Notas iniciais
Olha as duas tropeçando em probleminhas de casal. Desembucha, Clara!

Clara se sentia boba tentando explicar o que sentia. A empolgação da véspera aos poucos dera lugar à tristeza um tanto quanto antecipada, já sentia saudades de Marina. Afinal, ela iria para Londres e ficaria por lá algumas semanas e para a morena parecia que iriam ficar longe uma da outra por mais tempo do que seria capaz de suportar. Quase chorou contando isso à namorada.

Agarrou a namorada num abraço apertado. Não queria chorar, mas não via como evitar. E, sem controle, despejou tudo o que pensava desde o dia anterior: que Marina viajaria logo e que ela, Clara, ficaria sozinha. Há tanto que se amavam e tinham tido tão pouco tempo juntas. Agora já se desmanchava em lágrimas, declarando a saudade que ainda nem tinha motivo para sentir. O rosto molhado, o nariz vermelho, os braços apertados em volta da namorada. Marina via e sentia tudo isso, notando, repentinamente, que nem havia cogitado a possibilidade de se afastar da morena. Também ela não estava preparada para ficar longe por tanto tempo.

– Mas, amor... Quem disse que a gente vai ficar longe? – Marina beijou os olhos da morena, tentando secar as lágrimas que continuavam caindo – Eu não quero ficar longe de você, de jeito nenhum! Você vai comigo! Afinal, você é minha assistente, lembra? Como é que eu vou me virar sem você?

– Louca! – Um sorriso tímido brotou dos lábios de Clara — Não dá, não posso ir com você. Você precisa levar uma das meninas. A Flavinha e a Vanessa tem mais experiência, podem te ajudar bem mais que eu.

– Clarinha, olha só – a fotógrafa segurou o queixo da namorada, olhando em seus olhos – a Flavinha tem que ficar, ela vai cumprir a agenda dos ensaios que já estão marcados, enquanto eu ficar fora.

– Mas a Vanessa...

– É, a Vanessa tem muita experiência na organização das minhas exposições. Se ela fosse comigo, ia fazer quase todo o trabalho, eu não ia precisar me preocupar com nada além da divulgação das obras e das entrevistas – Clara abriu a boca para concordar, mas Marina seguiu o raciocínio – Isso ia ser muito chato, porque eu ia ter um monte de tempo livre, sozinha. Mas... – fez uma pausa, lançando um sorriso cheio de significado para a morena – se eu levar a minha assistente mais inexperiente, mais bonita, a assistente que é muito minha namorada – outra pausa, agora para um selinho delicado – aí eu e ela podemos fazer todo o trabalho juntas, aproveitar tempo de folga juntas também – colou os lábios nos de Clara outra vez.

Sentiu que a morena levava uma das mãos à sua nuca, enquanto usava a outra para puxá-la pela cintura, grudando seus corpos, ao mesmo tempo em que usava a língua para seguir o traço de seus lábios. Marina abriu a boca e deixou que sua língua buscasse a de Clara

***

A assistente encontrou a namorada no mesmo lugar onde a deixara naquela tarde: à beira da piscina. A diferença eram as roupas que usavam: Clara usava um vestido levemente rodado, pouco acima dos joelhos, todo branco, com um decote em V bastante generoso, ao passo que a fotógrafa a deixou deslumbrada dentro de um vestido curto, justo, em vermelho vinho, num comportado decote canoa. Tinham combinado o jantar só para elas, afinal, na véspera, Clara não participara da comemoração pelo convite para a exposição em Londres.

Ela estava mais tranquila em relação à exposição depois da conversa que tinham tido. Prometera a Marina que tentaria ajeitar sua vida para poder acompanhá-la na viagem. Na verdade, sua única preocupação era com a reação do filho, pois sabia que ele seria bem cuidado na sua ausência. Mas, mesmo dizendo que gostava da fotógrafa, ele ainda preferia agir como se não soubesse que ela e Marina namoravam, e isso a deixava apreensiva. Ainda assim, isso com certeza era um assunto que não atrapalharia a noite delas.

Decidiram voltar ao restaurante onde jantaram na primeira noite que tinham passado juntas. Outra vez Clara escolheu o vinho com uma segurança que impressionou não só a namorada mas também o garçom. Marina já havia notado essa habilidade.

– Nossa! Acho que você impressionou o rapaz! Esse seu jeito de combinar o vinho com os pratos é tão... – parou, procurando a palavra certa – sedutor. Como você faz isso?

Clara abriu um sorriso enorme. Amava receber os elogios da fotógrafa. Amava ser capaz de agradá-la, de surpreendê-la.

– Você é realmente muito bandida – Marina estreitou os olhos na direção dela – é a segunda vez que me surpreende hoje – piscou um olho, atrevida, e Clara corou.

– É estranho isso – a morena começou – a gente se conhece há tanto tempo e tem tanta coisa que eu nunca te disse... Tanta coisa que eu não sei de você também.

