Thomas se deitou ao meu lado e começou a mexer no meu cabelo. Puxei as mechas para a frente e ele suspirou.

- Liz. Não foi o que pareceu, você interpretou mal. Mas mesmo assim, me desculpa.

Por que pensei em traição? Nós não temos nada. Ou temos? Eu queria abraçá-lo. Ficar o mais perto possível e nunca mais o largar. Mas como sempre, eu tinha de ser — tentar ser — a forte da história. Não medi as palavras quando respondi:

- Você não me deve satisfações, então faça o que quiser da sua vida.

Me levantei com o intuito de seguir para qualquer outro cômodo e pensar um pouco, mas ele me segurou pelo braço, me fazendo deitar novamente. Era a primeira vez em que seu toque estava sendo um incômodo para mim.

- Thomas! Me larga! Eu quero ficar sozinha!

- Liz, você precisa me ouvir!

Dessa vez consegui me soltar e fui para a cozinha, mas pude ouvir seus passos logo atrás de mim. Me apoiei na pequena mesa enquanto o ouvi fechando a porta e falando:

- Eu já disse que você entendeu mal. A Vic só queria me ajudar, mas depois ela simplesmente veio para cima, e eu fiquei sem reação.

- E eu já disse que você não me deve explicações — retruquei.

- Não foi nem um beijo, ela me agarrou depois que você saiu e eu me afastei dela em seguida.

- Thomas, eu não quero saber.

- E você fala como se fosse uma santa. Eu sei o que você fez com o “Lucca” — Ele fez aspas no ar, utilizando um tom sarcástico.

- Por que colocou o Lucca na história? Eu não tenho nada com ele. — Fiz questão de dar ênfase ao “nada”.

- Não foi isso que eu ouvi.

- Ah, é? Então o que você ouviu?

- A Vic disse que viu vocês se beijando.

- Claro, e o que mais? — A ironia estava a cada segundo mais presente em minha voz.

- A Vic também disse que você não admitiria. — Ele me olhava como se eu estivesse mentindo. Fiquei realmente nervosa e magoada com a situação.

- Não aconteceu nada, e mesmo que acontecesse, eu não te deveria nenhuma explicação também.

- Não deveria mesmo, mas você quer saber.

- Não, eu não quero.

- Está mentindo, eu te conheço. Então a Vic estava certa…

- Vic, né? Se eu estou dizendo que não tive nada com ele, é porque é verdade. Não há razão para eu mentir, não concorda? E se me conhece tão bem, como não sabe se estou sendo sincera em relação ao Lucca?

- Mas ela também não teria porquê mentir. Eu…

- Em quem você acredita, Thomas? Na Vic ou em mim?

Esperei por uma resposta rápida e as coisas voltando ao normal, mas ao invés disso, ele apenas não respondeu. E mesmo eu não tendo demonstrado, isso basicamente acabou comigo.

- Então tá. Vocês deveriam ter ficado amigos antes, porque assim ela te traria para cá e não eu. — Ele não sabia para que lado olhar, sinal que estava nervoso.

- Liz, não fala bobagens, você sabe que…

- A essa altura eu não sei de mais nada.

- E por que não me deixou lá? Isso pouparia tanto remorso.

- Talvez eu devesse ter feito isso.

- Está falando da boca para fora — querendo ou não, ele me conhece bem.

- Será que estou?

- Quer saber? Me manda para o espaço de uma vez, seus pais nunca gostaram de mim mesmo — estávamos ficando cada vez mais sérios.

- Isso não é verdade, e pelo menos meus pais estão aqui comigo.

- Pelo menos eu tive o amor da minha mãe. — Essa doeu de verdade, mas meus lábios cerrados e minha postura inalterada não demonstraram isso.

- Diz isso para ela agora, então. — Golpe baixo, eu sei, mas nunca me vi tão irritada com o Thomas. Ele ergueu as sobrancelhas mas não reagiu de nenhuma outra forma. Nem eu sabia disso, mas ele definitivamente consegue me deixar com vontade de matá-lo. Ou não.

- Você não entende nada, não sabe o que é passar dificuldades, não passa de uma garotinha mimada como muitos já me falaram. Não sei como chegamos até aqui. — Tudo o que estávamos fazendo era magoar um ao outro, mas estava ficando inevitável.

- Você não sabe o que eu já fiz por ti. Coloquei minha vida em risco para hoje estar aqui, com você.

- Sei.

- Deveria saber, — comecei a gritar enquanto batia nele e sentia as lágrimas chegando novamente — deveria ver o quanto eu me importo com você, o quanto amo você. Se soubesse da metade, de quantas vezes briguei com a minha família para passar algumas horas com você, então entenderia — eu estava gritando cada vez mais alto.

- Liz… — Ele me segurou pelos pulsos.

- Sabe quantas vezes eu acordei com vontade de te ver? Todos os dias dos últimos cinco anos! E quando não podia, ficava inventando histórias sobre o que poderíamos fazer juntos.

Eu não conseguia me soltar, já estava chorando histericamente, — pela primeira vez na frente do Thomas — mas senti uma necessidade enorme de continuar.

- Liz! — Ele estava me sacudindo, mal sabia que ainda havia muitas coisas para serem ditas.

- Todas as vezes que você não passou na minha casa para ir à escola eu me senti sozinha, e perdida. Odeio falar isso, mas se é o que você quer ouvir, então aqui vai: eu preciso de você, eu amo você, eu realmente preciso de você e peço desculpas por não ser o que você precisa, — eu mal conseguia falar com as lágrimas no rosto e na garganta — mas eu juro que por todos esses anos eu tenho tentado, só que você nunca viu as pequenas coisas…

- Elize! — Ele nunca me chamou de Elize. Nem uma única vez em cinco anos. Mas eu estava embalada demais na fala para sentir o impacto disso agora.

- Você é quem não entende! Eu… eu…

Eu não tinha mais o que falar. Pareceu que o que estava guardado dentro de mim — ou parte disso — havia saído, e a sensação não era ruim.

- Eu não vivo sem você — completei.

E no instante seguinte ele, o Thomas, meu melhor amigo me beijou. E eu não me assustei, nem recuei, nem reagi mal, eu apenas retribuí, — tentei — passei os braços ao redor de seu pescoço e ficamos assim, nos beijando, por algum tempo. Foi uma sensação estranha estar tão perto dele, mas eu não queria sair de lá. Talvez os braços que naquele momento me envolviam sempre tivessem essa intenção, em segredo. Quanto a mim não.

Por algum motivo o tinha apenas como melhor amigo, quem sabe porque nunca me imaginei com ele dessa forma. Nem com ele nem com ninguém, até porque tirando as vezes que o fizeram contra a minha vontade, esse era meu primeiro beijo, com alguém que eu amava. Uma sensação inexplicável, mas eu não queria explicar, não queria pensar em nada. Todos os insultos e coisas ruins ditas nos últimos minutos foram completamente esquecidos. Estávamos em um mundo vazio, onde só existia eu e ele, aquele momento e mais nada.

Até que senti suas mãos escorregando para minha cintura e o abraço se desfazendo. Finalmente nossos lábios se separaram e nos encaramos. Eu não sabia como estava, não consegui imaginar minha própria reação. Já os olhos dele brilhavam. Ele enxugou com a costa de sua mão uma última lágrima que caiu de meus olhos e disse com voz suave:

- Não sabe por quanto tempo esperei por isso.

Ambos sorriram.