Luz dos meus olhos
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Marina tinha os braços firmemente fechados ao redor de Clara. Deixou-se ficar ali, aliviada com a recepção da morena. Aos poucos, começaram a se soltar, em movimentos hesitantes. As mãos se moviam lentamente, os músculos como que se recusavam a afrouxar o abraço. Era como se temessem, as duas, que a outra desaparecesse quando o contato fosse desfeito.
Afastaram-se apenas o suficiente para se olhar. Marina manteve as mãos na cintura de Clara e sentiu a morena segurando seu rosto. Viu o caminho úmido que as lágrimas furtivas tinham deixado. Abriu os lábios mas, antes que falasse algo, Clara despejou:
– É horrível ficar longe de você.
E Marina a abraçou outra vez, enquanto murmurava:
– Pra mim também foi horrível.
Esse segundo abraço durou ainda mais que o primeiro. Ambas aproveitaram para desfrutar aquela sensação agradável que vinha da confissão mútua de saudade. Quando finalmente se afastaram, Marina manteve as mãos de Clara entre as suas. Embaraçada, olhava para baixo quando disse:
– Eu preciso falar com vo...
– Marina, eu queria – Clara começou a falar ao mesmo tempo e isso fez com que se olhassem outra vez, e se calassem.
Em silêncio, a fotografa guiou a morena pela mão até uma das mesas do quiosque próximo. Sentaram-se de frente uma para a outra e Marina pediu uma água de coco para Clara, sob a justificativa de que ela precisava repor as energias. Só voltou a falar depois que o pedido chegou.
– Clara, eu – buscou a mão da morena sobre a mesa – eu vim pedir desculpas pra você...
– Marina...
– Espera, Clara, por favor – Marina sussurrou, pedindo – Me deixa falar primeiro?
Esperou que a morena assentisse antes de começar a falar. Tinha pensado em mil maneiras diferentes para se desculpar, mas Diogo finalmente a fizera entender qual era a forma correta: nada de flores, presentes, jóias: ela precisava falar com Clara. Uma conversa longa e sincera.
– Eu sinto muito – encarava agora fixamente os dedos longos de unhas azuis que segurava em sua mão – Eu sinto muito mesmo, Clara. Eu nunca devia ter gritado com você. E as coisas que eu disse aquele dia, eu – suspirou, procurando coragem para prosseguir. Levantou os olhos e encarou a morena – Clara, eu nunca acreditei em nada daquilo – apertou as mãos dela – nunca mesmo. De verdade.
A assistente demorou a perceber a importância do que estava acontecendo. Queria dar a volta na mesa e abraçar e beijar a fotógrafa, tranquilizá-la, dizer baixinho “já passou”. Mas aquilo não parecia apenas uma reconciliação e o semblante apreensivo e hesitante de Marina fez com que permanecesse sentada onde estava e temesse, por breves instantes, que aquele fosse o fim. Logo veio o alívio, e ela entendeu o quanto era importante para Marina prosseguir falando. Ela ouviria até o fim.
– Eu não sei direito o porque de ter falado tudo aquilo – os olhos dela estavam marejados – Eu nunca duvidei de você, Clara. E quando você fugiu, chorando...
Nesse ponto uma lágrima desceu silenciosa pelo rosto da fotógrafa. Ela respirou fundo e continuou. Admitiu que não podia culpar o álcool pelo seu descontrole. Contou como se sentira envergonhada logo após a saída da morena. Assumiu que tinha sido infantil e que, chateada por ter sido deixada de lado, quis magoar a morena, fazer com que ela sentisse ao menos um pouco do que tanto lhe doía naquela noite.
– Eu não devia nem ter começado com aquilo, eu te tratei mal a noite toda, eu sei. Eu acabei repetindo todas as coisas que sempre me irritavam quando a Vanessa falava, e naquela noite a Branca falou também – apertou nervosa as mãos da morena – Clara, acredita em mim, eu nunca pensei que aquelas coisas fossem verdade!
No rosto da assistente duas trilhas úmidas foram desenhadas pelas lágrimas. Os lábios tremiam levemente quando ela perguntou:
– Você... Você falou aquilo pra machu...
– Clara – Marina se desesperou, curvou-se sobre a mesa, para olhar mais de perto os olhos dela – eu sei que foi errado. Eu percebi isso quando você fugiu de mim – tocou o rosto da morena com uma das mãos, afastando a mecha de cabelo que havia escapado do rabo de cavalo – Eu me arrependi naquela hora, eu queria correr atrás de você e desdizer tudo... Eu queria pedir desculpas, eu não sabia como... Mas eu sabia que tinha que pedir desculpas pra você!
