com a minha namorada linda – girou Marina, colocando-a de frente para si e correndo os olhos pelo corpo delicado, coberto pelo vestido preto acinturado e curto, cujo decote era mais sugestivo que profundo. Deixou o olhar fixo por algum tempo nos lábios vermelhos antes de chegar aos olhos profundos – Minha namorada linda que hoje tá ainda mais linda... Tão mulherzinha...
Os lábios se procuraram, carinhosos. Foram vários beijos entrecortados, suaves, carregados de sentimento e cuidado. Ambas queriam aprofundar o contato, mas desta vez Marina decidiu controlar a situação, interrompendo os carinhos antes que não houvesse mais volta. Ainda precisavam conversar, ela precisava falar algumas coisas com a namorada. Afastou-se devagar, distribuindo beijinhos pelo rosto da morena.
Clara percebeu a atitude de Marina, ao se afastar. Naquela noite elas iriam devagar, tinham tempo. Afinal, na última vez em que cederam ao impulso, ali mesmo, naquele apartamento, as coisas não tinham acabado bem.
A morena tinha achado a mesa de jantar grande demais para elas duas (de certa forma, ela também preferira deixar a mesa livre para o caso de resolverem dar outro uso para o móvel, afinal a experiência anterior não tinha sido nem um pouco desagradável). Sobre o balcão que dividia a cozinha do restante do apartamento, o champanhe preferido de Marina gelava num balde e numa bandeja estavam arrumados os aperitivos que ela tinha preparado, delicados espetinhos de queijos com frutas.
Depois de brindarem e tomarem o primeiro gole, sentaram-se, uma de cada lado do balcão e desfrutaram daquele silêncio acolhedor enquanto se olhavam e trocavam carinhos nas mãos. Foi Marina quem falou primeiro:
– Você foi muito bandida comigo, Clarinha – começou em tom manhoso – Porque deixou que eu achasse que o Ivan não sabia da gente?
– Ele falou com você? Hoje?
– Falou sim, mas foi quando eu me despedi dele pra viajar. Me deu o maior susto perguntando se a gente ainda tava namorando...
– Ele me pediu pra não falar – Clara explicou meio sem jeito – Mas também não me disse que vocês tinham conversado sobre isso. Como foi?
– Ah, Clarinha, ele foi um querido. E eu preciso agradecer o que você fez...
Clara não precisou perguntar, a interrogação foi tão evidente em seus olhos que Marina, após um gole de sua taça, explicou:
– Você tinha todos os motivos pra estar brava comigo, magoada. E preferiu aliviar pro meu lado, dizendo pra todo mundo que não ia mais viajar por medo do avião.
– Eu conheço meu filho, Marina. E conheço a família Fernandes todinha. Não podia deixar que eles ficassem contra você por um assunto que era só nosso. Eu nunca ia fazer isso com você.
Permaneceram em silêncio por algum tempo. Os olhos falaram muito durante esse intervalo, e as mãos se tocavam, se acariciavam. Se confortavam pela distância sofrida. Depois de vários minutos, Marina sabia que já não havia espaço para medo ou insegurança entre elas, agora poderiam resolver questões que haviam sido caladas, era hora de esclarecer tudo sem receio de mágoa. Segurou delicadamente as mãos da morena e as puxou para junto de si. Inclinou-se e beijou uma e outra, com os olhos fixos em Clara, que respondeu ao gesto falando baixinho:
– Eu amo você!
Voltaram a falar de Ivan, e Marina contou sua conversa com o garoto enquanto comiam calmamente. E então a fotógrafa criou coragem e tocou no assunto pendente entre elas.
– Amor, a Flavinha me disse que você tá pensando em deixar o estúdio. É sério isso?
– Eu ia te contar – Clara encarou o balcão, procurando as palavras certas – Não era pra ela falar nada pra você.
– Não fica chateada com ela não – Marina deslizou dois dedos pelo rosto da morena e a fez olhar em seus olhos – Ela só queria ajudar a gente.
Clara sentiu tranquilidade nas palavras da namorada. Não havia cobranças no tom dela. Sentiu que era a hora de contar tudo.
– Lembra do Léo, aquele meu amigo que tem um restaurante?
