Notas iniciais
Oi, gente. Aqui mais um capítulo pra vocês, dessa vez um pouco maior que o habitual. Obrigada pelos comentários do último capítulo, é muito bom saber que estou acertando com a história. Aproveitem o capítulo desse fim de semana!

No primeiro dia em Londres Marina por várias vezes pensou em ligar para Clara. Tinham chegado no meio da madrugada e seguido logo para o hotel. Desvencilhar-se de Vanessa não tinha sido tão difícil, fosse porque a ruiva estivesse cansada da viagem, fosse porque ela se ressentia do silêncio imposto pela fotógrafa.

A artista procurou descansar, mas encontrou dificuldade. Adormecera com a ajuda de duas doses de uísque, consumidas à meia luz, sozinha no quarto. E mesmo assim acordara cedo. Sabia que era ainda mais cedo no Rio, a diferença no fuso horário fazia com que os relógios de Londres estivessem três horas à frente. Clara devia estar dormindo.

Vestiu-se e saiu para as ruas londrinas, percorrendo a pé trajetos que lhe eram familiares, procurando algum prazer nesse reencontro com a cidade que tanto lhe agradava. Mas só conseguia pensar em como gostaria de mostrar tudo aquilo à morena. Depois de duas horas, com o humor sombrio, voltou para o hotel e seguiu para o restaurante, para tomar o café da manhã.

Dispensou o tradicional english breakfast: não tinha apetite algum e a ideia de encarar salsichas e bacon lhe pareceu péssima. Pediu apenas o café preto, que tomava puro, sem adoçar. Um leve sorriso lhe veio aos lábios quando lembrou que Clara também preferia o café assim, sem nada. Será que ela já estava de pé?

Foi assim que Vanessa a encontrou. A ruiva sentou-se à sua frente e comentou sobre o sorriso, dizendo que o seu humor parecia bem melhor.

– Nada como uma viagem pra você se animar, né, Marina? Então, o que a gente vai fazer hoje?

Marina não queria fazer nada. Não com Vanessa. Dessa vez cuidou para que suas palavras não soassem ríspidas ao dispensar sua companhia. Elas estariam em contato constante nas próximas semanas, precisavam manter uma convivência minimamente agradável. Como o único compromisso daquele primeiro dia era o jantar de boas vindas oferecido pelos sócios da galeria onde seriam expostas as suas obras, Marina preferiu dizer a Vanessa que ainda estava cansada e pretendia descansar em seu quarto. Se a ruiva estivesse disposta, poderia verificar como andavam os preparativos da exposição. Caso ela preferisse, poderia deixar para o dia seguinte, sem problema.

Já na suíte, encarou por diversas vezes o celular, mas não encontrou coragem para ligar para Clara. Não saberia o que dizer. Imaginar uma conversa qualquer, sem que o desentendimento que tiveram fosse esclarecido parecia tão fácil quanto assistir TV com uma vaca na frente da tela. As palavras de Flávia ecoavam em sua cabeça: “Não dá pra resolver isso por telefone, por mensagem. Vocês precisam conversar, mas tem que ser olho no olho.”

Sem saber muito bem o que fazer, deixou que as horas passassem, enquanto repassava a agenda de entrevistas que Clara havia montado e verificava seu e-mail pessoal. No meio da tarde decidiu tentar relaxar na piscina. Esse fora o diferencial que a fizera optar por aquele hotel: uma piscina coberta e aquecida onde ela e Clara poderiam mergulhar a qualquer momento do dia ou da noite. Agora, sem a assistente, torcia para não ter companhia alguma na água.

***

Em Santa Teresa, o primeiro dia de ausência de Marina e Vanessa foi um tanto tumultuado. A sessão de fotos para publicidade começara cedo e os modelos eram quatro crianças com aproximadamente dois anos. Se não bastasse o barulho das crianças, que hora gritavam de alegria, ora choravam de sono, fome ou só por ouvir o choro uma da outra, havia ainda o séquito de mães e babás. Clara teve bastante do que se ocupar, utilizando o melhor que podia seus dotes maternais para tranquilizar tanto as crianças quanto Flávia. De ressaca, a amiga estivera várias vezes a ponto de estrangular uma das mães dos pequenos modelos.

