Luz da minha vida
37 Capítulo 37
Notas iniciais
O outono reserva uma paisagem adorável. A beleza e o charme que a folhagem em tons de vermelho-alaranjado traz ao cenário encanta qualquer um, bem, exceto certo adolescente, que olhava chateado o vento bater nas copas das arvores e derrubar dezenas de folhas no quintal de sua casa. Henry suspirou e enxugou o suor da testa com a manga da camisa. Estava cheio de ver tanta folha caída e seu braço já estava começando a doer depois de reunir alguns montinhos de folhas.
Há cerca de uma hora havia esfriado um pouco então Regina decidiu entrar para preparar o almoço, a loira tinha ficado lá fora para monitorar o serviço, mas logo entrou também. Assim, estavam cozinhando juntas, mas de vez em quando, a morena parava em frente a janela da cozinha para observar o movimento no quintal.
— Acha que exageramos no castigo? — Regina questionou a namorada.
Emma que estava concentrada, cortando os tomates para a salada, franziu o cenho.
— Linda, por mim teria dado um castigo bem maior, você sabe. — fitou os olhos amendoados — Henry precisa ter mais responsabilidade. O que ele fez não foi brincadeira.
— Só de imaginar o que poderia ter acontecido...
— Exatamente. Se não corrigirmos, a vida vai tratar de fazê-lo e não será tão amável.
— Você está certa, meu bem. —respondeu, beijando levemente os lábios da loira.
— Mães, terminei e... Arghh, procurem um quarto, por favor.
— E você procure um chuveiro, garoto. — disse a loira torcendo o nariz — Está fedendo igualzinho a um gambá.
— Estou indo. — respondeu servindo-se de um copo d’agua.
— Filho, não esqueça de deixar os sacos ao lado da lixeira. — Emma recomendou, voltando-se para lavar a alface.
— Quais sacos?
— Aqueles que você usou para armazenar as folhas, querido. — Regina esclareceu, colocando o bolo de carne no forno.
— Ah... Eu não sabia que precisava ensacar as folhas. — falou sem graça.
— Elas vão se espalhar com o primeiro vento forte, garoto. — Emma sorriu pela ingenuidade do filho. — Vá terminar seu serviço. Pode usar os sacos que estão na despensa.
Henry fez a maior expressão de coitadinho, mas Emma não relevou. Assim o menino não teve alternativa, voltou para finalizar a limpeza do quintal.
Zelena apareceu minutos depois com o seu típico mau humor matinal. Serviu-se de café e ficou por ali, trabalhando em seu notebook.
— Zel, você sabe por onde anda a sua namorada? Vovó está perguntando por ela. — Emma questionou após receber uma mensagem da idosa.
— Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe, cunhadinha.
— Creio que alguém dormiu de calça jeans essa noite. — Regina comentou, olhando de soslaio para a irmã, que resmungou um xingamento para a namorada.
Realmente elas haviam discutido pela manhã. Ruby se queixando pela insatisfação profissional e Zelena cobrando um posicionamento da namorada perante a avó sobre o assunto, afinal de nada adiantava reclamar se não tomava uma iniciativa de mudança.
Henry entrou em casa mais suado ainda, porém satisfeito, pois finalmente tinha acabado o serviço. Serviu-se de mais um copo de água e sentou-se ao lado da tia.
— Oh, Pepe Le Pew, se não sair de perto de mim em cinco segundos, vou espirrar uma lata de aromatizante em você. — ameaçou a ruiva, torcendo o nariz. — Esse garoto está tão imundo que formou até cordão de sujeira.
— É o meu perfume natural, tia. — deu de ombros, levantando-se — Sente o cheirinho de bebê.
O garoto grudento de terra e folhas, deu um verdadeiro abraço de urso na tia impregnando-a com todo tipo de sujeira misturada ao suor. Em seguida saiu correndo para o banheiro, deixando uma Zelena possessa, praguejando todo tipo de palavrão.
— Que porra, tem terra até no meu rosto! — rugiu indo até a pia para tentar se limpar — Eu vou estrangular aquele moleque filho de uma chocadeira.
Emma já estava com a barriga doendo de tanto rir enquanto que Regina tentava inutilmente evitar uma gargalhada.
— Sis, o que é isso próximo da sua nuca? — a morena perguntou se aproximando da irmã.
— O quê? — Zelena arregalou os olhos azuis e correu em direção a um espelho que havia na sala — Só faltava ser um pedaço de merda da Lola, já que ela anda pelo quintal.
A cachorra que estava refestelada no chão da cozinha feito um tapete apenas ergueu a cabeça e fitou a ruiva como se dissesse: “Fala sério!”.
— Se parece com um curativo. — a loira comentou também curiosa.
— Ah, não é da conta de vocês. — a Mills mais velha respondeu lembrando-se do que se tratava.
— Zelena... — Regina pôs as mãos na cintura, na característica pose de grávida, encarando a irmã seriamente.
— Para de me olhar assim. É um adesivo de nicotina, ok?!
— Você está tentando parar de fumar, Zel. — a morena afirmou maravilhada.
— É o jeito, já que a vida de vocês é ficar estragando meus cigarros. —disse sem encarar as duas mulheres, fingindo avaliar as unhas — Sem contar que vocês serão tão frescas quando essa criança nascer que eu duvido que me deixarão chegar perto.
— Não seja exagerada. — Regina sorriu — Saiba que estou muito orgulhosa de você, sis. Tenho certeza que terá sucesso no tratamento, é a pessoa mais persistente e corajosa que conheço.
