Luas de Sangue

4 A Lua Como Dona


Notas iniciais
Que bom que veio. Venha para perto. Agora que vai ficar interessante. Venha descobrir. O que você tanto quis saber. Eu sei. Você vem me ouvir só para saber sobre eles. Não é? Não precisa ficar encabulado. Não lhe julgo. Eles são magníficos mesmo. Admito. Mas cuidado. Tome muito cuidado. A lua está quase alta no céu estrelado. Você não vai querer está sozinho por ai quando ela se tornar mãe.

Tec..tec...tec... o meu caminhar faz barulho. Aprumo os ombros. Olho para cima. Sou uma nova mulher. Tec...tec...tec...a escada é de madeira. Feita para fazer com que todos olhem que está descendo. E todos olham. Todos olham para mim. Para nós.

Tia Kathy e Pietro então conversando com um homem. Um homem desconhecido. Um homem que também me olha. Ou melhor. Que me atinge com os olhos. Novamente, os olhos. Olhos mortais. Ele, o homem misterioso, tem os olhos de um anjo da morte. Ele tem os olhos vermelhos. Não um simples avermelhados. São realmente vermelhos. Como o sangue. O que combina muito bem com o resto de sua figura. Ameaçador. Ele é alto, de largos ombros. Seu rosto perde todas as feições, que devem ser belas, pois quem o vê olha apenas para seus impenetráveis olhos. A fera em mim se esconde, ela mesma reconhece alguém mais ameaçador que ela.

— Hey linda. Você ficou...

Tia Kathy está sorrindo, é um genuíno sorriso de mãe. Sabe. Daqueles de quem tem orgulho da nota A+ da filha. Ela tem orgulho da rebelde que me tornei.

—...magnifica.

Pietro completa o pensamento dela. Ou quem sabe ele completou apenas o seu próprio. O homem dos olhos em fogo está me encarando. Acho que ele não esperava por mim. Eu, definitivamente, não esperava por ele. Fico com medo dele, do modo que me olha. Parece que sou sua oferenda. Ele definitivamente não é um caçador, ele não vai atrás de suas caças. Ele é como um leão, fica em seu majestoso trono à espera das leoas, que sempre vem como sacerdotisas para entregar ao rei sua oferenda.

— Você me lembra sua mãe.

Sua voz é envolvente, ela prende. Me prenderia facilmente, se não fosse pelas suas palavras. Minha mãe. Eu nunca a conheci. Ela morreu no parto. Meu pai visitava o tumulo dela comigo quando eu era mais nova. Depois que se casou, decidiu que era hora de esquecer. Mas eu o flagrava olhando para um foto dela que escondia na carteira. A parte difícil da morte fica com os vivos, fica para sempre. Meu pai nunca disse que eu lembrava minha mãe. Ele falava que eu era uma oposição há ela. E eu era. Não lembrava em nada a bela ruiva de olhos verdes que ele conheceu. Sempre sorridente. Sempre o centro das atenções. Definitivamente eu não era como ela. Levanto minhas sobrancelhas para o misterioso na minha frente.

— Hey Luciam. Tenha calma. Deixe a menina. Deixe se acostumar conosco.

Tia Kathy fala como se repreendesse uma criança. Eu não consigo ver esse homem como uma criança. Ele parece mandar mais que ela, em qualquer ocasião. Entretanto ele abaixa seu olhar, como se por reflexo.

— Kathyne. Ela não pode ser ignorante por tanto tempo. Ou você quer que ela seja como Liliam? Enganada por um caminhoneiro qualquer.

Tia kathy olha para aquele homem, Luciam, com raiva e repreensão.

— Ela pode aparentar Lilian, mas ela não é. Não se deixe enganar meu irmão. Ela não é a sua irmã amada que voltou para ti.

Luciam está zangado. Seus olhos avermelhados estão em chamas. Ele está com muita raiva.

— Pai. Por favor! Deixe para lá!

Pietro avança. Com a mão no peito do homem. Ele tenta acalma-lo. Sou mera espectadora nesta cena bizarra. Cena sem nexo. Cena macabra. Cena de família. E adivinhe. Eu sou uma filial a mais nessa família. Nessa família louca. Nesse hospício.

