Luz dos meus olhos
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Clara esperou que Marina desse o ensaio por encerrado, o que aconteceu pouco depois das quatro, e saiu do estúdio. Quando voltou, as modelos já haviam saído e Flavinha ajudava a fotógrafa a guardar os equipamentos.
– Marina, deixa que eu termino aqui – Flávia ofereceu, piscando para Clara – Acho que você tá dispensada por hoje, chefe!
A fotógrafa até tentou argumentar, mas a assistente insistiu e ela acompanhou a namorada, que a levou até o quarto. Ouviu-a fechar a porta às suas costas e se virou.
– Você tá aprontando...
– Claro que não! – Clara a beijou, envolvendo seu corpo num abraço – Só quero cuidar um pouco de você –sussurrou, em meio a mais um beijo tranquilo, carinhoso.
A assistente guiou a namorada até o banheiro. Tinha preparado o banho quente, com os sais mais relaxantes que encontrou. Ajudou-a a despir-se, com calma, tocando a pele delicada, distribuindo pequenos beijos em alguns pontos e a fez entrar na água. Sentou-se na borda da banheira, observando a jovem que agora tinha o corpo oculto pela espuma.
– Você não vai entrar aqui comigo?
– Nada disso – Clara passou o dedo pela água e em seguida pelo nariz da fotógrafa, deixando ali um pouco de espuma – A senhorita precisa relaxar.
– Hmmm – Marina comprimiu os lábios, num sorrisinho sapeca, meio de lado – Tá se sentindo culpada, é, Clarinha?
Abaixou-se, deixando os olhos na altura dos da fotógrafa. Com a mão em seu rosto, usou o polegar para desenhar o contorno dos seus lábios.
– Culpada? Eu? – murmurou, provocando – Como assim?
– A senhorita – a fotógrafa agora sussurrava – não me deixou dormir essa noite. Me deixou... Acho que acabada é a palavra certa, sabe?
Clara corou, mas não deixou de responder.
– Eu? Sei... Se você é quem tá acabada e nem assim sossega, a culpa é minha, né? – deu um selinho na boca da fotógrafa e levantou – Aproveita o banho, eu já volto.
Clara voltou trazendo um copo de suco e um lanche leve para a namorada. Ajudou-a a sair do banho e penteou seus cabelos, antes de fazê-la comer. Marina apenas sorria, encantada com todo aquele cuidado.
– Assim eu vou ficar mal acostumada. A gente se acostuma fácil com as coisas que gosta, sabia?
Clara sabia, ah, como sabia. Afinal tinha se acostumado fácil a estar perto daquela jovem, tinha se acostumado à ideia de amá-la mesmo que aquele sentimento virasse seu mundo de cabeça para baixo. E depois da noite que tiveram, soube mais do que nunca que se acostumaria facilmente a acordar do lado dela. Colocou os braços ao redor de seu corpo e permaneceram assim, apenas aproveitando a sensação de plenitude daquele abraço, até que chegou a hora de buscar Ivan na escola.
Beijou Marina com carinho e se despediu. A fotógrafa a segurou pela gola da jaqueta, pedindo:
– Volta mais tarde?
Ela não podia. O menino tinha pedido para dormir com ela naquela noite. Convidou a namorada para jantar com eles. Era uma forma de estarem juntas e de aproximar o garoto da relação que viviam.
– Então a gente pode jantar aqui, o que você acha? A gente pede... Ele gosta de comida japonesa?
***
Jantaram as duas com Ivan e Flavinha, segundo quem Vanessa havia desaparecido logo pela manhã, ao perceber que Marina dormira fora. Ela já havia ligado algumas vezes, mas acabou achando que a ruiva simplesmente não queria falar com ninguém. Chateada, acabou se recolhendo logo após o jantar.
Clara observou a forma como a namorada se aproximava de Ivan, naturalmente. Sem forçar a barra para agradá-lo, a fotógrafa conversava com ele tranquilamente e concordou em, depois do jantar, mostrar a ele alguns dos equipamentos que usava para fotografar.