A morena tentou falar alguma coisa, mas Marina continuou falando. Agora que tinha começado era impossível parar, ela precisava ir até o fim. Contou que tinha ficado envergonhada com o próprio comportamento e que, desde que a tinha visto descer a escada aos prantos, começou a pensar numa forma de se desculpar.
– Clara, olha pra mim – Marina fez com que a morena levantasse o rosto e usou os dedos para secar-lhe os olhos. Ou, ao menos, tentou – Eu não sabia como fazer isso, eu me perdi tentando achar um jeito certo de fazer você me perdoar, eu queria fazer algo especial. Uma coisa tão grande quanto a burrada toda que eu tinha feito.
Explicou que tinha pensado em flores, em jóias, em um out door. Nada parecia suficiente e, por isso, não tinha conseguido fazer nada para encontrá-la durante todo o final de semana.
– E aí a Duda apareceu lá em casa no domingo – Marina voltou a apertar as mãos da morena – Acredita em mim, eu não precisava dela pra me fazer acreditar em você! Pra falar a verdade, a gente nem conversou direito.
– Mas... mas ela foi lá e você... – Clara não conseguiu formar uma frase inteira, parecia confusa com tudo o que ouvia.
– Ela só foi lá pra dizer que eu era uma idiota, que ela nunca tinha te visto chorar daquele jeito e que se eu não consertasse as coisas ela ia esfregar minha cara no calçadão até arrancar todas as pedras – Marina falou tudo num fôlego só e então pegou o coco da morena e tomou um longo gole – Pronto, falei.
As duas ficaram em silêncio. Marina podia ver o quanto a morena estava confusa com tudo o que tinha ouvido. Sabia que ela tinha se recusado a conversar com Duda sobre a conversa delas, Flavinha tinha lhe contado. E tinha consciência de que precisava dar mais um passo. Flavinha já tinha lhe dado esse conselho, mesmo sem saber toda a história. Mas fora Diogo quem a convencera a agir de uma vez.
Para o pai, a fotógrafa tinha aberto o coração e falado do quanto se sentira mal depois de ver a namorada sair chorando de seu quarto. Fugindo dela. Tinha contado de como planejara lhe comprar flores, ou uma joia ou fazer uma extravagância qualquer para conseguir seu perdão. E como haviam se reconciliado e logo em seguida brigado outra vez. E Diogo tinha ouvido atentamente, paciente como só um pai amoroso e preocupado poderia fazer. E lhe dera os conselhos que tinha. Sinceridade. Humildade. Era disso que ela precisava para se entender com a namorada e o pai não minimizara os seus erros. Pela primeira vez ele falou sobre a forma como Marina tratava as mulheres com quem se envolvia, e perguntou se Clara era como elas, se era mais uma conquista.
Óbvio que não, ela tinha respondido. Clara era, Marina tinha certeza, a mulher de sua vida. Diferente de todas as outras. Tão mais importante que, desde que chegara a Londres, ela não tinha olhado para ninguém, mesmo que algumas tivessem se insinuado. Só então se deu conta do que Diogo queria dizer. E ele apenas a aconselhou a fazer o que devia ser feito o mais rápido possível. E quando ela, depois de digerir a conversa em seu quarto, chamou pelo pai, foi ele que a levou até o aeroporto e se encarregou de avisar Vanessa sobre a sua decisão de ir para o Rio.
E então a fotógrafa deu o passo que faltava. Admitiu para a morena, com todas as letras, que não sabia como se desculpar, porque nunca tinha feito isso antes. Sabia que tinha deixado algumas garotas, algumas mulheres magoadas no passado. Nunca tinha achado que fosse preciso se desculpar, apenas seguira em frente após cada mal entendido, uma nova paixão substituindo cada conquista. Mas Clara era diferente. Era por isso que tinha se perdido em planos mirabolantes para fazer as pazes, porque não tinha aprendido a conversar sobre sentimentos, não tinha aprendido a assumir erros antes.
– Mas eu entendi, Clarinha, eu sei agora que o certo é falar a verdade olhando pra você. Então eu tou aqui, de cara limpa, pedindo pra você me perdoar. Eu sei que te machuquei, e sei também que isso piorou quando eu não quis conversar sobre o que tinha acontecido. Eu não conseguia conversar, não sabia o que fazer. Só o que eu posso dizer é que eu nunca duvidei de você, eu não precisei que ninguém te defendesse. Quando a Duda foi lá em casa, ela podia ter gritado comigo, brigado, feito qualquer coisa, mas ela foi lá e me disse que você ainda tava chorando, que não conseguia disfarçar nem pro Ivan... E eu entendi que tinha que consertar as coisas. Eu só não sabia fazer isso direito, eu nunca fiz isso antes.
