E pela primeira vez o olhando nos olhos, em uma situação como esta, senti que eu estava fazendo a coisa certa, e que me encontrava exatamente onde deveria estar.
Um flashback munido de dezenas de momentos invadiu a minha mente: quando íamos para a casa dele e Kelly preparava bolinhos de chocolate para nós, todas as vezes que apostamos corrida até a escola — ele sempre me deixava ganhar -, nossas longas conversas sobre a lua ser ou não feita de queijo, nossos desabafos, nosso silêncio, olhares que diziam tudo, todas as vezes que vimos o sol nascer e se pôr, dias bons, dias chatos, quando eu falava de meninos e ele chamava todos de idiotas, todos os abraços — que se tornaram raros depois de algum tempo -, as provocações, as vezes que o vi sofrer e mesmo me sentindo despedaçada, tive de ser forte, algumas das vezes nas quais um fez o outro sorrir a toa, quando quatro anos depois de nos conhecermos, voltamos àquela mesma praia de Sissam, para relembrar o passado, quando ele me levou nas costas porque torci o tornozelo, o dia no qual perguntei por que ele não tinha namorada e ele respondeu quando eu tinha doze anos: “Porque eu gosto de você”, mas eu não levei a sério.


Elize e Thomas na praia, quatro anos depois de se conhecerem

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Tantas coisas para serem lembradas, eu estava viajando há um bom tempo, mas ele não me olhava como se precisasse ouvir um comentário ou coisa parecida. Como não falei nada, ele abriu um sorriso torto e disse:
— Obrigada.
Por que ele me agradeceu? Eu que deveria dizer isso e muitas outras coisas.
— Você não tem razões para me agradecer. — Respondi e mordi minha boca antes de continuar — Obrigada, por tudo.
— Você é quem não tem que agradecer, aliás, eu não respondi porque pensei que fosse óbvio, é em você que eu acredito. Sempre foi, Liz.
— Há quando tempo…?
Ele não me deixou terminar.
— Desde a primeira vez que falei com você, prometi para mim mesmo que nunca te deixaria ir embora, e com o tempo, fui me apaixonando por você, cada dia mais. É… Eu te amo.
As três últimas palavras fizeram com que um inevitável sorriso surgisse em meu rosto. Pareceu que eu estava começando a realmente sentir o mesmo e pensar nele dessa forma. Mais que amigos.
Ele acariciou meu rosto e puxou devagar uma mecha do meu cabelo, quando chegou a ponta, enrolou em um dos dedos e enfim soltou.
— Você também — Eu disse.
— Eu também o que? — Ele franziu as sobrancelhas.
— Você também pode fazer isso… De vez em quando — eu olhei para baixo.
Ele me olhou curioso mas logo lembrou da última ocasião na qual ele disse isso.
— Mesmo? — Ele perguntou, surpreso.
— É… — Dei um meio sorriso.
Ele me puxou pela cintura, dessa vez mais calmo, carinhoso, colocou meu cabelo para trás da orelha e me deu mais um beijo, bem mais breve.
— Eu disse de vez em quando — dei um tapa de leve no ombro dele. Tho começou a rir e eu cruzei os braços.
— Ta bem, ta bem. Prometo ficar quietinho.
— Bom mesmo — eu sorri.
Por algum motivo a Victoria e o Lucca vieram a minha cabeça.
— Os dois ainda estão aqui?
Procuramos em todos os cômodos. Vazios.
— Como será que eles chegaram aqui? — Pensei alto.
— Não faço ideia.
— Bem que poderiam nos deixar ver meus pais.
— É mesmo — Tho respondeu e então ficamos em silêncio.
Fui para a sala e ele me seguiu.
— Você disse que queria ver o que tinha nessa TV, então vamos — eu disse.
Ele sorriu. Que sorriso meigo, chega a dar vontade de abraçá-lo.
— Essa coisa tem controle remoto? — Ele disse, enquanto olhava os arredores.
Procuramos por toda a sala, até que me cansei:
— Mas que droga! Como é que vamos ligar essa coisa?
A tela se iluminou.
— Como fez isso? — Tho perguntou.
Será que…? Ah.
— Foi o que eu falei. — A tela estava branca — Mudar! — Continuou igual — Trocar! — Surgiu um homem falando sobre algo que ninguém queria saber. Pelo menos nós não.
— Trocar! — Dessa vez foi Thomas quem falou.
Desenho animado. Não importa sua idade, é sempre uma boa distração. Só tinha isso. A cada “trocar”, tudo que acontecia era a mudança entre esses canais, mas o Tho parecia se divertir com isso.
