Notas iniciais
Demorei mais que o previsto, eu sei. Aqui esclarecemos algumas coisas que aconteceram com a Clara nos últimos capítulos, aproveitem.

Depois de passar pelo detector de metais e entrar na sala de embarque, Marina seguiu apressadamente até o balcão de uma livraria. Entre as várias pilhas de livros, escolheu um volume apenas pelo tamanho: era grande. Apenas depois de pagar olhou para a capa e viu que era um título de Stephen King.

O livro serviria a dois propósitos. Primeiro, usaria a leitura para evitar conversar com Vanessa. Mas o principal objetivo era ter uma forma de preservar o delicado ramo de pequenas flores brancas que Clara lhe entregara no saguão. Marina conhecia as delicadas florzinhas, imaginava que a morena provavelmente as tinha roubado de um dos vasos do hall do prédio onde morava. Uma última vez levou o ramalhete improvisado ao rosto, sentindo a maciez das pétalas em sua pele e, delicadamente, ajeitou as flores entre as páginas do final do livro. Temia que elas se desmanchassem, murchassem durante o voo. E lembrou-se do hábito que sua mãe tinha, de guardar pétalas e flores dentro dos livros sempre que ela ou o pai lhe faziam esse tipo de agrado.

Logo os passageiros foram chamados a embarcar na aeronave que seguiria até Londres. A fotógrafa se acomodou em seu assento e abriu imediatamente o livro, respondendo com monossílabos às tentativas da sócia de iniciar uma conversa. Seguiu tentando se concentrar na leitura até que a ruiva deu-se por vencida e acomodou-se em uma posição confortável para dormir. Marina permaneceu acordada durante as quase doze horas de viagem, lutando para manter sua atenção no livro, muito embora seus pensamentos terminassem sempre por debandar para o Rio de Janeiro e para uma certa morena.

***

No banco do carona, ao lado de Flávia, Clara lutava contra a vontade de chorar. Tentava se convencer de que a separação seria por pouco tempo, logo Marina e ela poderiam se encontrar e se acertar, com calma. Todavia, para o seu coração, as quase quatro semanas de afastamento pareciam o fim do mundo. Marina estaria em Londres, uma cidade cuja simples menção fazia seus olhos brilharem. E teria Vanessa ao seu lado. A ruiva com certeza tentaria se reaproximar, seduzir. Não era preciso muito esforço para deduzir isso.

Ela confiava em Marina. Confiava cegamente nos sentimentos dela. Mas não confiava em Vanessa e, principalmente, sabia o incômodo que o assédio da ruiva provocava na fotógrafa. Naquele momento a sua namorada precisava de apoio, de carinho, de segurança: como toda estréia, aquela exposição a deixava nervosa. Havia porém, desta vez, o peso da importância do resultado, afinal do sucesso das obras dependia a salvação do estúdio e do nome Marina Meirelles.

Sabia que a namorada não procuraria abrigo em Vanessa. Não se incomodaria se ela o fizesse, porém estava certa de que, na remota possibilidade de isso acontecer, a ruiva não saberia ter o cuidado necessário para calar as incertezas e medos da sua fotógrafa amada. O sentimento de culpa por ter desistido da viagem era tão grande quanto a certeza de que não podia ter agido de maneira diferente. Se estivesse naquele avião agora, elas não estariam em paz. Clara sabia que seria incapaz de dar o abrigo e a tranquilidade necessários à artista antes que elas conseguissem se entender. E sabia que Marina ainda não estava pronta para aquela conversa. “Se estivesse, porque evitaria tanto?” Tudo o que lhe restava era torcer para que a namorada encontrasse o ponto de equilíbrio quando estivesse diante do cenário artístico que era seu trabalho e sua paixão.

Alheia à presença de Flávia, que dirigia em silencio, reviveu a despedida de minutos atrás. Tinha planejado falar com a namorada apenas no aeroporto, apenas com a intenção de evitar discussões caso se falassem antes e a artista tentasse convencê-la a viajar. Nunca fora uma opção deixar que ela embarcasse sem antes se despedirem.

As flores roubadas tinham sido um impulso, quando o táxi já a esperava em frente ao prédio. O trânsito congestionado, um empecilho. Quase não chegara a tempo e, enquanto pagava o taxista, ligou para Flavinha, querendo apenas que ela impedisse Marina de passar pelo portão antes que se falassem.

