Luas de Sangue
11 Renascer
Notas iniciais
Eles chegaram com Ayla enrolada em um lençol. Junto com ela vieram três velhas senhoras. As três pareciam bruxas que traziam com elas infusões e ervas.
—Ayla!
Os dois alfas passaram com o meu amor no colo em direção ao andar superior. As três velhas os seguiram. Todos para longe de mim. Todos seguindo em direção ao outro lugar, um lugar distante.
—AYLA!
Gritei para ela. Para que me ouvisse. Para que viesse até mim.
—Por favor! Ayla!
Pedi em meio as lagrimas que começaram a cair. Era muitas, elas inundavam o meu rosto. Minha mulher. Minha pequena deusa. Por favor, não a deixem morrer. Antony colocou sua mão sobre meu peito, tentando me acalmar. Depois ele me empurrou para baixo, tentando de todas as formas me manter nivelada. Eu estava agitada de mais. Eu queria segurar seu corpo. Eu queria a segurar contra o peito uma última vez. Não tive muito tempo com ela, era uma injustiça. Senti o amor quando a vi na primeira vez. Deveria poder ter aproveitado. Eu deveria poder tê-la amado. Com todo o esforço meu corpo latejou como se lava passasse por minhas veias. Eu gritei de dor.
—Deixe que o doutor cuide de suas feridas. Vamos precisar conversar mais tarde. Precisamos acertar muitas coisas.
A voz de Antony era calma como sempre, entretanto carrega o tom de autoridade que ele desejava empregar. Eu continuava olhando para a escada, onde haviam partido os dois homens, as três senhoras e a minha deusa.
—Deixe as velhas bruxas cuidarem da menina em paz. Não mande vibrações para lá, dificulta o trabalho delas. Elas estão tendo de resgatar a loba do limbo.
Meu coração se afundou no peito, levando junto o meu corpo. Por favor, pedi silenciosamente ao deus que pudesse me ouvir, por favor. Não deixe que ela morra. Traga-a para mim.
—Você deve fechar os olhos e deixar ser curada. Você precisa fazer isso. Precisa sem forte e adulta para isso.
O doutor tinha aquela voz de medico velho, aquele que sabe o que faz. No momento eu queria apenas quebrar o pescoço do primeiro que eu olhasse. Eu estava aflita e com dor. Pensei em como seria bom poder ir até lá em cima sem parecer que me cortaram inteira. Me aquietei, aceitaria qualquer coisa para ficar boa e poder ir até ela.
O doutor colocou um pano na minha boca. A dor que senti foi como tortura medieval, daquelas feitas em bruxas. Ele estava me queimando na fogueira. Desta vez aguentei firme, tinha de ser fort... não, eu SOU forte. Não desmaiei, apesar de algumas vertigens. Meus gritos entoaram por momentos depois que eu me calei. Suada, dolorida e ofegante. Eu ainda estava deitada no sofá.
Fechei meu olhos. Até esse simples movimento me rendeu um filamento de dor. Ao meu redor tudo girava. Eu estava percebendo a rotação terrestre.
—Coma!
Sua ordem era suave. Abri meu olhos para encontrar com os olhos vermelhos de Antony. Ele carregava uma massa pastosa e avermelhada. Eu não estava me importando com o que era aquilo, apenas peguei de sua mão e coloquei para dentro. Não tinha percebido que o fato de ter quase morrido tinha me dado uma fome avassaladora. Ele não parou de me empurrar comida, parecia que havia feito bastante, e eu não era a única a comer. Parei de comer quando meu estomago parecia se dividir em dois.
Depois de ter comido bastante ele me mandou descansar. Era a ultima coisa que eu pensava no momento, eu não podia dormir. Eu não queria dormir. O doutor aplicou algo no meu braço e minha mente foi transportada por um grande redemoinho negro. Eu dormi. Nada foi projetado em minha mente e pela primeira vez em muito tempo eu dormi sem sonhar.
