Notas iniciais
Amores, eu não abandonei a fic não. Só não conseguia fazer um capítulo decente (espero que esta versão não esteja muito ruim) e não podia simplesmente pular pra viajem a Paris. Espero que vocês ainda queiram ler essa história.

Na segunda pela manhã, Clara acordou atrasada. Era dia de levar Ivan para o judô e, para que os dois pudessem tomar o café em paz, Marina emprestou o carro para a namorada, que prometeu voltar logo para o estúdio.

– Não, amor, calma – Marina interrompeu – não precisa correr – Marina sabia que o pequeno, além de tomar banho e almoçar, precisava pegar a mochila da escola no apartamento do Leblon – Depois que deixar ele na escola você volta, não tem pressa.

A morena abriu a boca para agradecer, mas Marina voltou a falar:

– Lembrei agora... Você devia aproveitar e ir falar com o Léo sobre o trabalho.

Clara sorriu com a lembrança e se aproximou para abraçar a fotógrafa.

– Achei que você ia comigo.

– Não dá, a Flavinha vai precisar da ajuda de alguém. Você vai lá, fala com ele, resolve tudo e eu faço as fotos de hoje com a Flavinha.

Depois que a morena saiu com o filho, Marina se deixou cair no sofá, o sorriso dando lugar a uma expressão desanimada. A ideia de que Clara não estaria mais presente o tempo todo no estúdio a incomodava. Queria passar o máximo de tempo possível ao lado dela e, claro, isso incluía também as horas que passava trabalhando. Ao mesmo tempo, sabia que não seria certo pedir que a assistente desistisse da proposta de emprego. Seria egoísmo da sua parte e, pior que tudo, poderia magoar a morena. A decisão sobre o trabalho no restaurante cabia apenas a Clara, a ela só cabia aceitar e tentar lidar o melhor possível com isso. Preferiu não ir ao encontro entre a namorada e Léo, tinha medo de que seu rosto a traísse e deixasse a assistente entrever a apreensão que tentava esconder.

Pensando em tudo isso, foi para o estúdio, preparar as luzes e os equipamentos para as fotos do dia. O trabalho seria sua melhor distração. Não adiantava antecipar as angústias, elas ainda tinham tempo até que a mudança acontecesse, até que Clara fosse trabalhar longe dela.

***

Enquanto Ivan se exercitava junto como os colegas, Clara aproveitou para ligar para o restaurante e combinar o encontro com Léo, no início da tarde. Em seguida buscou o número de Duda no celular.

– Quando é que você ia me contar? — foi direta quando a mulata atendeu.

Não houve necessidade de explicar do que estava falando: a amiga sabia perfeitamente. Pediu para que conversassem pessoalmente e Clara aceitou, combinando de tomarem um café depois da conversa da morena com Léo. Depois que a aula de judô acabou, foi com o filho até seu apartamento, onde almoçaram juntos antes que ela levasse o garoto para a escola.

A conversa com Léo a deixou animada e a vontade que tinha era de correr até Marina e comemorar. Mas além de ter o encontro marcado com Duda, sabia que a namorada ainda estava trabalhando. Limitou-se a enviar uma mensagem para o celular da fotógrafa e seguiu até o hotel onde a amiga estava hospedada.

Conversaram no quarto da mulata. Clara pode reconhecer em Duda os mesmos sentimentos confusos que tinham retardado sua decisão de viver o amor por Marina. A diferença era que Duda já não tinha um compromisso real, apenas gratidão e saudade por toda a felicidade que vivera com a esposa falecida. E embora ela tivesse se entregado e passado a noite de sábado com Flávia, a culpa que sentia em relação a Francesca a fazia hesitar quanto ao próximo passo.

A morena já suspeitava do interesse da amiga por Flavinha desde que as tinha apresentado, quando passaram a tarde juntas na piscina. As duas tinham se aproximado bastante desde que a mulata as encontrara na praia no dia de sua briga com Marina. Tinham se unido para manter a morena minimamente animada durante a ausência da fotógrafa.

