Luz da minha vida
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O dia estava raiando quando a loira cortava as ruas de Weston em uma corrida ritmada. No exercício via uma forma de espairecer e colocar os pensamentos em ordem. Costumava sair para correr quase todos os dias, exceto quando tinha plantão na delegacia. Reduziu a velocidade ao enxergar a casa de Ruby, decidindo que pararia um pouquinho para conversar com a amiga. Como a morena morava em um apartamento sobre a casa da avó, Emma entrou pelo portão lateral da residência da senhora Lucas e retirou a chave que era ridiculamente guardada dentro de um vaso do quintal, ao lado da escada que dava para o apartamento acima da garagem.
Quando entrou notou que a televisão estava ligada em uma programação infantil e pôde ouvir gargalhada da amiga que, provavelmente, estava se divertindo com algum desenho idiota. Negou com a cabeça. Ruby era uma criançona. Mas para sua surpresa a atenção da amiga estava presa no aparelho celular em suas mãos, digitando rapidamente.
A loira caminhou no mais absoluto silêncio, cortesia de seu treinamento policial, parou atrás da amiga que estava toda relaxada em uma cadeira de praia e falou pertinho do ouvido da mulher.
— Posso saber com quem está falando?
A cena que se seguiu foi no mínimo cômica. Ruby deu o maior pulo da história da humanidade, o celular foi parar do outro lado da sala e Emma, bem… a loira estava jogada no chão de tanto rir.
— Sapatão dos infernos, eu vou te matar! — a morena tinha a mão sobre o seio esquerdo e ainda estava ofegante. Sentia que seu coração por pouco não havia saído pela boca.
— Falou a hétero. — zombou ainda rindo do semblante assustado de Ruby.
— Sou lésbica, filhinha. — provocou a amiga.
— Pois eu sou sapatão mesmo, “lésbica” parece nome de pomada. — deu de ombros. Elas tinham aquela brincadeira entre elas, já que na época da escola Emma havia sofrido bullying por ter assumido sua orientação sexual e, o simples joguete com Ruby havia ajudado a superar os momentos difíceis.
— Então, vai me dizer com quem ‘tava’ batendo papo para rir assim, feito uma hiena?
— Nem deveria te falar porque… Filha do capeta! Cadê me celular? — rugiu levantando rapidamente para procurar o aparelho que havia voado longe — Você vai pagar o conserto se a tela tiver trincado.
— Está aqui debaixo do balcão, criatura.— negou com a cabeça, entregando o aparelho para a amiga. — Nenhum arranhão, viu? Eu seria capaz de te dar um celular novo apenas para ver novamente a sua cara feia de susto.
— Idiota! — bufou, voltando a mexer no aparelho — Ah, não… Ela saiu! Já foi dormir. — suspirou tristonha.
— Há essa hora? — franziu o cenho — Ela trabalha a noite ou o que?
— Não, ela mora lá do outro lado do mundo. — gesticulou, sem vontade — Então, você sabe... Quando é manhã aqui, é noite lá e vice-versa.
— Olha só, quem diria… A pessoa que vivia debochando de mim por eu me relacionar com a Regina, apenas porque ela morava do outro lado do país. — cruzou os braços.
— Não, eu te zoava porque você era trouxa por não confessar a ela seus sentimentos, e pelo visto continua assim. — ergueu uma sobrancelha.
Emma se fez de desentendida e ficou calada, observando Ruby servir duas xícaras de café, lhe entregando uma. Se remexeu no banco improvisado, no qual estava sentada. Se tratava de um pedaço de tábua em cima de um galão de tinta.
— Cara, como é que você está conseguindo viver aqui? — disse a loira, passando a vista pelo apartamento todo quebrado e empoeirado por causa da reforma — Por que não volta para a casa da sua avó enquanto isso aqui está em obras?
— Porque seria como voltar atrás na minha decisão de independência. — disse como se fosse algo obvio.
— Grande independência. — debochou — Saiu de dentro da casa da avó para vir morar no quintal dela. Ruby, tem um monte de apartamento desocupado e você tem condições para alugar algum. Qual a dificuldade?
— Hey, um passo de cada vez, ok? — se defendeu — Mas não vem mudar de assunto, quero saber como está a vida de casada.
— Ah, quem me dera estar casada com aquela morena. — disse de forma sonhadora — Regina é maravilhosa, não só comigo, mas com Henry também. Quando estou com ela, sinto uma sensação de pertencimento, é como se tudo se encaixasse e fizesse sentido.
Ruby sorriu observando como os olhos da amiga brilhavam por apenas mencionar o nome da amada.
— Como você está em relação a gravidez? Sei que já conversamos sobre isso, porém agora as coisas estão ficando mais sérias.
— Pode parecer loucura para algumas pessoas, sabe? Mas eu realmente sinto um carinho muito grande por aquele bebê. — sorriu lembrando-se de Regina acariciando o ventre — Como poderia rejeitar o serzinho que é parte da mulher que eu amo? Juro que se ela me desse uma chance, eu casava e assumiria a criança, se ela permitisse.
— Certo, isso é muito bonito, torço por vocês, mas eu quero ver ação, loira! Me diga o que está fazendo para conquistar a bunduda? — deu de ombros ao receber um olhar fulminante da amiga.
— Deu para ficar reparando na bunda da minha mulher, foi?
— Credo, macho alfa! Mija logo na perna dela. — revirou os olhos — Olhar não tira pedaço.
— Como você é nojenta, Ruby. — fez uma careta de repulsa e arremessou um pedaço de torrada na morena.
— Emma, você está esperando o que? Aparecer outro embuste e tirá-la de você mais uma vez? — encarou a amiga que desviou o olhar. — Acorda, mulher! Eu não te criei assim não.
