Luz dos meus olhos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo 3
Clara sustentou o olhar de Cadu. Inspirou profundamente e, sem precisar refletir no que faria, deixou que a verdade saísse de seus lábios:
– Eu queria, eu tava tentando achar um jeito certo pra te contar, mas se você quer falar disso agora, eu não vou fugir não – Clara manteve seu olhar fixo nos olhos de Cadu, mas não conseguia decifrar a expressão que eles continham – Eu não posso fingir que nada mudou, Cadu.
– Para de enrolar – a voz dele agora era quase um sussurro, mas a raiva era perceptível – Responde logo, o que você sente por ela?
– AMOR, Cadu, é amor o que eu sinto!
– E você fala isso assim, como se isso fosse motivo de orgulho? Eu devo aplaudir essa declaração? – Finalmente ele a soltou. Passou as mãos pelos cabelos e voltou a encará-la, como se esperasse que ela desmentisse o que tinha acabado de dizer.
Ela sentia a importância, o peso das palavras que havia acabado de dizer. Teria mil vezes preferido que Marina fosse a primeira pessoa a ouvi-la falar do amor que a consumia, mas aquela conversa com o marido não poderia ser adiada. Aquela conversa seria definitiva para a vida deles dois. Inspirou profundamente, fechando os olhos. Quando soltou o ar, abriu os olhos novamente e voltou a olhar para ele, que ainda a encarava.
– Cadu, eu já disse, eu amo a Marina. Foi algo que simplesmente aconteceu e...
– E o quê, Clara? – Ele a interrompeu, agora gritando novamente – E você resolveu me trair com uma mulher, enquanto eu nem podia sair de casa porque tava doente? Que sujeira é essa?
– Olha só, eu já disse antes, Cadu, e vou falar de novo – apontou o dedo para o rosto dele – Eu nunca te traí. Eu tô aqui, me segurando há meses, cheguei a evitar a Marina, justamente pra não te trair. E se eu não te traí foi só por causa da minha consciência, por causa do respeito que eu tenho pela nossa história e por você – Clara respirou fundo outra vez, não queria permitir que as lágrimas descessem pelo seu rosto. Cadu esboçou um sorriso sarcástico:
– Respeito? Você tá falando em respeito? Acha que eu vou acreditar nesse papinho de que você não me traiu, de que respeita a nossa história? Aposto que tá há meses de sacanagem com aquela lá!
– Aquela lá não. O nome dela é Marina – Clara subiu a voz, já exaltada –, e quer saber? Você pode não acreditar, mas se eu não traí, se eu não tive nada com ela até agora foi só por respeito sim, porque vontade, DESEJO, isso não faltou não. Desejo mesmo, daqueles que até queim...
A surpresa foi tanta que ela levou tempo até conseguir levar a mão ao rosto, que ardia. Nunca imaginou que Cadu poderia agredir alguém, ainda menos ela própria. Ao tocar o rosto sentiu a mão ficar úmida e percebeu que as lágrimas agora caíam contra a sua vontade. Viu que ele se aproximava, os olhos confusos, as mãos estendidas com as palmas para cima, como quem pede alguma coisa. Não conseguiu compreender o que ele dizia, parecia um pedido de desculpas, mas ela não entendia. De repente, sem pensar no que fazia, desviou dele e correu para a porta, saindo pelo corredor e correndo pelas escadas até a rua.
As lágrimas embaçavam sua visão, os soluços tentavam escapar do peito. Estava parada na calçada, diante do prédio, perdida. Aos poucos conseguiu controlar a respiração. Pensou que o filho poderia passar por ali a qualquer momento. A lembrança do menino fez clarear a sua mente. Conseguiu conter as lágrimas e afastou-se. Não permitiria que ele desconfiasse do que havia acontecido entre os pais.
Só havia um lugar pra onde queria ir, uma única pessoa com quem gostaria de falar naquele momento. Verificou os bolsos, mas já sabia que não tinha dinheiro para tomar um táxi até Santa Teresa: quando saia para correr levava apenas o suficiente para uma água de coco. Não queria voltar para casa nem mesmo para buscar a bolsa. Decidiu, por fim, caminhar até a casa de leilões que pertencia à família. Helena, sua irmã mais velha, que administrava o negócio, já devia estar por lá.
Ao parar na porta, Clara não precisou fazer nenhum esforço para que a irmã se afastasse discretamente dos empregados e fosse até ela. A ligação entre as duas era tão forte que, mesmo de longe, só pela postura de Clara, Helena notou que algo não estava bem. Aproximou-se e puxou-a pela mão até o escritório, sem uma única palavra. Sabia que ela precisava de conforto, e ali, a sós, elas se abraçaram. Clara voltou a chorar.
Helena manteve o abraço por algum tempo, afagando a cabeça da irmã. Finalmente afastou-se, e a olhou, abrindo a boca numa exclamação surpresa, ao ver a marca avermelhada, bem desenhada, de uma mão, na bochecha esquerda. Aquilo devia ter doido, mas pelo estado de Clara, sabia que a dor maior estava dentro dela.
