Luz dos meus olhos
4 Capíitulo 4
– Você deveria ter sido a primeira a saber. Eu tô amando você, Marina. Eu te amo! — Clara terminou de falar e manteve o olhar fixo em Marina. Sentiu-se aliviada por finalmente dizer aquilo que seu coração vinha gritando há tempos. No instante em que disse aquelas palavras entendeu que as lágrimas que viera derramando desde a sua casa não haviam sido motivadas pela discussão com Cadu, nem pela bofetada que ele lhe dera. As lágrimas haviam caído, em parte, porque a última barreira estava rompida e o sentimento finalmente superava qualquer decisão racional que tivesse tomado nos últimos tempos. O restante de seu choro tinha vindo do desespero que sentira por não ter falado com Marina sobre esse amor, afinal era ela que devia saber dele primeiro, era ela que esperava por essa verdade, que a desejava.
Clara ainda tinha o rosto de Marina entre as mãos. Observou a expressão que passava da confusão à surpresa e finalmente viu a alegria tomando seu rosto, começando pelos olhos, ah, aqueles olhos. O brilho que surgiu no olhar de Marina aqueceu seu coração de uma forma inexplicável. Em seguida os lábios se curvaram e se abriram num sorriso tão lindo, tão intenso. O sorriso de uma mulher apaixonada. O mesmo sorriso que brotou no rosto de Clara.
Nenhuma delas saberia dizer por quanto tempo permaneceram paradas, olhando uma para a outra e sorrindo. Uma lágrima resolveu descer pelo rosto de Marina e Clara usou o polegar para secá-la e se aproximou ainda mais. Pousou os lábios no traço úmido deixado pela lágrima, ainda segurando o rosto da jovem. Em seguida beijou-lhe os olhos, com imenso carinho, e voltou a olhá-la, agora mantendo as testas coladas.
Marina pousou uma das mãos sobre a de Clara e a levou aos lábios, beijando-lhe a palma. Em seguida ergueu novamente os olhos e a encarou. Estava feliz, muito feliz com a atitude de Clara e queria mais, muito mais. Ainda assim, conteve-se. Tanto tempo sonhando com o amor de Clara, sabia que pisava num terreno delicado... Clara demonstrava um sentimento intenso ali na sua frente, mas era possível notar que carregava também certa aflição. Se avançasse rápido demais o encanto poderia se quebrar, a beleza daquele momento poderia se perder. Manteve os olhos em Clara enquanto tentava controlar seus impulsos.
Sentiu quando Clara tirou a mão de sob a sua e involuntariamente olhou naquela direção. Viu a mesma mão seguir por sobre seu ombro e a sentiu em sua nuca, ao mesmo tempo em que sentia que Clara, com a outra mão, erguia seu rosto e contornava seus lábios com o polegar. Levantou os olhos e viu no olhar dela um encantamento profundo. Quis continuar olhando, aquela era uma visão absolutamente adorável, mas não conseguiu manter os olhos abertos quando Clara tirou a mão que estava em seu rosto, a segurou pela cintura e puxou ainda mais perto, pousando os lábios sobre os seus.
Para Clara aquele beijo era uma necessidade absoluta. Aos poucos, deixou que sua língua encontrasse a de Marina, sustentando um beijo delicado e profundo, mantendo a fotógrafa envolvida em seus braços. Marina sentiu naquele gesto um carinho intenso e deixou que Clara conduzisse a situação. Quando finalmente suas bocas se separaram Marina sentiu que não conseguiria manter o controle sobre seus impulsos por muito mais tempo. Para abraçar o corpo de Clara, havia soltado a toalha que cobria seu corpo e agora ela só não caia porque estava presa entre os corpos das duas. Por um instante pensou em como seguiriam as coisas se deixasse a toalha cair... Se ficasse absolutamente nua.
Quando Clara apoiou a cabeça em seu ombro Marina teve certeza de que deveria se controlar. Sentia-se extremamente feliz com a declaração de amor, com o beijo que tanto sonhara. Mas de repente, pelo abraço de Clara, pela forma como ela se aconchegou em seu ombro, com o rosto enfiado em seus cabelos ainda úmidos, Marna sentiu que Clara precisava de um carinho que não tinha nada de sexual. E quis oferecer esse carinho, afinal o que sentia por aquela mulher fazia com que ela quisesse ser sempre aquilo que ela precisasse, quando ela precisasse. Desfez lentamente o abraço, utilizando uma das mãos para acariciar a cabeça de Clara e a outra para segurar a toalha.
– Clarinha, olha só – Marina falava de olhos fechados, fazendo um certo esforço para controlar o corpo e a voz – vem cá, senta aqui um pouco – levou-a até a cama, fazendo com que sentasse e, sem tirar a mão que segurava a toalha, beijou-lhe a testa – Me dá só um minutinho... Eu volto já – sorriu para ela – Me espera aqui?
