Luz dos meus olhos
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Clara fazia a maquiagem e, mentalmente, ensaiava a conversa que pretendia ter com a namorada. Às vezes sacudia a cabeça, como se tentasse fazer o assunto sair de sua mente, afinal naquela noite ela certamente não falaria sobre o e-mail que havia recebido. A noite era de festa, o momento seria de festejar o aniversário de Gisele e se divertir. Mesmo assim, ela se preocupava, antecipadamente, com o momento de falar com Marina, com a reação que ela teria. Tanto que, desde a tarde anterior, ainda não havia conseguido tocar no assunto. “Talvez seja melhor esperar a exposição. Depois da abertura. É isso, depois da abertura em Londres eu falo com ela. ”
Os pensamentos foram interrompidos pelo som do interfone, com o aviso do porteiro de que Cadu havia chegado para buscar Ivan. A morena agradeceu mentalmente que o ex-marido não tivesse subido até o apartamento, não queria vê-lo depois da discussão que tinham tido. Despediu-se do filho, que ficaria com o pai até a noite seguinte, e o acompanhou até o elevador.
As portas se abriram quando ela dava um último beijo no filho, abaixada diante dele. Percebeu que alguém saiu em silêncio do elevador, mas não tirou seus olhos do garoto até que as portas se fecharam, mal conseguia assimilar a ideia de que viajaria para fora do pais e o deixaria no Rio. Apenas quando se virou para voltar para dentro de casa é que percebeu que era Duda quem havia chegado e a encarava, parada ali no corredor.
Não houve nenhum pensamento, nenhuma reflexão: quando Clara viu que o rosto da mulata estava molhado e que as lágrimas escorriam sem intervalo, puxou-a pela mão para um abraço e a conduziu para dentro de seu apartamento.
Clara não pensou em mais nada enquanto cuidava de Duda: ofereceu água, que foi recusada. A amiga preferiu uma taça de vinho, que logo se tornaram duas, e depois a garrafa ficou sobre a mesa de centro, ao alcance da mão da mulata, que bebia e chorava enquanto contava o que havia passado no apartamento da mãe, dois andares abaixo de onde estavam.
***
Marina xingou mentalmente, enquanto se esforçava para não arremessar o celular na parede. Já havia ligado quatro vezes para Clara, mandado mensagens, e nada de resposta. Zangada, bufou enquanto procurava na agenda do aparelho o telefone fixo da namorada, número que quase nunca usava.
Sem outra alternativa, esperou enquanto o telefone chamava uma, duas, quatro vezes. Até que ouviu a voz rouca de Clara atendendo: “Alô?”
Quando desligou não pode evitar a sensação de frustração. Encarou Vanessa, que a olhava de volta, com a chave do carro na mão. Mesmo chateada, ela não tinha ido para a festa de Gisele no carro da ruiva, tinha dito que ela podia ir na frente, levando Flavinha consigo. Cerca de dez minutos depois, saiu guiando o próprio carro: o mesmo em que tinha levado Clara para jantar na véspera daquele dia em que a morena invadiu seu quarto e se declarou. Não seguiu direto para a casa de Branca, preferiu passar antes pelo caminho que fizera com a morena naquela noite, deixando a memória trazer todo o carinho e todas as palavras não ditas de volta ao seu coração. Quando chegou à casa de Branca muito depois das amigas, havia reencontrado um pouco de sua tranquilidade. O suficiente para conseguir disfarçar a sua insatisfação com o que Clara tinha feito. Quem a olhasse diria que era uma mulher que tinha consciência de sua beleza e que estava satisfeita em exercer o poder de sedução que lhe era inerente. Poderiam até dizer que ela se bastava sozinha, ao observarem-na caminhando sedutoramente pela festa em busca da jovem aniversariante. Diriam até que o comentário maldoso de Branca não a atingia:
– Ah, Marina! Mas a namoradinha já tá te deixando sair sozinha? Ou será que o gostinho de novidade já passou e ela resolveu procurar novos ares?