A fotógrafa concordou. Tudo tinha acontecido de forma tão intensa, tantas coisas desde que elas se conheceram que nunca tinham parado para conversar sobre o passado, nunca tinham contado uma para a outra as histórias, alegres ou tristes, que tinham marcado suas vidas, que tinham feito de cada uma quem elas eram agora.

– Pois então – a assistente começou – acho que posso começar contando desse dom com os vinhos. Eu comecei a estudar sobre eles bem cedo – foi interrompida pela voz de um homem atrás de si e virou-se naquela direção.

– Clara? É você mesma?

Marina viu a boca da namorada se abrir num sorriso surpreso, ao mesmo tempo em que os olhos se estreitavam, apertados, daquele jeito de sempre. Achava aquele tique com os olhos a coisa mais charmosa do mundo.

– Não acredito! Caraca, quanto tempo faz? O que você tá fazendo vestido assim? Como é que você... – o homem interrompeu, sorrindo.

– Calma, Clara! Respira! – riram os dois – Uma pergunta de cada vez. Mas antes – abriu os braços – dá um abraço aqui, anda.

A fotógrafa observa a cena sorrindo, contente apenas de ver a alegria da morena. Logo que Clara se afastou do abraço, virou para ela e apresentou o rapaz, Léo, que a cumprimentou educadamente. Léo contou que era o proprietário do local, e também o chef, o que explicava a roupa.

– Sabe, o garçom chegou na cozinha embasbacado com a moça bonita que escolhe vinhos com tanta habilidade. Disse que era a segunda vez que acontecia e que nunca viu ninguém escolher tão bem e tão rápido... Eu achei que era você, tinha que conferir!

Clara se voltou para Marina:

– Tá vendo? A gente começa a falar do passado e ele resolve aparecer pra dar um oi. É muita coincidência. O Léo e eu trabalhamos juntos, antes do Ivan nascer.

– É, mas naquela época eu era só um ajudante de cozinha e você era a estrela da casa, né... Até hoje eu não acredito que você deixou tudo pra trás por causa do Cadu. Como é que ele tá? – um dos garçons se aproximou e disse algo no ouvido do chef – Ah, me desculpem, eu já volto.

A fotógrafa fitava a namorada com um ponto de interrogação no olhar. “Estrela da casa? Deixar tudo pelo Cadu? Ah, que droga, a gente não precisa falar dele. Eu não mereço ter que lembrar desse cara agora!” Ainda estava perdida em seus pensamentos quando Léo voltou, pedindo desculpas a elas. Tinha que voltar para a cozinha.

– Mas a gente podia combinar alguma coisa, faz tanto tempo que eu não vejo o Cad...

– Leo – Clara interrompeu, erguendo as mãos – Eu e o Cadu não estamos mais juntos. Mas eu te dou o telefone dele, se você quiser.

O rapaz pediu desculpas, sem jeito. Marina apenas observava, não tinha o que dizer daquela cena, a não ser que se sentia melhor com a namorada esclarecendo tão facilmente que estava afastada do ex-marido. Mas teve uma surpresa muito mais agradável quando Léo, antes de voltar para a cozinha, quis saber se o jantar daquela noite tinha algum motivo especial, se Clara estava ali para comemorar algo.

– Sim, nós estamos comemorando, Léo – Marina pensou na exposição que tinha pela frente, quando Clara tomou sua mão, entrelaçando os dedos nos seus, de maneira firme – O amor a gente tem que comemorar sempre, concorda?

Marina sentiu o rosto queimando e teve certeza que estava vermelha. Olhou para as mãos entrelaçadas e ouviu o chef concordar com Clara e desejar a elas uma noite agradável, antes de se afastar, rumo à cozinha.

– Hei – Clara soltou a mão e fez um carinho no seu rosto – Tá vermelha por quê?

Marina sorriu, sem graça. Não era vergonha, propriamente dita. Ela apenas tinha se sentido um tanto perdida na situação. Nunca tivera problemas em demonstrar carinho em público, mas falar em amor, assim, para um completo desconhecido? E se o rapaz fosse um maluco intolerante? Ela nunca tinha mantido uma relação que merecesse esse tipo de atitude. Clara tomou novamente a mão dela e levou aos lábios, antes de dizer baixinho.

– Pois eu te amo mesmo e uma hora dessas ainda vou gritar isso pra todo mundo ficar sabendo.

O tempo passou rápido. A morena riu da coincidência: ia falar de sua história com os vinhos e Léo, que havia feito parte daquilo, surgira diante delas. Contou para Marina do curso de sommellière e de como trabalhara em um badalado restaurante, cuidando da adega e da carta de vinhos. Era a única mulher a fazer isso no Rio, naquela época, e isso sempre surpreendia as pessoas, os clientes adoravam.

– E um dia você resolveu largar tudo e virar dona de casa? Assim, do nada? – Marina ainda achava que ela tinha deixado o trabalho por causa do ex-marido.

Não tinha sido do nada. Clara continuara no restaurante, onde conheceu Cadu, que também era ajudante de cozinha, junto com Léo, depois do casamento. Tinha saído de lá aos sete meses de gravidez, mas fora uma escolha difícil. Marina quis saber se ela não se arrependera e ela negou. Acreditava que tinha feito o melhor para o filho e estava tranquila com isso.

