Notas iniciais
Lembranças, confidências, pequenas mentiras... Ai, mulheres são complicadas, neh?

Deitada ao lado do filho, Clara digitou uma mensagem de boa noite para a namorada. Dessa vez com direito a beijo enviado pelo menino também. Permaneceu abraçada com o pequeno até que ele pegasse no sono e só então foi para seu quarto, preparar-se para dormir.

A resposta de Marina chegou quando já havia apagado as luzes. Dizia que não conseguia parar de pensar nela e pedia que dissesse a Ivan que dormiria mais contente com o beijo dele. E que esperava para logo um beijo ao vivo. Já com saudades, mandava um beijo de boa noite para a morena.

A assistente sorriu e colocou o celular para carregar. E antes de pegar no sono viu-se perdida no breve momento de angústia daquela tarde. Quando falara sobre Duda com Marina, tinha se esforçado para esconder a surpresa diante da afirmação de que a amiga tinha terminado um longo relacionamento no ano anterior com uma mulher.

O problema todo estava apenas no fato de que, por instinto, preferiu evitar que a namorada percebesse sua surpresa. Receava demostrar choque, surpresa ou curiosidade e ser mal interpretada. Temia cometer alguma gafe, falar mais do que devia, e magoar a jovem, mesmo sem intenção, afinal aquilo tudo que viviam era muito novo, muito recente.

Tentou se convencer de que não havia fingido, apenas omitido algumas coisas, naquela conversa. Até porque, a bem da verdade, a conversa sequer se prolongara por muito tempo. Logo Marina tinha despertado novamente sua libido ao beijar um de seus seios e lamentar não ter dado atenção a eles antes. Nessa hora Clara arquejou e segurou a namorada carinhosamente pelos cabelos, dizendo-lhe que era hora de corrigir a falha, fazendo com que recomeçassem o excitante ritual de provocação e prazer.

***

Em Santa Teresa, Marina também demorou a dormir. Dentro dela vários sentimentos se confundiam. A alegria em saber que teria a namorada junto de si na viagem a Londres era enorme. Todavia seu coração sentia também o peso da tristeza. Não gostava de brigar com Vanessa. Eram amigas há muito tempo, antes mesmo de terem se envolvido, e a fotógrafa lamentava que sua felicidade trouxesse angústia à outra, que a fizesse amarga. Torcia para que Vanessa encontrasse alguém que pudesse amar, com quem pudesse ser feliz.

Não contava a Clara tudo que se passava nas discussões que tinham por conta dela. As palavras da ruiva a feriam, não queria que ferissem a morena também. Não permitiria que as acusações que Vanessa fazia quando estavam a sós levassem dúvidas à namorada. Assim como também não contara a ela sobre a discussão com Cadu, as acusações que ele lhe fizera. Achava que devia poupá-la das dúvidas que os dois tinham acerca do amor que sentiam uma pela outra. Afinal, era a primeira mulher da vida de Clara e todas as acusações dos dois pareciam por em dúvida a possibilidade de que a morena a amasse de verdade.

Perdida nesses pensamentos, buscou no celular uma foto da amada. Sorriu, olhando o riso aberto e apaixonante. Que duvidassem, que falassem o que quisessem: Marina tinha certeza do amor da morena. Correu os olhos pelo quarto uma última vez e ajeitou-se no travesseiro, sorrindo. Adormeceu tentando decidir em que parede colocaria uma foto de Clara, para poder vê-la sempre que fosse dormir e também ao acordar.

***

– Olha só quem chegou atrasada outra vez! Bom dia, Clarinha! – Vanessa não disfarçou o mau humor. A morena apenas a ignorou, olhando pelo estúdio, procurando por Marina. Como não a viu, deu meia volta e foi até a piscina.

