Notas iniciais
Saudades dessas duas na minha TV...

– Mas era só o que faltava, mesmo! – Vanessa bufou – Agora a Clara vai deixar o trabalho de lado pra trocar receita com as amiguinhas? Fala sério, Marina, você vai aturar isso?

Marina suspirou. O dia não estava começando bem. Preferiu ignorar o que a ruiva dissera. Todavia, Flavinha, sem perceber sua intenção, perguntou:

– Marina, essa Duda é aquela que vocês encontraram outro dia? “A” Eduarda Campana?

– Como assim, que é isso, gente? – Vanessa demonstrou surpresa, para em seguida debochar – Claro que não pode ser, né, Flavinha! Você acha que é possível a Clara ter assunto, quanto mais ser amiga, de uma diva como Eduarda Campana?

Marina suspirou outra vez. Não queria discutir com a amiga, mas também não podia deixar aquilo passar batido. Olhou na direção dela:

– Vem cá, Vanessa, esqueceu do que eu disse? Sobre o jeito de você falar da Clara? – viu a ruiva fazer uma careta, mas como ela se manteve em silêncio, achou que o recado tinha sido suficiente.

– Então é ela mesmo? – Flavinha quis a confirmação. Clara tinha comentado sobre a amiga, mas não era do tipo que se importava com a fama de ninguém, o que justificava a dúvida.

Marina confirmou. A namorada era amiga de infância da ex-top model e a amizade delas parecia ter resistido muito bem ao tempo e à distância. Com o canto do olho, observou Vanessa enquanto falava. Estranhou a sombra que passou pelo rosto da ruiva, que não voltou a abrir a boca.

Decidiu que esperaria pela morena no jardim. Era a melhor maneira de dizer que queria ficar sozinha. Colocou os fones de ouvido do celular e foi para fora, sentando-se na grama, as pernas flexionadas em direção ao peito. Fechou os olhos, deixando que a música preenchesse sua mente, procurando relaxar.

Clara chegou pouco depois. Desceu do carro já sorrindo para a imagem que tinha diante de si. Marina já estava deitada no jardim. Os pés descalços, as sapatilhas jogadas ao lado do corpo. O vestido de malha tinha escorregado pelas coxas, deixando as pernas bem torneadas à mostra.

A morena sentiu o já conhecido calor envolvendo seu coração. Aproximou-se devagar. Ela não se mexia. Provavelmente tinha pegado no sono. “Deus, ela parece um anjo. Um anjo dorminhoco. Não, não. Nenhum anjo faria o que ela faz comigo. Ai, Clara, para com isso! Você tá no jardim e tá atrasada! Trabalhar, vocês tem que trabalhar!”

Aos poucos, conseguiu se controlar. Ajoelhou ao lado de Marina. Tirou-lhe os óculos com cuidado, antes de debruçar-se sobre ela e depositar um beijo em cada pálpebra, ao mesmo tempo em que tirava os fones de seus ouvidos.

– Acorda, dorminhoca! – falou junto ao ouvido da namorada.

***

Marina e Clara permaneceram no jardim até a hora do almoço. A fotógrafa tinha um ensaio no período da tarde apenas. E se ela ainda era a chefe por ali, ninguém iria discutir o fato de ela manter Clara consigo em horário de trabalho.

Tinham permanecido abraçadas, em silêncio, por um longo tempo. A assistente percebera, ao olhar nos olhos da namorada, que algo não ia bem. Decidiu esperar que ela falasse, mas o silêncio se prolongou. Agora tinha Marina deitada em seu colo e lhe acariciava o rosto delicado com a ponta dos dedos. Por fim, perguntou:

– Vai me dizer o que tá te preocupando? Não gosto dessa ruguinha na sua testa – passou o dedo, indicando onde a marca na expressão denunciava o estado de ânimo da fotógrafa.

Marina não tinha vontade de falar. Não queria gastar o tempo que tinha com a morena despejando sobre ela as suas preocupações. Mas não teve muita opção.

– Ei! – Clara a fez olhar em seus olhos – Tem uma coisa que você me disse uma vez e eu nunca esqueci, sabe – desenhou as sobrancelhas dela com o dedo – Você disse bem assim: “Eu tô aqui pra você. Pra rir ou pra chorar.” E eu nunca esqueci disso. E eu quero te dizer que eu também tô aqui pra você. Pro que você precisar. Mas só posso te ajudar se você me contar o que tá havendo.

