Notas iniciais
Olha quem está aqui! Você veio de novo! Eu sabia que não ia aguentar ficar longe mim, você nunca aguenta me deixar! Pegue sua caneca e sente-se aqui pertinho para ver, ver como a bela donzela renasce. Para todo fim um recomeço! Venha, chegue bem mais perto, vamos cair de cabeça nessa história e nos entrelaçar nesse destino! Porque assim com a Fênix, que todos julgam vencida – derrotada, ela vai ressurgir, renascer das cinzas, dor e morte. O fogo vai queima-la? Sim, irá. Entretanto também vai fazê-la mais forte, com a vontade imutável de lutar.

Toc! Toc! Toc! Algo está insistentemente batendo no vidro e me faz acordar. Abro meus olhos devagar, pois meus olhos estão sendo abatidos por uma luminosidade alaranjada, acho que já estou em pleno crepúsculo. Sento-me devagar e, como sou acostumada a fazer, pego meu celular para ver as horas — em primeiro lugar fico espantada com a imagem azulada ao invés da minha foto com Kaion e Dani e então reparo nas horas. São cinco horas da manhã, levanto-me em um sobressalto, quase batendo na mesinha de vidro que tem no centro da sala. Eu dormir pra porra, meu deus, quase entrei em coma.

Olho ao meu redor e aonde a luminosidade do sol não alcança está em plena sombra escurecida. O toc-toc agoniante que me acordou era uma fina chuva batendo contra a janela, uma chuva de pingos pequenos que caia de forma rápida e delgada pelos vidros da janela. Estico a coluna e bocejo, o sono ainda me dando alguns cutucões, passo a mão no rosto e em meu cabelo – que se reduziu a um ninho de pássaros peraltas, o seguro com firmeza e os prendo em um coque alto.

Ainda sonolenta me levanto e vou em direção a um cômodo mais distante, que parecia inteiramente banhado pela luz alaranjada, o cômodo muito bem equipado e iluminado era uma cozinha. Nela se encontra minha tia, que está de costa para mim preparando algo no fogão, vestindo uma camisola longa em um bonito tom pastel combinando perfeitamente com os seus sedosos cabelos claros. Perto dela tem uma mesa encostada na parede equipada com café, pão, bolo, leite... e dezenas de outras guloseimas, que eu estou aceitando de bom grado no momento. A mesa, pequena, desaparece embaixo de tanta comida, fico imaginando se não vem um batalhão comer conosco – entretanto lembrando-me da fome voraz de minha tia e de minha própria, sei que ambas conseguiríamos comer tudo aquilo sozinhas.

Meu estomago ronca e tia Katri se vira, seu rosto sonolento demostra que ela acabou de acordar também, entretanto apesar de tudo ela sorri alegremente para mim.

— Hey minha pequena garota, bom dia! Dormiu bem?

Sonolentamente também lhe envio um sorriso. Não sei se realmente dormi bem, tive um sonho agitado, mas de certa forma também estava e acalmando, o que torna tudo ainda mais estranho.

—Dormi bastante tia, para falar a verdade eu desmaiei legal, ao invés de dormir.

Ela gargalha gostosamente com minha resposta, sua risada delicada é uma coisa muito gostosa de se ouvir de manhã. Minha tia aprece radiante, vestida de modo casual como uma dona de casa – bela, recatada e do lar, sorriu com o pensamento e ela arqueia a sobrancelha, perguntando-me o motivo, eu apenas nego com a cabeça e a deixo imaginar o que deve ser. Ela termina de preparar os ovos e o bacon e os coloca em um bonito prato azulado na mesa e senta-se em uma das cadeiras.

— Hey baby, venha aqui! Sente-se e coma, sei que deve estar faminta.

Retiro o casaco avermelhado e coloco na cadeira em que me sento. A chuva está gradativamente parando de bater. A mesa apilhada de comida é demais para minha visão, tem muita coisa e muito de muitas coisas, é uma mesa extremamente exagerada.

— Hey filho, venha comer conosco antes de trabalhar, não quero nenhuma reclamação por você estar de mal humor novamente. Venha meu pequeno!