Observou o corpo magro e delicado. A fotógrafa boiava de costas, os olhos fechados. Clara achava simplesmente incrível a capacidade de Marina de personificar emoções tão distintas entre si: frequentemente a olhava e via a luxúria em forma de mulher; outras vezes via na jovem a própria representação da paz do seu espírito. A única coisa que não deixava de ver nunca era o amor que ela despertava em seu peito. Sorriu.

– Desse jeito vou acabar ficando com ciúmes dessa piscina!

Marina abriu os olhos e girou na água, nadando até a borda.

– Não precisa, amor! Entra aqui comigo.

– Nada disso – Clara se abaixou, ajoelhando próximo à fotógrafa. Correu o dedo pelo nariz da namorada – A gente tem mil coisas pra fazer. E eu já tô atrasada, igualzinho você! Vem, hora da senhorita ir pro banho! – estendeu a mão para ajuda-la a sair da água.

– Ai, que coisinha mais mandona eu fui arrumar... – Marina resmungou, em tom de brincadeira, saindo da piscina.

– Ah, é mesmo? – a morena riu – Se tá tão ruim assim, ainda dá tempo de trocar... MARINA!!!

Clara tentou ficar brava, mas não conseguiu. Marina tinha saído da piscina e se jogado sobre ela, num abraço extremamente molhado, rindo feito uma criança, envolvendo a morena de todas as formas possíveis, como se pretendesse secar seu corpo nas roupas dela.

Depois de tirar as roupas molhadas, Clara foi até o banheiro e, encostada na parede, permitiu-se observar a namorada no chuveiro por vários minutos, antes de juntar-se a ela. Colou seu corpo às costas da fotógrafa, roçando os seios no corpo molhado. Sentiu os mamilos ficarem subitamente duros e continuou a pressioná-los contra a pele de Marina, ao mesmo tempo em que deixava a boca percorrer o pescoço e o ombro da namorada. As mãos puxaram o quadril para junto de si, fazendo com que seu sexo pressionasse a bunda da namorada. Marina estendeu um braço para trás, puxando sua cabeça para perto de seu rosto, tentando alcançar-lhe um beijo.

– Você fica ainda mais linda assim, toda molhada – Clara sussurrou, antes de beijá-la.

Dentro do beijo, Marina sorriu antes de responder:

– Molhada é pouco, Clara – falou baixinho, levando a mão da morena por sobre seu ventre molhado até o meio de suas pernas – Preciso de você... Agora – implorou, fazendo com que a namorada sentisse nos dedos o tesão que a dominava.

A morena não hesitou em estimular o clitóris excitado, ao mesmo tempo em que empurrava a namorada de encontro à parede, apoiando-se no corpo dela. A mão que estava no quadril subiu, começando uma deliciosa massagem nos seios da fotógrafa. Gemendo, Marina continuou segurando Clara próxima ao seu rosto, mantendo os beijos entrecortados, e levou a outra mão para trás, alcançando o sexo da namorada. As duas rebolavam, aumentando a sensação provocada pelos dedos. Clara pediu:

–Goza pra mim, Marina? – fez com que ela virasse de frente e a beijou, sem deixar de masturbá-la – Goza, meu amor!

Marina olhou para ela e foi arrebatada pelo castanho profundo daqueles olhos. A boca abriu-se em um O perfeito, os gemidos quase não tinham mais som. A respiração ficou suspensa por um breve instante, enquanto toda a energia de seu corpo se concentrava no ponto que a morena estimulava para em seguida explodir em ondas de prazer por todo o corpo. Abraçou a namorada e mordeu-lhe o ombro, sem muito controle, fazendo-a gemer. Voltou a tocá-la, com pressa, sem deixar de morder e chupar o ombro macio enquanto ela pedia baixinho:

– Me come, Marina. Me fode, gostosa.