A mãe de Gisele não perdeu a oportunidade de destilar vários outros comentários maldosos. Da sexualidade de Marina e da “mudança” na condição sexual de Clara até a possibilidade de que a exposição em Londres pudesse não ser suficiente para recuperar as finanças do estúdio, Branca falou várias coisas desagradáveis para a fotógrafa, diante de outros convidados, sem que ninguém pudesse interferir ou minimizar o efeito de suas palavras. Até que Vanessa apareceu e levou Marina consigo.
***
Quando Clara desceu do táxi, diante da luxuosa casa de Branca, saiu em disparada, procurando por Marina. Sentia-se mal por não ter cumprido o combinado com a namorada, de encontrá-la em Santa Teresa para irem juntas à festa, sabia que precisava se desculpar. Depois de esbarrar em Flavinha, que fotografava tudo, e Gisele, a quem cumprimentou pelo aniversário, encontrou a fotógrafa em um canto, próxima à pista de dança, com um copo de uísque na mão.
A morena sabia que tinha falhado com Marina. E se sentia mal por isso. Naquela tarde elas não tinham nenhum compromisso de trabalho e decidiram descansar para aproveitar melhor a festa. Apesar da insistência da namorada, a morena preferiu ir para casa. Afinal, se elas ficassem juntas, descansar seria a única coisa que não fariam. Tinham combinado que Clara voltaria para Santa Teresa para que ela e Marina fossem juntas para a festa de Gisele, por volta das nove da noite.
Clara não percebera o tempo passar enquanto cuidava de Duda. Apenas quando atendeu Marina no telefone fixo é que percebeu o quanto estava atrasada. Quando olhou o celular, já dentro do táxi, viu quatro chamadas perdidas e mais três mensagens da namorada. Desde então sua mente trabalhava para encontrar as palavras certas para se desculpar. E quando viu a fotógrafa em pé, ao lado de Vanessa, soube ler nos olhos dela o estrago que havia causado. Inspirou profundamente, sabendo que precisaria ser hábil para contornar a situação e abriu o sorriso, que era sempre verdadeiro quando ela tinha Marina diante de si.
– Amor – levou a mão à cintura da namorada e colou seus lábios nos dela, num delicado selinho – desculpa, eu não...
– Depois a gente fala disso, Clara – a fotógrafa respondeu num tom neutro, indecifrável para a morena, antes de pegá-la pela mão – Vem, vamos dançar.
Marina evitou durante toda a noite ficar a sós com a morena e Clara notou isso. Notou também que ela estava bebendo mais que o normal e algumas vezes se perguntou se deveria impedi-la ou levá-la para casa. Todavia, a festa seguia animada e na única tentativa da assistente de ir para casa, perto das cinco da manhã, Marina respondera de forma seca:
– Ainda é cedo, Clara – e saiu com Vanessa para buscar mais uma bebida.
Eram quase seis horas quando as duas saíram da casa de Branca, no carro da fotógrafa. Clara dirigia, afinal Marina não tinha qualquer condição de fazê-lo, estava visivelmente alcoolizada. Não de uma forma que pudesse causar qualquer embaraço, mas o suficiente para que ela própria não discutisse quando a morena exigiu as chaves do veículo.
Fizeram o trajeto para Santa Teresa quase em silêncio. A morena tentou conversar sobre a festa, sobre o quanto Gisele parecia feliz com a trégua entre seus pais durante a festa, sobre como ficara surpresa pelo fato de Branca se comportar e aceitar em silêncio a presença de sua mãe junto de Ricardo na festa e nas fotos. Desistiu de falar quando percebeu que a fotógrafa não responderia nada além de “ã hã” e “um hum”.
