Luas de Sangue
5 Instintos
Notas iniciais
O chão está macio. Minhas unhas arranham a terra. Tomando impulso. Indo a cada momento mais rápido. Fugindo. Não sou fraca. Mais sei reconhecer uma luta perdida. Mesmo antes de começar. E essa estava. Meu nascimento não me fez forte o suficiente para lutar contra Luciam. E ele deu a entender que eu não poderia fugir. Mas não sei se consigo ficar.
Meu corpo estanca. Estou longe. Longe de tudo que eu conheço. Não sei mais onde estou. Há muitas árvores. É só o que eu consigo ver. O verde que gorgoleja ao meu redor. Que respira. Que me acalenta. Que me diz que nunca estarei só. Começo a andar mais devagar. Apreciando aquele desconhecido lugar. Não sei onde estou. Não estou longe de casa. Minha casa? Era esse realmente o nome ? Ainda não sei se pertenço àquele lugar. Entretanto é o único lugar que sei pertencer.
Tia Kathy deve estar me esperando. Deve esperar que eu volte. Que eu volte para o jantar. Ela é naturalmente mãe. Mesmo que não seja a minha. Ela provem o lar. Mesmo sem conhece-la, eu gosto dela. Confio à ela minha vida. Assim como confiaria minha alma. Ela é a mãe que nunca conheci. A mãe que pensei que encontraria em minha madrasta. A mãe que a lua me mandou.
Ao pensar na lua um aperto me toma o peito. Eu novamente me ponho a correr. Correr adiante. Correr em busca de uma saída. Correr em busca de uma rota de fuga. Correr para fugir. Fugir do destino. Ponho todo o meu desejo nas patas. Nas unhas que escavam o chão em busca de rapidez. Parece que não consigo ir rápido demais.
Você não pode fugir do tempo, minha dama. E é apenas questão de tempo. Tempo para que eles te achem. Tempo para que você e eu sejamos um só. Tempo para você matar novamente. Ou então. Tempo para você morrer.
O lobo no meu peito rosna para mim tais palavras. Sua voz está mais forte. Mais brutal. Mais mortífera, mas monstruosa. Cada vez mais minha. Balanço minha cabeça, mandando tais pensamentos para o fundo dela. Enquanto faço isso, me distraio. Não percebo o pequeno córrego até que ele esteja bem na minha frente. Quase caio nele. Quase me afogo. Não sei nadar.
Olho o córrego com raiva, como se ele tivesse culpa de estar no meu caminho. A lua ilumina-o de tal forma, que suas águas estão prateadas ao invés de verde. Parece que é prata liquida. Um filamento de luar que desceu na terra. De forma quase que hipnotizada eu me aproximo.
Tic.. Tac... Cuidado princesa. Cuidado com o tempo. Ele está passando. Está acabando. Cuidado princesa. Tic... Tac...
Ele aparentava o coelho da Alice. Entretanto não estou de avental e rosto bobo. Aproximo-me da água. Ela, mais que o espelho quebrado em meu quarto, me mostra a minha alma. Me mostra a minha alma no mais profundo de seu amago. No fundo do reflexo daquele lago, olhando-me com olhos dourados e ferozes, estou eu. Estou eu e a fera. A fera sou eu. Eu sou a fera.
Tic... Tac...
Um lobo de pelagem branco acinzentada me olha com seus grandes olhos. Seus dentes, grandes e ameaçadores, estão a mostra. São laminas, laminas mortais. Ele é um lobo grande. Grande e forte, com músculos desenvolvidos. Ninguém que o veja chamaria de fraco. Ele não é fraco. Sua força está estampada em cada movimento. Em cada inclinação do corpo que ele dá para se olhar melhor. Cada movimento que NÓS fazemos para nos conhecer. Para conhecer o corpo que habitamos. Compartilhamos. Estou impressionada. Apaixonada. Pela figura acinzentada na minha frente. Pelo Lobo grande. Estou apaixonada pela fera. Estou apaixonada por mim.
A fera em meu fundo sorri de animação.
Eu sei querida. Sei que me ama. Sei que sou impressionante.