O silêncio da morena, os olhos pregados na mesa entre elas, o leve tremor dos lábios que se comprimiam à sua frente, tudo isso fez Marina temer a resposta de Clara. Mas ela tinha que ser firme, tinha que esperar e insistir. A sua felicidade estava nas mãos da mulher diante de si.
***
Clara não se conteve. Levantou e deu a volta na mesa, sentando-se na cadeira ao lado dela. Beijou-lhe o rosto e a abraçou, antes de segurar suas mãos. Levou alguns instantes pensando nas longas conversas com as amigas, no quanto elas já haviam dito que o mais acertado era contar toda a verdade para a fotógrafa. Hesitou um pouco para falar, temia pela reação da namorada. Inspirou profundamente antes de começar. Precisava se desculpar pelas omissões, precisava esclarecer a verdade. E precisava, desesperadamente, que Marina a perdoasse por não ter sido totalmente sincera.
***
Quando Clara disse que também lhe devia desculpas, que havia coisas que Marina precisava saber, a fotógrafa chegou a sentir um calafrio percorrendo sua espinha. E então a morena despejou sobre ela uma confissão angustiada de culpa. E a artista sabia que não havia nenhum motivo para não acreditar no que ouvia. Droga, tudo fazia sentido, todos os sinais estavam lá, o tempo todo. Mas ela tinha preferido não ver.
A morena sabia que tudo poderia soar ridículo, absurdo. Mas era a verdade e já era hora de contar para Marina. E só lhe restava confiar que a fotógrafa pudesse enxergar a sinceridade em seus olhos.
A verdade era que Clara não sabia que Duda era lésbica. Qualquer pessoa que lesse revistas de fofocas, que assistisse programas de TV sobre celebridades saberia, mas Clara não era uma dessas pessoas. Duda tinha deixado o Rio pouco depois de fazer dezoito anos e, até então, nunca tinha se envolvido seriamente com ninguém. Os contatos entre as duas, desde então, tinham sido todos pela internet, exceto uma única visita da mulata, quando Ivan ainda era um bebê, e mesmo nessa ocasião elas não tinham conseguido conversar a sós, toda a família Fernandes estava em polvorosa com a chegada do pequeno, cercando Clara de cuidados durante todo o tempo. A morena soube apenas no dia em que elas se reencontraram na praia, pelo comentário de Marina, sobre Duda ter perdido a companheira.
Tinha se esforçado por esconder a surpresa. Tudo era tão novo na relação delas, Clara sentia que ainda tinha que se adaptar ao novo mundo que Marina lhe apresentava e teve medo de ser mal interpretada se demonstrasse que estava surpresa com a sexualidade de quem quer que fosse. Principalmente porque Vanessa estava por perto e não perderia a chance de provocá-la.
– Marina, eu meti os pés pelas mãos, eu fiz uma bobagem atrás da outra por medo.
– Medo de que, Clara? — Marina ainda não entendia onde a assistente queria chegar.
– Primeiro eu tive medo de dizer que não sabia da Duda, medo de dar um fora, sabe? De você achar que eu tinha problema com o que a gente tava vivendo...
– Eu nunca...
– Eu sei, Marina. Cara, eu sei da paciência que você sempre teve mesmo quando eu ainda não sabia que queria ficar do seu lado. Mas na hora eu tive medo de dar a impressão de que eu tava julgando a vida dela... Tive medo de te magoar, sabe, de você pensar que eu achava que o que a gente tava vivendo tinha que ser escondido... E depois ficou pior, porquê eu lembrava de como você ficou quando achou que eu tinha ficado com o Cadu e aí...
Marina se lembrava daquilo. Logo depois de se declarar para ela, logo depois de trocarem os primeiros beijos, Clara tinha saído de Santa Teresa dizendo que precisava resolver as coisas com o até então marido. E Marina havia chorado e se desesperado durante dois dias, pensando que ela fizera as pazes com ele, afinal Vanessa lhe contara que vira os dois andando abraçados naquela mesma noite.
– Eu tive medo que se você soubesse como eu era grudada com a Duda, se eu dissesse que a gente dormia juntas, tomava banho juntas, tudo isso, eu tive medo de você achar que a gente tinha alguma coisa, de você ficar daquele jeito de novo. E aí eu comecei a esconder – Clara passou as mãos pelo rosto – eu morri de medo de você surtar depois daquele jantar com a minha mãe, com todas aquelas histórias...
Marina levou as mãos ao rosto da morena, segurando, e deslizou os polegares, acariciando a pele macia, ainda úmida pelo choro recente. Mergulhou no castanho profundo daqueles olhos apaixonantes e foi sincera quando disse que não precisava daquelas explicações.