—Parem! Parem agora! Sentem! Expliquem! Que a civilidade se faça presente. Por favor!

Todos os presente me olham. Eu ganhei a atenção. A fera no meu peito ruge. Ela gosta de ser o foco. Luciam focaliza seus olhos vermelho em mim. Sanguinolentos e sombrios. Ele me desafia a mandar nele novamente. E eu ? Não irei aceitar esse desafio. Ando até eles, formamos um círculo. Olho nos olhos de tia Kathy e de Pietro. Me recuso a olhar de igual para Luciam. Sei que não tenho esse cargo. Assim como ele também sabe. Por isso apenas desvio seu olhar.

— Não sou criança. Quero saber que merda tá acontecendo aqui! Alguém pode explicar?

Não queria parecer uma criança chorona, muito menos alguém que está mandando. Entretanto quero, desejo, suplico... saber o que está acontecendo. Pelo menos uma vez. Estão me olhando assustados, de certa forma. Nenhum dos três está verdadeiramente com medo. Eles apenas estão receosos. Tia Kathy limpa a garganta.

— Minha querida. Não quero sobrecarregar você com essas coisas. São coisas com as quais você não é obrigada a lidar. Eu vou cuidar de tudo. Você não precisa se preocupar.

Sua voz é doce. Apaziguadora. Como a voz daquelas senhora que cuidam de crianças. Elas sempre tem a voz doce. A voz doce e o rosto zangado.

— Eu desejo me preocupar! Quero saber o que está acontecendo! Não me deixe no escuro!

Minha voz sai mais alta do que eu pretendia. Sai inquisidora. Exigindo uma explicação. Por mais banal que a explicação seja, eu quero ouvir.

— Pois bem criança. Se "deseja" de forma tão intensa saber. EU irei te falar. Entretanto não vale me chamar de louco e nem sair correndo daqui. Acredite em mim. Você não iria longe.

Luciam me manda um sorriso ferino. Daqueles de quem esconde um segredo. Um grande segredo. Um segredo que mudaria o mundo. Minha tia sai do local. Com passo firmes. Abaixo o rosto, eu gostaria que a vida dela fosse mais fácil. Eu prometi isso, mas também tenho de pensar em mim.

— Sente-se. Temos muito o que conversar, boneca.

Luciam coloca os seus grandes olhos vermelhos em cima de mim. A cada momento eles estão mais vermelhos. Mais fortes. Mais mortais. A cada minuto ele parecia cada vez mais um assassino. A fera em meu peito rugiu em resposta. Ela estava pronta para qualquer confronto.

— Como posso começa... será que era um vez está bom?

Luciam rir, como se tivesse feito a piada do ano. Pietro e seus dóceis olhos azuis, segura-me o braço, puxando-me para sentar no sofá. O caçador se senta na poltrona da frente. Me senti como uma criança preste a ouvir estórias de ninar. Ele olha maliciosamente para o braço de Pietro junto a meu. Não me importo. Me sinto confortável com ele ao lado, me amparando com os seus olhos azuis mar.

— Vamos ser originais princesinha. Vamos começar com o agora. Luciam, Kathyne e Liliam. Os três tão adorados irmão. Eu sou seu tio, pequena. Da mesma forma que sou o tio de Pietro, e ao mesmo tempo sou o pai. No nosso clã o incesto não é visto com maus olhos, na verdade, a proliferação da raça pura é muito bem aceita. Sua doce mãe ter se casado com um qualquer fez com que ela fosse condenada. Condenada à morte. Ela tentou fugir do destino, ela tentou fugir de todos nós. Tentou ter sua cria com um humano. Esperando que você nascesse sem a maldição. Ela estava enganada. Fraca. Ela era tola. Não se pode fugir da lua, ela dá a volta ao mundo.

Fiquei horrorizada com os traços apresentados à minha frente. Como pode? Irmão! Isso está errado! O monstro em meu peito não fez questão, não se importou. Nada mais normal, precisamos ser forte. Precisamos ser nobres. Era quase como se ele estivesse julgando minha mãe por ter o feito fraco.

— Eu não sou fraco.