Gargalho com suas palavras. Pelo fato de não serem brincalhonas. Ele acredita realmente que é o centro. O centro de minha vida. Isso me faz rir mais intensamente. Estou distraída. Leve. Até me dá conta. Eu sou a fera. Eu sou o lobo. Eu matei meus melhores amigos. Eu sou meu maior pesadelo. Eu sou a prova. Prova de que tudo dito é verdade. Sou o lobisomem que assombra os pesadelos das crianças. Sou aquilo que o mundo abomina.
Não se julgue criança. Lembre o que aprendeu. Somos forte. Somos melhores. Somos o futuro.
Não consigo me imaginar com o futuro. Não sei me imaginar como grande. Como alfa. Como vencedora. Não pertenço àquele lugar. Não sei meu lugar. Não tenho lugar. Lembro do rosto de tia Kathy. Ela parece ser um bom lugar. Um lugar que eu escolheria. Olho para a prata líquida. Olho para o céu sem estrelas. Olho para a lua solene e solitária naquele céu. Ela me faz companhia. Como eu faço à ela.
Um farfalhar de pés me chama atenção na esquerda. Meus olhos, mas acostumados com a visão escurecida do que eu poderia imaginar, vasculham a área em busca do causador do barulho. Dois homens. Ambos altos. Ambos armados. Espingardas. Caçadores. Eles me olham assustados. Não me esperavam aqui, da mesma forma que eu não os esperava. Um deles, o que tem o boné azul, levanta a sua espingarda. Reflexos rápidos de um caçador experiente. Deixo tudo de lado. Deixo os instintos assumirem.
Meu corpo pende, em posição ameaçadora. Meus lábios sobem, deixo os dentes a mostra. Viro meu corpo na direção deles. Eles estão atentos a cada movimento meu. O de boné azul mira sua espingarda para mim. Aprumo o corpo. Pronta para o bote. Pronta para o ataque. A espingarda faz barulho. Ele vai me matar. Ele não conta com uma coisa. Sou uma caçadora melhor. Lanço meu corpo para a briga.
Seu olhos são a primeira coisa que noto. Olhos carregados de medo. Ele corre. Tenta fugir de mim. Solto uma gargalhada. Corra, meu caro, corra. Você não vai longe, mesmo que saiba correr. Ele tenta atirar. Tenta me matar. Ele não é capaz. Eu irei mata-lo. Irei rasgar sua garganta. Quebrar seu peito. Esmagar seu coração. Literalmente. Minha gargalhada entoa pelos meus lábios como um rosnado. Ele olha para trás. Tenta mais uma vez atirar. Tenta se salvar. Ainda não compreendeu que eu sou sua salvação. Sua libertação. Ele cai. Seus pés engataram num galho de árvore. Ele está a minha disposição. Para que correr agora? Não sou um gato, mas também não preciso comer tão rápido assim.
— Por favor! Não me abandona pai! Por favor!
Grite. Suplique. Não precisa se preocupar, te entregarei ao teu Deus. Eu sou teu Deus. Deveria implorar para mim. Deveria me implorar sua vida. Adoro quando me imploram. Adoro quando aceitam dançar comigo nessa dança mortal. Venha baby, dance com o diabo.
— Por favor! Pai! Não me deixe! Não agora.
Estou perante sua face. Vejo meu reflexo refletido em seus olhos medrosos. Estou pronto para matá-lo. Venha aqui. Aceite meu beijo da morte. Morra em meus braços.
— Por fav...
Suas palavras se perdem. Ouço o tilintar de uma outra espingarda. Sem olhar sei que o outro homem, o que esqueci durante o fervor da caçada, está apontado sua arma para a minha cabeça. Erro meu, admito. Erro fatal. Vamos em frente. Somos forte. Vamos matar. Não faço nada. Fico paralisada. O tempo passa, mas é mesmo que nada. Ele não se move. E muito menos eu. A morte me atormenta a alma. Nunca tinha pensado na sua perspectiva. Morrer de mentira. Fugir. sumir. É diferente. Eu continuei respirando. Agora não irei mais. Irei embora de vez. Irei dizer, afinal, meu último adeus. E ele vai ser solitário.
