Luz dos meus olhos
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10
Clara caminhou pelo jardim. Seus pensamentos só não estavam mais agitados que o seu coração. Ainda ouvia as palavras de Marina. “Meu amor pela Clara é definitivo”. Sorriu e levou dois dedos aos lábios. “Tenho todo o tempo do mundo, toda a minha vida pra viver ao lado dela. Eu sei que ela é a mulher que eu sempre procurei, a minha vida inteira!” Clara mordeu o indicador para não gritar de alegria. Sim, Marina já havia dito que a amava, muitas vezes dissera isso. Mas ouvi-la colocar as coisas assim, nessas palavras, para outra pessoa, ainda mais quando essa pessoa era Vanessa... Aquilo mostrava que sua namorada – “Namorada? É, ela falou em namoro!” – Clara sorriu outra vez – “Namorada sim!”- sua namorada a queria pra vida toda. Tanto quanto ela queria.
Sorrindo, já tranquila em relação ao que acontecera na noite anterior, voltou ao estúdio, anunciando de longe a sua chegada, ao chamar pela fotógrafa. Levava uma flor roubada do jardim.
Quando Clara entrou, Marina desceu a escada quase aos pulos e se jogou em seus braços e tomou seus lábios em um beijo carregado de carinho, ao qual Clara correspondeu feliz. Decidiram passar o dia por ali mesmo, curtindo a piscina. Clara, em tão pouco tempo, já se habituara a sempre levar roupa de banho e protetor solar para a casa de Marina. Subiram para o quarto de Marina, a fim de trocar a roupa.
Quando desceram, encontraram Vanessa e Flavinha na sala. Marina disse que iriam aproveitar a piscina e, para amenizar o clima com Vanessa, convidou as duas para acompanha-las.
– Não, obrigada – Vanessa evitou olhar para as duas – Nós estávamos combinando de ir ao shopping.
– Eu fico com vocês. O dia tá lindo pra curtir o sol.
– Mas Flávia, a gente não ia sair? – Vanessa pareceu não entender nada.
– Eu não disse que ia. Prefiro ficar na piscina mesmo. Isso, claro, se não for atrapalhar vocês – Flavinha deu uma piscadinha para Clara e Marina, que, ao mesmo tempo, estenderam as mãos para ela.
– Você não vai atrapalhar nada. Pelo contrário, nós três podemos nos divertir muito – Clara disse.
– Vanessa – Marina chamou quando a ruiva estava se afastando, furiosa – se quiser deixar o seu mau humor de lado, a gente aceita a sua companhia também, tá? – Ouvindo isso, Clara precisou se esforçar pra não rir, enquanto a ruiva saia bufando, absolutamente furiosa.
Nem Clara nem Flavinha comentaram com Marina sobre a conversa que tinham ouvido, como se tivessem feito um pacto silencioso quando saíram do estúdio sem serem notadas. Apesar da conversa fluir leve e de estarem as três se divertindo, Clara sabia que para a outra as palavras que tinham ouvido traziam um sentimento bastante diferente daquela alegria que ela própria sentia e lamentava por isso.
Quando já estavam sentadas à sombra, prontas para almoçar, o celular de Marina tocou. Ela se desculpou, precisava atender o pai. Ele já havia ligado outras vezes naquela semana e ela não conseguira atendê-lo. Afastou-se enquanto falava e Clara observou enquanto ela se afastava, usando um provocante biquíni preto, fio dental, em contraste com a delicada pele branca.
– Clara, você vai acabar babando! – Flavinha brincou, fazendo com que seu rosto corasse imediatamente. Clara soltou um pequeno suspiro e se virou para Flavinha. Os olhos dela estavam tristes, por mais que ela brincasse.
– Você tá bem? – Flavinha baixou os olhos para as próprias mãos ao ouvir a pergunta – Quer conversar?
Ela demorou a olhar de novo para Clara. Por fim, disse que seria bom falar com alguém, mas que não queria ter aquela conversa ali. Não queria ser surpreendida por Vanessa, Marina ou qualquer outra pessoa que acompanhasse o cotidiano delas.
– Tudo bem – Clara assentiu – quando você quiser, a gente pode marcar, sei lá, um café ou um chope.
Dizendo que precisava descansar um pouco, Flavinha resolveu entrar no meio da tarde. Assim que se viram sozinhas, as duas se juntaram num abraço estreito. Tinham mantido uma certa distância o dia todo, para não chatear a amiga.
