Notas iniciais
Hey baby, venha mais perto. Pegue seu café. Eu sei, também fico sem dormir pensando nela. Eu disse. Disse que não ia querer parar. Abra as asas. Voe pelo abismo. Voe pelo abismo que é essa histórica. Voe comigo. Somos velhos amigos já. Venha. Vamos se jogar.... Abra as asas...

Estou numa sala branca. Um consultório não muito grande, entretanto ainda sim é algo médico. Minha tia, Pietro, um senhor com barba grande (nunca vi), uma senhora(deveria ter uns vinte anos) que me olhava preocupada e Luciam. Estavam todos ali, naquele lugar pequeno e apertado. Luciam estava no fim da sala, encostado em uma parede. Ele me olhava com seu olhar altivo. Luciam carregava um sorriso de satisfação no rosto. Aparentava felicidade.

—Onde estou?

Era a primeira vez que falava após me apresentar como Nikaia. Minha voz tá meio rouca, como se não falasse a tempo. Não sei à quanto tempo não falo, não sei à quanto tempo estou inconsciente. E bem, faz um longo tempo que nada de minha boca sai com muito vigor. Minha vida foi feita de sussurros.

— Está no posto. Encontramos você inconsciente na beira da estrada e troucemos você para cá. Há um ferimento em sua perna. Por pouco não pegou na femoral.

Tia Kathy fala de modo preocupado. Ela coloca a mão em meus ombros, se confortando ao mesmo tempo que tenta me confortar.

— Eram caçadores experientes. Sabiam o que estavam fazendo. A bala era de prata, mas conseguimos limpar o ferimento. Não há mais resíduos de prata em seu organismo.

Prata? Como em lendas? O que tem de cientifico nisso? Não consigo encaixar. É surreal de mais. Porém eu penso no ferimento. Minha perna não doe. Nada doe. Meu corpo está relaxado. Não sinto mais nada. Estou como se tivesse bebido de mais. Com aquela sensação borbulhante na barriga.

— Analgético.

A senhora na sala, que parecia uma enfermeira, responde minha pergunta mental. Acho que deixei qualquer coisa transparecer em minhas ações. Concordo com a cabeça.

— Saiam. Ela já irá para casa. Preciso examina-la mais uma vez.

O doutro tem uma voz autoritária. Ele sabe exercer o poder que tem. Tia Kathy Me aperta os ombros, daquela forma que diz: "Hey, volto já.". Sorrio para ela, vai dar tudo certo. Eu estou bem, é mais algo de rotina. Ela me olha com seus olhos gentis e se retira.

Pietro segura minha mão, apertando-a levemente. Ele olha no fundo dos meus olhos. Seus olhos, azuis celestes, se encontram com os meus. Vibrantes e intensos. Sua boca pende em um sorriso provocante. Ele lança-me uma piscadinha. Não fico vermelha. Levo seus olhar. Sorrio de canto. Me deixo levar. Ele beija-me a mão e então se vai, com um andar confiante.

Ficamos os quatro na sala. A senhora moça arruma algumas coisas num armário. O senhor com a barba, o doutro, me olha.

—Levante-se.

Sua voz é de comando. Tento me apoiar para poder levantar. Meu corpo tá amolecido. Ainda meio adormecido.

—Acho que ela está para cair doc.

O doutro olha para luciam, autor da frase, que ainda está encostado na parede. Luciam aparenta o dono do local. Forço meu cérebro a lembrar que ele é quase isso.

—Luciam, se retire! Dentro da minha sala eu ainda mando. Lá fora o mundo é todo seu novamente.

Luciam o olha com os seus olhos altos, olhos de sangue. Eles está aparentando o manda chuva local. Ele não quer acatar, não a ordem de alguém menor que ele. O doutor o olha de modo inquisidor, esperando. Sento-me com uma certa dificuldade. Não estou recebendo ajuda alguma. Luciam ainda não se foi.

—Luciam...

Luciam resmunga. Bufa. Entretanto sai do local deixando os doutores locais e eu. O homem barbado examina meus reflexos, tudo certo segundo ele. Movo minha perna com dificuldade, entretanto ela se move bem. Ele me deita de costa e examina a ferida. Cutucando, cortando, limpando, examinando.