Fui acorda, pelo que me pareceu momentos depois, com alguém sacudindo meu braço. Virei para o outro lado, não desejava acordar ainda. Entretanto quando me mexi uma dor infernal me trouxe de volta a realidade. Tudo rapidamente voltou para a mente, me levantei com tudo. Minha cabeça girava e meu corpo inteiro doía. Sinto ânsia de vomito. O lobo alfa de cabelos avermelhados me segurou para que eu não caia. Ele ficou me segurando por um tempo até que estabilizei.
Depois que o mundo parou de girar eu ajustei a visão. Os três alfas me olhavam. Tinha expectativas nos olhos. Alguma coisa estava preste a acontecer. Meus instintos se aprumaram, eu estava alerta. Olhei para cada canto e para cada rota daquele lugar. Olhei também para cada movimentação que faziam e cada suspiro que davam. Nada poderia me escapar.
—O que foi?
Minha voz estava rouca. Ela me dava uma entonação a mais. Me deixava amis respeitável. Todos os três me olharam com seus olhos significativos. Por um tempo o único barulho da casa era o barulho de vozes baixas, algo como uma reza.
—Vista alguma coisa e venha para a cozinha.
Antony se retira da sala em direção a minha cozinha, da onde sai um cheiro bom. O ruivo o seguiu de perto, ele aparentava um grande urso protetor. O lobo mais novo ficou, seu cabelos longos escondendo seus olhos enquanto ele arrumava alguns panos em cima da mesa. Percebi que eram roupas. Ele se virou sem que visse seu rosto, sem que eu tivesse vislumbre do que ele estava pensando. Olhei para mim. Meus seios estavam a mostra, eles agora tinham algumas cicatrizes avermelhadas. Nada de mais na minha opinião. São bonitos, podem ser mostrados.
A roupa que deixaram para mim é uma camisa e um short masculinos. Ambos pretos com detalhes azulados. Visto eles com a agilidade de uma ginasta, que nunca fui. Na cozinha quem faz a comida é a moça loira que se feriu no dia anterior, pelo menos foi o que me falaram, pois ela estava perfeitamente bem no momento. Entretanto eu não poderia falar nada, também não estava mal, apesar de tudo que sofri. O cheiro estava de encher a boca de saliva. Muita saliva.
—Comemos enquanto conversamos. Sempre é bom negociar com lobisomens assim.
Antony estava de frente para mim, a mesa da cozinha era pequena. Stark, o ruivo, estava no outro lado da cozinha, olhando distante. Ele era um guarda costa, não um negociante. Eu comi, a comida, que estava fabulosa. Carlos e Antony comeram junto comigo. Antes que qualquer um possa falar algo eu me fiz ser ouvida.
—Eu não quero ser alfa. Fiquem com essa maldição para vocês. Eu só quero viver minha vida em paz, em algum lugar na terra.
Minha voz foi firme. Eu havia decidido isso. Era definitivo. O mais novo continuou comendo devagar. Antony havia parado. Ele me olhava, avaliando-me. Sustentei seu olhar até o fim.
—Muito bem. Hoje ao anoitecer acontecerá o funeral dos dois alfas, Kathyna, Pietro e Camylle, a loba que sua companheira matou. Durante a cerimônia você passará o seu comando a outros dois lobos.
Ele parecia ter tudo programado. O baile estava seguindo com o que ele havia planejado. Ele voltou a comer. Eu comi junto com ele. A mulher ainda estava cozinhando e o ruivo estava comendo o que estava na bancada perto deles. O alfa novo não parou um instante de comer.
—Como irei fazer isso?
Eu estava interessada em me livrar daquele fardo. Já ia tarde de mais.
—Você estará com dois totens no pescoço, dois lobos. Quando a cerimonia de funeral for terminada, você irá na frente de todos colocar o totens no pescoço de cada um. E assim estará feito, eles se tornaram alfas e você estará livre.
Concordei com a cabeça. Era simples, muito simples.
—Como eu irei reconhecer eles? Os dois homens.
Perguntei, afinal eu não poderia escolher aleatoriamente. Seriam os grandes alfas mundiais.
—Eles estaram com a barra da camisa azul. É um funeral, todos devem vestir de branco. Eles serão os únicos com barra azul.