– Clara, quem fez isso com você? Foi o Cadu? — Viu a irmã balançar a cabeça afirmativamente – Meu Deus, mas porque? O que houve? Como foi que isso aconteceu?
Delicadamente, Clara explicou à irmã que não estava preparada para aquela conversa. Compreensiva, Helena não insistiu. Entregou-lhe cinco vezes mais dinheiro do que ela pedira e não perguntou aonde iria. Não que precisasse perguntar. Há meses que sabia que Marina era a causa da ansiedade e também da tranquilidade da irmã mais nova. Resolveu ligar ela mesma para um taxista de sua confiança.
Clara deixou que a irmã chamasse o táxi e aguardou por ele ali, amparada pelo seu abraço protetor. Esforçou-se para conter o choro, não queria surgir diante de Marina com os olhos inchados e vermelhos. Ainda assim, quando o carro partiu em direção ao bairro de Santa Teresa, olhando pela janela aquela paisagem tão cotidiana se afastar, sentiu as lágrimas correndo novamente pelo rosto. Estavam a três quilômetros do seu destino quando decidiu descer. Pagou a corrida e agradeceu ao motorista, que demonstrou preocupação com o seu estado, mas concordou em deixá-la quando ela argumentou que apenas precisava de ar fresco e que por isso seguiria o restante do caminho a pé.
Quando o táxi partiu e Clara se viu só, sentiu certo alívio. Sozinha ali, naquela calçada, soube com toda certeza o motivo pelo qual estava indo procurar Marina, o mesmo motivo pelo qual estava chorando até agora. Inspirou profundamente e, sem precisar pensar no que fazia, saiu correndo o mais rápido possível na direção que o coração lhe apontava.
Depois de passar pelo portão, que Marina sempre insistia em deixar destrancado, Clara atravessou o jardim correndo. Parou brevemente, quando chegou ao ponto em que poderia seguir para o estúdio ou para a casa. Sorriu, ofegante. Marina detestava acordar tão cedo, não estaria no estúdio àquela hora. Disparou para dentro da casa, sem perceber que Vanessa a observava da piscina. Diante da escada que levaria ao quarto de Marina respirou fundo mais uma vez, então subiu os degraus de dois em dois e, vendo a porta aberta, entrou sem bater, sem pensar em pedir licença.
Não viu Marina de imediato. A cama estava vazia, ainda desfeita. Clara estava ofegante, sentia que seu rosto queimava do esforço recente. Provavelmente, pensou, estava toda vermelha, por conta da corrida e do sol. Sabia que estava suando, sentia a pele úmida. E todas essas sensações pioraram muito quando viu Marina entrando no quarto, vinda do banheiro. Sentiu que o coração ia finalmente saltar boca afora: a fotógrafa vinha ainda com os cabelos molhados, enrolada numa toalha, na sua direção.
Num primeiro momento, não ouviu o que Marina dizia. Perdeu-se na beleza daquela mulher sedutora, que àquela hora da manhã, sem maquiagem e com os cabelos molhados, com os olhos ainda sonolentos, apresentava um ar quase inocente que contrastava com o corpo perfeito, de pele branca e delicada que era destacado pela toalha vermelho vinho. Perdeu-se na visão daqueles lábios entreabertos que se aproximavam e que... sim, que falavam com ela. Marina queria saber o que ela fazia ali tão cedo, tão ofegante, tão...
–Descabelada, suada e vermelha, é isso que você ia dizer? — Clara perguntou, ensaiando um sorriso zombeteiro.
– Bem, eu não ia falar nada – Marina se aproximou e, delicadamente, tirou do rosto de Clara uma mecha de cabelos que havia grudado ali – seu cabelo tá, humm, engraçado – riu, e estava tão perto Clara pode sentir o ar vibrar em seu rosto. Usava uma das mãos para manter a toalha presa na altura dos seios – Mas fala, Clarinha, resolveu praticar esportes aqui, no meu quarto?
Marina parou de rir quando viu a intensidade dos olhos de Clara. Os olhos castanhos pareciam profundos, misteriosos. Sentiu que Clara usava ambas as mãos para envolver seu rosto e viu que os olhos dela aproximando-se cada vez mais, sem deixar de olhar para dentro dos seus próprios. Depois de segundos de um silêncio terrivelmente sério, Clara falou:
– Eu tive que vir. Eu precisava vir aqui pra te pedir desculpas...
– Mas por...
– Shiiii – delicadamente, Clara levou o indicador aos lábios de Marina – me deixa falar – pediu num sussurro – eu preciso pedir desculpas, sabe. Eu vim aqui pra dizer que eu te amo e preciso pedir perdão por não ter te contado isso antes. – Baixou ainda mais a voz – Você deveria ter sido a primeira a saber. Eu tô amando você, Marina. Eu te amo!
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