A fotógrafa delirou com o pedido. Girou o corpo, invertendo as posições. Agora era Clara quem estava apoiada na parede. Marina beijou-lhe a boca, mordendo seu lábio inferior, antes de abaixar, ajoelhando-se diante da morena. Um único olhar e ela abriu as pernas, expondo o sexo rosado, excitado. Marina quase podia vê-lo pulsando. Quis lambê-lo, mas não era a hora: penetrou dois dedos, fodendo, como Clara havia pedido. Aumentava o ritmo das estocadas na mesma proporção em que subiam os gemidos da morena. Introduziu mais um dedo e sentiu que ela estremecia. Estendeu a outra mão para o alto, apertando o seio. Perguntou:

– Gosta assim, Clarinha? Gosta de ser safada, né? – Os gemidos da assistente se misturaram a um “gosto” desconexo, mas com certeza, Clara disse que gostava. Marina sentiu-se confiante para ousar mais nas frases:

– Gosta de ser minha, Clara? – ficou em pé, colou a boca no ouvido da morena. Os dedos precisos estocando fortemente o interior quente e melado, questionou de forma lasciva – Gosta de ser minha putinha? – lambeu o queixo, o rosto, os lábios da morena. Invadiu-lhe a boca com a língua no mesmo momento em que o orgasmo lhe tomava o corpo e sufocou-lhe o grito de prazer com um beijo profundo.

***

Clara passou o dia com um vestido de Marina, enquanto suas roupas secavam. Entre os assuntos da exposição e o ensaio fotográfico da tarde trocavam olhares cúmplices e alguns carinhos quando se aproximavam, o que acontecia quase o tempo todo. Flavinha e Gisele olhavam para as duas com ar de riso, enquanto Vanessa revirava os olhos a cada vez que elas se tocavam.

Quando deram o dia por encerrado, fotógrafa e assistente subiram para o quarto. A morena tirou o vestido, para poder colocar a própria roupa, mas duas mãos magras, de dedos longos, alcançaram sua cintura rapidamente. Logo Marina estava colada em seu corpo, as mãos massageando os seios nus.

– Marina... – Clara se esforçou para interromper – Eu tenho que buscar o Ivan...

A fotógrafa beijou-lhe o ombro de leve, substituindo as carícias ousadas por um abraço carinhoso.

– Tá bom, já parei, amor! Nada de fazer o garotão esperar – sentou na cama, observando a morena se vestir – Vocês podiam jantar aqui hoje...

– Ih, esqueci de te contar. Combinei de jantar com a Duda. A gente se encontrou hoje cedo, por isso que eu demorei pra chegar.

– Hmmm –Marina fez beicinho, mas Clara estava de costas – E vocês já decidiram onde vão?

– Vou fazer alguma coisa lá em casa mesmo, depois de levar o Ivan pro Bistrô, ele vai ficar com o Cadu hoje – sentou-se no colo da fotógrafa, de frente para ela – Você vai também? – colou os lábios nos dela – Hein? – de novo – Vai lá pra casa? – mais um selinho.

Marina preferiu recusar o convite. Clara sem dúvida tinha muito que conversar com a amiga e ela achou que devia lhe dar esse espaço. Afinal, pelo que a morena dissera, elas tinham uma amizade antiga e forte, mesmo tendo passado tanto tempo longe. Despediu-se dela com um beijo apaixonado.

***

Duda chegou ao apartamento de Clara com um pacote simples nas mãos. O que foi suficiente para fazer a morena saltar em seu pescoço, em um abraço apertado, depois de ver o conteúdo.

– Caraca, você ainda lembra disso!

– Pelo jeito essa paçoca vagabunda ainda é o seu doce preferido? – Duda riu. Certas coisas nunca mudavam. O carinho que sentia por Clara era uma delas.

Enquanto Clara preparava o jantar, elas conversaram trabalho, sobre o fim do casamento da morena e a forma como Ivan lidava com aquilo. Aos poucos, a conversa foi mudando, chegando ao nível de intimidade que tinham anos atrás.