Concordei com a cabeça, eu poderia lembrar disso. Poderia lembrar fácil disso. Ainda bem. O silencio novamente cai como um véu. A única coisa ouvida é o murmúrio das velhas senhoras no andar de cima. Todos comem e se olham de forma calma. Calmaria de mais. Tinha medo de vir tempestade depois.
—A casa.
O alfa mais novo fala entre uma garfada e outra.
—O que tem?
Perguntei desinteressada. As memorias deles ainda eram fortes de mais naquele lugar para que eu morasse permanentemente lá.
—É sua. Por total direito. Só você pode ter ela. As casa na vila são de família. Se não for sua ela ficará fechada, para sempre.
Antony responde. Não quero imaginar a casa fechada, entretanto não suportaria morar aqui agora. Quem sabe um dia.
—Irei pensar. É a única resposta que posso dá.
Todos continuam a comer sem muitos detalhes. Palavras trocadas ali e aqui, sem uma importância tão grande. Logo todos se retiraram, precisavam se arrumar. Subi as escadas, tentando não cai no canto maldito daquelas velhas sereias. Me mandaram não entrar no quarto, era proibido olhar. Elas estavam usando o meu quarto, não entendi o motivo. Usei o quarto que julguei ter pertencido a tia Kathy. Era rosa e tinha muitos adornos nele, enfeites de todos os tipos e tamanhos.
Tomei banho sem muita coisa. Meu cabelo estava ainda cinza, então não me importei tanto em lamentar o não uso do shampoo. Procurei no guarda roupa um vestido branco. Escolhi o mais simples, o que era meio difícil. Peguei um vestido sem manga, que não tinha decore algum. Era rodado até o joelho e era o único que não deixaria uma grande quantidade de perna e peito a mostra. Coloquei uma meia arrastão branca e um sapato de boneca. Fui ajeitar o meu rosto no espelho quando tomei um susto. Não foi nenhum dos cortes e roxos que me chamou atenção. Eu só conseguia olhar para o par de olhos vermelhos que me encaravam. Pareciam ter sido feitos dos sangues que eu derramei. Pareciam me condenar pelas mortes que eu causei.
Aqueles novos olhos estranhos piscaram quando eu pisquei. Novamente eram os meus olhos. Tentei não me focar naqueles olhos sangrentos e tentei me deixar apresentável. Consegui me deixar menos desarrumada. No andar de baixo, tinha os dois totens em dois cordões que pendurei no pescoço. Os outros alfas não estavam mais lá. Sai da casa decidida a encontra-los. Olhei para a casa novamente e rezei uma prece para quem quisesse me ouvir. Que ela ficasse bem. Tinha perdido a esperança de ver seus olhos novamente. E agora era a esperança que movia-me para rezar mais forte por sua recuperação.
No lado de fora eu tive de mais uma vez segui a multidão. Que me olhava de olhos baixos. Submissos. fomos para a mesma clareira de ontem à noite. Mesmo com o corpo dolorido eu me movimentei, a fim de subir na pedra. De lá, eu novamente podia visualizar todos os lobos no local. Eles estavam ao redor de uma pilha. Era uma pilha de lençóis brancos, colocados sobre um palanque de madeira. Eu sabia que cada lençol continha um corpo dentro, e que era para ser apenas um. O corpo de Ayla.
Antony levantou a mão. Calando aos lobos que já estavam quietos. Sua voz teve mais corpo de que em qualquer outra ocasião quando de seus lábios tais palavras saíram:
—Somos o povo que dá a nutrição com nosso poder do tempo-da-lua, nosso sangue, com nosso poder do nascimento. Com nosso sangue, alimentamos a terra que alimenta a todos. Sempre devemos recordar que somos terra, vida, nutrição e mudança. Somos o povo que sabe da vida, da morte, da dor, e da saúde em nossa essência. Conhecemos os lugares sangrentos: o espaço estreito entre a vida e a morte, o lugar de nascimento sangrento, o fluxo sangrento de deixar a vida ir. Nosso sangue é nutrição total, ele flui para a terra como alimento. Alimento da lua.