Presa naquele abraço, Marina tinha total consciência da sua pele em contato com a de Clara. Estavam tão próximas que sentia a pele das suas coxas, da sua barriga, de parte dos seus seios, tocando seu corpo e incendiando o seu sangue. Quando Clara a beijou, mordendo de leve o seu lábio inferior para em seguida invadir sua boca e juntar suas línguas, Marina sentiu que o ar fugia de seus pulmões e que seu sexo começava a pulsar. Sentia a umidade se formando entre as suas pernas. Precisava sair daquele abraço para não avançar demais as coisas, mas não queria sair dos braços de Clara. Quando interromperam o beijo, analisou a situação. Desceu suas mãos pelas costas de Clara, provocando-a com um dos dedos ao longo da coluna. Sente que fazia isso a morena respirava fundo, estufava o peito e arqueava o troco para a frente, o que fazia com que comprimisse os seios e a barriga contra o seu corpo. Quando os seios de Clara se comprimiram contra os seus, sentiu a pulsação de seu sexo aumentar. Sentiu também a respiração acelerada dela e as batidas aceleradas de seu coração. – “Nossa, parece até que um passarinho, de tão agitado” – ela pensou.
Precisava parar agora. Controlar o desejo estava se tornando quase impossível. Segurou firme na cintura de Clara, que ainda a envolvia com seus braços. Sorriu pensando se ela ficaria zangada e, antes que ela perguntasse o motivo do sorriso, forçou uma queda lateral, jogando seus corpos na piscina.
O resto do dia passou rápido. Entre beijos, pequenas batalhas com água, brincadeiras e carícias, ficaram na piscina até o sol baixar no horizonte, quando Clara decidiu voltar para casa.
Ela ainda não tinha chegado ao Leblon quando seu celular tocou. Pensando que fosse o filho, ou mesmo Marina, atendeu sem olhar para o visor. Era Flavinha. Sim, ela queria conversar. Perguntou se podiam tomar um chope. Clara concordou, pediu um tempo para se arrumar. Gostava da morena, ainda que não fossem tão próximas.
***
Quando Clara chegou ao bar, não precisou procurar muito. Sentada em uma das mesas da calçada, Flávia parecia à vontade, embora tivesse o olhar distante. Cumprimentou-a com os habituais beijinhos no rosto e sentou-se.
Flávia realmente precisava conversar. Contou que seu interesse por Vanessa começara muito antes que a ruiva lhe desse qualquer atenção. Que terminara um namoro por conta desse interesse, mesmo antes de saber teria alguma chance. Que sim, sabia desde o começo que o envolvimento delas tinha sido pensado por Vanessa para provocar ciúmes em Marina e que pensara que conseguiria fazê-la se apaixonar.
Ver aquela jovem se abrindo quase fez Clara chorar. Era óbvio que ela estava magoada com o que ouvira pela manhã. E o pior, para Clara, era não poder fazer nada para ajudá-la. Lamentou por isso.
– Relaxa, Clara. Você já fez muito me ouvindo. Sabe, eu e a Van temos os mesmos amigos, se não fosse você eu não ia ter com quem desabafar.
Pediram mais chope. Depois de algum tempo em silêncio, quando o garçom trouxe os copos, Flavinha voltou a falar.
– Clara, você e a Marina... Ela tava falando sério ou só queria provocar a Vanessa? Vocês ainda não..?
Clara engasgou. Quase cuspiu o chope. Totalmente vermelha, olhou para a morena à sua frente.
– Uau! Direta você, né? – Tentou brincar para desviar o assunto.
– Clara, olha só... – Flávia hesitou um pouco. Tomou um gole e continuou – Eu não chamei você aqui pra falar só de mim – Clara continuou em silêncio e ela considerou aquilo como um sinal para continuar – Você tá insegura, não tá? É por isso que você e a Marina nunca..?
Clara ficou em dúvida. Será que deveria confiar naquela mulher? E se Vanessa ficasse sabendo das suas dúvidas? De toda forma, será que ela poderia ajudá-la?
Decidiu arriscar. Afinal, Flavinha estava certa numa coisa: desabafar faz bem. E então ela falou de suas dúvidas, do medo que sentia de não conseguir dar prazer à namorada, do receio de se atrapalhar e fazer alguma bobagem quando fosse fazer amor com ela.
– Mas você tem tesão pela Marina? Tesão de verdade, não tem?
– Se eu tenho..? Nossa, se tenho! – mais à vontade, Clara riu e fez com que Flavinha risse também.
– Com tesão, a maior parte do problema tá resolvida. Sabe, Clara, tudo que você precisa saber antes de transar com a Marina é que... Bom, o que você precisa saber é que você tem a melhor professora de todas, é só prestar atenção.