Tinha atravessado o saguão correndo, esbarrando nas pessoas. Ofegava enquanto falava com a amiga ao celular, que só desligou quando avistou a fotógrafa. Com os braços abertos, avançou para a namorada e a envolveu junto ao seu corpo, a cabeça inclinada para colar seu rosto ao dela.

A verdade era que Clara temia a reação de Marina à sua presença e que todo esse medo se esvaiu quando a artista correspondeu ao abraço com tamanha força que a morena ainda podia sentir o peso das mãos em suas costas. Sorriu ao imaginar os dedos da namorada marcados na pele exposta pelo decote do body que usava.

A fotógrafa foi a primeira a falar, mas Clara a interrompeu. Quando Marina começou a dizer que era a morena quem devia estar naquele avião jundo com ela, a assistente abriu espaço entre elas, apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. E pediu que não pensasse daquela forma. Disse que não poderia deixar que ela partisse sem lhe desejar boa sorte. Disse que torcia por ela e que a amava. Manteve-a junto a si com uma das mãos segurando seu corpo pela cintura e trouxe a outra, flores em punho, para junto de seu rosto. Deslizou as costas dos dedos na bochecha de Marina, deixando que as pétalas macias acariciassem a pele delicada e então lhe ofereceu o pequeno buquê. Afirmou que esperaria pela volta dela e deu o melhor de si para acalmá-la e encorajá-la.

***

Saiu de seus devaneios quando Flavinha estacionou o carro. Estavam diante de um café e a amiga a levou para dentro, fazendo com que se sentasse e pedindo, sem aceitar reclamações, um cappuccino para cada uma delas. Enquanto aguardavam o pedido, sentiu que a amiga segurava sua mão e levantou os olhos para ela.

– Como é que você tá?

Clara não sabia exatamente como responder. Tentou encontrar palavras mas o seu corpo reagiu mais prontamente: os lábios se comprimiram um contra o outro e a cabeça balançou em negativa, ao mesmo tempo em que lágrimas se formavam nos olhos que passaram a encarar o tampo da mesa. Não tinha certeza de que haveria palavras para explicar o que sentia.

Flavinha manteve o silêncio compreensivo que apenas os amigos sabem garantir. E apenas depois que o garçom lhes trouxe as xícaras, depois do primeiro gole quente e reconfortante, Clara falou:

– Eu não sei mais ficar sem ela...

– Você não está “sem” a Marina, Clara. Você só vai ficar longe dela um tempo.

Flavinha tomou as rédeas da conversa. Contou como havia sido o fim de semana em Santa Teresa, o quanto havia sido necessário que ela cuidasse de Marina. Falou sobre a conversa da véspera, em que a fotógrafa contara parte do que havia acontecido, e quis saber o restante. A mãe de Ivan então explicou o que a fotógrafa tivera receio de contar. O sexo intenso na sala do apartamento no Leblon, que teria servido como reconciliação e a revelação de que Duda havia intercedido junto à fotógrafa. A resistência de Marina em conversar e esclarecer a situação, desde as acusações até o motivo de acreditar na top model e não em Clara.

– O pior é que agora eu tô aqui e ela vai ficar lá, sozinha. Pior, com a Vanessa – Clara fechou os olhos e inspirou fundo –Eu tenho certeza que ela vai tentar se aproximar, eu sei que ela não desistiu da Marina ainda.

Se arrependeu quase no mesmo instante em que falou. Olhou para a amiga e ela encarava a mesa como se fosse um objeto desconhecido. Quis se desculpar.

– Desculpa, amiga, eu sei que vocês estão tentando se entender... Eu não devia falar assim da Vanessa, vocês tão juntas e...

Flávia voltou a olhar para a morena e interrompeu o que ela dizia. Disse que não havia nada de que se desculpar. E de repente, pôs-se a desabafar, como já havia feitp outras vezes. Desde que se oferecera para ajudar Clara e a tranquilizara quanto às dúvidas em relação ao sexo com Marina, havia se formado entre as duas um elo de confiança.