— É complicado, Rubs. — coçou a nuca — Ela acabou de sair de um relacionamento, o qual acabou da pior forma possível.
— Ela tem chorado por ele ou mencionado algo sobre o babaca?
— Não, quer dizer… nos primeiros dias a notei abatida, mas ela me disse que ainda estava impactada pela discussão que teve com a mãe.
— Entendo… — tamborilou os dedos na mesa. — Olha, Emm, a questão da traição foi pesada, todo mundo que já vivenciou uma situação dessas sabe o quanto a infidelidade dói, porém não dá para ficar arrastando correntes a vida toda. Veja bem, não estou dizendo para você se declarar de uma vez, mas também não pode ficar esperando as coisas acontecerem.
— Tenho receio que ela fuja, que vá embora quando souber dos meus sentimentos.
— Loira, não acho que a Regina faça algo do tipo, ok?! — tentou tranquilizar Swan — Vai com calma, comece a prestar atenção nela, tente perceber se ela envia alguns sinais. Você tem treinamento policial, deve ter aprendido algo sobre linguagem corporal.
— Eu não envio sinais. — franziu o cenho, pensativa.
— Faz-me rir! Você parece um semáforo ambulante quando está ao lado da Regina. — sorveu um gole de café — O que seus pais acharam dela?
— Ainda não os apresentei. — torceu a boca.
— Você brinca com o perigo, loira. Imagina a cara da sua mãe se ela vai te visitar e de repente dá de cara com a Regina lá!
— Eu sei, foi um lapso. Eu só pensei em acolher minha morena, deixá-la mais à vontade antes de apresentá-la à família. — suspirou — Dessa semana não passa.
— Ótimo, marca um churrasco e me chama.
— Que seja, folgada. — levantou-se, batendo as mãos nas coxas para tirar o excesso de poeira da roupa. — Já vou indo, Rubs. Obrigada pela conversa e pelo café.
— Você nem comeu nada, idiota! Enjoou da minha comida, foi?
— Nah, hoje é o dia de Regina cozinhar, além disso ela já deve estar me esperando para tomarmos o café da manhã juntas.
— Uhhh já vi quem manda na relação. — soltou uma risadinha debochada.
***
Emma retomou a corrida, mas dessa vez encurtou o percurso, pegando um atalho. Não queria deixar Regina esperando, além do mais, precisava apressar Henry para que o garoto não perdesse a carona do ônibus escolar.
Diminuiu o ritmo quando avistou sua casa há alguns metros, logo desviou pelos fundos, parando no quintal para começar uma série de abdominais. De repente a loira se sentiu vigiada. Baixou o volume da música eletrônica saía do iPod e continuou com os exercícios, porém a xerife agora estava concentrada em identificar o espião. Logo, notou os olhos de Regina sobre ela e imediatamente lembrou-se das palavras de Ruby. Será que…
A morena estava preparando uma jarra de suco de laranja quando, pela janela da cozinha, enxergou a xerife exercitando no pátio dos fundos. Aquela cena sempre desconcertava Regina de alguma forma, sentia-se arrepiar e um calor gostoso se apoderava de seu corpo ao observar loira praticando exercícios. A legging de lycra evidenciava as pernas bem torneadas assim como o pequeno top mostrava a barriga sequinha de Swan. E os braços? Ah, os braços fortes eram uma perdição, tanto que Regina adorava quando a loira rodeava sua cintura, imaginando como seria a pegada daquela mulher.
Poucos minutos depois, Emma adentrava a cozinha, enxugando o suor de seu corpo com uma toalhinha, deixando Regina ainda mais atraída pela mulher a sua frente.
— Quer se exercitar um pouco, Regina?
— Hã? O que?
A morena foi pega de surpresa, imaginava que Emma estivesse totalmente alheia a ela. Foi inevitável o rubor que lhe cobriu o rosto. Estava envergonhada por ter sido pega admirando a amiga.
— Perguntei se quer se exercitar também. — sorriu de lado — Posso fazer uma sequência bem leve para você.
— Ah não, eu... — molhou os lábios vendo uma gota de suor escorrer por entre os seios da loira — Eu prefiro você… Quer dizer...— balbuciou.
Emma soltou uma risadinha pelo embaraço da outra. A loira se aproximou de Regina, de forma que a morena ficasse entre o corpo da xerife e o balcão. Por alguns segundos trocaram olhares até que Emma inclinou-se, limitando ainda mais o espaço entre elas. Regina já respirava com dificuldade pela proximidade de suas bocas. Ela tinha os olhos fechados esperando o beijo, mas, para sua surpresa, Swan subiu e deu um beijo em sua testa, retirando um copo de cima do balcão. Quando a morena abriu os olhos Emma estava com um sorriso divertido pela expressão confusa que Regina esboçava.
— Ei, linda. — chamou enquanto bebia água — Acho que o bacon está queimando.
— Oh, Droga! — correu para desligar o fogão — É sua culpa, Swan.
— Ora, mas eu não fiz nada, morena. — se fez de desentendida. — Você que ficou nervosa do nada. Por acaso estava fazendo algo que não deveria?
— Emm, por que não vai tomar um banho e aproveita para chamar o Henry? — desconversou — Já estou terminando o café.
— Quer ajuda? — preguntou toda solicita. — Posso terminar as panquecas se quiser.
— Não, meu bem. — respondeu rapidamente. Não conseguiria agir normalmente com Emma desfilando naqueles trajes — Está tudo sob controle.
Emma assentiu e deu uma piscadinha maliciosa antes de sair da cozinha. Regina assistiu a saída da loira, encostada ao balcão e abanando-se com um pano de prato.
Céus, eram apenas os hormônios da gravidez entrando em ebulição, certo?
Fale com o autor