A incredulidade transformou o rosto da Clara. Do que ela estava falando? Acaso Marina tinha tido um caso com ela? Que merda era aquela afinal?
– Clara? Oi? – Flávia estalou os dedos para despertá-la dos devaneios – Que cara é essa? Não tá pensando... – ela riu, divertida – Clara, deixa de ser louca! Eu não tô falando da Marina. E nem tô me oferecendo, antes que você pense mais bobagem – voltou a rir.
Clara riu também, notando o absurdo dos seus pensamentos. Riram as duas, um pouco pelos absurdos que Clara pensou e Flávia disse, outro tanto pelos chopes que haviam bebido. Finalmente pararam de rir, pediram mais bebida e voltaram ao assunto.
– Afinal, do que então você tá falando? E porque você quer me ajudar?
– Clara, eu quero ajudar porque eu gosto de você. E gosto da Marina também. E eu teria gostado muito que alguém tivesse me falado lá atrás o que eu tenho pra te dizer agora. Olha só, Clara, se você quer ser legal com a Marina quando vocês forem transar você só tem que lembrar que ela é mulher. Igual a você.
– Tá, legal, a Marina é uma mulher. Como eu não notei antes? –Clara brincou e as duas caíram na risada outra vez. Clara já estava pensando se o álcool estaria atrapalhando o raciocínio da jovem, quando ela finalmente se fez entender.
– Clara, me escuta! Pensa um pouco: a melhor pessoa pra ensinar como agradar uma mulher é sempre uma mulher. Nesse caso, a melhor pessoa pra te ensinar é você mesma.
– Eu? Como assim?
– Você, Clara, você mesma. Para pra pensar um pouco. Você conhece o seu corpo, sabe o que te agrada – Flávia agora falava de maneira envolvente, apaixonada e Clara sabia que era o assunto que a empolgava, não as pessoas, não ela e nem Marina – Clara, o corpo da Marina é igual ao seu. Você sabe como gosta de ser tocada? Como reage aos carinhos que te agradam? Pensa nisso, Clara. A Marina é tão mulher quanto você.
Clara ficou em silêncio por algum tempo, refletindo sobre o que ouvira. Lembrou-se de algumas carícias mais calientes que Marina tinha feito em seu corpo. Lembrava-se de tê-las retribuído, de ter tocado e beijado Marina e da expressão de desejo que surgira no rosto dela. Desistiu das lembranças quando percebeu que estava ficando excitada.
– Acho que vou ter que pensar nisso que você disse. – Ergueu as mãos sobre a mesa para a mulher a sua frente, que bateu nelas com as suas – Obrigada, Flavinha. Eu ainda não sei exatamente o que fazer, mas depois dessa conversa eu tô mais tranquila.
– Pode ficar tranquila sim. Pensa no que eu te disse e se solta, mulher. – Flavia soltou as mãos dela. Suspirou – Sabe, eu torço por vocês. – Abriu os braços para Clara – Amigas?
– Amigas, sim! – Clara a abraçou, contente não por ter conseguido uma nova amiga. Também estava feliz pela melhora no ânimo dessa nova amiga.
***
As palavras de Flavinha tinham mexido com a cabeça de Clara. Já passava das três da manhã e ela ainda não havia conseguido dormir. Seus pensamentos voavam das palavras da amiga para a conversa que ouvira entre Marina e Vanessa pela manhã e logo depois estavam em seus momentos com Marina. Sorriu ao lembrar-se daquela tarde, do momento em que teve o corpo dela todo junto do seu. A lembrança provocou a mesma sensação que a tomara naquela hora.
Voltou a pensar na conversa que tivera no bar. “O corpo da Marina é igual ao seu. Você sabe como gosta de ser tocada?” Sim, Clara sabia do que gostava. Não tinha tido ido pra cama com muitos homens, mas podia dizer que tinha aproveitado a vida antes de se casar. Tivera alguns namorados antes de Cadu, sua vida sexual não fora restrita ao ex-marido. Sabia como gostava que tocassem o seu corpo. E definitivamente, amava quando sentia Marina tocando o seu corpo, ainda que não tivessem tido um contato mais íntimo.
Reviu os beijos que vinham trocando, a boca da fotógrafa percorrendo seu pescoço, seu ombro. A forma como ela acariciava suas costas, deslizando um dedo ao longo de sua coluna. O calor que irradiava do corpo dela, atingindo sua pele quando se abraçavam. Com as lembranças dos carinhos que trocara com Marina, sentiu um arrepio percorrendo seu corpo e a excitação se alojando entre suas pernas. Fechou os olhos e deixou que sua mão escorregasse para dentro da calcinha.
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