— Mandou bem, cunhadinha. — Emma fez um sinal de positivo.
— Que seja, chega dessa melação toda. — pigarreou, já estava se comovendo com as palavras de apoio. — Agora vou me jogar uma água, pois o porquinho que vocês chamam de filho fez o favor de me sujar.
***
Meia hora depois, Zelena já havia tomado banho e agora estava na sala, assistindo televisão quando o sobrinho desceu para se juntar a ela.
— Sabe, você poderia ser legal com o seu sobrinho aqui e me deixar escolher o canal. — disse esperançoso.
— Ou eu poderia fingir que você não existe e continuar a assistir o meu programa.
— Tia, eu fiquei a manhã toda recolhendo folhas. — falou com sofreguidão.
— Meu nome é Marli e não estou nem aí. — disse a ruiva, sem se impressionar.
— Chega de implicância, crianças. — Regina foi até a televisão e a desligou. — Vamos almoçar.
Assim que a morena os chamou, a porta da frente se abriu. Ruby surgiu puxando uma mala de rodinhas de um lado e a caixa transportadora de Byron na outra mão, porém o que preocupou a todos foi a expressão de tristeza que a morena de olhos verdes trazia.
— Família, cheguei! — Lucas anunciou com a voz embargada.
— Amor... — a ruiva caminhou depressa até a namorada, acolhendo-a em um abraço. Foi o estopim para que Ruby desabasse em um choro sofrido.
Enquanto Zelena guiava a namorada até o sofá, Henry aproveitou para soltar Byron e levar a bagagem da tia para o quarto de hóspedes. Emma também se sentou ao lado da amiga, mostrando que estava ali para ela.
— Beba um pouco de água, querida. — disse Regina, oferendo a bebida assim que Ruby se acalmou.
— Obrigada. — agradeceu, sorvendo o liquido em seguida.
— O que houve, baby? — Zelena questionou em um tom carinhoso, reservado apenas aqueles que realmente lhe importavam.
Ruby fungou e começou a relatar a discussão que teve com a avó assim que havia pisado no restaurante. Eugenia estava extremamente irritada com as ausências da neta e não economizou nas reclamações, chegando ao ponto de repreendê-la na frente dos clientes.
— Meu sonho sempre foi ser cozinheira, mas ela disse que preferia tocar fogo no restaurante antes de permitir que eu assumisse a cozinha. — suspirou. — Então ela me demitiu, dizendo que não me queria mais lá enquanto eu não tomasse juízo e honrasse o meu diploma de administradora.
— Ela também a expulsou de casa? — Emma perguntou cuidadosamente.
— Não, mas estou magoada com minha avó, Emms. — escorou a cabeça no ombro da namorada — Me arrependi por não ter te ouvido e alugado um apartamento ao invés de morar no apê da garagem.
— Sabe que pode ficar o tempo que quiser, Rubs. — disse a loira segurando a mão da amiga, em um gesto de apoio.
A morena de olhos verdes assentiu agradecida. Continuaram a conversar, percebendo que Ruby voltava a se animar aos poucos.
O restante do dia passou tranquilo. No fim da tarde resolveram sair para jantar em família e depois aproveitar para curtir um filme de super-herói que estava em cartaz no cinema.
Era madrugada quando Regina acordou inquieta. Tinha sonhado que estavam em uma viagem à Itália, se deliciando com magníficos cannolis. Suspirou levantando-se da cama, pois havia perdido o sono e pior... não conseguia parar de pensar nos doces.
Olhou para Emma que ressonava tranquila, pensando o quanto seria injusto acordá-la por conta de um desejo de grávida. Negou com a cabeça e decidiu lavar o rosto enquanto pensava em uma alternativa para resolver seu problema.
— Linda... — ouviu a voz rouquinha da namorada.
— Oi, meu bem. — respondeu voltando para o quarto.
— Está passando mal? — bocejou, fitando a namorada que negou com a cabeça — Então volta para a cama.
— Não consigo dormir. — disse manhosa — Estou com desejo.
— Ah, seu primeiro desejo de grávida. — sorriu agora mais desperta — Por que não me chamou, amor?
— Você precisa acordar cedo, não te incomodaria por algo assim.
— Não importa, faço questão de realizar todos os seus desejos. — falou já se levantando da cama — Então o que vocês querem?
— Oh, nossa... Meu reino por cannolis de ricota.
— Cannolis? — a loira riu, pois, outro dia Regina havia se empanturrado da sobremesa e jurou nunca mais querer o doce novamente.
— Eu sei, Emm. — revirou os olhos, passando a mão carinhosamente sobre o ventre — Mas parece que essa mocinha aqui é cheia de vontades.
— Tudo bem. Deve ter um restaurante italiano aberto a essa hora. — disse olhando as horas no celular.
— Ah, meu anjo, o problema é que eu não quero qualquer cannoli. Precisa ser com recheio de ricota caseira, de preferência feita pela Ruby.
— Melhor ainda. Situação fácil de resolver! — colocou os chinelos e marchou para o quarto de hóspedes, com Regina em seu encalço pedindo para que não acordasse o casal. Para a surpresa de ambas o quarto estava vazio, assim decidiram procurá-las pela casa.
Ao chegar na cozinha, pararam em frente a porta da lavanderia, de onde se podia ouvir gemidos escandalosos. Regina fez uma expressão de nojo e Emma abriu um sorrisão, pois finalmente teria a sua vingança.
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