Terminaram as fotos perto das três da tarde, afinal foram vários os intervalos para mamadeiras, papinhas e troca de fraldas. Quando todos, modelos, mães e babás, se retiraram, as duas morenas se jogaram no chão, exaustas. Flávia teria voltado logo ao trabalho se Clara permitisse, mas isso não aconteceu. A assistente foi até a cozinha em busca de algo para almoçar e obrigou a amiga a comer também. Insistiu com ela que carboidratos ajudavam a curar a ressaca.

Para encerrar o dia, Clara tratou de desmontar o cenário utilizado e guardar os equipamentos enquanto Flávia começava o trabalho de edição das fotos. A pupila de Marina queria muito corresponder à confiança que a artista depositara nela.

Clara se perguntava se devia ou não indagar sobre a noite anterior: Pela manhã o porteiro lhe entregara as chaves do carro de Flavinha, dizendo que ela havia ido de carona para casa. Mas antes que conseguisse decidir se tocava ou não no assunto, a amiga falou:

– Você devia ouvir a Duda. Sobre a conversa dela com a Marina, sabe.

Clara não respondeu de imediato. Imaginou se a mulata teria contado o teor da conversa para Flávia. Não seria surpresa se elas tivessem falado daquilo enquanto uma levava a outra até Santa Teresa.

– Você podia ter dormido lá em casa ontem – a assistente mudou de assunto, deliberadamente – Podia ter contado que não conseguia dirigir.

– Caramba – Flavinha arremessou uma almofada na morena – A Duda tem razão, você é uma mula empacada mesmo!

Clara deu de ombros e arremessou a almofada de volta:

– Eu já disse que isso é uma conversa minha com a Marina – a morena sentou ao lado da amiga – Já teve muita gente falando, muito palpite. A gente tem que se entender uma com a outra, só nós duas.

– Teve gente falando sim, mas só pra atrapalhar, Clara. Teve Vanessa, Branca, eu sei disso. Mas a gente só tá querendo ajudar. Deixa de ser teimosa, caramba!

A morena não cedeu. Realmente não queria intermediários entre ela e a fotógrafa. Mas concordou que precisava de ajuda. Intuindo que a namorada provavelmente não iria procurá-la durante a viagem, pediu que Flavinha se certificasse que ela estava bem e que lhe contasse se algo de errado se passasse com a amada. Depois que a amiga prometeu que o faria, Clara se despediu. Precisava buscar Ivan no colégio.

***

Marina passou pela porta e atravessou a suíte em direção à sacada. Vanessa seguiu seus passos, chamando seu nome.

– Sai daqui, Vanessa – apontou para a porta – você não podia ter feito isso sem me consultar, sai daqui agora!

A ruiva voltou a argumentar. Marina não conseguia ouvir, apenas a expulsou, uma, duas, várias vezes, até que ela finalmente se retirasse de seu quarto. Sozinha, a fotógrafa passou a mão no celular.

O primeiro impulso foi buscar o nome de Clara na agenda. Pensou que no Rio já seria meia noite. Ela estaria dormindo? Ivan com certeza já. Deixou o aparelho sobre a cama e serviu-se de uma dose de uísque. E então o celular tocou.

Depois de algumas palavras ela e Flávia trocaram o telefone pela internet. Marina desabafou com a amiga, contando sobre como Vanessa havia soltado a bomba durante o jantar com os sócios da galeria, impedindo qualquer discussão a respeito. Tudo já estava acertado com Cristine: dez dias depois de encerrar a exposição em Londres, outra mostra de suas obras teria início em Paris. Marina precisava apenas decidir quais fotos seriam apresentadas com exclusividade na França. Os donos da galeria londrina ficaram positivamente impressionados e a parabenizaram. Tinham certeza que ambos os eventos seriam um sucesso.