Meu mais novo parente, outro que ninguém me avisou que eu tinha adentra a cozinha iluminada. Eu não havia percebido sua presença, não o espera ali para ser amis exata, e então quando o vejo eu percebo o erro de não notar sua presença. Santo Deus! A primeira coisa a ser considerada é altura – deve ter um metro e oitenta (no mínimo) – e depois seus olhos. Intensos olhos azuis, que não apreciam ser reais, eles eram azuis demais como se artificialmente pintados, pareciam os olhos de um animal, como aqueles irreais olhos de gato. Eram olhos que só poderiam ser descritos como lindos, mas que também eram carregados de temor, eles eram aterrorizantes e te fariam de presa facilmente. Ele deveria ser um experiente caçador.

Ele me olhar como se me notasse pela primeira vez também e um tremor atravessa todo o meu corpo, fico visivelmente abalada — por dentro grandemente assustada, ele é bem maior e mais forte que eu. Então ele faz algo que eu sinceramente não esperava, ele sorri de forma ampla com seus afiados dentes incrivelmente brancos, era um sorriso que muitos considerariam maquiavélicos, mas eu o encarro como surpreendentemente encantador. Ele era o tipo de cara que carrega problemas, problemas garantidos.

— Bom dia senhoritas.

Sua voz é jovial e forte, uma voz que envolve e que te deixa tranquila, é aquele tipo de voz que deixa a menininha em mim pedindo por atenção e querendo cada vez mais ele por perto. Acho que deixei minha cara transparente de mais, pois o homem na minha frente aumenta o sorriso, agora ele parece realmente com um leão diante da mais fraca zebra da manada – ele se torna um conquistador. Desvio meus olhos para a mesa, estou incrivelmente vermelha, o monstro no meu peito ronrona de alegria. Tia Katri, do outro lado da mesa, aprece se divertir com seus íntimos pensamentos.

— Pietro essa é a Melinda. Mel, meu anjo, esse é Pietro, meu filho. Que bom que se conheceram!

De cabeça baixa eu concordo, timidamente. Ele senta-se na cadeira vazia entre eu e tia Katri, fico ainda mais encabulada como uma menina jovem, o monstro em meu peito arranha as grades. Ouço ele rir e isso me deixa ainda mais envergonhada, como não tinha estada envergonhada a muito tempo, entretanto minha fome vence a vergonha e eu começo a comer. Imagino meu estomago com a bolsa da Hermione e assim como todos ao redor da mesa eu começo a enche-lo, em pouco tempo não resta nada daquela quantidade exorbitante de comida, e na cozinha tem apenas satisfeitos sorrisos.

— Hey linda, por que não ajuda o Pietro na loja está manhã? Preciso sair e não poderemos arrumar o quarto por agora, quando voltar com Luciam podemos fazer isso. Okay?

Não fazia a mínima ideia de quem era Luciam e decidi não perguntar, não queria ser incomoda. O sentimento de infantilidade me toma novamente, eu ia ficar perto do caçador novamente.

— Não se preocupe tia, tudo bem por mim.

Pietro sorri para a mãe, como se eles compartilhassem algo importante em segredo e então se levanta e some de vista, em seguida minha tia faz a mesma coisa – me dá um beijo na testa e se vai, deixando-me com os meus pensamentos. Uso a pia da cozinha para lavar meu rosto e minha boca, ao meu toque meu rosto aprece muito quente e para acalmar-me eu olho os ladrilhos brancos perto da pia, e meus pensamentos vagão para Kaion...

— Vamos, não posso chegar atrasado de novo, se não Katherine vai querer minha cabeça em uma bandeja.

Pietro me assusta, falando repentinamente, me viro para ele, concordando com a cabeça. Ele veste roupas casuais e me chama com a mão, depois se vira e segue andando, sem saber exatamente como agir pego meu casaco vermelho e o ando atrás dele, como um cachorro brincalhão.