—Está limpo e cicatrizando bem, não tem muito o que fazer. Apenas deixar o tempo curar.

O tempo sempre cura tudo.

Sorrio junto com o lobo. Que clichê. O tempo, deus mortal, e suas eternas atribuições. O doutor toca em meus ferimentos uma última vez.

—Vista-se adequadamente. Jullyana vai te ajudar com isso. E assim pode ir com a sua família.

Sem o mais nem o menos ele sai da sala, deixando-me apenas eu e a jovem senhora. Ela se vira, de frente para mim novamente. Saindo de seus afazeres ela me ajuda a ficar de pé e a me vestir. Um vestido florido de mangas longas e cintura fina. Definitivamente não pertencia ao meu novo guarda roupa.

—Pode ficar, ele não dá mais em mim.

Sua voz é doce. Uma voz de criança. Ela me apoia para que eu saia da sala. Suas mãos são muito gentis. O doutor está falando com meus tios. Nenhum dos dois aparenta preocupação. Isso tira dos meus ombros um peso que não percebi carregar.

—Venha comigo. Vamos andando. Depois eles vem.

Pietro está perto de mim, não percebi chegar, mas também não me assustei. Ele coloca a mão na minha cintura. Retirando o meu peso da enfermeira. Passo o braço por seus ombros. Ele é mais alto que eu. Enquanto andamos porta a fora do consultório pequeno, que fica ao lado de uma grande casa de alvenaria reparo em seu rosto de ângulos perfeitos que está próximo ao meu. Sua boca arredondada está curvada em um sorriso brincalhão. Ele é aquele tipo de garoto que está sempre por trás de uma piada maldosa. Aquele que as meninas fazem fila para que ele as admirem. Ele é AQUELE tipo de garoto.

Um garoto desse não seria nada mal...

Realmente. Ombros largos e músculos definidos. É alto e tem força. Não era alguém que se joga fora. Jamais.

... para uma refeição.

Eu ri internamente. Não entendo o gosto dela, da fera. ela não ve com os mesmos olhos que eu, apesar de olhar por eles. Chegar em casa não é tão entusiasmante. Eu tenho de me afastar de seu corpo quente para ser deitada no sofá. Ele agora está acima de mim. Me analisando. Seu queixo levemente levantado, um verdadeiro Bad Boy.

—Que marra é essa toda? Pensei que ia ser meu enfermeiro, e não o carrasco.

O sorriso em minha voz é visível, apesar de toda a sonolência do remédio. Inclino meu corpo para frente, apoiando-o nos cotovelos. Indo em direção à ele. Querendo que ele fique por perto. Ele aceita a brincadeira. Passa a mão pelos cabelos e os joga para o lado. Inflando o peito e mostrando os músculos.

— A princesa que os meus cuidados?

Ele não olha para mim. Faz a pergunta para o alto. Sei que tá imitando o jeito altivo do pai. O jeito de dono, de chefe, de proprietário. Levanto o corpo, me sentando, jogo o cabelo para o trás, sem meus curtos cachos acinzentados o decote do vestido fica a mostra. Não é um decote grande, mas ele é o suficiente para fazer Pietro me olhar.

— Tenho certeza que o Lobo mal vai me dá sem que eu tenha que implorar.

Ele sorri. Se inclina, frente a frente comigo. Seus olhos azuis em meus olhos dourados. Olhos que se tornam mais azul a cada instante. Sei que o seu lobo está assumindo. Isso me dá medo, entretanto ao mesmo tempo me deixa excitada, se tiver que lutar eu não me importaria em fazer. Seus dentes crescem mais. Mais brancos, mais afiados e a cada momento mais mortais. Ele rosna para mim. Meu corpo se agita, se laça para cima. Quero provoca-lo. Quero brincar. Me joga para ele, contra ele. O corpo dele também se lança contra o meu. Quero me divertir pelo menos uma vez. Abaixo meus olhas para a sua boca. Ela está semiaberta, respirando mais pesado a cada instante. Sua respiração se tornou pausada. Sua boca tem uma linha de cicatriz no lado direito. Quero passar a língua por ela. Não apenas por ela.