O menino ficou encantado com as máquinas que viu. E mais alegre ainda quando Marina escolheu uma delas, mais simples, mostrou os comandos básicos e permitiu que ele fotografasse com ela. Prometeu que enviaria as fotos para ele.
Quando Clara se despediu, Ivan abraçou Marina de modo bastante afetuoso.
– Adorei jantar aqui. Você é legal, bem que minha mãe fala.
– Você também é um carinha muito legal. Devia aparecer mais por aqui. Pode vir sempre que quiser, tá bom?
Enquanto o menino entrava no carro, Marina abraçou a namorada, e se despediu com um beijo sapeca, no canto da boca da assistente. Observou os dois irem embora e só entrou quando o carro saiu pelo portão.
Foi para a cama com um livro nas mãos, mas não conseguiu ler uma única frase. Seus pensamentos estavam em Clara, como sempre acontecia desde que a conhecera naquela exposição. Só que agora, antes de dormir, tinha lembranças felizes todas as noites. Ia apagar a luz quando percebeu Vanessa parada, olhando para ela.
– Resolveu aparecer?
– Eu devolvo a pergunta. Achei que você tinha esquecido onde mora, Marina.
A fotógrafa respirou fundo antes de responder:
– Eu, pelo menos, cheguei a tempo pro ensaio...
– Posso perguntar onde você passou a noite?
– Onde? Você quer saber mesmo? Porque com certeza você sabe com quem eu tava! E eu não tô a fim de discutir com você, não te devo explicação, então chega dessa conversa. Melhor você ir dormir, que é isso que eu vou fazer.
Apagou a luz e virou para o outro lado. Percebendo que a ruiva ainda estava lá, tentou novamente:
– Boa noite, Van. Fecha a porta quando sair?
***
A semana passou voando para Clara e Marina. Estavam simplesmente felizes, quase não se separavam quando estavam no estúdio e nem a marcação cerrada de Vanessa as fazia perder o bom humor. Sempre que possível, Marina passava a noite no apartamento que Clara dividia, e quando isso não acontecia era a assistente que chegava mais cedo a Santa Teresa e a tirava da cama aos beijos.
Fora exatamente isso que acontecera naquela manhã. A fotógrafa ainda dormia quando a namorada entrou no seu quarto. Acordou com os beijos que ela distribuíra em seu rosto e, fazendo toda a manha que sabia, conseguira dormir mais meia hora, convencendo a namorada a deitar junto dela, para aproveitar não apenas o sono mas também o abraço quentinho que tanto lhe fazia bem.
Naquela manhã Marina tinha uma reunião no Galpão Cultural, para acertar com Laerte e Verônica os detalhes do contrato para o curso de fotografia que daria no local. Pensou em pedir que a namorada a acompanhasse, mas depois pensou melhor e decidiu evitar um possível “climão” com o ex-marido dela, afinal o bistrô ficava dentro do galpão. Despediu-se com um beijo carinhoso e a deixou trabalhando.
Clara não tinha certeza se queria permanecer no estúdio sem a namorada por perto. Simplesmente não se sentia à vontade perto de Vanessa e sabia que ela era mais contida em seus ataques quando a fotógrafa estava por perto. Não que a morena temesse os ataques da ruiva: temia apenas reagir de forma mais enérgica, afinal não era o tipo que levava desaforos para casa. Para sua sorte, a amizade que começara com Flavinha já fazia com que esta ajudasse a melhorar as coisas. Flavinha simplesmente ocupara todo o espaço possível, evitando que Vanessa tivesse oportunidade de ser desagradável, até que a ruiva simplesmente saiu do estúdio, furiosa.