A loja ao lado da casa (a de eletrônicos) é realmente de minha tia e nela tem todo o tipo de coisas que sua mente pode imaginar – com minha curiosidade ligada, fico vagueando pelo recinto. O fim do mundo é realmente uma coisa impressionante, carregado de apetrechos.

No começo da manhã, logo que a loja abre, vem até nós uma senhora que tinha bonitos traços indígenas e um rosto deveras bondoso. Ela me observa por um longo tempo, com seus olhos que são negros de uma forma muito incrível e que me deixou arrepiada da cabeça aos pés – eles carregavam consigo algo intenso e impressionante. A senhora entrega um celular para Pietro e conversa com ele por um tempo considerável e durante esse tempo eu esqueço-me de seus impiedosos olhos e continuo a vaguear na loja.

Estou mexendo em alguns tipos muito bonitos de fones, quando sinto algo tocar meu braço, quando viro-me para olhar o que me tocou, encontro-me com a senhora dos olhos negros. Eles ficam ainda mais intensos grudados no fundo dos meus.

— Você tem força menina, e está destinada a algo grande! O topo da matilha meu bem, não se esqueça disso! Não fique ludibriando-se com um qualquer, você tem nas mãos o destino de um alfa, um grande alfa, você tem nas mãos o destino de quem mudará a história. É você quem estará lá, ao lado deles – em pé, sendo aclamada. Você ainda tem muito o que viver, minha doce Nice.

E então como se nada tivesse acontecido ela se vai, e me deixa no escuro que suas palavras me provocaram, mas não está inteiramente escuro, ainda tem uma luz no fim desse túnel – entretanto estou com medo de caminhar até o fim. Pietro me olha de lado, com uma certa ambição nos divertidos olhos.

— Não se importe tanto com o que Katherine fala, ela é apenas uma velha supersticiosa.

Decidi não me importar com mais nada a partir daí, nem com as pessoas que entravam e saiam da loja, nem com o que era comprado, com nada. Fiquei apenas repetindo sem parar as palavras da senhora, tentando encontrar algum significado – alfa, mudar a história, eles, Nice – eram muitas coisas em que se perder e para tentar entender.

Eu sei que não queria me contentar estar no final, eu sempre busquei o primeiro lugar, entretanto alfa? A primeira letra do alfabeto grego, o chefe de uma alcateia, algo importante. Não consigo entender, sei que tenho de mudar, mas não contentar-me com o pouco. Que vontade de gritar, extravasar, me sinto impotente sem nada entender.

No final da manhã minha tia aparece na loja, chamando-nos para comer junto a ela. Pietro recusa educadamente e diz que precisa encontrar Luciam, minha tia deveria estar prevendo tal resposta, pois apenas sorri. A mesa posta apenas para duas pessoas é farta e comemos agradavelmente a deliciosa comida.

Ao termino da refeição eu e tia Katri subimos para o andar superior e deparo-me com outra riqueza de detalhes na decoram de requinte e assim como o andar inferior é altamente rico de tons claros. Segundo minha tia, meu quarto está atrás da última porta do corredor e ele dá em direção ao final da casa, ela me pede encarecidas desculpas por ser um ambiente pequeno.

A porta era de madeira escura, e continha na frente um pequeno quadro com uma bela orquídea pintada, acho que era para que eu não esquecesse qual era o meu quarto. Ao abri me deparo com um quarto pequeno, contendo uma cama, um guarda-roupa, uma cômoda e uma porta pintada de azul – pelo fato de ser um quarto pequeno ele estava abarrotado de coisas, desde as sacolas de comprar até as coisas que vieram de casa. Minha tia está mordendo os lábios, esperando a minha reação, não tinha muito o que falar, então apenas lhe lancei o meu melhor sorriso de agradecimento.

Então, sem perder tempo começamos a arrumar. Livros em cima da cômoda, que carregava na primeira gaveta minhas calcinhas e sutiãs (antigos do lado esquerdo – minha calcinha de panda é importante para mim – e novos do lado direito), na segunda gaveta estavam minhas roupas de dormir e confortáveis para ficar em casa (em resumo, a maioria das minhas antigas roupas) e por último, no final, foram acomodados meus sapatos. No guarda-roupa ficaram minhas novas roupas, as mais novas que eu comprei e algumas que minha tia empacotou, que eu tinha e nunca tinha usado. De executiva a vadia podia ser encontrado no meu novo guarda-roupa.

