Luz da minha vida
14 Capítulo 14
Notas iniciais
O fim do mês de outubro chegou trazendo uma das datas mais apreciadas entre crianças e amantes de doces, o dia das bruxas! Aos poucos as casas e comércios de Weston começavam a ganhar a decoração característica do evento, era possível ver decorações engraçadas que iam de fantasminhas nos jardins até fachadas inteiras cobertas por teias de aranha e esqueletos nas varandas da frente. Outro elemento que tomava conta das decorações eram as abóboras, a cidade estava cheia delas, de todas as formas e tamanhos. Era lindo de se ver a mescla entre as cores das abóboras com as cores das folhas outonais, simplesmente uma perfeição da natureza.
Nas redondezas de Weston, havia cerca de duas fazendas especializadas no cultivo de abóboras. Esses locais chegavam a receber dezenas de pessoas por dia para colher o fruto, participar de atividades e passeios pela propriedade. Obviamente que a família Swan Mills não ficaria de fora de todo esse alvoroço. Aproveitando a folga de Emma, embarcaram na aventura de encontrar as abóboras perfeitas para ornamentar a casa.
Após o tradicional passeio de trenzinho pela fazenda, onde tiraram várias fotos, resolveram se juntar a outras famílias para finalmente colher o fruto. Na entrada da horta, Emma escolheu um dos carrinhos de mão que havia ali para o uso dos clientes.
— Esse ano eu quero escolher uma bem grande. — disse Henry sem tirar os olhos dos frutos espalhados pelo caminho.
— E você, linda? — Emma perguntou para a morena que olhava tudo deslumbrada desde que haviam chegado.
— Bem, eu não sei. — mordeu o lábio, timidamente — É a primeira vez que faço isso.
— Colher abóbora? Normal, geralmente não há essas fazendas nas proximidades da cidade grande.
— Não, me refiro ao Halloween. — agachou para avaliar o fruto alaranjado. — Nunca decorei uma abóbora, me fantasiei ou sai para pedir doces.
— Por quê? — a loira franziu o cenho. — Seus pais não gostavam de comemorar a festa?
— Oh, não. Eles comemoravam! Inclusive chegavam a dar festas e jantares. A diferença é que minha mãe contratava uma empresa de decoração, tornando tudo tão formal.
— Hum, legal… eu acho. — Emma disse confusa, imaginando as crianças naquele meio.
— Era aborrecido, Emm. Uma festa de adulto, cheia de gente chata e totalmente sem graça. Era mais uma forma da minha mãe nos exibir para a sociedade.
— E quanto às fantasias e os doces?
— Você imagina Cora Mills fantasiando suas filhas e as acompanhando para pedir doces? — Ergueu uma sobrancelha.
— Definitivamente não. — negou com a cabeça, lembrando-se de uma foto que Regina havia lhe mostrado, onde se via a imagem de uma senhora extremamente elegante e séria. — Bem, já que é seu primeiro Halloween oficial, vamos aproveitar e cumprir o que a tradição manda.
— Vamos! — soltou uma risadinha pela animação de Emma — Eu quero tudo o que tenho direito.
A loira sorriu e a abraçou pela cintura, caminhando juntas pela horta enquanto faziam planos para o feriado e Emma dava dicas de como escolher os frutos. Logo Henry se juntou a elas, animado, empurrando o carrinho de mão cheio de abóboras.
Em casa, guardaram os frutos, pois deixariam para esculpir na véspera do dia 31. Assim, resolveram retirar toda a decoração que estava armazenada no sótão e trouxeram no gramado da frente, a fim de organizar os enfeites no jardim e na fachada da residência. Uma hora depois, Emma estava correndo atrás de Byron que insistia em afiar as garras nos fantasminhas infláveis.
— Eu vou esganar a Ruby. — disse vermelha pela corrida.
— Alguém disse meu lindo nome?
A morena de olhos verdes surgiu no gramado, arrastando uma bicicleta. Byron ouviu a voz da dona e correu para se esfregar em suas pernas, recebendo um afago de Ruby.
— Por que demorou tanto, criatura?
— Eu sei que você me ama e sente minha falta, mas não precisa ficar assim, loira. — Emma revirou os olhos. Ruby deixou a bicicleta encostada e foi até Henry, abraçando de lado o garoto — Oi, Regininha! Como vai o baby?
— Está ótimo, Rubs. Obrigada! — sorriu para a amiga — Vejo que está de veículo novo.
