Luz dos meus olhos
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Clara e Ivan seguiram para o Leblon sem Marina. A morena estranhou quando o filho quis saber se ela estava melhor.
–A Marina falou que você tava com dor de cabeça e tomou remédio. Já passou?
Clara tranquilizou o filho e seguiu conversando com ele até em casa, ouvindo sobre o pesadelo e a forma como a namorada cuidara dele. Ficou surpresa e se perguntou o motivo de não ter sido acordada. Ajudou o garoto a separar o uniforme e preparar a mochila e o deixou no apartamento da irmã. Rosa o levaria para a escola, ela e Marina iriam buscá-lo.
Depois de voltar ao seu apartamento e trocar as roupas que usava desde a véspera, pôs-se no caminho de volta a Santa Teresa, tentando compreender os motivos da namorada para deixá-la dormir enquanto cuidava de seu filho. Não que isso a deixasse minimamente contrariada, pelo contrário: era reconfortante saber que Marina havia ganhado ganhado a confiança de Ivan e que se preocupava com o bem estar dele.
Estacionou no local de sempre e foi para o estúdio, dando meia volta logo que chegou à porta, ao perceber que apenas Flavinha e Vanessa estavam ali. Passou rapidamente pelo jardim e foi até a piscina, onde a fotógrafa, depois de vê-la, mergulhou, atravessando a água para chegar à mesma borda que ela.
Clara abriu a toalha que estava por ali e envolveu com ela o corpo da namorada, ao mesmo tempo em que lhe beijava a boca. Nos próximos dias, até a viagem, Marina não tinha nenhum compromisso agendado. Clara tinha apenas que checar os e-mails, agendando entrevistas que vinham sendo solicitadas em função da nova exposição e selecionando propostas de trabalho que pudessem interessar à fotógrafa. Também mantinha a atividade de divulgação, enviando pequenas notas à imprensa para aumentar o interesse pelas novas obras. Tudo isso poderia ser feito mais tarde e por isso as duas permaneceram a manhã toda na piscina, para onde a morena foi arrastada mesmo vestida.
Como se houvesse entre elas um pacto, apenas aproveitaram a tranquilidade da manhã, trocando carinhos e sorrisos até que se aproximasse a hora do almoço. Apenas quando subiram para o quarto, para tomar banho, surgiram os assuntos mais sérios. Marina contou o que tinha acontecido com Ivan durante a noite, antes mesmo que Clara tocasse no assunto. Enquanto a morena estava no chuveiro a fotógrafa procurava roupas que pudesse emprestar a ela e falava:
– Depois do que você me contou sobre o Cadu, eu fiquei sem saber o que fazer. Você sem roupa, o Ivan ali na porta. Aí eu inventei que você tava com dor de cabeça – explicou que não sabia o que fazer para evitar que o menino visse a mãe nua em sua cama e que pretendia evitar que qualquer questionamento por parte do menino viesse a criar problemas entre a namorada e o ex-marido. Quis se desculpar por ter agido sem que a morena pudesse concordar ou não.
–Hei! — Clara havia saído do banheiro e a abraçava pelas costas, beijando-lhe o ombro – Não precisa pedir desculpas! Eu gostei, sabia? — falou, colando seu rosto ao de Marina, mantendo o abraço.
A morena não conseguiu achar palavras para dizer o quanto a atitude da namorada a comovia. Ver Marina e Ivan se entendendo, ver a namorada cuidar do menino como ela própria cuidaria deixava Clara emocionada e fazia ter ainda mais certeza de que seu coração havia feito a escolha certa ao se apaixonar por Marina. Sem saber como expressar a felicidade que sentia, envolveu a fotógrafa em seus braços e a beijou delicada, porém intensamente, tentando transmitir, através do contato de sua pele com a da namorada, o turbilhão de sentimentos que lhe tomava o peito.
Marina se surpreendeu quando, após interromper o beijo, ainda abraçada ao seu corpo, Clara quis saber de Vanessa.
–Ontem ela passou o dia com aquela cara de poucos amigos... Ela só fica emburrada assim, tanto tempo, quando briga com você. Foi por minha causa de novo, não foi?
A fotógrafa se desvencilhou do abraço ao ouvir as palavras da namorada. Voltou ao banheiro, pôs-se a escovar os cabelos diante da pia, procurando uma forma de não responder. Mas também não queria mentir e quando a morena parou atrás dela, apoiando o ombro na parede e procurando seus olhos no espelho, optou por dizer a verdade. Ou parte dela.
– Clarinha, cê sabe como a é a Van... Ela às vezes fala demais e isso me irrita.
– Quer me contar o que aconteceu? O que foi que ela disse?
***
Marina preferia não falar. Não via motivo para contar para a namorada sobre as insinuações que ouvira da ruiva. Vanessa a decepcionava a cada tentativa de reaproximação, sempre pelo mesmo motivo: os ciúmes que sentia de Clara e as tentativas que fazia de convencê-la a se afastar da morena. Ela já havia pedido com delicadeza, já havia exigido com firmeza, já havia até ameaçado se afastar da ex-namorada, a quem amava como amiga. Mas Vanessa parecia decidida a não respeitar o seu relacionamento.