Marina acenou a cabeça positivamente e Clara prosseguiu:
– Ele me procurou, mandou um e-mail pro estúdio, porque não tinha nenhum outro contato meu. Me chamou pra trabalhar com ele no restaurante, como sommellière – procurou a mão de Marina e a segurou, acariciando a palma com o polegar – Eu ia te contar, mas você tava tão ansiosa com a exposição, os problemas do estúdio, que eu achei melhor esperar. Eu ia falar depois da abertura da exposição em Londres, quando você já estivesse mais tranquila – a morena hesitou um pouco antes de pedir – Desculpa ter escondido isso de você?
– Não se preocupa com isso, Clarinha. Eu entendi o que você quis fazer. De verdade, amor, eu percebi o quanto você tava cuidando de mim antes da exposição.
– Eu vou sempre cuidar de você – Clara respondeu e, aliviada pela reação pacífica da fotógrafa, esperou que ela desse o próximo passo naquela conversa tão importante. E logo Marina perguntou:
– Então... Você vai deixar o estúdio mesmo? Já se acertou com o Léo? — Marina não gostava da ideia de que a namorada não trabalhasse mais ao seu lado, Clara representava a maior parte de seu entusiasmo e inspiração para criar e, principalmente, lhe fazia bem pelo simples fato de estar presente. E, ao mesmo tempo, sabia que a decisão era apenas da morena e que a ela cabia apenas aceitar o que a namorada decidisse. E se ela havia esperado tanto para contar, era quase certo que a proposta havia despertado seu interesse.
– Você sabe que eu adoro trabalhar com você, adoro o estúdio – Clara segurava com força as mãos de Marina, como se temesse que ela, a qualquer momento, levantasse e lhe desse as costas – Mas eu gostei da proposta do Léo, sabe – ergueu os ombros, como que se desculpando pelo que estava dizendo – Ah, Marina, ele tá me propondo trabalhar com aquilo que eu estudei, que eu gosto, sabe? Eu comprei uma briga tão grande com a minha mãe pra estudar sobre os vinhos em vez de fazer uma faculdade tradicional... Ela tinha medo, por causa dos problemas do Felipe...
Clara falava sem desviar dos olhos de Marina. Queria saber o que se passava pela cabeça dela, queria desvendar os sentimentos ocultos por trás daquele castanho profundo que lhe despia a alma. Mas, se o rosto da fotógrafa não transparecia nenhum desagrado, também não era possível ver ali qualquer entusiasmo. A morena respirou fundo e criou coragem para terminar de falar:
– Amor, eu não acertei nada com ele ainda. Só liguei pro telefone que ele mandou no e-mail, pra perguntar se a gente podia conversar melhor quando eu voltasse com você de Londres. Eu queria conversar com você antes.
– Mas você quer aceitar a proposta dele...
– Quero – Clara foi sincera, como não podia deixar de ser – Quero muito.
– E você ainda não conversou com ele? — Marina não entendia como a morena podia adiar tanto tempo a conversa sobre o trabalho, se estava realmente interessada nele.
– Amor – Clara acariciou o rosto de Marina – Eu não ia fazer isso pelas suas costas, sem conversar com você. Já tava decidida a falar lá em Londres, depois que inaugurasse a exposição, que você estivesse mais tranquila. Aí a gente se desentendeu, você viajou e eu fiquei... Ia parecer que eu tava deixando o estúdio por mágoa, e não é isso – a morena respirou fundo e explicou o principal motivo de querer falar com a namorada antes de aceitar a proposta de Léo – Marina, eu sei que a exposição foi um sucesso e que tá chovendo proposta de trabalho pra você. Mas se você me disser que ainda não dá pra contratar alguém pra botar no meu lugar, eu vou entender – encarou os olhos da fotógrafa antes de finalizar – Mesmo, Marina, eu vou entender, eu posso esperar.
O silêncio se instalou entre elas. Clara aguardava, um pouco tensa, a resposta da namorada. Marina, por sua vez, tinha os olhos úmidos e várias coisas rodopiavam em sua cabeça ao mesmo tempo: Clara tinha uma proposta para trabalhar fora do estúdio. Clara queria aceitar o emprego. Clara ainda não tinha aceitado a proposta porque queria contar a ela pessoalmente. E, finalmente, Clara estava disposta a recusar o trabalho se isso fosse ajudá-la com o estúdio.