Todos fizeram silencio. Antony levantou a mão. Dois lobos de pele amorenada carregavam bastões com fogo. Eles pararam e se colocaram em frente aos alfas. Saudaram e depois atearam fogo aos corpos. Antony voltou a falar enquanto a chama queimava.
—Este é o nosso Tempo-de-Lua, tempo sagrado, tempo de limpeza e de renovação. Tempo de limpar, de colocar as coisas ruins para fora. Hoje à noite acendemos o fogos sagrados e dançamos silenciosamente ao balançar das árvores, como as faíscas em espiral para a lua e as estrelas manterem as prosperidades para nós.
Ele olhou para as chamas enquanto o silencio prosperava, apenas o cheiro de carne queimando reinava. Antony, Carlos e Stark olharam com pesar os corpos queimando. Apesar de qualquer coisa eles eram companheiros.
—Este é nosso Tempo-da-Lua sagrado. Deixaremos a lua, nossa mãe, nos banhar em seu fulgor fresco, misterioso. Lavaremos nossa alma em sua fonte brilhante, na sua luz que inspira a contemplação. Nosso Tempo-de-Lua nos convida à meditação e limpeza da mente. Para retirar a desordem, das perturbações e das aflições.
Antony deixou os corpos queimarem. Havia pessoas chorando, familiares possivelmente. Todos estavam desolados, foram grandes perdas. Foi um festival de sangue que entrará para a história, junto comigo.
—Deixamos o fulgor doce da Mãe Lua derramar em nós, cada polegada, varrendo afastado as sombras em nossas almas, nos enchendo com a luz suave e radiante. Esse é o nosso Tempo da Lua e hoje somos a lua. Somos feitos da matéria lunar e das estrelas e do amor de seres cujas vidas são uma viagem milhas do recolhimento . E quando olhamos a lua e as estrelas, vemos o nossos reflexo em sua luz.
Antony passou o rosto por cada ente sofrendo. Eu deveria estar sofrendo, mas não conseguia. Era o funeral de toda a minha família e eu não derramei uma lagrima.
—Este é o nosso Tempo da Lua. E estamos contentes com ele.
Antony terminou suas palavras e a clareira caio em um silencio mortal. A luz avermelhada do crepúsculo caia sobre o local como uma mortalha. Cada um respeitou o silencio de cada um. Todos tiveram a chance de lamentar. A mortalha do céu estava quase toda colocada, quando o alfa mais novo tocou em meu braço. Era a hora de entregar os totens.
Desci do local com ajuda. Andei em meio aos lobos procurando os novos alfas mundiais. Encontrei o primeiro com lagrimas nos olhos. Era um homem alto e loiro. Tinha intensos olhos verdes e uma expressão gentil. Eu parei silenciosamente em sua frente e retirando de meu pescoço coloquei o lobo de madeira no seu. Ele me olhou abismado, acho que não sabia o que ia lhe acontecer. Eu sorri, encorajando-o a carregar meu fardo. O outro estava mais atrás. Ele tinha um sorriso maroto nos lábios, que aumentou quando lhe coloquei o totem. Marcos não era um lobo que inspirasse muita confiança, mas eu estava confiando em Antony no momento e quando eu me virei para ele, o mesmo acenou e sorriu.
Sorri em sua direção, mas na verdade o sorriso era para mim. E segui. Segui pela floresta até a casa que é minha. Até a casa que me acolheu nessa minha segunda vida. Até a casa onde me descobri. A casa cujos moradores estão em cinzas pelo vento. A casa que é tão minha quanto meu nome. Nikaia, aquela que carrega a vitória.
Dou meus passos firmes em direção ao meu destino. Em direção a minha nova vida. A minha terceira nova vida. Renascer parece uma palavra que não sai de meu vocabulário próprio. A cada fim de noite uma nova morte. A cada amanhecer um novo começo.
Quando estou perto de minha casa, vejo as velhas parcas saírem de lá. Meu coração para. Ou ela morreu ou renasceu comigo. Lagrimas me enchem os olhos, ainda de agonia, futuramente de tristeza ou de alegria. Corro, mesmo com o corpo dolorido, em busca de minha felicidade.
Eu corro em busca do amanhã...
The End.
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