– Tem horas que eu sinto como se estivesse traindo a Francesca – a mulata confessou – É estranho pensar em outra pessoa ocupando o lugar dela. Eu até pensei em me afastar da Flávia, sabe? Mas não dá, eu não consigo...

– Você não tá traindo ninguém, Duda. Você só – Clara pensou um pouco para achar as palavras corretas – Você chegou naquele ponto em que tem que decidir se vai seguir em frente, continuar a sua vida ou se vai ficar chorando por um passado que, por mais feliz que tenha sido, não vai mais voltar.

A mulata não disse nada, apenas olhou para a amiga, que pode ver a hesitação em seus olhos. A morena continuou a falar:

– A Flavinha é uma pessoa maravilhosa, não tem porque você ter medo de se envolver com ela – segurou as mãos da amiga entre as suas – Vai por mim, ela merece esse carinho que tá brotando aí – apontou para o peito da mulher – Ela merece e pode retribuir, tenho certeza disso.

– Eu não sei, Clarinha. É estranho, sabe... Substituir a Francesca assim, depois de tudo que a gente viveu, todos os planos que a gente fez...

– Você não vai substituir ninguém, Duda – acariciou o rosto da amiga com a ponta dos dedos – O que você viveu com a Francesca é uma lembrança sua, é o seu passado. Sempre vai fazer parte de quem você é – puxou a mulata para perto e aninhou a cabeça dela em seu colo, começando um carinho delicado nos cabelos dela – A Francesca sempre vai ter o espaço dela no seu coração e nada vai mudar isso. Ninguém vai tirar de você as coisas que vocês viveram. Mas, se você deixar, outra pessoa pode vir e trazer mais coisas boas, mais alegria, mais cor pra sua vida.

– Eu só não acho justo esquecer dela...

Clara passou o resto da tarde conversando com a amiga. Além de trazer a mulata à razão quanto à diferença entre seguir em frente e trair a esposa que havia falecido, ainda teve que se esforçar para afastar o receio que Duda sentia quanto à volta de Vanessa. Explicou a ela que o rompimento havia partido de Flavinha e que a decepção sequer tinha relação com a obsessão da ruiva por Marina: a morena já havia confessado o quanto tinha se decepcionado com o caráter de Vanessa, a impossibilidade de aceitar que ela havia tramado e incentivado as desconfianças da fotógrafa, com a intenção de provocar o rompimento do namoro entre a artista e a assistente.

– Mas você só vai saber se ela quer ficar com você ou se vai balançar quando a Vanessa voltar, se investir nisso que você tá sentindo por ela, se você se arriscar – foi o último conselho que deu antes de deixar o hotel e seguir para buscar o filho na escola.

***

“Feliz. Obrigada, meu amor, por fazer eu me redescobrir, me reencontrar, como mulher e agora como profissional. Obrigada por estar ao meu lado. Amo você!”

A mensagem da namorada deixou claro para Marina que a conversa no restaurante havia sido positiva para a morena. E se sentiu feliz em saber que a sua (agora por pouco tempo) assistente preferida dividia essa conquista com ela. Sorriu olhando para o celular e pensou consigo mesma que deviam comemorar naquela noite.

Quando Clara chegou, junto com Ivan, elas conversaram sobre o que fariam à noite. A morena preferiu algo mais simples, a semana estava começando e ela não queria que o filho dormisse tarde. Argumentou que poderiam comemorar “de verdade” quando ela começasse a trabalhar. Acabaram escolhendo uma pizzaria, próxima ao prédio onde ela morava com o pequeno.

Apenas quando as duas ergueram as taças para brindar foi que Ivan, que também levantou o seu copo com suco, quis saber o que estavam comemorando.

***

Clara saiu do banho quente mais relaxada. Ivan já estava na cama e ela se preparou para dormir, vestindo algo confortável. Queria que Marina estivesse ali, mas a fotógrafa não fez menção de subir quando estacionou diante do prédio. Ela apenas puxou sua mão até os lábios e deixou ali um beijo, antes de fazer um carinho suave em seu rosto e se despedir com um selinho, quando Ivan já havia saído do carro. E a morena, apesar da vontade de chamá-la para ficar, deixou passar a oportunidade.