Sua voz rugiu de meu peito sem que eu tivesse me dado noção. Ela falava por si. Meu tio parecia satisfeito, quase que como em exstasse.

— Eu sei que não é. Sua mãe estava enganada. Ela tentou te fazer diferente, mas você é uma de nós. Você faz parte de nós. E irei te fazer forte um dia. Muito forte.

O monstro levanta. Uiva para a noite. Ele está feliz. Animado. Ele quer essa força oferecida.

— Então... o que somos nós?

Fiquei com medo da resposta. Somos malucos? Esquizofrênicos? Dupla-personalidade?

— Somos a mais belas da raças, minha cara. Somos loups-garous. Somos os donos da terra. Os humanos ainda não entenderam isso. Estamos em todo lugar. Logo logo não terá mais espaço para eles. Somos mais fortes. Mais rápidos. Muito mais inteligentes. E bem mais unidos. Vencemos fácil.

Ele está eloquente. Como quem faz um grande discurso em plateia lotada. Ele defendia um ideal. Um ideal que favorecia sua raça. A minha raça.

— Somos lobos. Os humanos dizem que somos sobrenaturais. Entretanto, eu não vejo nada mais natural que a evolução. Evoluímos da condição de simples humanos para a condição de lobisomens, como eles insistem em nos chamar. Acha que isso é mítico? Não, minha querida, a ciência não é mítica. Ela é exata. Ela é perfeita. A ciência humana que não nos entende.

Minha mãos estão tremendo. O que aquele homem acabou de falar? Que merda de discurso foi esse? Ele é louco! Essa é a única explicação que tem. Isso não pode fazer sentido. Ele é definitivamente um lunático.

— Para! Pelo amor do bom deus. Para!

Ele me olha com as sobrancelhas arqueadas. Eu me levanto com tudo.

— Não acredita em mim querida. Então me explique você o que! Explica a morte daquelas crianças! EXPLICA NO MEU LUGAR! Não é você que não queria ser criança? Que queria a verdade? Parece que ainda não cresceu.

Ele lança seus olhos rubros para cima de mim. Dois grandes olhos de fogo. Que transmitem raiva. Ódio. Irritação. Escolha um nome para a fúria que eu via naquelas avermelhadas poças sanguinolentas. Corro para meu quarto não consigo entender que está acontecendo. No escuro de meu quarto meu corpo se dobra. Tentando encontrar o ar.

Dlim dlão. Não abra a porta, donzela, não a porta para o lobo mal... O que queria? Ele tem razão. Você quis a verdade. Estou aqui querida. Eu sou a sua verdade. Sua maligna verdade. Sou seu segredo obscuro. Sou sua doce vingança. Vingança do mundo. Vingança de ti.

Corro para a janela, para o ar puro das árvores no quintal. Amarelo vibrante. Ouro. Ao chegar na janela eu paro. Dou três passo para trás e eles ecoam como se fosse a batida de uma porta. Toc... toc... toc... estou de cara com o espelho. Eu abri a porta para o lobo mal. E ele me olha nos olhos. Ele me olha com seus olhos amarelos. Meus olhos. Eu sou a fera que me assombra?

Não querida. Sou mais formoso. Mais atraente. Mais brutal. Belo. Violento. Você não sou eu. Mas eu. (A fera solta um risada macabra. Me arrepia a espinha) Eu sou você. Sou a melhor parte de você. Sou a melhor parte do mundo. Venham. Venham todas. Vamos nos banquetear de sangue e virgens. Vamos. Vamos dançar no fim do mundo. Vamos ver do que o mundo é capaz.

Meus olhos são os olhos que me encaram, mas não são meus.

— Calma menina. Tudo vai dar certo.

Pulo com a voz de tia Kathy. Ela entrou sem que eu percebesse. Ela está me olhando gentilmente. Como uma mãe pássaro antes de empurrar as crianças de um penhasco. Um penhasco aonde já comecei a cair.

— Não sinta medo do que você é. Muito menos vergonha. Meu irmão tem razão perante uma coisa. Somos algo melhor, e não devemos ser depreciados e nem nós depreciar.

Ela me puxa pela mão para sentar na cama. Não arredo o pé. Não quero sair dali.