– Até porque agora que ele cresceu eu tenho outro emprego... – aproximou o pé, descalço, do tornozelo de Marina – Com uma fotógrafa muito linda... – sentiu que Marina estremeceu com a surpresa — Que eu adoro... – deslizou o pé para cima e para baixo, uma única vez, antes de se calçar novamente.

– E que tá louca pra sair daqui e te cobrir de beijos, sua doida.

Na hora de pagar a conta notaram que o vinho não estava incluído no valor e questionaram o garçom. Léo foi quem voltou para esclarecer: o vinho era presente seu para o casal mais bonito que já vira em seu restaurante. Clara riu.

– Continua sendo um romântico incorrigível, né?

– Cada vez mais, minha amiga. Tô ficando pior a cada ano. Daqui a pouco minha mulher enjoa e me bota na rua.

Riram os três e se despediram.

***

Clara mal tinha saído com o carro e Marina começou a provocá-la. Começou com um beijo no ombro, no meio do qual deixou a língua molhada escorregar sobre a pele morena, gemendo como quem aprova o sabor. Depois foram os dedos acariciando a nuca, se enroscando no cabelo. A assistente tentava resistir, mantendo a atenção no trânsito. Marina tirou a mão da nuca da namorada e desceu até a coxa, onde deslizou as pontas dos dedos. Sorriu ao perceber que a pele de Clara se arrepiara toda.

– Seu amigo é bastante simpático – os dedos prosseguiam a carícia.

– Marina... Para com isso – Clara murmurou com dificuldade.

– Parar com o quê? – fingiu não entender – Tô só elogiando o Léo – começou a subir o tecido branco, deixando a coxa bem torneada quase toda exposta e viu a morena apertar os dedos com força no volante.

– Marina... Não me provoca – se a assistente pretendera fazer uma ameaça, falhara, falhara muito. A frase saiu gemida, parecendo mais uma súplica, fazendo a jovem ter certeza de que estava no caminho certo. Apertando os lábios em um sorriso torto, safado mesmo, inclinou o corpo até apoiar a cabeça no ombro da morena e deixou a mão descer para o meio das pernas dela, os dedos buscando a intimidade, famintos. Sorriu ao sentir o tecido da calcinha.

– Toda molhada... Gosto assim – sussurrou no ouvido de Clara, esticando-se no banco para mordiscar o lóbulo da orelha, enquanto puxava a lingerie da namorada para o lado e explorava o sexo úmido, arrancando dela outro gemido. Que se transformou num grito agudo, quando uma pick up enorme passou buzinando escandalosamente, quase arrancando o retrovisor do carro.

– Louca! – Clara estava pálida e Marina começou a rir, a mão fortemente pressionada no sexo da jovem, que se esforçava para manter o carro sob controle – Você vai me fazer bater o carro – falou olhando de relance para a fotógrafa, que piscou, maliciosa, e jogou um beijinho no ar.

– É sério, você vai matar a gente!

– Tá bom, eu paro. Se você faz tanta questão – fez a cara mais ofendida que conseguiu e se ajeitou no banco. Mas deixou a mão exatamente onde estava e Clara respirou fundo, tentando se concentrar no trânsito. Pensou que Marina não ia parar. E tinha toda razão. Cada vez que parava em um farol vermelho ou era obrigada a diminuir a velocidade sentia a namorada acariciando seu sexo e estremecia, ficando cada vez mais molhada. Marina às vezes desenhava pequenos círculos em seu clitóris, às vezes descia e a penetrava levemente. Assim que o semáforo abria ou que Clara aumentava a velocidade, congelava o movimento, esperando a próxima parada. A morena agora dirigia com os lábios entreabertos, como se estivesse com problemas para continuar respirando. Seguiu direto para sua casa, sem perguntar nada a Marina.

Quando parou o carro na garagem do prédio já não tinha mais condições de raciocinar direito. Seu corpo todo gritava o desejo pela fotógrafa e teria pulado sobre ela ali mesmo se não tivesse se enrolado toda para tirar o cinto de segurança. Marina aproveitou-se disso e desceu do carro. Quando Clara conseguiu soltar o cinto, a jovem bateu no vidro, chamando sua atenção. E a morena sentiu-se suas entranhas se desmanchando quando a fotógrafa levou à boca o dedo que estivera dentro dela e o passou pelos lábios, a ponta da língua provando o sabor que ali ficara, antes de colocá-lo todo na boca, chupando, com a cara mais sacana que ela já tinha visto na vida.

Marina estava realmente decidida a provocar a namorada e correu para o elevador antes que ela tivesse tempo de alcançá-la. Clara entrou em seguida, e a imprensou contra a parede, buscando sua boca, as mãos grudadas em seu corpo. Marina não reagiu, apenas sussurrou em seu ouvido:

– Clarinha... Aqui tem câmera.

– Você me paga – a morena a soltou.

– Mal posso esperar – piscou, sorrindo — Pago com juros, ok?

Notas finais
Marina sendo... Marina! Será que essa viagem sai?