Enquanto eu arrumava minhas coisas no guarda-roupa – minha tia organizou o banheiro com os produtos de higiene, toalhas e produtos de beleza e era lá outro lugar onde poderia ser encontrado todo tipo de coisa. Observando minhas coisas eu reparei que poderia ser quem eu desejasse, bastava saber o que eu desejava ser – resposta que eu ainda não tinha.

Na cama colocamos uma colcha delicadamente florida e em cima depositamos alguns ursos de pelúcia, uns com significado e outros que eu comprei porque achei bonitos. O quarto também continha uma bonita janela, onde minha tia colocou um filtro dos sonhos e uma cortina com a constelação de Lupus, pelo que ela me falou. Olhando-o agora o lugar não tinha mais a cara de um armário desorganizado, ele parecia realmente um lar, era o quarto que um dia sonhei ter.

Nas paredes colocamos fitas e luzes coloridas, na parede esquerda foi pendurado um grande mapa, com marcações feitas na hora de todos os lugares que um dia eu gostaria de conhecer. Como toque final, no lugar do quadro de flores colocamos um quadro de um par de asas, nada como o símbolo da liberdade.

Meu diário depositado entre os livros me chamou atenção, era rosa com detalhes dourados e com desenhos de pequenas coroas, meu corpo vai em direção a ele.

— Hey linda, está bem tarde. Tome um banho e depois desça para que possamos conversar! Não tenha presa!

Concordei com a cabeça, ainda olhando o diário, titia saiu do quarto e fechou a porta. Tirei o diário da cabeça, eu realmente precisava de um banho por isso fui em direção a porta azulada que dava acesso a ele. Dentro há uma banheira, um grande armário, uma bela pia e um vaso sanitário rosa – acho que achei aonde foi parar a maior parte do espaço do quarto. Olho ao redor e não encontro nenhum espelho, agradeço mentalmente, não estou preparada para minha imagem diante daqueles refletores de almas.

Desfaço-me das roupas como se retirasse minha pele e as jogo em um bonito cesto branco, pego o pente e encontro no chuveiro, penteando meus cabelos e tirando deles o peso caótico do mundo. Desligo o chuveiro e sento-me na banheira e como se ela fosse o rio Estinge livrando-me das fraquezas e deixando-me apenas um calcanhar desprotegido, esfrego-me da cabeça aos pés, tirando Melinda de mim. Fico deitada por um longo tempo chorando, chorando as lagrimas que estavam presas em minha garganta, chorando por meu pai, por Kaion, Daniele e por mim.

“Eu estava na floresta acampando com alguns amigos da escola, não era algo que eu quisesse ter ido, mas Dani insistiu tanto, ela queria tanto ir então fui e meu namorado foi conosco para me fazer companhia, entretanto no meio da noite eu o perdi de vista e Dani também não estava em lugar algum. Resolvi ir em busca de Kaion, as outras pessoas estavam começando a me incomodar e em favor das provas finais não pude passar muito tempo com ele mesmo.

Eu deveria ter ficado onde estava mesmo teria sido bem melhor. Ele estava perto de um penhasco, totalmente nu e na companhia de minha melhor amiga. Kaion e Daniele se beijavam apaixonadamente. Algo dentro de mim congelou, tenho certeza que foi meu coração. Fiquei ali parada, olhando eles trocarem juras de amor, meu coração se quebrou. Eu não queria acreditar, não queria acreditar em meu olhos e ouvidos.

Ela me viu e então congelou, seu lábios tremeram enquanto ela disse:

— Eu ia te contar!