Marina saiu do carro assim que Clara estacionou e caminhou, tão rápido quanto era possível com o tanto que havia bebido e os saltos altos, para dentro da casa. A morena tratou de segui-la o mais rápido possível, ignorando os possíveis significados da atitude da namorada: preocupava-se com a possibilidade de que ela se atrapalhasse e caísse da escada. Isso já havia acontecido antes, quando Clara ainda lutava contra o amor que Marina lhe despertara, e ela quase havia morrido de preocupação.
Alcançou Marina ainda na sala. Diante da escada, apoiada na parede, ela lutava com a fivela de uma das sandálias. Clara se ajoelhou, em silêncio, e soltou as tiras em ambos os pés, deixando-a descalça. Segurou-a pela cintura e a ajudou a subir a escada em segurança. A ternura que sentia ao ver a namorada assim frágil, precisando de cuidados, se misturava à angústia que lhe apertava o peito, uma sensação de que algo ruim estava por vir.
Assim que chegaram ao alto da escada a fotógrafa se desvencilhou das mãos de Clara e avançou rapidamente em direção ao quarto, entrando no banheiro. A morena ainda tentou abrir a porta para ver se Marina precisava de ajuda, se estava passando mal, mas a porta estava trancada. Bateu, chamou, mas não obteve resposta.
A preocupação diminui quando ouviu ruído de água vindo do banheiro. Depois de algum tempo a porta se abriu e a fotógrafa voltou para o quarto, ainda com o vestido da festa, mas de rosto lavado, sem maquiagem. Ignorou a morena e caminhou até o closet, onde trocou o vestido por uma camisola.
– Amor – Clara chamou quando Marina voltou para o quarto – você tá bem?
– Bem? Você tá preocupada comigo? Só agora? — o tom era irônico.
– Marina, desculpa, eu perdi a hora mas eu... – Clara queria contar o que havia acontecido, mas Marina a impediu de continuar.
– Você o quê, Clara? Você pode explicar, é isso? — Marina elevou a voz – Dá pra explicar que alguém esquece de buscar a namorada pra uma festa porque perdeu a hora com uma amiguinha?
– Marina – Clara ergueu as mãos, como quem pede calma, e falou baixo – calma. Não é assim...
– Calma? Como é que eu vou ficar calma? Você me ignora, me deixa esperando sem nenhuma explicação pra ficar com “A” Eduarda Campana e quer que eu fique calma?
A morena abriu a boca para responder, mas o baque pela forma como Marina falou a deixou sem palavras, apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, numa forma de negar o que sabia que a namorada ia dizer. Mas Marina não disse nada, apenas sentou-se na lateral da cama, de costas para a morena.
Clara subiu na cama e aproximou-se das costas da namorada, envolvendo-a em seus braços, colando seu rosto ao dela. Marina se soltou bruscamente e ficou em pé, de frente para ela:
–Clara, me fala a verdade!
–Que verdade, amor? — a assistente saiu da cama, ficando diante de Marina, olhando em seus olhos.
– O que você tem com a Duda? — a fotógrafa tentava evitar, mas as lágrimas já brilhavam em seus olhos, a voz já tremia com a vontade de chorar.
– Eu não tenho nada com a Duda, Marina – Clara tentou se aproximar, mas a fotógrafa se esquivou do seu toque.
– Não mente pra mim, Clara! – dessa vez Marina gritou – Você tá o tempo todo grudada com ela, esquece do que combinou comigo pra ficar com ela... — a fotógrafa andava de um lado para outro. Não viu que havia lágrimas no rosto da morena.
– Marina, olha pra mim. Por favor.
A voz suave e trêmula fez a fotógrafa parar. Viu que Clara chorava, de maneira contida. Inspirou fundo, lutando para evitar o próprio choro.
– Não é mentira, Marina – Clara falou baixo, num tom tranquilizador – Eu não tenho nada com a Duda. Ela é minha amiga, desde sempre – aproximou-se da namorada – É só isso.