Eu o beijo. Ele me beija de volta. Seus lábios são macios e sua língua docilmente procura em minha boca o gosto próprio. Suas mãos me agarram a costa de modo delicado. Ele é muito gentil quando me abraça e me joga contra o sofá, beijando-me sem parar. Paramos para respirar. Suas faces estão coradas. Beijo seu pescoço, ele geme contra meus cabelos. Excitado ele joga seu peso em cima de mim. A dor entra em meu corpo, a perna ferida reclama.

Largo-o e o empurro para longe. A dor voltou ao meu corpo. Sem o peso dele a dor vai diminuindo. Fecho meus olhos, esperando ela passar completamente.

— Desculpa! Desculpa, eu esqueci!

Dispenso suas desculpas com um aceno de mão. Um lagrima solitária de dor me desce a face. Eu quase tinha me esquecido como é a dor. Fico lá, deitada, de olhos fechados. Esperando meus tios voltarem. Enquanto isso Pietro me pede desculpas como uma criança.

—Tudo bem, não foi culpa sua.

Ele ia tentar se desculpar novamente. Dispenso com outro aceno. Não demora muito até meus tios chegarem. Me arrependo da brincadeira.

—Tudo bem? Começou a dor novamente?

Tia Kathy me pergunta ao ver jogada no sofá.

— Tudo certo Tia. Não foi nada.

Luciam nos olha, a mim e a Pietro, enquanto me sento e passo as mãos no cabelo.

— Como conseguiu a bala? Como era o caçador? Onde ele se encontra? O que aconteceu na floresta? Até onde você foi?

Luciam me joga sua infinidade de perguntas de uma vez só. Não sei o que responder. Olho para tia Kathy, procurando ajuda. Ajuda que não sei se receberei.

— Calma Luciam, vá devagar. Ela não é um inimigo. Ela é nossa família.

Luciam revira seus olhos vermelhos. Olhos vermelhos vividos. Olhos vermelhos de um lobo.

—Quero respostas Kathyne e não um abraço e ouvir que tudo certo.

Tia Kathy revira seus olhos para ele.

—Por favor Luciam, entenda...

—Não sei até onde fui na floresta, não conheço esse lugar. Era perto de um córrego. Apareceram dois homens, caçadores. Pai e filho, ambos com espingardas. Eu fui atrás de um, ele tentou atirar em mim diversas vezes. Eu o matei. O outro atirou em minha perna. Depois disso eu apaguei. E acordei no consultório.

Luciam me olha, procurando traços de mentiras. Tia Kathy também me olha com preocupação nos seus doces olhos.

— Como simplesmente apareceu? O córrego é longe, é quase no meio da floresta. É a muitos quilômetros daqui.

Olhei para Pietro, quem me fez a pergunta.

— Um lobo, ele me ajudou. Matou o cara atirou em mim e quando desmaiei... não sei, acho que ele cuidou de mim.

Pensando realmente bem, eu mesma não saberia dizer o que tinha acontecido, mas posso ter certeza que foi o lobo negro. Ele era o único, além dele havia apenas os espíritos das caçadores, que não me ajudaria nem se isso os fizesse ir ao céu direto.

— Lobo? Como assim? Que lobo? Aonde?

Luciam estava em pé, na minha frene. Exigia respostas. Ele era a imagem perfeita de um ditador. Coreia do norte está perdendo tão grande homem.

— Como assim filha? Não estou entendendo. Explique melhor.

Tia Kathy se sentou a meu lado. Pegando minha mão entre a sua. Atraindo a minha atenção. A única que me faria falar sobre o lobo noite de olhos mar.

— Era um lobo negro. Muito negro. E tinha olhos, muito vibrantes, de um tom verde profundo.

Todos no local prenderam a respiração. Pararam seus movimento no ar. Me surpreendi, não esperava tal reação, para falar a verdade não esperava reação nenhuma. Era apenas um lobo na floresta. Um lobo de intensos olhos verdes.

— O Sombra chegou. Não pensei que ele viria. Ele não participa muito das reuniões. Não o vi em muitas, e sempre que vem ele nunca o faz na forma humana, sempre o lobo Sombra.

Tia Kathy fala rápido, olhando para Luciam. A conversa se tornara não minha.