– Clarinha – Duda estava no sofá, sem os sapatos, as pernas dobradas sob o corpo, uma taça de vinho na mão. Clara estava de frente para ela, as costas apoiadas no braço do móvel, as pernas cruzadas em posição de lótus. Também tinha uma taça – Posso perguntar uma coisa?

Clara assentiu com a cabeça. Imaginava o que viria, e queria que viesse, sabia que Duda iria perguntar e queria conversar sobre aquilo.

– O que exatamente rola entre você e a Marina? Vocês estão juntas?

A assistente sorriu. Duda continuava capaz de ler os seus sentimentos, como fazia quando eram mais jovens. Contou para a amiga sobre como a fotógrafa entrara na sua vida e ocupara aos poucos cada pedacinho de sua alma. Sem vergonha nenhuma, contou do tesão que sentia pela namorada, de como fora maravilhoso descobrir seu corpo e provar o prazer junto com ela, de como tinha ficado preocupada antes da primeira vez, de como tinha precisado dos conselhos de Flavinha para se sentir confiante, de como tinham se amado no chuveiro naquela manhã. Não tinha segredos para a amiga.

– Agora chega, mocinha – falou Clara, que não poderia continuar a falar de seu relacionamento com Marina sem lembrar das cenas mais quentes e ficar excitada – Me conta de você. Do seu coraçãozinho. Como vão as coisas?

A história de Duda, até certo ponto, parecia um conto de fadas. Quando saíra do país para tentar a sorte como modelo na Europa as coisas saíram melhor do que o imaginado e em pouco tempo tinha uma carreira sólida, era bastante disputada para desfiles e campanhas publicitárias. E então a conhecera durante um trabalho. Francesca era uma mulher linda, segura de si, poderosa em todos os sentidos da palavra. E uma estilista de imenso sucesso, iniciando sua própria grife. Duda tornou-se sua musa, sua modelo preferida. E sua namorada também.

– Caraca, eu nunca soube de nada disso, dessa Francesca – Clara surpreendeu-se.

– Isso porque você é a única mulher que eu conheço que não lê revistas de fofoca. A gente nunca gostou de expor a nossa vida no facebook, nem nada disso. Mas os paparazzii sempre estavam lá. – rebateu Duda, antes de continuar.

A grife de Francesca virou um sucesso e a carreira de Duda se tornou cada vez mais sólida. Foram morar juntas, em Paris, de onde a estilista controlava todos os seus negócios. Duda começava a planejar seu afastamento das passarelas, iria trabalhar com a companheira. E então veio a notícia. A modelo deixou a carreira antes do previsto após um ensaio em que fora fotografada por Marina, no lançamento da última coleção desenhada pessoalmente por Francesca. Passou a acompanhar os negócios da companheira para ajudá-la. Francesca insistia que ela devia aprender tudo para assumir a grife, mas Duda queria apenas cuidar da mulher que amava. Infelizmente, a doença foi mais forte, e, após quase três anos de sofrimento, a estilista perdeu a batalha para o câncer. Isso fora no ano anterior.

Duda terminou a história deitada no colo de Clara. A morena acariciava os cabelos da amiga. Sabia que não adiantaria nada dizer-lhe que não chorasse. Podia ver que ainda doía. Não sabia o que dizer, mas queria ter podido apoiar a amiga quando ela estava sofrendo. Baixou o corpo e beijou-lhe a testa.

– Sinto muito, Duda!

***

Marina olhou o celular mais uma vez. Clara ainda não tinha chegado ao estúdio e já eram quase dez horas. Tampouco respondera a mensagem que mandara à noite, nem atendera as ligações daquela manhã. Estava preocupada e concordou quando Flavinha disse que ligaria no telefone fixo. Talvez a namorada ainda estivesse em casa.

– Marina – Flavinha desligou o telefone – Ela já tá vindo. Disse que perdeu a hora, que só ia levar uma amiga... Duda, eu acho, pro hotel, e já vinha pra cá.

Notas finais
E aí, o que acharam? Façam suas apostas!