— Trocar!… Trocar!… Aumentar!… Diminuir!… Não, não é isso. Abaixar! — Risadas sem sentido.
Eu apenas observava sua alegria inexplicável e sorria com ele.
— Vai Liz! Fala você agora!
Ele parecia tão feliz em empolgado que mesmo sem interesse algum, tive de fazer um tom de voz agradável ao dizer:
— Trocar!
Rimos juntos.
— Por que tanto entusiasmo, Tho? — Sorri para ele.
— Ah, é que… Eu nunca tive uma — ele inclinou a cabeça para o lado da TV.
Por essa eu não esperava.
— O quê? Quero dizer, tinha sim, na sala…
— Não funcionava — seus olhos baixaram até encontrarem o chão.
Ergui sua cabeça com as mãos até ele me encarar novamente, e então o abracei.
— Mas agora tem. Estamos aqui, juntos, e é isso o que importa. — Foi tudo o que consegui dizer.
Senti ele relaxar nesse abraço, e isso era bom, eu acho.
— Ellie? Thomas? Estão aí? — Era a voz do meu pai na pequena tela por onde conversávamos.
— Sim, pai? Estamos aqui. — Respondi.
— Vão para a sala. Uma das paredes vai se abrir, mas não tenham medo, há proteção. Acho que vocês vão gostar.
— Ta bem, obrigada pai.
Esperamos.
Uma das paredes pareceu se desintegrar e demos de cara com o espaço. Havia um círculo branco, meio acinzentado, muito grande e bem a nossa frente. Era lindo. Um planeta? Não. Tão linda. Era o que eu estava pensando? Me vi boquiaberta e totalmente paralisada. Provavelmente a paisagem mais bonita que já vi. Uma delas. O enredo de muitas conversas minhas com o Thomas…
— É, acho que ela não é de queijo.
A lua era incrível de tamanha proximidade. Mesmo distraída com aquela vista, não pude deixar de prestar atenção nas palavras do Tho:
— Você lembra… — Comentei.
— Claro, a única briga que tivemos quando crianças foi por causa disso. E você estava certa, — ele riu — a lua não é feita de queijo.
— É sim, — sorri para ele, que me olhava com as sobrancelhas erguidas, esperando que eu dissesse mais alguma coisa — a nossa lua é de queijo. — Completei.
Sem dizer mais nada, ele me abraçou por trás e enterrou seu rosto em meu cabelo. Coloquei minhas mãos por cima das dele e ficamos observando aquela paisagem que eu chamaria de inacreditável. Ouvi a voz do meu pai:
— Vocês já devem ter visto a lua. Incrível, não? Nem parece de verdade. Espero que gostem — e então minha mãe comentou — Maravilhoso, não é filha? O que acharam? Falem conosco, estamos com saudades.
Thomas me soltou, fomos até lá e falamos:
— É linda, mãe. — Eu disse, e Thomas acrescentou — Inacreditável, obrigada por nos mostrarem ela. — Sorrimos e então enviei.
Logo depois eles falaram algumas coisas, a parede voltou ao normal sem que percebêssemos e a viagem continuou.
Continuou, continuou e continuou.
Uma rotina começou a se estabelecer. Passaram dias, semanas, talvez meses e nenhum de nós reparou. Aquele lugar era meio mágico, renovava-se a cada curto período de tempo, e percebemos que quando derrubávamos algum alimento ou bebida, o mesmo era absorvido pelo chão ou coisa parecida.
Eu e Thomas ficamos juntos por todo tempo que conseguimos, mas não tentaram nos separar. Ainda bem. Por algum tempo sentimos uma certa pressão a mais no lugar, mas meu pai explicou que era porque a velocidade aumentara. Depois voltou ao normal.
Com meu melhor amigo as coisas passaram a ser como jamais imaginei: abraços frequentes, beijos ocasionais, ora permitidos, ora roubados, mas eu não me importava que ele fizesse isso, não mesmo, mas chegou um dia a partir do qual comecei a me perguntar o que passamos a ser. Talvez… Namorados? Ou continuávamos como algo em torno de melhores amigos? Difícil dizer, mas não me importei com a resposta. Um dia eu perguntaria a ele, quem sabe.
E tudo ficou assim, um dia de cada vez, tentando aproveitar da melhor forma possível, e por algum motivo, Tho nunca enjoava da televisão, nem de mim. Eu também não enjoava dele, de vê-lo sorrir.
E então nossos dias se basearam em acordar, comer, conversar, banho, comer, TV, dormir. Mas até mesmo com toda essa monotonia, toda a falta de liberdade, apesar de tudo, eu estava feliz, pelo simples fato de estar ao lado dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.