Com certeza Clara esperaria. Ficou ali sentada, sorrindo, perdida em pensamentos até que Marina voltasse, já vestida. Ao vê-la de volta, saltou da cama e tornou a prendê-la em seus braços, os lábios buscando um novo beijo. Um beijo calmo, romântico. Marina sorria em meio ao beijo, mal acreditando na manhã que estava vivendo. Finalmente criou coragem para perguntar:
– Você tá falando sério, Clarinha? É verdade tudo isso? – puxou-a pela mão e sentaram-se na beira da cama, de frente uma para a outra. Continuaram de mãos dadas.
E Clara começou a falar. Falou da insegurança que sentira ao notar o desejo nos olhares de Marina e de como essa insegurança fora vencida pela vontade sempre crescente que sentia de estar ao lado da fotógrafa. De como se sentiu envolvida, de forma lenta e cada vez mais intensa. Falou também do afastamento delas durante a doença de Cadu, explicou como se sentiu desamparada, como sentiu falta de Marina naquele período e esclareceu que vira naquele recuo uma necessidade, afinal Cadu precisava de apoio e ela jamais poderia tê-lo deixado naquele momento, pela história que tinham vivido, pelo filho que tinham... Enfim, tinha feito o que era necessário para vê-lo recuperado porque eles tinham um passado em comum, uma história que tinha sido sim de amor, mesmo que ela não sentisse mais amor por ele, apenas amizade.
Lágrimas silenciosas brotaram nos olhos de Clara. Todo o sentimento que guardava em si transbordava agora nas palavras que há tanto tempo queria dizer a Marina e o alívio de finalmente conseguir se abrir fazia com que a emoção transbordasse também através de seus olhos. Marina ouvia atenta, sorrindo em alguns momentos, segurando suas mãos, onde às vezes depositava pequenos beijos.
Por fim Clara falou sobre como o jantar da noite anterior havia sido importante para ela, de como ela passara a noite pensando na situação delas duas e das decisões que havia tomado na noite insone. E de como, com as decisões já tomadas, havia discutido com o marido naquela manhã. Hesitou ao falar da discussão, mas queria ser sincera com Marina. Respirou fundo e contou sobre como falara a Cadu do que sentia e, depois de respirar profundamente outra vez, da bofetada que ele lhe dera.
–Clarinha, ele bateu em você? – Marina levou as mãos ao rosto dela, preocupada que houvesse ali qualquer ferimento que ela não tivesse notado – Ele te machucou? – estava agora com o rosto tão próximo que Clara sentia o ar vibrando quando ela falava.
– Não, tá tudo bem – Clara afastou a franja que caia sobre o rosto de Marina – Eu tô bem – sorriu e deixou seus lábios tocarem os dela – Tô aqui com você – e a beijou outra vez, envolvendo seu corpo com os braços.
– Marina, cê tá lembrando que ... Ah, que isso gente? – Vanessa, que havia entrado despercebida encarava as duas – Interrompi alguma coisa, foi?
A entrada de Vanessa fez com que tanto Clara quanto Marina voltassem a por os pés no chão. Marina tinha um ensaio no período da tarde, e já era quase meio dia. Ignorando a presença de Vanessa, pediu que Clara tomasse o café da manhã com ela, para que pudessem permanecer mais tempo juntas.
– Você tem um ensaio pra fazer, mocinha, as modelos já chegaram – Clara disse, quando se despediu e Marina se ofereceu para leva-la para casa – Eu posso muito bem tomar um táxi – beijou-lhe a testa e permaneceu no abraço mais um pouco – de todo jeito, eu agora preciso terminar de resolver essa situação, você sabe...
– Claro, eu entendo – Marina se afastou e a olhou nos olhos – Você tem certeza de que tá tudo bem? Quer dizer, depois do que houve hoje de manhã, você acha que dá pra conversar com o Cadu numa boa?
***
Clara não estava exatamente ansiosa para falar com Cadu. Todavia, sabia que não havia mais forma de adiar aquela conversa. O casamento deles já estava acabado, mas havia muito a ser tratado, para evitar mágoas desnecessárias e para garantir o melhor para o filho deles. A única coisa que faria Clara hesitar diante do rumo que queria tomar em sua vida era a possibilidade do pequeno Ivan sofrer. No fundo sabia que conseguiria contornar as dificuldades com o filho, mas temia que ele sofresse.
Entrou em casa ainda sem saber o que esperar. Como tudo estava em silêncio, chamou por Cadu, mas não houve resposta. Procurou por ele no próprio quarto e no quarto do filho: ele não estava em casa. Pensou nas recomendações dos médicos, de que ele não passasse muito tempo no bistrô e pensou em ligar para ele, mas desistiu: ele já estava bem, podia tomar conta de si mesmo. Provavelmente estava apenas com receio de encontrá-la. Tomou banho e foi novamente procurar a irmã mais velha e ficou com ela até a hora de buscar Ivan na escola.
Ficou com Ivan o resto do dia. Como Cadu não voltasse, após jantar com o filho deixou-o aos cuidados de Helena e foi até o bistrô. Aquela conversa não podia ficar para outro dia.
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