Clara ouviu atentamente o que Flavinha tinha para contar. Sobre como ela tinha ficado incomodada com o comportamento da ruiva desde a festa de Gisele. Como Vanessa a deixara de lado para ficar junto de Marina e o que a ouvira dizer para a fotógrafa durante todo o tempo em que a morena estevivera ausente. Vanessa, a amiga contou, juntamente com Branca, tinha provocado e desestabilizado a fotógrafa, valendo-se do incômodo que a artista sentia naquela noite por conta do sumiço de Clara.

Saber que o surto de ciúme tinha sido causado pelas insinuações, pelo veneno de Vanessa, dez brotar dentro da morena uma raiva que até então ela não sabia que era capaz de sentir. Mas Flávia tinha mais para contar: estivera ao lado de Marina durante todo o final de semana e percebera como ela evitava Vanessa. Acreditava que estivesse arrependida de ter dado ouvidos à ruiva. Contou sobre outras ocasiões em que ouvira as duas sócias haviam discutido por conta das insinuações que Vanessa fazia acerca da morena, e que em todas elas a fotógrafa sempre tinha defendido a namorada.

– Ela nunca vai desistir, né? Primeiro dizia que eu tava brincando, enrolando a Marina, que nunca ia acontecer nada entre a gente porque eu não teria coragem de ficar com uma mulher, de assumir isso na minha vida – Clara falava com raiva, amassando na mão direita um guardanapo de papel com a mesma vontade que apertaria o pescoço de Vanessa naquele momento – Mas que vaca! Aproveitou que a Marina tava frágil e ferrou com tudo! Aposto que ela queria, o tempo todo, garantir que eu não fosse pra exposição, e ela conseguiu. Agora tá lá, se insinuando, tentando seduzir a MINHA NAMORADA! — enquanto dava voz aos pensamentos raivosos, Clara se agitava, a cabeça e os olhos se movimentavam junto com os pensamentos e, por alguns instantes ela se esqueceu que não estava sozinha. Até que seus olhos encontraram novamente os de Flavinha, que estavam marejados. Então ela se calou, sabendo que havia mais para ouvir.

– Clara, a Marina não tinha como não levar a Vanessa no seu lugar. Nós temos trabalho agendado, eu tinha que ficar pra fazer as fotos... E a Gisele, além de inexperiente, tem a faculdade – Clara permaneceu calada – O pior foi ver a Vanessa tentando convencer a Marina de que não era preciso reservar mais um quarto, quando ela avisou que você não ia mais – nesse ponto a morena levantou o rosto, arqueando uma sobrancelha, numa interrogação muda, e a amiga a tranquilizou – Mas fica tranquila, a Marina fez questão de ficar separada da Vanessa. Eu mesma fiz a reserva.

Clara questionou a amiga sobre como era possível que ela continuasse tendo esperanças em relação a Vanessa, como ela podia não se incomodar com as coisas que a ruiva fazia para ficar junto da fotógrafa. E Flávia começou a chorar, enquanto contava sobre a noite anterior, quando pela primeira vez, desde a festa de Gisele, ela e Vanessa tinham conversado a sós.

Em silêncio, a morena deu a volta na mesa e sentou-se ao lado de Flávia, passando o braço pelos ombros da amiga e apoiando a cabeça dela em seu ombro. Da mesa onde estavam quase não podiam ser vistar, então deixou que ela chorasse enquanto contava sobre como Vanessa estivera em seu quarto no meio da noite, como ela deitara em sua cama e procurara pelo seu corpo.

“Depois de tudo que fez, como ela podia ter coragem de me procurar? Ela tinha acabado de tentar passar a noite no quarto da Marina... E aí foi pro meu quarto, quis ficar comigo...”

Flavinha contou da discussão que tinham tido. Ela estava ferida, e demonstrou isso para a ruiva. Vanessa apenas dissera que nunca tinha lhe prometido nada, e insistido que elas poderiam, ao menos, ter um pouco de diversão naquela noite, como despedida.

Contou como ela havia confrontado a ruiva, dizendo o quanto era sórdido tudo que ela havia feito contra o relacionamento de Clara e Marina. Como ela estava decepcionada. E como não estava mais disposta a tentar cativá-la, conquistá-la. Que desde o começo tinha sabido que não seria fácil, que sabia que Vanessa ainda gostava da fotógrafa, mas não tinha podido escolher não gostar dela.