Cedeu.Não tinha como não ceder àqueles olhos castanhos que a encaravam. Sentou-se de frente para a namorada e segurou suas mãos. Falou das notícias, cada dia piores, sobre a situação de seu pai. Da conversa que tivera com ele logo cedo, por telefone. Estava com medo: precisava colocar seu nome em evidência para tentar colocar as finanças do estúdio em ordem, para se restabelecer no mercado de arte. Só que, ao mesmo tempo, se ficasse em evidência, poderia ter a imprensa e a polícia revirando sua vida por algo que em nada tinha a ver com ela. Não tinha falado sobre isso com nenhuma das outras meninas do estúdio.

Clara ouviu pacientemente. Quando Marina terminou de falar, simplesmente a abraçou, aconchegando sua cabeça junto ao peito. Deixou que ela descansasse um pouco, antes de começar a falar.

– Amor, olha só: uma hora ou outra eles vão lembrar de você. E você não fez nada de errado, então não tem que se preocupar. Se é pra aparecer, vamos fazer isso direito, vamos botar teu nome nos jornais todos pelo teu talento, pelo teu trabalho, que é lindo. O resto não interessa, quem gosta das tuas fotos não vai querer saber.

No meio de tudo que falou, Clara sugeriu a Marina que buscasse evidenciar seu nome mais do que a própria exposição o faria: Londres era apenas uma aposta, se tudo corresse bem, logo outras galerias iriam procurá-la. Como as fotos de arte já há algum tempo eram produzidas em séries, Marina poderia expor três ou quatro imagens exclusivas: quase nenhum fotógrafo trabalhava com exclusividade de imagens, aquilo colocaria seu trabalho ainda mais em evidência e ampliaria o valor das obras. Se viessem convites para outras exposições, Marina tinha material suficiente para incluir obras exclusivas em dezenas delas. A imprensa teria mais assunto sobre seu trabalho do que sobre o escândalo que envolvia seu pai. Talvez nem lembrassem dele.

A fotógrafa gostou da sugestão. Beijou os lábios de Clara.

– Ai, Coisinha! Só você pra me animar, mesmo!

***

Durante todo o dia, Clara orbitou em volta de Marina. Foi ela que lhe passou os equipamentos todos durante a sessão de fotos da tarde. Foi ela quem lhe serviu água e café. Foi ela quem cuidou para que a fotógrafa se alimentasse e se mantivesse ocupada o suficiente para não mergulhar em pensamentos tempestuosos. E em cada gesto de cuidado a morena encontrava uma forma de acarinhar e tranquilizar a fotógrafa. Um beijo na testa, uma mecha de cabelo que ajeitava atrás da orelha, um breve aperto ou beijinho na mão. Marina sentia em cada atitude a preocupação da morena em fazer com que se sentisse melhor. E no final da tarde, quando a jovem sentou-se junto de Gisele, Flavinha e Vanessa, Clara postou-se atrás dela e lhe massageou os ombros, carinhosamente. Pode sentir os músculos relaxando sob a pressão de seus dedos, enquanto a conversa girava em torno da exposição.

Marina comunicou a decisão de seguir a sugestão da namorada: passaria a produzir fotos exclusivas, mas não muitas. Em Londres seriam apenas três. Dessa vez, nem mesmo Vanessa conseguiu apontar qualquer inconveniente na proposta de Clara. A ideia era boa, valia a pena. Começaram a analisar quais fotos, entre as muitas relacionadas ao tema da exposição, mereciam ser consideradas como exclusivas, cenas tão especiais que jamais se captaria outra que se lhes assemelhasse. Obras exclusivas, by Marina Meirelles.

Quando Gisele se despediu, Flavinha deu um jeito de arrastar Vanessa consigo, piscando de leve para Clara, sem que Marina ou a ruiva percebessem. A mãe de Ivan cada vez mais agradecia a amizade da outra.

Sentou-se no pufe, ao lado dela, e envolveu sua cintura, deitando a cabeça em seu ombro. Depois de algum tempo, questionou, baixinho:

– Tá melhor, amor?

– Com você me mimando o dia todo, tinha como não ficar? – Marina pegou a mão livre da morena e levou ao rosto, roçando ali o rosto, antes de leva-la aos lábios.

– Ficou chateada comigo?

– Chateada com você, Clarinha? Por que eu ficaria chateada, se você só me faz bem?

– Acho que tô devendo uma resposta pra mensagem de ontem à noite... – deu um beijo rápido no rosto da jovem – Desculpa.

Sentiu Marina envolver seu corpo num abraço, beijando sua testa. Suspirou, enquanto ela falava:

– Acho que você pode resolver isso fácil, fácil, Clarinha! – estalou os lábios na testa dela outra vez – Hoje você e o Ivan jantam comigo, que tal?