— Gostou? — perguntou contente — Comprei em uma feira de garagem, é bem ajeitadinha.
— Deveria pedir seu dinheiro de volta. — Emma implicou — Está arriscada a pegar um tétano.
— Sabe o que é, Regis? — provocou — Essa loira desbotada não sabe andar de bicicleta então fica desfazendo da minha bike.
Regina sorriu do jeito das duas. Adoravam se alfinetar, mas era nítido o amor e o respeito que tinham uma pela outra.
— Crianças, está esfriando. Vou fazer um chocolate quente, ok?— disse chamando a atenção dos três que ainda estavam envolvidos no assunto da bicicleta. Eles apenas assentiram e voltaram a discutir, enquanto Byron se distraia correndo, pulando e brincando entre as caixas espalhadas pelo jardim.
Quando Regina retornou trazendo uma bandeja com chocolate quente e tortinhas de maçã, Ruby e Emma praticamente se engalfinhavam em cima de uma árvore, enquanto Henry esperava impaciente, que elas pegassem o enfeite que ele erguia.
— Ruby, deixa essa porcaria de morcego ai! — a loira gritou, se agarrando ao tronco.
— Aqui ele não aparece direito, idiota. — ergueu o braço para mexer no enfeite.
— É só você tirar seu cabeção da frente. — pulou para o outro galho, movendo o enfeite novamente.
Henry bufou assistindo as duas carregarem de um lado para o outro uma droga de um morcego de plástico. Regina sorriu de lado com aquela cena e se aproximou, deixando a bandeja no banquinho que havia por ali.
— O que está acontecendo aqui? — a morena indagou, cruzando os braços.
— Foi ela quem começou! — Disseram em uníssono, uma apontando para a outra.
— Não quero saber quem começou. Deixem esse bicho onde está e desçam imediatamente para comer.
— Mas, linda, nós estamos… — Emma começou a tentar se explicar, mas se calou quando viu que Regina se aproximava delas com um semblante ameaçador.
— Eu juro que vou dar uma surra em cada uma se eu tiver que arrastar alguém para o hospital.
Regina virou de costas, mas ainda ouviu os resmungos das duas e de um Henry caçoando da mãe e da tia.
— Que mulher mais brava que você foi arranjar, loirão. — disse assim que desceram da árvore.
— Ah, mas eu amo a minha ferinha, Rubs. — sorriu bobamente acompanhando o requebrar de Regina.
— Ei, alguém filma a trouxa!
Ruby gargalhou debochada, empurrou a amiga com o ombro e seguiu para onde Henry e Regina estavam. Emma sequer negou, para que mentir?
***
Depois do fim de semana agitado, a segunda feira começou com mais uma consulta de Regina. Agora com uma nova médica, já que o obstetra anterior havia entrado de licença. A Dra. Bauer era quem a acompanharia no restante do pré-natal até o pós-parto.
Henry estava com um bico enorme. Queria ver como estava o bebê, porém dessa vez não houve acordo, pois o garoto teria prova naquele dia. Assim, após deixar o menino na escola, as amigas chegaram ao consultório médico, sendo informadas de que a médica se encontrava atendendo outra paciente. Regina e Emma sentaram-se a sala de espera, agradavelmente colorida e decorada com papéis de parede infantis. A morena pegou uma revista sobre maternidade e encostou-se ao ombro de Emma para folhear.
— Senhorita Mills, por favor, pode vir aqui para que eu preencha seus dados? — a enfermeira gorducha pediu amavelmente.
Regina se levantou e foi até o balcão, sendo observada pela amiga.
— É o primeiro filho? — perguntou uma senhora que estava sentada na poltrona ao lado.
A loira olhou mais uma vez Regina no balcão antes de responder.
— Não, na verdade é nosso segundo bebê. Temos um garoto.
— O meu é o primeiro — disse acariciando a barriga já avantajada — Sua esposa tem muita sorte que esteja acompanhando-a na consulta, meu marido prefere ficar em casa vendo o jogo.
Emma assentiu com um gesto de cabeça saboreando a sensação, mesmo que imaginária, de estar na condição de esposa de Regina e mãe do filho que a morena esperava. E olhando para a mulher a sua frente pensou em como alguns homens podiam ser tão idiotas, talvez se tivessem a consciência do que de fato era importante não trocariam aquele momento por nada. Logo Regina voltou a se sentar e a senhora encorajada começou a conversar com ela até que a médica chamou.