– Para de mentir, Clara! Para com isso! — Marina gritava outra vez, fazendo Clara se afastar, andando de costas – Fala a verdade, fala o que você teve com ela lá atrás, antes dela sair do Brasil. Fala pra mim o que tá acontecendo agora! — agitando os braços, a fotógrafa se aproximou, parando próxima ao rosto da morena e tornou a gritar – Eu tenho o direito de saber se você tá querendo voltar pra sua namoradinha de infância!
Clara respirava de forma ofegante, lutando para conter os soluços que teimavam em vir junto das lágrimas, tentando de alguma forma manter seus olhos ligados aos da namorada, enquanto respondia:
– Marina, eu já disse que a Duda é minha amiga, sempre foi. E só. Não tem nada além dis...
– É mentira! — O grito de Marina poderia acordar todos os empregados da casa – Você tá mentindo pra mim!
Clara entregou os pontos. Nunca insistira tanto numa discussão, com ninguém, nem mesmo durante todos os anos que passara com o ex-marido, e agora percebia que continuar insistindo não levaria a nada: Marina não ouviria. De costas, recuou em direção à porta, sem tirar os olhos da namorada. O choro, contra a sua vontade, tornou-se incontrolável, enquanto se virava para sair do quarto. Sentiu que Marina segurava seu braço, enquanto falava de maneira autoritária:
– Clara, você não vai sair daqui agora! Essa conversa ainda não acabou. Eu quero saber a verdade!
A morena conteve o impulso de sacudir o braço para se soltar. Com cuidado, usou a mão livre para fazer com que a namorada a soltasse, enquanto a olhava nos olhos e dizia:
– Isso não é uma conversa, nunca foi. Você já decidiu qual é a verdade que você acredita – limpou o rosto com as mãos – Você não quer me ouvir. Eu... Eu vou pra casa...
Clara disse a última frase já correndo escada abaixo. Percebeu que Marina gritou seu nome, mas não parou. Disparou para a saída, sem ver muito bem o que fazia. Precisava sair dali.
***
Flávia não sabia mais o que fazer. Sentada em um banco na praia, passava as mãos pelo cabelo de Clara e tentava pensar em palavras para acalmá-la, mas não sabia o que dizer. A morena continuava chorando de maneira quase convulsiva, deixando a amiga penalizada, principalmente por não saber como ajudar.
Tinha esbarrado em Clara na escada de pedras do jardim. O sol já havia nascido e ela havia chegado em casa havia algum tempo, trazendo consigo uma Vanessa absolutamente incapaz de andar sozinha até a cama. Pacientemente, levou a ruiva até o quarto e a colocou na cama. Ouvi-la balbuciar o nome de Marina nessa hora a deixara um pouco abalada e por isso preferiu trocar a roupa de festa e sair para tomar um ar, para refletir sobre as apostas que tinha feito em sua vida.
No esbarrão da escada ela e Clara foram ao chão. Clara havia se levantado e pedido desculpas, tentando sair rapidamente, mas Flávia viu que algo não estava bem. Não deixou que ela saísse pelo portão, para procurar um táxi, ela não tinha condições de sair sozinha. Quis levá-la para dentro de casa, mas Clara se recusou, aos prantos e com isso a única opção de Flavinha foi colocar a amiga no carro e levá-la embora dali.
A única coisa que Clara disse, depois de sair de Santa Teresa, foi que não queria ir para casa. Se o porteiro a visse chegar naquele estado logo toda a família Fernandes estaria em sua porta. Flávia perguntou o que poderia fazer para que ela se acalmasse e a morena pediu para ir para a praia. A mesma onde sempre corria pelas manhãs, onde observava o mar quando precisava se acalmar.
Apesar de Clara ter dito que ela podia deixá-la ali mesmo, Flavinha estava preocupada com o estado da amiga e não quis se afastar. Todavia o cansaço pela noite de festa já cobrava seu preço e a morena ainda chorava de uma forma que dava pena. Foi nessa hora que sentiu uma mão tocar seu ombro delicadamente.
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