***

Ainda era cedo e Marina dirigia junto à orla, observando das pessoas que aproveitavam a noite quente no calçadão e nas areias da praia. Não sabia bem o que sentia, nem o que pensava. Apenas torcia para que a namorada não tivesse percebido nada.

Tinha decidido, de maneira extremamente racional, que apoiaria a decisão de Clara de trabalhar como sommelière, que não havia motivo nenhum para ficar insegura quanto a isso. Tinha sentido aquele calorzinho tão agradável no coração quando recebeu a mensagem de Clara no meio da tarde, e, de verdade, sentiu-se feliz por ela.

E então a dúvida inocente de Ivan durante o jantar tinha bagunçado tudo.

“Você não vai mais namorar a Marina, mãe?”– o garoto perguntou, quando Clara lhe disse que estavam comemorando seu novo emprego. A morena ficou surpresa com a pergunta, e o pequeno explicou: “Depois que você começou a trabalhar com a Marina, você e o meu pai se separaram. Eu não queria que acontecesse de novo.”

As palavras de Ivan tiveram um sabor agridoce para a artista. Era bom saber que ele queria as duas juntas. Por outro lado, a dúvida dele despertava as suas próprias, as mesmas dúvidas que ela havia decidido calar.

“Droga, Marina, você nunca foi insegura assim”– repreendia a si mesma enquanto dirigia pela noite. No fundo ela sabia do amor da morena, confiava nos sentimentos de Clara. Mas perdoava a própria insegurança diante das mudanças, afinal tinha conhecimento da diferença entre as paixões que já tinha vivido e o amor inédito que a mãe de Ivan tinha despertado.

E de repente, outra dúvida apareceu: será que Clara se chateara por ter tido que responder sozinha à pergunta do filho? Xingou-se, batendo com a mão no volante: porque diabos tinha se calado em seus receios enquanto a morena garantia que não se afastaria dela apenas por trabalhar em outro lugar? “Merda, Marina, ela praticamente se declarando ali pra você, e você só assistindo? Idiota!”

Clara tinha conversado tranquilamente com o filho, dizendo a ele que a separação dela e de Cadu não tinha acontecido por causa do trabalho nem da proximidade de Marina, mas que agora elas estavam juntas e que se gostavam muito, e que não era o fato de não trabalharem juntas o dia todo que faria com que ela deixasse de gostar da fotógrafa. Marina tinha se limitado a assistir a conversa entre mãe e filho, se perdido em pensamentos e agora se culpava por não ter, ela também, reafirmado naquela mesa o quanto gostava da morena.

Pensou em ligar para a namorada, a voz dela indicaria se estava ou não magoada.

***

Clara se ajeitou na cama, puxando o lençol por sobre o corpo de uma forma mal humorada. A mensagem enviada há quarenta minutos ainda não tinha sido respondida e ela tinha certeza que era cedo demais para Marina estar dormindo. Por um instante, pensou que talvez estivesse sendo o tipo de namorada desagradavelmente grudenta. O toque do celular a afastou desse pensamento.

– Clarinha?

– Oi, amor! — não conseguiu evitar um sorriso aliviado ao ouvir a voz de Marina.

– Mal consigo imaginar, você dormindo aí sozinha – a fotógrafa falou num tom sugestivamente baixo e a morena sorriu ao lembrar do texto “Essa cama é muito grande sem você” ela tinha enviado, com uma carinha triste no fim do texto.

– Não mesmo? Talvez eu possa ajudar a sua imaginação...

– Clarinha... Eu não quero imaginar isso.

– Não? — a morena não conseguiu disfarçar o tom decepcionado.

– Eu prefiro que você abra a porta pra mim.

Notas finais
Espero que não estejam decepcionadas com o cap. de hoje. Por favor, me digam o que acharam.