Estava furiosa. Vanessa devia tê-la consultado sobre a ida a Paris. Na mesa do restaurante, com esforço, tinha conseguido controlar a raiva, mas expulsara a ruiva de seu quarto apenas para ter certeza de que não tentaria arremessá-la pela janela. Flavinha argumentou, disse que uma segunda exposição na Europa era muito interessante para o estúdio, não só por conta do dinheiro que entraria, como também pela divulgação do seu nome. Mas Marina percebeu que, também para ela, a iniciativa de Vanessa não tinha sido uma boa notícia. Não sabia como estavam as coisas entre elas, mas tudo indicava que não corriam bem.

A fotógrafa se despediu da amiga apenas depois de pedir que ela contasse a novidade a Clara de maneira sutil, e que lhe dissesse, garantisse mesmo, que a ideia não havia sido sua. Quiz perguntar se ela tinha falado com Vanessa, saber como elas estavam, mas não teve coragem. Há muito tempo, antes mesmo de conhecer Clara, deixara claro que a ruiva não devia nutrir esperanças, mas ainda assim sentia alguma culpa pela forma como era desejada por ela. Era desconfortável saber que alguém tão doce quanto Flávia passava por aquela situação.

***

Clara saiu da cama cedo. Mais uma vez, quase não tinha dormido, apesar do esforço. Na véspera, quando trouxera o filho para casa, ela o deixara com Chica, para poder correr um pouco. Acreditava que o cansaço físico a faria “apagar” quando se deitasse, mas não funcionou.

O sol ainda não havia nascido. Se pudesse, sairia para correr novamente, afinal, uma hora o seu corpo haveria de pedir descanso. Como não podia deixar Ivan sozinho, preparou um café e sentou-se diante do notebook para ler as notícias.

***

Na véspera da abertura da exposição de Marina, Clara estava inquieta. Assim como a agenda de Marina, a pesquisa e arquivo de reportagens sobre ela eram responsabilidade sua. E desde que, uma semana antes, ela lera a notícia sobre Paris, pipocavam pequenas notas maldosas, onde a namorada aparecia em fotos em que aparentava bastante intimidade com Cristine, a galerista francesa.

O e-mail, oficializando a informação, foi enviado por Vanessa apenas no dia seguinte. Tanto Flavinha quanto Duda se esforçaram em minimizar a questão. Primeiro porque o contrato fora fechado por Vanessa, que, como sócia de Marina, tinha poderes para fazer isso. E depois, as duas argumentavam, era interessante para o estúdio e para Marina. Mas ninguém discordava quando Clara dizia que a intenção de Vanessa era mantê-la afastada da namorada pelo máximo de tempo possível. O que a morena não revelava a ninguém era o quanto as fotos de Marina e Cristine juntas a incomodava.

Desde a viagem da fotógrafa ela, Flavinha e Duda passavam juntas boa parte do tempo livre, exceto quando Clara corria. E ela corria muito. Na véspera do grande evento em Londres, ela foi para a rua antes que o sol nascesse, aproveitando que o filho passara a noite na casa do pai.

Foi durante a corrida que percebeu que não poderia deixar que o dia seguinte passasse em branco. Mesmo que não estivesse falando diariamente com a namorada como gostaria, mesmo que não tivessem se falado uma única vez desde a despedida (o que Flávia insistia em dizer que era uma perda do seu tempo, já que era obrigada a dar notícias de uma para a outra dia após dia), Clara sabia do peso que a inauguração teria e como a insegurança poderia deixar a jovem abalada. A visão do caminhão sendo descarregado próximo ao seu prédio fez com que soubesse o que fazer.

***

Marina chegou no hotel no começo da tarde. Tudo estava pronto para a sua grande noite e ela havia ido à galeria apenas para a entrevista que Clara havia agendado com um site bastante popular entre apreciadores de arte. “Ela sempre acerta. Eles vão postar a matéria hoje e atrair mais gente para a galeria.” Quando pensou que, devido à entrevista, mais gente veria suas obras daquela vez, voltou a ficar insegura. E se as fotos não fossem bem recebidas? O que aconteceria se fracassasse?