— Eu não pensei que viria. Na última reunião ele brigou com Jack em Paris. Pensei que ia se manter afastado de todos. Pelo que parece ele não esqueceu a briga. Que outro motivo teria para vir até aqui ?

Luciam começou a roer as unhas, hábito normal quando um pessoa fica nervosa.

— Ele é perigoso pai, e se procura sangue ele se torna mais ainda. Você sabe que o Sombra não é lobo para ser mandado, como vai mantê-lo nas rédeas?

Sombra! Nome bom para aquele ali. Ele é realmente uma sombra. Rápido e negro. Além de mortalmente intenso. Gostei.

Fiquei confusa, já não sabia o que fazer, tentar entender a discussão na minha frente ou acalmar o lobo dentro de mim, que se contorcia com as novas informações.

— Que...?

Me arrependi de tentar perguntar qualquer coisa. Todos se viraram para mim, olhando-me. Ninguém falou nada durante o momento que se passou.

— Diga linda...

Tia Kathy tenta ser gentil.

—Não estou entendendo nada.

Ela suspira.

—Bem...

Ela não parece saber por onde começar.

—A cada lua de sangue os lobisomens se reúnem. Três dias. Um antes, durante e um depois. Todos vem. De todas as partes do mundo. Desde Alasca até África do sul. Os grandes líderes. E alguns famosos lobos solitários. Desta vez é aqui. Todos os grandes líderes estão para chegar. O pré começa amanhã, o primeiro dia de festival.

Ela respira e me olha, vê se assimilei tudo.

—Dentre esses grandes lobos existe o Sombra. O Sombra é um lobo de grande fama. Violento e misterioso. Ninguem sabe como se parece, apesar dos grandes boatos. Ele é um lobo, um grande lobo negro.

Titia respira, ela me olha preocupada, quer saber se estou bem, entendendo e sã.

—Ele é louco. Um lobo violento.

Pietro fala, tem odio no seu rosto. Não consigo ver isso. Ele não é um lobo mal. Ele me ajudou. Me salvou.

—Por que não vai para o seu quarto. Você está ferida e cansada, é muita coisa. Descanse.

Eu levanto, não irei contra esse pensamento. Pietro se levanta. Oferecendo ajuda, sem usar palavras. Balanço a cabeça. Não é necessário. Consigo ir sozinha. Subo devagar as escadas. Quando chego no segundo andar o barulho das falas recomeça. É meio que uma discursão. Deixo isso para lá. Em meu quarto o corpo relaxa. A dor me atina na coxa. Leve. Vou até a janela. O céu está bonito.

Dlim Dlão donzela. A vida está de cabeça para baixo. Aceite. Aceite que eu sou o melhor para comanda-la. Aceite que sou o melhor em tudo. Aceite que você sem mim não seria nada. Aliais menos que isso. Sem mim você choraria o tempo todo.

Me perguntava onde estava. Ele ficou tão calado. Ele mandou uma imagem. O ferimento. Prata. Prata o inibe. Eu ri. Uma criatura tão cheia de si não pode ver um metal.

Princesa, melhor ter uma fraqueza banal do que ser cheio de grandes fraquezas.

Abaixo meu olhos para as árvores. Grandes árvores cheias de sombras. Uma delas se move. Meus olhos são rápidos desta vez. Eles encontram o lobo rapidamente. Seus olhos verdes estão ameaçadores, mas não loucos. Não loucos. Ele me olha intensamente, olho no olho. Ele inclina a cabeça, como quem pergunta algo. Balanço a cabeça em concordância

—Estou bem.

Sussurro ao vento. O lobo concorda com a cabeça. Se vira e vai emborra. Quero gritar, mas se fizer isso diria que ele está ali. Quero ir atrás, mas o ferimento ainda dói. Por isso fico. Fico no peitoril da janela, olhando distante o lobo ir emborra, ir para longe de mim...

A fera em meu peito ruge, ela quer ir atrás. Quer ir atrás da Sombra misteriosa que vaga solitária na floresta.

Notas finais
Se houver algum erro, por favor comente para que eu possa concertar e a história ficar melhor. *.* obrigado por ler @fada_do_luar