A morte é apenas mais uma viagem. Apenas um passo a mais. Se vamos morrer. Que seja como a fera que somos! Ele pula contra o pescoço do homem de boné azul. Rasga ele como quem morde um chiclete. O gosto do sangue, metálico e salgado, me enche a boca. Não sinto nojo, mas prazer. Um prazer descomunal. Ouço o tiro. E depois um baque. Sinto a bala. Minha perna cede por uns instantes. Não consigo parar. Sei que ele vai atirar novamente. Eu quebro o peito com a pata. Termino de rasgar com os dentes. Seu coração tem gosto de vitória.
Com a boca ensanguentada eu me viro, para encarrar o outro homem. Ele está caído. Seu peito está oco. Tudo dentro sumiu. Não tem nada. Seus olhos estão aberto. Arregalados de horror. Eu não o matei. Então alguém o fez por mim. Fico em alerta. Procuro o novo inimigo. Desta vez posso ter certeza que é dos meus. Não tem nada. A floresta está vazia. Iluminada pela lua prateada. Quieta. Verde e negra. Com suas sombras. Uma sombra que anda. O vejo quando já é tarde mais. Ele está em cima de mim. Negro como a noite. Dentes vermelhos. Sangue. E olhos... olhos de tirar o folego. Verdes claros. Olhos que me encarram bem fundo. Tentando entender-me. Boa sorte. Nem eu sei quem ela é. O lobo dentro de mim ri. Ele não tem medo. Ele não teme esse lobo negro em cima de nosso peito.
Seus olhos se põem nos meus. Dourado contra verde. Como o sol contra a grama. Ele me cheira. Analisando-me. Procurando algo em mim. Deixo a fera assumir. Ela não tem medo. Ela está confiante. Ela relaxa. Mais um erro fatal. Com a adrenalina deixando meu corpo. A dor me atinge. A bala atingiu minha coxa. E ela doí. Meu corpo, em baixo do corpo negro, se retorce. A dor entrou em minha consciência. Nunca nem bati a perna mais forte que um simples arranhão. Não sei lidar com a dor. Não tenho experiência. A minha transformação deixa o corpo. Gradativamente meu corpo se torna o meu corpo habitual. E minha visão... ela não é a mesma. Está indo emborra. Tudo em meu campo de visão fica turvo. Enegrecido pela dor. Vejo de longe o verde das folhas, a lua prateada, o lobo negro e seus intensos olhos...
Sinto o lobo me cheirar novamente... Sinto ele cutucar meu corpo com o focinho... Sinto meu corpo ir embora...
— Acorde! Por favo, acorde!
Um voz melodiosa... Ela já repetiu isso muitas vezes... Quero acordar...
— Me mostre que está viva! Por favor!
É suplicante... É doce...
— Por favor!
Tento levantar a mão... Ela não sai nem um centímetro do chão... Tento abri os olhos.... Encontro-me encarrando uma imensidão verde. Verde de mais... Lindo de mais... Meu corpo se vai de novo...Desta vez por mais tempo.
Sei que acordo poucas vezes. Carregada. Deitada. Cutucada. Mexida. Sei que de tudo um pouco aconteceu comigo. Entretanto não sei onde me encontro. Na ultima vez que acordei sinto uma coisa dura contra a minha costa. Durra e gelada. Apesar de que a maior parte do frio é filtrado por uma roupa. Uma fina roupa colocada em meu corpo. Não é um lugar silencioso. Muitas vozes entoam. Tem muitas pessoas me observando, mas uma voz me chama atenção.
— Linda! Por favor filha, acorda!
A voz de tia Kathy é suplicante. Ela parece estar desesperada. Faço um esforço maior. Por ela.
— Nikaia.
Minha voz sai fraca. Não ouço barulho. Não ouço nada por um tempo.
— Linda? Você está bem ?
É a voz de Pietro. Ele também parece aflito. Isso faz meu coração dar pulinhos apesar da condição que me encontro.
— Nikaia. Agora me chamo Nikaia.
Minha voz parece mais forte. Aceito o destino Tic... Tac... Não se preocupe, meu amigo, o tempo já me alcançou. Abro meu olhos. Abro meus olhos para o amanhã.
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