A fotógrafa sabia o que devia fazer, a única coisa certa. Pegou as mãos de dedos longos entre as suas e sorriu para a morena antes de questionar:
– Amanhã você tem que falar com o Léo, saber se a proposta ainda tá de pé... Ver se ele pode esperar a gente voltar de Paris.
– Amor, você tem certeza? Isso não vai atrapalhar o estúdio? Se for, eu pos...
– Clara, não! — Marina falou firme, ao mesmo tempo em que o sorriso sorriso se abriu em seu rosto. A jovem decidida e segura de si estava de volta, e Clara com certeza tinha a maior parte do crédito por isso. Os olhos brilhavam quando ela continuou – Se é isso que você quer, então a gente vai dar um jeito. Se der pra contratar, bem, se não der a gente se aperta um pouquinho e redistribui o trabalho – a fotógrafa levantou de onde estava e deu a volta no balcão, abraçando a namorada pelas costas – Você é a maior alegria que eu tenho, você me inspira muito, então eu quero que você esteja contente, sempre. Amanhã a gente vai lá no restaurante e você conversa com o Léo.
– Marina, amanhã é domingo – a morena girou entre os braços da namorada, mantendo o abraço. Sorria, aliviada com o resultado da conversa e com a impetuosidade da fotógrafa em acertar aquilo que, até então, acreditava que sequer seria do interesse dela. Com carinho e delicadeza, beijou-lhe a boca.
Conversaram mais um pouco, agora sentadas no tapete da sala, apoiadas no sofá, enquanto ainda tomavam o champanhe. Aos poucos se estabeleceu entre elas um silêncio repleto de cumplicidade e Clara começou a deslizar um dedo suavemente pelos contornos do rosto de Marina. A fotógrafa retribuía acariciando a palma da mão livre da morena.
– Amor? — Clara sussurrou após um selinho – Eu queria te mostrar uma coisa.
– É mesmo? -com um sorriso malicioso, Marina puxou a morena para junto de si e deslizou um dedo curvatura da coluna dela, provocando um arrepio – Tô doida pra ver!
– Ainda não é isso, apressada – Clara se afastou, falsamente indignada.
– Own, que biquinho lindo! Depois diz que eu faço manha, hein, Coisinha? — Marina se levantou e se aproximou da morena, que já estava de pé, questionando, ao pé do ouvido – Diz, o que você quer me mostrar?
– Uma música – Clara segurou o rosto da namorada entre as mãos – Uma música que eu ouvi pra caramba enquanto você tava longe. Eu via fotos suas no celular, no estúdio, na internet... E não adiantava, nunca era a mesma coisa que ver você assim, ao vivo, pertinho de mim... Aí eu lembrei dessa música e... Bom, ela significa tudo que eu preciso falar pra você depois dessa saudade toda.
Marina ficou parada no meio da sala, sem saber exatamente o que responder, enquanto Clara caminhava até o som e colocava a música escolhida. Antes que os primeiros acordes do violão ecoassem pela sala, a morena já estava de volta, estendendo a mão para a fotógrafa, prometendo outra vez que não pisaria nos pés dela e para a artista foi impossível não lembrar de outro momento, meses antes, quando elas tinham dançado à meia luz, no estúdio de Santa Teresa. Aceitou a mão que a morena lhe oferecia e com a outra segurou a cintura marcada pelo body vermelho. E mergulhou fundo nos olhos castanhos quando a voz rouca de Cássia Eller tomou a pequena sala.
“Ponho os meus olhos em você se você está
Dona dos meus olhos é você, avião no ar
Um dia pra esses olhos sem te ver é como o chão do mar...”
Se Marina já estava emocionada com a música, sentiu os olhos marejarem quando Clara começou a cantar também, sem desviar o olhar do seu. Bom, na verdade ela desviou. No exato trecho em que a letra pedia “pinta os lábios para escrever a tua boca em minha”, a morena encarou fixamente os lábios da namorada, cobertos com o inconfundível vermelho que lhe era característico. E as duas iniciaram um beijo profundo, abrindo as portas de um mundo que era só delas, enquanto a música terminava de dizer a Marina o que Clara trazia no coração:
“Eu te amo, oh
Eu te peço vem
Diga que você me quer porque eu te quero também...”
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