No dia anterior elas haviam discutido logo no café da manhã. Tinham passado a madrugada conversando à beira da piscina e Marina havia contado sobre como estava o seu namoro, como a família de Clara a deixava à vontade, como esperava que Ivan aceitasse o envolvimento delas. Foi inevitável também que falassem de Duda, de como ela, desde que chegara ao Brasil, orbitava à volta de Clara. Verdade que fora Vanessa a trazer o nome da mulata para a conversa, mas Marina acabou contando das histórias que ouvira sobre a amizade das duas na casa de Chica. Contou também do incidente no prédio de Clara, quando a “velha louca” que era a mãe de Duda, ofendera a sua namorada.
Vanessa havia ouvido pacientemente, como qualquer amiga faria. Todavia, horas depois, quando ambas já haviam dormido um pouco e se preparavam para trabalhar, a ruiva havia achado uma forma de retomar a conversa e insinuar, ou melhor, afirmar com todas as letras, que ela deveria tomar cuidado com a proximidade entre Clara e a ex-top model. “Fala sério, Marina, essas duas tem uma história de adolescente. Agora que a Clarinha – usava o apelido de forma jocosa – saiu do armário, nada mais normal do que a Duda querer reviver essa historinha!”
Marina tinha negado, tinha afirmado que as duas eram amigas, apenas isso. E Vanessa apenas rira, jogando nela o que tinha ouvido na conversa da noite anterior: que elas dormiam juntas, não cada uma em uma cama, mas em colchões juntados no chão. E terminara provocando, questionando qual a garota lésbica que nunca tinha levado uma “amiga” para dormir em casa. “Você mesma, assim como eu, deu a desculpa de que tinha que estudar pra prova ou fazer trabalho de escola pra isso, pra dormir com uma menina, ou eu tô mentindo?”
Marina havia ficado furiosa. Tinha gritado, colocado o dedo na cara de Vanessa, exigindo que ela não falasse de Clara daquela forma. A chamara de invejosa, dito que ela era incapaz de seguir em frente, de amar alguém de verdade e por isso se corroía em amargura, enquanto a ruiva afirmava que ela estava cega, que não queria acreditar porque estava enfeitiçada pela ideia de viver um “conto de fadas gay”. Elas teriam chegado à agressão física se Flavinha não tivesse interferido e tirado Vanessa do local.
Mas a fotógrafa não queria contar sobre as acusações de Vanessa para Clara. A morena já tinha seus problemas com o ex-marido e isso bastava. Elas logo viajariam para Londres e Marina queria se concentrar na exposição. Vanessa era um problema só dela e ela resolveria quando voltassem. E de toda forma, Marina não queria deixar transparecer que a presença de Duda a deixava incomodada, afinal, não achava que fosse uma boa ideia explicar seus motivos para Clara.
***
– Ah, amor – pousou a escova sobre a bancada e encarou os olhos castanhos no espelho, antes de se virar para a morena – A Vanessa tem aquele jeito estourado, você sabe. E tentou me botar pra baixo, sabe, meio que me humilhou... Ela tem ciúme de você.
Disse apenas isso e abraçou a namorada. Como Marina imaginava que aconteceria, Clara não fez mais perguntas, apenas acariciou as suas costas e, ajeitando uma mecha de seu cabelo, sussurrou em seu ouvido:
Eu tô do seu lado. Pro que você precisar. Sempre.
***
O almoço acabou acontecendo de forma tranquila. As duas contaram com a companhia de Flavinha e Vanessa e durante um bom tempo Clara e Flávia conversaram animadamente enquanto Marina e a ruiva apenas respondiam o que as duas perguntavam e evitavam olhar uma para a outra. O climão acabou quando as duas assistentes começaram a falar sobre a festa de aniversário de Gisele, que seria no dia seguinte. Foi quando Marina se lembrou que ainda não havia comprado o presente da garota e Vanessa riu, dizendo que a fotógrafa sempre deixava tudo para a última hora. Entre brincadeiras e provocações, decidiram que iriam as quatro naquela tarde ao shopping resolver o problema.
– Mas só depois que eu olhar seu e-mail, amor – Clara afirmou – Com a notícia da exposição os pedidos de entrevista estão bombando. Isso fora as propostas de trabalho.
A morena resolveu o seu trabalho em pouco mais de quarenta minutos, agendando as entrevistas para depois da abertura da exposição, algumas pessoalmente e outras via internet. As propostas de trabalho ela separava entre as que eram delicada e imediatamente recusadas e as que a própria Marina analisaria: a fotógrafa confiava nela para reconhecer o que não gostaria de fazer. O que chamou a atenção de Clara foi encontrar, no e-mail do estúdio, uma mensagem pessoal para ela própria.
Fale com o autor