Clara concordou, jantariam em Santa Teresa. E quando Marina se pôs a listar as opções de delivery, disse que ela mesma iria fazer uma visita à cozinha e ver se havia algo passível de ser comido naquela noite. Levantou-se, levando a namorada pela mão.

Sentada no balcão, a fotógrafa observou enquanto a morena passava os armários e a geladeira em revista, antes de decretar que faria uma lasanha, acompanhada de salada de folhas.

– Nem que eu precise trazer as folhas de casa! – afirmou, rindo, antes de encaixar-se entre as pernas da namorada e beijá-la. Ficaram por ali, aproveitando o tempo que tinham antes que a morena fosse buscar o filho na escola.

– Nossa, amor, te ocupei o dia todo e nem perguntei como foi o jantar com a Eduarda ontem... – virou o rosto para o lado, fazendo charme – Deve ter sido muito bom, você até esqueceu de mim – enrolava uma mecha dos cabelos de Clara nos dedos.

– Mas é bobinha, né? — a assistente segurou o rosto de Marina, roçando o nariz no dela – É impossível esquecer de você, sabia? Você até foi – aproximou a boca do ouvido da fotógrafa e sussurrou – assunto de boa parte da noite!

Sentiu no peito aquele calor aconchegante que a tomava sempre que confirmava que a morena lhe queria bem. Quis saber tudo sobre o jantar, o que tinham falado dela, a reação de Duda. E ao final Clara contou como ficara penalizada com a história da amiga, como ela havia se recusado a deixar a mulata ir embora mergulhada em lembranças tristes, fazendo com que ela dormisse em sua casa. E então, como se pudesse ler seus pensamentos, a morena completou:

– Eu acabei esperando a Duda dormir e quando vi já era tarde... Achei que se mandasse uma mensagem ia acabar te acordando.

Marina ficou aliviada por não ter demonstrado que ficara chateada com a falta de resposta para sua mensagem. Todavia, a verdade era que adormecera vigiando o celular, esperando por uma palavra da namorada. Adormecera triste. Mas agora, com os braços de Clara envolvendo seu corpo, isso já não tinha mais tanta importância.

***

Quando Clara voltou com o filho para Santa Teresa, deixou-o com Marina e foi para a cozinha, preparar o jantar. Foi surpreendida pela entrada de Flavinha.

– Ei, que tá acontecendo aqui? Essa cozinha não tá acostumada com todo esse movimento de panelas não, Clara! Pelo menos, não quando os empregados tão de folga!

Clara avisou a amiga sobre a lasanha. Perguntou se jantaria com eles.

– Melhor não. Eu e a Van vamos dar uma volta. É até melhor, o humor dela não tá dos melhores com essa história de você ir com a Marina pra exposição, sabe.

A mãe de Ivan quis saber como estavam as coisas com Vanessa. Sabia dos sentimentos de Flávia, já a aconselhara algumas vezes. E sabia também que os rompantes de ciúmes que a ruiva tinha por conta de Marina feriam a amiga. Mas Flavinha parecia ser persistente.

– Clara, eu sabia onde tava me metendo quando comecei a sair com ela. Eu aceitei correr o risco, sabe. Enquanto eu achar que tenho chance, eu vou tentar.

A morena só pode lhe desejar boa sorte. Ela definitivamente não conseguia ver a pessoa agradável e alegre que Flávia e Marina diziam existir dentro de Vanessa, mas preferiu guardar a opinião para si e voltou sua atenção para o jantar, enquanto a amiga saía em busca da ruiva.

Pouco depois da saída de Flavinha, a cozinha foi invadida por um pequeno que corria, fugindo de Marina. Ambos riam, felizes.

– Mãe! Olha isso! –Ivan estendia um maço de fotos para ela – A Marina me deu as fotos que fiz no outro dia! – o garoto estava radiante.

Clara olhou as fotos. Eram belas imagens, de diversos pontos do estúdio e do jardim da casa da namorada. O menino demonstrava ter o olhar atento aos detalhes instigantes da natureza. No final do maço, a foto comoveu a morena: de um ângulo baixo, como se o fotógrafo estivesse sentado no chão, ou ajoelhado, viam-se duas mãos unidas, uma deliciosamente branca e outra de pele bronzeada; desfocados, um pouco acima, dois rostos se sorriam, completando a noção de felicidade. Sentiu que os olhos marejavam e olhou a sua volta, procurando pela namorada.