Suas palavras puxaram o gatilho e eu deixei algo que estava dentro de mim quebrar as grades, era algo que uivava fortemente em meu peito e que estava com muita fome. Daniele estava com a face muito assustada, Kaion estava apavorado e a largou ali, correndo desesperadamente – eu não deixei e o peguei violentamente. Minha raiva por ele aumentou, nunca duvide da fúria de uma mulher traída, ele deveria ao menos protege-la já que a escolheu, deveria ama-la, deveria ficar ao seu lado.

E foi então que tudo se tornou um grande borram, consigo ver ele caindo como se estivesse voando, entretanto não gritava, sua garganta estava estraçalhada. Daniele gritou e então correu, esbarrando desesperadamente em tudo, mas não foi muito longe. A fome em meu peito estava voraz, implacável.

E no fim eu estava saciada, feliz e andando sem rumo, quando esbarrei em um guarda. Ele saiu gritando sem parar, foi então que minha consciência voltou à tona e eu nua desesperadamente tentei encontrar o caminho de casa, balbuciando sem parar.

—Matei... Eu os matei... Kaion... Dani... Caindo... Sangue... Matei...”

O grito engasgado em meu peito se torna forte, junto aos soluços tão fortes que faziam meu corpo tremer, tenho certeza que todos estavam me ouvindo chorar, mas não em importei. Quando meu corpo estava saciado, deixei as últimas lagrimas caírem na banheira e lavar meu corpo eu estava ali a muito tempo, minhas mãos estavam engelhadas por isso que quando sai apenas me sequei e nua fui até a cama sentar-me. Tudo aquilo ainda parecia irreal, olhei ao redor e meus olhos caíram novamente no diário, aquilo já não era mais meu, foi escrito por outra pessoa em uma outra vida – por isso me levanto e o pego, raspando-lhe folha por folha, libertando-me de tudo que vivi, dos fantasmas do passado e de mim. Jogo os restos nos sacos lixo da limpeza do quarto que ainda permaneciam no corredor, livrando-me de mais um pedaço de minha alma.

Fecho a porta firmemente e caminho até a janela para abri-las e deixar um pouco do sol de fim de tarde iluminar o quarto e a mim. Quando a abro, minha pele torna-se rapidamente aquecida e alaranjada, junto ao sol. Percebo então, que minha tia colocou ao lado da janela um grande espelho quebrado – achei uma gentileza dela, toda menina precisa de um espelho.

Olho-me nele, ou melhor, olho o que sobrou de mim nele. Olho meus longos cabelos castanhos claros que caem em grandes ondas até a bunda, reparo nos olhos grandes e cor de mel, na boca arredondada – que é perfeita com grandes sorrisos, na altura acima da média, na magreza bela, na pele branca – quase translucida. Era a imagem de uma menina feita de sonhos, de outras pessoas e não dela mesma.

Digo adeus aquela figura que vejo nua em minha frente e caminho até o banheiro, procurando pelo que minha tia colocou lá, quando encontro o que desejo volto ao peitoril da janela e olho para dentro de mim, depois arrumo o objeto em minha mão e enxugo a lagrima solitária que escapa os olhos.

Meus olhos levantam-se para o espelho quebrado colocado delicadamente na parede de meu novo quarto — como um presente de felicidade e boa sorte — e tento desesperadamente encontrar a garota que eu era a menos de um dia atrás, entretanto quando olho no espelho eu não consigo encontrar nem fracos resquícios dessa menina. Ao invés de olhar para sua face de menina eu encontro-me olhando a face sombreada de uma mulher, uma mulher carregada de longas dores e assombrosos pecados. Estou encarrando os impiedosos olhos de uma assassina. Encarro a face medonha de um monstro. Um demônio.

Um demônio de face angelical e familiar. Um monstro de adocicados olhos cor de mel, que aparentam doçura e amor. Um demônio sem coração e que perdeu a alma. Uma aberração recém-nascida. Sou o doutor Frankenstein, e acabei de criar meu próprio monstro. Um monstro que eu não deixei ter piedade, que ensinei a não parar, nem com as mais fervorosas suplicas daqueles que ele um dia jurou amar. Uma fera com belos e carnudos lábios, apilhados de dentes afiados.