Olhou as horas e se perguntou se Vanessa já havia almoçado. Tinham se entendido. Como sempre acontecia, Marina a perdoara e a ruiva prometera agir de forma menos invasiva. Decidiu que ligaria para ela do seu quarto, tinha a intenção de comer no hotel, para ter mais tempo para se preparar para a noite.

Enquanto esperavam o serviço de quarto com as refeições, repassaram as providências para a exposição de Paris. Diante de Vanessa a fotógrafa buscava aparentar segurança, numa tentativa de evitar que ela se aproximasse demais. Foi a ruiva que atendeu a porta.

Em vez do almoço, o mensageiro do hotel trazia para ela um exuberante arranjo de flores. Girassóis. Vibrantes e intensos girassóis.

Vanessa colocou o arranjo sobre a mesa, apostando em uma gentileza da galeria, ou talvez do próprio hotel. E teria aberto o cartão, se a fotógrafa não tivesse sido rápida o bastante.

Dentro do pequeno envelope não encontrou um cartão comum. Era um bilhete, dobrado duas vezes e ela sorriu ao reconhecer a letra. A mensagem, com a delicada caligrafia de Clara havia sido escaneada, para que ela recebesse as palavras diretamente de sua morena.

“Marina

Daqui a pouco começa a sua grande virada. Tenho certeza de que será um grande sucesso, e peço, de coração, que você também acredite nisso. O seu trabalho é maravilhoso, todos vão reconhecer isso mais uma vez.

Essas flores são pra celebrar o seu sucesso e pra fazer você lembrar que, nessa noite, todos farão como fazem os girassóis: irão se mover na direção da luz que brilha em você, na direção do seu talento. Tenha certeza disso.

Que sua noite seja repleta de coisas boas e alegria.

Sua

Clarinha”

Na primeira vez que leu, Marina sentiu falta de uma palavra que demonstrasse carinho. Talvez um beijo, ou um abraço, enviados ao fim do bilhete. Então releu, devagar, e dessa vez cada palavra tocou seu coração: a morena, mesmo do outro lado do oceano, agia pra lhe dar a segurança de sempre, para protegê-la de suas próprias dúvidas. Isso, com toda certeza, era carinho, traduzido não apenas nas palavras, mas também nas flores escolhidas. Girassóis eram símbolo de alegria, de sucesso. “E de lealdade” — pensou.

Vanessa não precisou perguntar que havia enviado as flores. O olhar distante da fotógrafa tudo o que bastava como resposta, e a ruiva não fez qualquer comentário a respeito. Para que pudessem manter uma convivência pacífica, Marina havia exigido de Vanessa que não tocasse no nome da morena.

***

No dia da abertura da exposição em Londres, conforme o combinado, Ivan foi da escola para a casa do pai. Por sugestão de Flávia, ela e Clara acompanhariam juntas a repercussão do trabalho de Marina via internet. Valia tudo, desde as mentions do público no Twitter até os comentários de críticos e colecionadores que elas imaginavam que estariam presentes e que mantinham perfil em alguma rede social. Flavinha tinha também entrado em contato com a galeria e conseguido a promessa de que a manteriam informada a respeito das vendas das obras.

A intenção, naquela noite, era acompanhar e celebrar o sucesso da fotógrafa, e elas preferiram fazer esse acompanhamento em um restaurante, onde Duda, cada vez mais próxima do dia a dia do estúdio, se juntaria a elas.

Clara tinha razão ao dizer que a noite seria um sucesso. O primeiro aviso do informante de Flávia foi para contar que todas as cinco telas exclusivas haviam sido vendidas. Os comentários postados na internet elogiavam fervorosamente a sutileza e a perfeição com que Marina imprimia emoção em suas fotos. E quando estavam terminando o jantar receberam o aviso de que quase todas as obras haviam sido compradas naquela mesma noite.