– Mas agora acabou, Clara. Eu falei isso pra ela ontem e não tem como voltar atrás, porque eu não posso alimentar nenhum sentimento por uma pessoa sem caráter. O que ela fez com vocês foi maldade, foi de propósito.

Flavinha levou Clara até o Leblon. Desde o desabafo sobre o fim do que a amiga tentara viver com Vanessa, elas não haviam voltado a falar dos problemas da morena. Voltaram a isso quando Flávia perguntou se poderia contar com sua ajuda no estúdio durante a ausência de Marina.

– Você continua trabalhando com a gente, né?

Quando ouviu a morena responder “Por enquanto sim”, Flavia quis mais detalhes e a conversa delas continuou no apartamento de Clara.

***

A despeito das três garrafas de vinho que dividira com as amigas, Clara não conseguia dormir. Pouco depois de entrar em casa, com Flavinha em seus calcanhares, Ivan chegou da escola, trazendo Duda, a quem a morena não via desde o domingo, consigo. Os dois haviam se encontrado no elevador e o menino contara a mãe desistira da viagem com Marina. Preocupada, a modelo decidira checar o que havia acontecido.

Nada do que as três pretendiam discutir era assunto para os ouvidos do garoto, A sorte da noite foi a ligação de Helena, avisando a irmã que Rosa faria para o jantar o picadinho de que Ivan gostava e, por isso, após o banho o pequeno tomou o elevador até o apartamento da tia.

A primeira a falar foi Duda. Queria saber o motivo de Clara estar no Rio e não em Londres, com Marina. Quem respondeu sobre essa parte foi Flávia, já que Clara havia levantado para pegar o vinho e as taças e fingira não ouvir a pergunta.

– Clara, eu não acredito que você fez isso!

A morena se virou, ainda segurando a porta do armário:

– Quem não acredita sou eu. Você não devia ter feito isso. Não podia ter ido lá falar com ela.

Pelo olhar de Flávia, Clara havia percebido o temor de que uma nova tempestade tivesse início. Mas ela não se lembrava de alguma vez ter brigado com a mulata.

– Clarinha, eu só queria ajudar. Poxa, vocês brigaram por minha causa, eu achei que...

– Não foi por sua causa – a morena interrompera, pousando o a garrafa e as três taças sobre a mesa. Estendeu o sacarrolhas para Flavinha e voltou para a cozinha para procurar alguns petiscos – Foi por várias coisas, ENTRE elas o fato de eu ter me esquecido de avisar que ia me atrasar pra festa.

– E esse atraso foi culpa de quem? Minha, né dona Clara! — a mulata insistira, caminhando atrás dela – Eu tinha que tentar …

– Não tinha que tentar nada! — Clara, virando-se para a amiga, segurou as mãos dela – Alguma vez eu fui capaz de te deixar chorando sozinha? — Duda sacudiu a cabeça negativamente – Se formos começar a procurar culpados, a primeira é aquela louca da sua mãe, que falou aquelas coisas absurdas pra você.

Duda ainda tentara explicar o que fora fazer em Santa Teresa, mas a morena não permitiu que ela contasse do seu encontro com Marina. A mulata insistiu, mas Clara foi taxativa ao dizer que o que quer que houvesse para ser dito sobre aquilo deveria ser dito entre ela e Marina. Elas conversariam quando a artista voltasse, apenas elas duas.

– Muita gente já falou muito sobre nós e deu no que deu.

A mulata ainda insistira mais uma vez, antes de revirar os olhos e entregar os pontos, chamando-a de mula empacada e cabeça dura. E então foi a vez de Flavinha questioná-la sobre o que haviam começado a falar no carro. E, um tanto arrependida de não falar primeiro a Marina sobre aquilo, Clara se abriu com as amigas, falando do e-mail que recebera no estúdio.

– O Léo não sabia bem onde me encontrar, apenas sabia que eu tava com a Marina e trabalhava com ela. Foi muita sorte eu ver a mensagem dele antes da Marina e da Vanessa.

Léo, o rapaz com quem havia trabalhado antes de Ivan nascer e que reencontrara como dono de um charmoso restaurante onde jantara duas ou três vezes com a namorada, tinha feito a ela uma proposta: queria que Clara fosse sua sommellière, que trabalhasse com ele. Ela sentia vontade de aceitar, mas disse a ele que somente poderia conversar sobre o assunto quando voltasse de Londres, após a exposição.