— Vou lhe contar um história.espero que ajude a entender tudo isso. Por isso, minha pequena, preste atenção.

Tia Kathy se meche de um pé a outro. Ansiosa.

— A muito tempo, quanto este mundo ainda era jovem, aconteceu algo inesperado. Um grande estudioso se apaixonou pelas lendas primitivas de certas tribos, principalmente pelo o que pensavam a respeito de animais e homens. Que os homens e animais nasceram como irmãos e que ainda, apesar de tudo, eram muito próximos. Ele, em especial gostava de um animal, o lobo. Argumentava ele, que a força, agilidade e inteligência do lobo se igualava a do homem e por isso ele adorava tudo neste ultrajante animal.

Ela respirou fundo e me olhou nos olhos.

— Tendo a mente brilhante que tinha, o estudioso começou a se metamorfou, transformando á si próprio em um homem lobo. Ele modificou a genética de tal forma que fez com que ele pudesse passar isso aos seus filhos, e assim se criou a descarada raça dos lobisomens. Os lobisomens trazem consigo a ira e ferocidade do lobo com temperamentos explosivos e constantes brigas. Trazem a vaidade estampada nos olhos, lobisomens sempre carregam "olhos de vidro", olhos irreais. Suas fomes sempre insaciáveis. Cruel sede de sangue.

Titia suspira, como quem não aceitasse tais coisas.

— Os dois filhos de Eramis criaram raízes e tiveram filhos. Eduardo e Salomão, regeram a raça criada por seus pais. Tiveram muitos descendentes. Descendentes que se espalharam pelo mundo. Descendentes que levam essa raça adiante. Como eram tantos, a simples hierarquia de uma família não bastava mais. E ai vieram realmente as alcateias As alcateias contem alfas, betas... isso é determinado por dominância. Os mais dominantes mandão, os menos obedecem. É como na natureza. Os lobos são assim. Você nasce com a posição que exerce. A não ser que mude quando casar. Quando lobisomens se casam isso os transforma em um só. É dividida a dominância e os dons entre eles, assim eles viram companheiros. Por isso eles geralmente lobisomens se casam com alguém de sua mesma dominância. Por isso tantos casamentos consanguíneos.

Tia Kathy me olha nos olhos. Bem no fundo dos olhos. Estou assustada. Admito. A fer... O lobo em mim está quieto. Ouvindo. Atento. Ele deseja conhecer suas origens.

— Os lobisomens tem seus lados míticos. Essa misticidade para alguns dá a liderança, para outros dá a clarividência, e em algumas vezes, dá a submissão. Lobos submissos são lobos sem nenhuma dominância. Há também lobos denominados lobos ômegas, eles também são conhecidos como lobos solitários. Não são dominantes, mas também não são submissos. Lobisomens são humanos normais, entretanto quando estão ameaçados eles se transformam em lobos. Lobos grandes. Com longas presas e garras. Muito inteligentes. E sedentos por sangue.

Ela me olha no fundo dos olhos.

— Somos lobisomens. Apesar de que preferimos o termo loups-garous. Nossa família é de descendência francesa. E menina, tome cuidado com Luciam. Ele é o mais velho de nossa família. Ele é o alfa local.

O lobo abaixa a cabeça. Ele tem de ter obediência. Eu não sei mais o que ter. Estou me achando louca. Estou me achando num grande sonho. Olho no espelho partido novamente. Olho no fundo dele. No fundo da alma. Eu vejo. O lobo em mim. O lobo que quer matar. A fera que quer viver.

Vamos menina. Vamos viver. Você sabe que é isso que quer. Quer correr. Quer ser como eu. Quer ser como eles. Venha comigo. Só desta vez. Deixa eu te mostrar como é viver com a lua como dona.

Meu olhos devagar ficam mais amarelados. Mais notórios. Mais de vidro. Antes de atingir a plenitude do tom amarelo. Eu me viro. Olho as estrelas. Olho a lua. Ela é quem ordena. Salto a janela. Minhas patas pousam na grama... Correndo.

Notas finais
Hey... ahuahuajhajah obrigado por lerem. *w* @fada_do_luar