Duda e Flavinha, como em todos os outros dias, desde a viagem de Marina, estavam dispostas a animar a morena. Se a mulata sempre fora a sua melhor amiga, Flávia se tornava cada vez mais especial com essa atitude, afinal para ela a viagem também marcara uma decepção e, mesmo assim, ela se preocupava em ajudá-la. Naquela noite, para celebrar as boas notícias, as duas decidiram esticar a noite em uma boate e, como não podia deixar de ser, insistiram até que Clara aceitasse ir com elas.

Juntas, as três se divertiram, ou quase isso. A morena, que não bebia desde o dia que se despedira de Marina, estava levemente zonza por conta do vinho consumido no jantar. Há dias que comia pouco, quase nada, e dormia poucas horas por noite, um sono estimulado pelas longas horas de corrida. O exercício físico parecia ser a única coisa capaz de diminuir a intensidade com que sentia a ausência da namorada.

Na boite acabou bebendo três drinks, o que, somado ao vinho, foi suficiente para um estrago considerável, agravado pelo fato de que a fotógrafa não fizera nenhum contato para falar das flores que lhe enviara. As amigas a levaram, zonza, para Santa Teresa, e Flavinha a levou para o quarto de Marina.

A princípio, Clara resistiu. O pouco de sensatez que ainda tinha em sua mente lhe dizia para não ficar ali. Mas não teve forças para sair, o cheiro da jovem que desejava ter ao seu lado fez com que cedesse, e aceitou dormir no quarto da fotógrafa. E quando se viu sozinha, abraçada ao travesseiro de Marina, a saudade, a tristeza, junto com a bebida, fizeram sair o choro contido de tantos dias, em soluços que podiam ser ouvidos do quarto de Flavinha.

***

Marina se portou como uma lady durante toda a noite. Melhor, como uma verdadeira diva. Contida, aceitou uma única taça do champanhe servido na galeria, para brindar com os sócios e posar para fotos. Cortês, atendeu às abordagens de jornalistas e fãs, sorriu para fotos. E, no seu íntimo, lamentava a ausência de Clara.

Ao final da noite, exausta de tanto exibir sorrisos vazios, desculpou-se com os galeristas e recusou o convite para jantar, alegando estar indisposta. Sugeriu que Vanessa seguisse com eles para a comemoração e tomou um táxi para voltar ao hotel.

Na suíte, os girassóis lhe sorriam. Foi ao banheiro, pôs a banheira para encher, jogando ali os sais de que tanto gostava. Despiu-se e deixou o corpo afundar sob a água quente. Saiu dali apenas quando sentiu que o frio já tocava sua pele.

Nua, ajeitou-se sob os cobertores, e só então decidiu pesquisar sobre a própria exposição, usando o celular para isso. Foi quando viu as mensagens de Flavinha. Várias delas narrando a repercussão positiva na internet, outras comentando o sucesso nas vendas. Mas foram as últimas que lhe chamaram a atenção: Flávia lhe enviara fotos, do jantar e da balada, onde, dizia ela, estavam comemorando o sucesso daquela noite.

Seus olhos só registraram a imagem de Clara, sem se importar com a presença de Duda e Flavinha nas fotos. Ampliou uma das imagens e tocou a tela com a mesma delicadeza que usaria para tocar o rosto da morena. Não pode deixar de notar que ela usava as mesmas roupas da primeira noite em que se amaram: a mesma camisa, jeans, botas. Estava linda.

As lembranças daquela noite tomaram toda a sua mente. Os beijos, as carícias. A primeira visão do corpo dourado absolutamente nu. E a forma como Clara, com os seios rígidos de tesão, a pele arrepiada, quis descobrir seu corpo e lhe dar prazer.

Sem perceber, soltou o celular. A cena daquele quarto iluminado como que pelo por do sol se desenrolava outra vez. De olhos fechados, perdeu-se em memórias, enquanto as mãos se perdiam em contato com seu corpo. E então reviveu o momento em que a morena a interrogou com o olhar, sem saber se devia ou não penetrá-la. Sentiu outra vez os dedos deslizando para dentro de si, primeiro devagar, reconhecendo o calor e a umidade, e em seguida mais rápidos, entrando e saindo firmes, exigentes, buscando todo o prazer que ela era capaz de sentir. E sentiu. O prazer chegou, em espasmos ofegantes e Marina, num reflexo criado pelo hábito, abriu os olhos para ver a namorada, que sempre buscava seu olhar na hora do gozo.