A Dra. Kristin Bauer, uma loira, alta e de olhos azuis marcantes sorriu, saudando-as quando o casal entrou. Fez algumas perguntas de praxe a Regina enquanto anotava tudo em uma ficha. Em seguida, indicou um biombo para a morena trocar a roupa enquanto preparava o equipamento para o exame. Emma observava tudo com atenção, sentada na cadeira que a médica havia indicado.
Já vestindo uma bata lilás, Regina foi até uma balança onde a médica a pesou, mediu a circunferência de sua barriga e aferiu a pressão. Em seguida, a morena se deitou na mesa de exame e abriu a batinha revelando a pele levemente bronzeada da barriga redondinha para que a médica passasse o gel, posteriormente deslizando um aparelho na mesma. Emma rapidamente levantou-se da cadeira, se posicionando ao lado de Regina, lhe entrelaçando os dedos. A morena sorriu com o carinho e pela forma em que Swan olhava ansiosamente para aquela escura tela.
— Estou procurando o batimento cardíaco do bebê. — se pronunciou a Dra. Bauer, olhando o monitor — Oh, querem saber o sexo?
Regina assentiu emocionada enquanto os sons estranhos surgiam do amplificador ligado ao estetoscópio e se tornavam ainda mais intensos conforme a médica foi deslizando o aparelho sobre sua barriga até que um batimento ritmado começou a ecoar pela sala.
— Pronto, mamães, esse lindo som é o coraçãozinho do seu bebê — a mulher sorriu para ambas que apenas assentiam totalmente incapazes de dizer uma palavra sequer por conta de tamanha emoção. Não era primeira vez que ouviam, mas sempre seria algo comovente. — E aqui… Está a princesinha de vocês! — apontou uma pequena mancha branca, borrada na tela.
Regina mal pôde respirar.
Era uma menina.
O som das batidas do coraçãozinho de sua filhinha enchia seus ouvidos. Aquele som trazia mais uma comprovação que seu bebê estava ali, aquele serzinho que amava com todo o coração. A deliciosa sensação de fascínio a envolvia de uma maneira incrível e, olhando nos olhos de Emma, soube que ela partilhava do mesmo encantamento. Seu coração de mãe se apertou dentro do peito, transbordando uma emoção sem igual. Nenhum som poderia ser mais gracioso do que as batidas agitadas do coração de sua menininha.
— Minha bebêzinha — ela falou encarando Emma com os olhos marejados.
A doutora sorriu ternamente diante de uma cena tão bela. Discretamente saiu da sala, dando para ambas um momento que sabia ser apenas delas.
Emma pegou a mão da morena beijando a palma. Aquele sentimento era tão grande e intenso, semelhante ao que sentiu quando estava grávida de Henry! A constatação a atingiu de uma forma que a deixou atônita. Não era mãe biológica daquela criança, mas já a amava como se fosse sua, a vontade de cuidar e proteger crescia a cada batimento. Sim, nada mais parecia ser importante diante do amor que sentia por Regina e pela pequena preciosidade. Nada parecia mais belo do ver aquela menina crescendo dentro do ventre da mulher que amava. Sentiu como os seus olhos ardiam pelas lágrimas contidas e como seu coração batia forte dentro do peito. Um coração de mãe emocionada por ouvir e ver sua criança.
— Nossa bebê, minha linda… Nossa filha.
Swan viu os olhos de Regina transbordarem de lágrimas, totalmente emocionada. Sorriu, deslizando sua mão pela face da amada enquanto seu corpo se inclinava perto do dela até ambas as respirações se misturarem. Regina apenas suspirou baixo, levando sua mão até os cabelos de Emma, segurando-a pela nuca, numa forma simples e silenciosa de mostrar que também queria.
Ah, sim. Ela queria.
Ambas sentiram como seu coração acelerava de uma forma única, quase saltando para fora do peito.
Então seus lábios se tocaram.
Se tocaram em um leve roçar que lhes tirou o ar. Emma sugou-lhe o lábio inferior, deslizando sua mão por trás do pescoço dela, lhe agarrando ternamente o cabelo enquanto abria passagem com a sua língua por entre os lábios doces e ansiosos de Regina.
Então um gemido escapou de ambas.