***

Já era bem tarde. Tinham se distraído e agora Ivan dormia no sofá enquanto Clara e Marina contavam uma à outra histórias de suas vidas: travessuras de infância, sonhos, ambições. Ainda assim, ambas evitavam falas da vida amorosa que tinham tido antes de se conhecerem. Clara sequer conseguia imaginar falar abertamente sobre as inquietações que a tomaram quando se viu atraída por Marina, mesmo que tivesse falado sobre isso com Flávia e também com Duda. A fotógrafa, por sua vez, tinha medo de relatar a sua vida de caçadora, calcada mais em sexo casual do que em relacionamentos. Como em um acordo silencioso, uma não perguntava à outra sobre aquilo que não gostaria de ter que responder.

Marina não pode deixar de observar, nas histórias de Clara, a presença constante de Duda. Constante, pelo menos, até a partida da mulata para a Europa. Mais ou menos a mesma época em que a morena se envolvera com o ex-marido.

– Eu adoraria ter mantido na minha vida uma amiga, ou amigo assim, de infância, sabe? Mas a vida sempre me levou pra tantos lugares, eu acabei me afastando dos amigos de quando era criança, da adolescência...

Acabou contando que sua amizade mais antiga, próxima mesmo, íntima, era com Vanessa. Já eram amigas antes de se envolverem, já eram inclusive sócias. Talvez dessa proximidade tivesse nascido o relacionamento, mas o fato era que via na ruiva mais a amiga que a mulher, e por isso tinha preferido voltar à condição anterior.

– Mas ela ainda gosta de você – afirmou a morena – Ela tem ciúme de você.

Marina olhou na direção de Ivan antes de responder. Mesmo vendo que o garoto estava adormecido, baixou a voz para falar junto ao ouvido da jovem à sua frente:

– Ela não tem ciúme de mim! – deu um beijo rápido no pescoço macio – Ela tem ciúme de você. Ela sabe que com você é diferente... É amor, Clarinha! – sussurrou as últimas palavras já envolvendo o lóbulo da orelha com os lábios.

A morena fez um enorme esforço para interromper aquele contato antes que perdesse de vez o controle. Era hora de voltar para casa. Marina insistiu que dormissem ali, já era tarde, era perigoso sair rumo ao Leblon àquela hora. E acordar Ivan? O pobrezinho estava dormindo tão profundamente, dava pena. Argumentou, fez biquinho, e por fim convenceu a morena. Iriam embora na manhã seguinte.

Clara não permitiu que Marina carregasse o pequeno até o quarto de hóspedes: estava acostumada a carregá-lo, sabia que não era tão leve assim. E era inevitável pensar em proteger a namorada, que lhe parecia tão frágil. Deitou o filho suavemente e lhe tirou os sapatos e a bermuda, antes de cobri-lo. Observou a fotógrafa se inclinar para beijar-lhe os cabelos loiros. Seguiu-a para fora, deixando a porta entreaberta.

A fotógrafa a levou para seu quarto. Procurou em suas coisas uma camisola que servisse confortavelmente na morena e uma escova de dentes nova. Puxou-a pela mão, na direção do banheiro.

– Marina – Clara resistiu ao gesto da outra – que você acha que tá fazendo?

– Tô indo tomar um banho, ué! – aproximou-se e roubou um beijo – E tô levando você pra tomar banho comigo...

– Nada disso, mocinha! Se eu entrar no banho com você, a gente não sai nunca mais de lá! E eu pretendo dormir no outro quarto... – a assistente deslizou o dedo em seu nariz, batendo levemente na ponta, deixando a jovem claramente decepcionada – Ah, não fica assim. Eu só não quero que o Ivan acorde sozinho no meio da noite, sem saber onde está, onde eu estou...

Envolveu Marina em um abraço apertado, colando seu rosto ao dela. Depois de algum tempo, virou o rosto da jovem e lhe beijou a boca. Um beijo terno, carinhoso. Sussurrou nos lábios dela:

– Vai lá tomar seu banho, eu espero aqui.

Enquanto a namorada estava no banheiro, Clara trocou sua roupa pela camisola e ajeitou a cama. Marina voltou rápido. Vestia apenas a camisa branca de um pijama e a calcinha. Clara a abraçou pelas costas e a guiou até a cama.

Deitou-se junto às costas dela, aconchegando-a junto ao seu corpo. Afundou o nariz em seus cabelos, inalando o cheiro tão conhecido e tão amado. Permaneceu acariciando os cabelos ondulados até sentir, pela respiração compassada, que a fotógrafa havia adormecido.

Usou o banheiro de Marina para tirar a maquiagem e escovar os dentes. Antes de ir para o quarto de hóspedes, cobriu a namorada com o lençol e beijou-lhe o rosto. “Boa noite, meu amor. Eu vou sonhar com você ali do outro lado do corredor.”

Notas finais
Já cantava Caetano: "... é que um carinho às vezes cai bem..."