Contou como a fragilidade de Marina frente aos problemas com o estúdio e a insegurança dela em relação à exposição tinham feito com que preferisse adiar a conversa para depois da estréia. Agora tinha tantas coisas para resolver quando a fotógrafa voltasse que nem sabia por onde deveria começar.

Uma garrafa de vinho se foi enquanto falavam sobre isso e a segunda ficou vazia enquanto falavam da decisão de Flavinha de afastar-se de Vanessa. E, aberta a terceira e última, Flávia quis saber porque, afinal, Duda procurara a morena aos prantos na noite da festa de Gisele. Não havia qualquer malícia em sua pergunta e a Clara pareceu que ela apenas pretendia desviar de si a atenção, evitando assim voltar às lágrimas daquela tarde, evitando falar de Vanessa.

Quando a mulata começava a falar, Virgílio tocou a campainha. Clara pegou o filho adormecido dos braços do cunhado e agradeceu. Deixou as amigas conversando enquanto levava o garoto para dentro e o acordava para escovar os dentes e vestir o pijama. Sabia o que Duda tinha para contar. E sabia que Flavinha também ficaria chocada.

Quando voltou para a sala, a mulata ainda não havia terminado. Tinha os olhos vermelhos, porém não chorava. Flávia, por outro lado, já sensibilizada o suficiente por seus próprios problemas e pelo vinho, deixava que algumas lágrimas tímidas escorressem.

Clara também tinha chorado pela amiga, tinha precisado refazer sua maquiagem naquela noite. Não imaginava uma mãe que pudesse tratar tão mal uma filha como a velha louca fazia com Duda. Mas daquela vez tinha sido pior: a mulata tinha ido ao apartamento da mãe para pagar o salário da enfermeira. Apesar de nunca ter se sentido amada e cuidada por aquela mulher, importava-se em garantir que tivesse conforto e cuidado. E recebera em retribuição uma chuva de impropérios gratuitos.

Claro, a mulata dizia, já estava acostumada. Mas daquela vez a velha batera mais forte. Além das ofensas usuais, das quais “aberração” era uma das palavras mais leves, naquela noite ela havia dito que o que acontecera a Francesca, a falecida mulher de Duda, havia sido um castigo. “Seu castigo é esse. Ela morreu sofrendo e é isso que é o certo. Se você se enroscar com outra sapatão, vai acontecer de novo. Por que é errado o que você faz, e você vai sentir isso na pele. Vocês todas são imundas e essa doença de vocês só vai trazer mais doença pro mundo. É o seu castigo, sua infeliz, ver essas suas amantes morrerem.”

– Anos de terapia, e ela conseguiu me abalar – Duda respirou fundo – Mas não vou deixar que aconteça de novo.

Olhando para as amigas, Clara tinha comentado que só podia agradecer pela família que tinha. Afinal, apesar da surpresa, mãe, irmãos e cunhado tinham demonstrado apoio à sua decisão de se divorciar e seguir um novo caminho. Todos tinham demonstrado disposição de acolher Marina. E Duda concordara, a família Fernandes era mesmo especial.

– É a sua família também, você sabe. Você é mais uma das filhas da dona Chica, sempre vai ser. Esquece aquela louca.

Flavia apenas observara a cena, demonstrando alguma surpresa quando Duda mencionou o quanto havia temido que a família que a acolhera desde sempre também se voltasse contra ela quando soubesse de sua sexualidade. O quanto temera perder sua irmã.

***

Não conseguiu dormir. As lembranças da noite deram lugar às lembranças da despedida apressada, naguele saguão barulhento do aeroporto. O abraço apertado entre elas fora sincero. Suas palavras de incentivo e a promessa de esperar pela volta da fotógrafa também. Ela vira incertezas nos olhos escuros, e torcia para ter conseguido amenizá-las. Sabia que nada do que tinham para resolver seria resolvido antes da volta de Marina ao Brasil. Não sabia se a fotógrafa iria telefonar, fazer qualquer contato. Decidiu que esperaria por uma atitude dela, respeitaria o seu tempo.

Notas finais
Oi? Ainda tem alguém lendo essa fic? Espero que sim!