Observo o espelho e encontro-me face a face com um monstro que não tem mais nenhum amor. Estou cara a cara com um monstro que não teme mais a vida, e nem a morte.

A fera olha-me com seus dourados olhos vibrantes. Ela quer viver para poder me ver matar. O monstro quer a crueldade que ele sabe que o mundo pode oferecer, e ele a quer em uma bandeja cravejada de ouro e diamantes. O demônio quer que a vida se ajoelhe diante de si como sua mera súdita.

Ele quer a sua oferenda, e a quer agora.

Corra jovem donzela! Corra! Sua risada me arrepia a espinha. Corra o quanto quiser. Você não pode fugir da fera! Corra o mais que puder, minha doce donzela, eu irei te alcançar. Venha! Venha minha doce jovem virginal, venha para mim. Venha... dançar! Dance comigo nesse salão decorado com sangue e rosas. Venha e transforme essa vida em um tiro de insanidade! Deite-se! Deite-se nessa macia cama e receba de meus lábios o beijo da morte, e dessa forma viva! Viva a sua vida eterna.

Levanto a tesoura de aço acima de meus olhos e o monstro sorri para mim, com seus afiados dentes brancos. Dentes tão afiados quanto a lamina prateada que atravessa o pedaço da minha alma quebrada e transforma meu mundo em um espiral de alucinação.

Corto meus cabelos, como quem corta um pedaço da própria alma, concentrando-me em sua extensão e em tudo que aquela menina um dia foi, em tudo que aquela menina sonhou ser um dia. A fera está feliz com isso, ela não quer a menina boa, ela cansou dela.

Meu novo cabelo fica no ombro, deixando a mostra toda a extensão de meu corpo delgado e assim eu ando até o banheiro em busca da tintura e passo no que restou de meu cabelo. Logo em seguida vou para a frene do espelho novamente, juntando os pedaços de cabelo caídos, a fera está observando tudo com seus olhos dourados, ela está se divertindo e gostando de me recriar, de me montar. Ela e eu estamos renascendo, afinal, sou uma fênix e necessito renascer das cinzas que minha vida se tornou, renascer de tudo de ruim que aconteceu. Renascer do fogo, do sangue, da alma.

Testo as cores, as roupas, todas as combinações. Testo a nova vida e depois junto do chão toda a sujeita, colocando me um saco e jogando fora tudo que não cabe mais em mim e na nova vida – são coisas que não me fazem mais ser quem sou.

Coloco música no celular e danço enquanto espero meu cabelo ganhar nova vida, no fim lavo-me outra vez, mas dessa vez me banho no rio do destino, formando-me uma nova pessoa. Quando termino visto-me com uma calça de couro, uma blusa branca de meia mostrando a barriga, bota preta de cano curto, cordão – pulseira e anel de prata, delineador, rímel e batom vermelho.

Olho-me uma última vez no espelho quebrado e vejo o contraste de meus cachos cinza azulados contra o preto de minha alma. A fera de olhos amarelados sorri para mim, e ela usa a minha boca, deixando meus dentro esbranquiçados afiados contra o vermelho dos lábios. O sorriso de um monstro.

Vá, minha donzela! Vá, mas não se esqueça que não pode se esconder de mim, você não pode se esconde de si mesma, não pode se esconder do destino, não pode se esconder de nós! Vá donzela, minha dama! Viva por mim e por ti.. ou melhor, bem melhor, deixe-me viver por ti e por mim! Deixe-me sentir o gosto rubro do sangue mais uma vez, deixe-me levar você à loucura, te seduzir, te usar e te manchar as asas! Deixe-me faze-la cair, pequeno anjo!

Lanço um sorriso ferino para ela, para a fera. Venha fera, venha me amar e me levar a loucura. Olho para meus próprios olhos amarelos e pisco seduzindo-a. E com o estalar de meus passos eu sigo em direção ao meu destino.

—Nice...

Notas finais
Se for achado algum erro, por favor me informe e eu irei arrumar. Fico agradecida por ler, caro senhor(a). *arrumado