Enquanto os breves segundos de prazer se esvaiam sem seus dedos, tudo o que viu foi o quarto vazio. E diante de si a imagem da Clara feliz e sedutora da primeira vez foi substituída pela que ela vira nas fotos que recebera de Flávia: as roupas eram as mesmas, e Clara sorria nas fotos, ao mesmo tempo em que seus olhos sem brilho delatavam a tristeza oculta. E em meio aos últimos espasmos Marina começou a chorar. Retirou os dedos de dentro de si e abraçou o próprio corpo. Chorou, por si mesma e pela tristeza dos olhos da morena. Vencida pelo cansaço, adormeceu em posição fetal.

***

Na quinta-feira, três dias após o início da exposição, Marina se preparava para deixar a galeria após mais uma entrevista. Desde a abertura, tinha falado com diversos jornalistas, todos agendados antes mesmo que saísse do Brasil. A repercussão de suas obras tinha sido realmente boa, as obras haviam sido todas vendidas e, segundo Flávia, com quem falava quase diariamente, as propostas se multiplicavam, tanto para publicidade quanto para trabalhos artísticos sob encomenda. Como já tinha definido antes, Clara continuava com carta branca para descartar o que fosse desinteressante. O que sobrasse após essa triagem seria analisado pela fotógrafa e, se fosse o caso, negociado.

Óbvio que Flavinha não lhe falava apenas de trabalho. E, se as notícias profissionais eram boas, das outras ela não poderia dizer o mesmo. E a cada vez que se via só, seus pensamentos se perdiam justamente naquilo que lhe causava mais angústia, exatamente como acontecia naquele momento. Foi apenas quando esbarrou no homem à sua frente que o enxergou.

***

A chegada inesperada do pai conseguiu melhorar um pouco o ânimo da fotógrafa. Diogo simplesmente a abraçara no meio da galeria e a suspendera em seus braços como fazia quando ela era uma menina. Tempo suficiente para que ela encontrasse no perfume familiar um pouco de conforto e segurança.

Juntos, caminharam para a rua e se instalaram em um café próximo, enquanto Diogo elogiava o trabalho da filha e perguntava sobre os resultados da exposição. Apenas depois que o garçom trouxe os pedidos é que Marina teve a chance de questionar:

– Por que você não me avisou que vinha, pai? É sempre tão bom quando a gente se encontra.

– Marina, eu não ia vir. Mesmo morrendo de saudade, não dava pra vir. Você sabe que as empresas não estão numa boa fase, minha vida está corrida, um monte de reuniões o tempo todo...

Ela concordou. Sabia dos problemas do pai, os seus problemas no estúdio eram consequência daquilo. Mas, se ele não podia vir, como então estava ali, na sua frente?

Diogo respondeu lendo em voz alta direto da tela do celular:

“Sem dúvida as fotos apresentadas pela senhorita Meirelles nesta nova exposição são esplêndidas: conseguem captar e, ao mesmo tempo, transmitir com sutileza e exuberância várias das nuances de felicidade que um ser humano é capaz de sentir. É a melhor demonstração de sensibilidade e perfeição que um artista poderia almejar.

A artista, quando questionada acerca de sua inspiração, fez questão de frisar que as imagens foram inspiradas pela felicidade que lhe despertou uma pessoa muito especial. Infelizmente, para mim, pude verificar que o semblante da bela fotógrafa em nada lembrava o tema de suas fotos. A felicidade não a acompanhava, senão nas telas.”