Gemeram ante a sensação de sentirem o entrelace cálido e molhado de suas línguas que se buscavam em uma exploração totalmente inebriante em suas bocas. Regina passou seus braços em volta da loira, a abraçando na altura da cintura enquanto sentia como a loira lhe erguia um pouco o corpo, fazendo seus seios se chocarem contra os dela. Tê-la tão perto, daquela forma, foi como sentir a terra girando cada segundo mais rápido. O cheiro dela, uma mistura de baunilha com um dia de verão, lhe entrava pelas narinas a inebriando de uma forma completamente enlouquecedora. Graças a Emma seu coração voltou a acreditar em algo que pensou já não existir… Amor.
Lentamente, Emma terminou o beijo, puxando-lhe delicadamente o lábio inferior, e logo roçou sua boca a dela calmamente. Suspiraram baixo abrindo um imenso sorriso para então se encarem ao mesmo tempo com um brilho no olhar sem igual.
— Isso foi... — Regina murmurou, soltando mais um suspiro.
— Eu sei. — a loira sorriu, observando-a morder o lábio enquanto suas bochechas coravam rapidamente. Emma sorriu ainda mais vendo como o embaraço tomava conta daquela mulher, enquanto a mesma desviava de seu olhar e acabou por encontrar a pequena tela onde tinha a imagem congelada de sua garotinha. Swan acompanhou seu gesto, percebendo como seu olhar brilhava mais intensamente, e seu coração de mãe se alegrou ainda mais — Como pode uma coisinha já ser tão linda? — murmurou emocionada.
— Eu não sei. — Regina soltou uma risada baixinha, sentindo seus olhos transbordarem em lágrimas — Mas ela é tão linda.
— Pode dar certo.
Swan mordeu o lábio nervosa, abaixando a cabeça. Respirou fundo, fazendo uma silenciosa prece para que Regina aceitasse o que lhe estava oferecendo, para que ela lhe confiasse o coração da mesma forma em que lhe confiava o dela.
Regina sorriu. Sorriu se sentindo imensamente feliz.
Segurou-lhe o rosto entre suas mãos, fazendo aqueles belos pares de esmeralda encarem os amendoados que brilhavam, mostrando toda a paz, alegria e emoção que sentia em seu interior. Puxou o ar lentamente para seus pulmões, observando um sorriso surgir nos lábios de Emma. Mas não qualquer sorriso. Aquele sorriso torto que era capaz de render qualquer um a seus pés, inclusive ela. Especialmente ela. Aquele sorriso torto que vinha acompanhado de um aviso de perigo. Cuidado para não se apaixonar.
Mas, ah querida, aquele aviso havia chegado um pouco tarde demais para ela.
— Sim, pode dar certo! — ela concordou em um som quase inaudível.
O som da porta se abrindo, despertou-as daquele momento tão mágico. A médica adentrou, sorrindo amigavelmente para ambas enquanto se deslocava até o aparelho de ultrassom e retirava de dentro de uma caixa estampada com uma fenda por cima, alguns lencinhos de papel e os entregou para que Regina limpasse o gel da barriga. No entanto, foi Emma quem se dedicou ao trabalho, deslizando cuidadosamente sobre o ventre da amada, fazendo-a sorrir enternecida.
— Vou receitar algumas vitaminas, Regina. — informou a obstetra, analisando a prancheta com o histórico da paciente — Está um pouco abaixo do peso recomendado para o início do segundo trimestre. Não é nada para se preocupar, mas quero que ganhe mais peso.
— Bem, é um pouco difícil com os enjoos. — ela franziu o nariz. Houve dias que só conseguia levantar da cama quando Emma lhe trazia bolachas salgadas ou torradas.
— Logo vão passar. Assim evite comidas gordurosas, coma bastante frutas e beba muito leite. Crises de tonturas ou outro desconforto? — ela negou, entrelaçando sua mão com a de Emma — Ótimo. Deste modo, caminhe um pouco pela manhã, é importante que faça exercícios.
— Tudo certo, doutora? — perguntou Emma.
— Está, não há o que se preocupar. O bebê está muito bem. — olhou para o casal sobre os aros dos óculos antes de pegar o bloco de receitas e guias de exames — Relações sexuais também são saudáveis para a gestante.
Ela sentiu as bochechas esquentarem e mordeu o lábio inferior ao encarar Emma, se deparando novamente com aquele sorriso penetrante e irresistível que a transtornava. A loira moveu a mão livre, deslizando pelo rosto afogueado, afastando uma mecha de cabelo e o simples contato a deixou arrepiada dos pés a cabeça. Suspirou lentamente.
Com Emma ao lado, nunca seriam apenas os hormônios da gravidez!
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