Sozinhas, Clara e Flavinha conversaram sobre várias coisas, até chegar ao inevitável: a curiosidade de Flávia sobre as atividades do novo casal entre os lençóis. Clara até tentou desviar do assunto, mas não conseguiu. E contou, sem muitos detalhes, como, desde a primeira vez, elas tinham descoberto o encaixe perfeito, como ela, Clara, adorava tocar, amar o corpo da namorada. E quando perguntada sobre ter experimentado tudo, meio sem graça, ela admitiu que não.
***
Marina chegou ao Galpão mais cedo que o necessário. Pensou em tomar um café, mas preferiu evitar o bistrô, ou melhor, evitar o encontro com Cadu. Não teve sorte. Quando se dirigia para o espaço onde acontecia uma aula de dança, atraída pela música, o chef surgiu em sua frente.
– Marina – o tom de voz era seco – Eu quero falar com você.
– Oi, Cadu – ela procurou parecer neutra, não sabia o que esperar dele.
– Eu quero que você fique longe do meu filho.
– Olha, Cadu, você não pode me exigir isso...
– Eu posso e eu exijo! Eu não quero você perto do Ivan! Meu filho é um menino doce, carinhoso. Ele não vai se apegar a você pra depois sofrer quando você sumir, tá entendendo?
– Em primeiro lugar, Cadu, eu gosto muito do Ivan, mas você conversa sobre o que ele pode ou não pode com a Clara, que é mãe dele. Em segundo, eu não tenho a menor intenção de sair de perto dele e da Clara.
Cadu explodiu. Fazia certo esforço para não falar alto, mas ainda assim foi bastante duro em suas palavras. Disse que a relação entre a fotógrafa e sua ex-mulher não duraria. Clara podia estar deslumbrada, enfeitiçada pelo mundo que descobrira ao seu lado, mas aquilo ia passar. E ele torcia apenas para que passasse antes que ela, Marina, se desse por satisfeita daquele joguinho de conquista. Ele esperava que Clara acordasse antes que Marina decidisse apostar suas fichas em outra mulher.
– Você não sabe do que tá falando, Cadu. Eu e a Clara, a gente se ama!
– Isso não é amor, e você sabe muito bem. Você nem sabe o que é isso. Eu sei, Marina, eu vi. Só uma pesquisa rápida no seu nome e qualquer um pode ver quem você é! A cada exposição, a cada país, uma mulher diferente nas suas garras. Tá lá no Google, pra quem quiser ver. A Clara sabe disso, dessa sua coleção de troféus? Ela não sabe, né? Ela nem imagina que é só mais uma das suas conquistas.
– Olha, Cadu, eu não tenho porque perder meu tempo discutindo com você. Eu amo a Clara, eu quero fazer a Clara feliz. Se você acha tão importante assim o meu passado, você devia dividir a sua descoberta com ela. Quem sabe ela se interessa?
– Cínica! Se eu fizer isso, só vou empurrar ainda mais a Clara pros seus braços, ela vai ficar com raiva de mim. Ela tá deslumbrada por esse seu mundinho, não tá pensando direito. Mas ouve o que eu tô te falando: isso vai passar. A Clara vai acordar e vai perceber que não quer estar do seu lado, que não quer dividir a vida com uma mulher. Ela ainda vai se envergonhar de ter ficado com você. E quando isso acabar, eu não quero que meu filho sofra por saudades de você! Fica longe dele!
Marina se esforçou para manter o sangue frio, para não deixar a emoção transparecer nos olhos nem na voz. Aquele era o homem que Clara dissera que estava sendo compreensivo? A namorada estava escondendo alguma coisa ou ele é que estava fingindo uma compreensão que não tinha? A julgar pelo discurso dele, ele interpretava para Clara o bom moço compreensivo e tirara a máscara apenas para ela. Sorriu, provocando:
– Cadu, sobre o que o Ivan pode ou não pode: conversa com a mãe dele. Explica pra ela o que você tá querendo. Até onde eu sei, pai e mãe é que decidem juntos sobre a vida de uma criança, não a fotógrafa conquistadora!
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