***

Muito tempo já havia se passado desde a conversa com o pai, e Marina ainda pensava a respeito. Diogo, apesar de passar boa parte do tempo geograficamente distante, sempre estivera presente em sua vida. Desde a morte prematura da esposa ele assumira uma postura ainda mais afetuosa em relação à filha e fora o responsável por conversas que constrangeriam a maioria dos homens. Ele a tinha acompanhado bem de perto na passagem da infância para a adolescência, tinha visto o desabrochar da sexualidade e acolhido a filha, tranquilizando-a quanto ao fato de ser diferente da maioria de suas amigas. Ele a tinha preparado para ser livre e bem resolvida. Jamais a havia questionado quanto às conquistas em série e a curta duração dos poucos relacionamentos que tivera. E sempre estivera lá, pronto para ajudá-la quando ela o procurasse.

Tinha sido assim no fim de seu relacionamento com Vanessa. Diogo sabia muito antes da fotógrafa que aquele namoro não seguiria em frente, ele via que a possessividade de uma e o espírito livre de outra apenas fariam com que uma delas sofresse, e essa era Vanessa. Mesmo sabendo disso, esperou que a filha enxergasse isso por conta própria.

Marina não tinha dúvidas do quanto era amada pelo pai. Mas dessa vez ele se superara. Por conta de um texto em um jornal, desmarcara compromissos urgentes e viajara de Genebra até Londres para vê-la. Como se já imaginasse o motivo da tristeza evidente da filha, logo quis saber de Clara. E ela desatou a falar, contou a história toda, falou de seus sentimentos, de suas dúvidas e seus receios. Sabia que em seguida seria a hora de ouvir, e ansiava por isso.

A conversa se estendeu do café até o hotel. Diogo havia se hospedado no mesmo endereço que a filha. Quando se separaram, no meio da tarde, Marina seguiu para o quarto, e lá ficou durante o resto do dia, refletindo sobre tudo que o pai lhe dissera. E, pouco antes das sete da noite, ela o recebeu com um sorriso confiante quando ele bateu à porta de seu quarto.

***

Clara se permitiu um percurso maior naquela manhã de sexta. Ivan estava com o pai e ela saiu cedo para a corrida, sem precisar se preocupar em chegar cedo ao trabalho, já que naquela manhã a agenda do estúdio estava livre. Durante uma hora e meia, correu como se pudesse deixar a tristeza para trás. Fez uma pausa para tomar uma garrafa d'água e observar o mar. E então começou a correr de volta ao ponto de partida.

Desde que Marina partira, Clara só afastava a tristeza em duas situações: correndo ou dormindo. E dormir era difícil, ela tinha se acostumado com aquele o corpo delicado enroscado no seu, a perna pesando sobre a sua. Com a troca de mensagens carinhosas de boa noite, quando dormiam separadas. Com a presença de Marina em sua vida. Sem isso, só lhe restava correr, para garantir que o corpo exigisse o descanso e a mantivesse apagada por algumas horas.

O percurso de volta levou mais tempo, quase duas horas. O sol já estava alto e o calor aumentava. Quando estava próxima do quiosque que sempre frequentava, e que era seu ponto de partida, reduziu o passo, chegando ao ritmo de caminhada. Enquanto andava, começou a tirar o casaco fino que usava, uma proteção leve contra o vento da manhã e que agora já incomodava. Amarrou a peça na cintura e parou, dobrando o corpo para a frente , apoiando as mãos nos joelhos. Outra vez, como vinha acontecendo com frequência, ela estava vendo Marina à sua frente. Enxergava a fotógrafa no estúdio, na rua, na praia.

Fechou os olhos e respirou fundo.Uma, duas, cinco vezes. E quando se ergueu e abriu os olhos, Marina ainda estava lá. Caminhando em sua direção.

Sem pensar, Clara foi ao encontro dela. Correndo, para encurtar a distância. E deixou seu corpo se chocar contra o dela com alguma força, enquanto a prendia em um abraço dolorido de saudade e se deixava abraçar também.Escondeu o rosto na curva do pescoço delicado, sentindo o cheiro da jovem, e não percebeu quando as lágrimas brotaram.

Notas finais
Hora de juntar essas duas de novo, né?