– Eu falei sério, Clarinha. Eu me descontrolei, falei um monte de bobagem, mas eu nunca duvidei de você, nunca!
A morena deslizou o rosto na palma da mão direita da fotógrafa, e depois a segurou, beijando-lhe a palma, antes de voltar a falar.
– Eu precisava falar, entende? — Marina balançou a cabeça, afirmativamente – A Duda é uma irmã pra mim, e eu sei que pra ela também é assim. Nunca teve nenhum sentimento diferente disso, eu só queria que você soubesse... Porque se um dia alguém voltar a falar da gente pra você, insinuar essas coisas, eu quero que você lembre que eu nunca quis uma mulher antes de te encontrar – segurou a outra mão da fotógrafa, que ainda estava em seu rosto, e a beijou também – E depois que eu te encontrei, eu não vou querer mais ninguém, Marina. Eu te amo, eu não posso mais ficar longe de você.
O silêncio caiu entre elas. Não era, porém, constrangedor nem incômodo. As vozes se calaram e os olhos falavam tudo que havia para ser dito. Fotógrafa e assistente reconheciam uma na outra o mesmo carinho profundo, a mesma sensação de calor que aquecia o coração e tranquilizava todo o tormento da alma. Clara estendeu a mão, acariciando o rosto delicado da jovem à sua frente. Não tinha sido força de expressão quando Marina disse que estava diante dela de cara lavada: a artista não usava nenhuma maquiagem e a assistente reconheceu no rosto pálido o mesmo sofrimento que havia experimentado durante as duas últimas semanas. As mesmas marcas azuladas sob os olhos estavam em seu rosto, denunciando que ela também tivera dificuldade para dormir. Deslizou a mão para a nuca da namorada e a puxou para si.
O abraço trouxe a sensação de que o mundo tinha finalmente voltado aos eixos. Tudo estava no lugar certo, ela estava junto de Marina, e aquele era o seu lugar, tinha certeza disso. E, finalmente, com a certeza de que estavam bem, permitiu-se colar os lábios no rosto dela, depositando vários beijos pela bochecha e pelo maxilar, até ficar diante de seus lábios. As bocas se encontraram com delicadeza e saudade e finalmente aqueles dois corações puderam sentir a vida pulsando outra vez.
***
Sozinha na banheira, de olhos fechados, Marina sorria. Pela primeira vez, depois de duas semanas, sentia que tinha tido um bom dia. Mesmo que tivesse discutido com Vanessa por telefone. A ruiva tinha ligado quando estavam chegando ao apartamento de Clara e, contra a sua vontade, Marina deixou que a morena fosse sozinha para o banho enquanto esclarecia a sócia sobre sua decisão. Sim, ela estaria em Paris na data marcada. Não, ela não descumpriria a agenda de entrevistas, pelo contrário. Tinha, ela mesma, enviado um e-mail para os jornalistas com quem tinha compromisso marcado e avisado que, por conta de uma emergência, estaria no Brasil, mas que responderia a todas as questões que eles lhe enviassem. Disse que poderiam resolver tudo o que ainda havia a ser feito pela internet e que não, não voltaria a Londres. Iria direto para a França.
Deixou-se afundar na água morna. Feliz! Estava realmente feliz, apesar da discussão com Vanessa. Clara iria com ela para Paris! A morena concordara sem nem mesmo piscar. O estúdio estava com muitas propostas novas, todas fruto da repercussão de sua exposição em Londres. E ainda havia Ivan.
O pequeno viera correndo e se jogara em seus braços, cheio de beijos e carinho quando a vira na porta do colégio junto de Clara. E, quando ficaram os dois sozinhos, confessou que sentira sua falta e que estava feliz de ver que ela voltara para fazer a sua mãe sorrir.
Saiu do banho e se arrumou para o jantar. Iriam comemorar juntos, Clara, Ivan, Flávia, Duda e ela. Por mais que dissessem que a comemoração era pelo sucesso em Londres, para Marina o motivo era sua reconciliação com a morena. E foi para ela que se vestiu e maquiou.
***
O jantar foi animado. Finalmente Marina e Duda começaram a se entrosar de verdade, e Clara e Flavinha pareciam satisfeitas com isso. Depois de se despedirem das amigas, as duas seguiram para o Leblon, com Ivan adormecido nos braços da fotógrafa.
Naquela noite elas não se amaram. Não fisicamente. As noites de insônia cobraram seu preço e elas adormeceram abraçadas, de frente uma para a outra. E durante longas horas de sono, executaram na cama da morena um delicado balé carinhoso, onde uma acompanhava os movimentos da outra, sempre mantendo o contato, o toque tão necessário à tranquilidade.
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