Lua De Queijo
4 Capítulo 3
Deitados, fitando o teto da sala de estar, ambos pareciam mais calmos.
— E agora? — A voz de Thomas rasgou o lençol de silêncio que havia se formado no começo do dia.
— E agora o quê? — Perguntei.
— O que será daqui para a frente?
Eu definitivamente não sabia. Qualquer palavra seria inútil em uma hora como essa. Após alguns segundos fiquei de frente para ele, olho no olho, sem encontrar palavras de consolo boas o suficiente. Eu deveria exercer o papel de melhor amiga agora, deveria encorajá-lo, mas como? Me perdi nessa linha de pensamento até que um tremor me interrompeu. Outro. Mais forte. Objetos caindo. Tudo se agitando.
Chegou a hora.
Um estrondo e em instantes me vejo nos braços do Tho, caímos no chão e ele tentou me proteger. Um pedaço do teto havia desabado, graças à rocha em fagulhas do tamanho de um pneu que se encontrava no que restou do piso — destruído e perfurado — há alguns metros do sofá. Uma faísca pertencente a um meteorito, suponho. Tudo aconteceu rápido demais. Meu pai nos mandando pegar tudo o que conseguíssemos nos próximos trinta segundos. Todos correndo em direção aos quartos, desesperados. Algumas mudas de roupas nas malas, um ursinho de pelúcia, celular seria absolutamente desnecessário segundo meu pai, alguns pertences que não tive coragem de jogar fora, foi o que consegui. O tempo acabou e me vi correndo com meus pais e Thomas em direção a uma porta que eu jamais notei, localizada no porão. Corredor, curvas, curvas, outra porta. Uma espécie de trem nos aguardava, era menor, semelhante a um micro-ônibus, mas ainda era um trem. Entramos e partimos, como uma bala. Não havia tempo para arrependimentos, o que foi deixado, será esquecido. Nem mesmo meu pai sabia o que nos aguardava, a julgar por seus olhos amedrontados, supus que algo não saiu como planejado. Nenhuma palavra foi pronunciada durante o trajeto rumo “algum-lugar-seguro”, até que repentinamente paramos.
Eu. Thomas. Minha mãe. Meu pai. Malas contendo tudo o que conseguimos pegar. Minha mão entrelaçada com a do Tho. Um terminal preenchido por dezenas de foguetes exageradamente grandes, do tamanho de prédios de cem andares, talvez. Pessoas por todos os lados. Era tudo o que tínhamos. Seria o suficiente? Em um palco — que eu não havia notado até o momento — subiu um engravatado aparentemente confiante das afirmações que seriam feitas por ele em seguida. Começou com “Eu gostaria de dar as boas vindas”, e depois “Meu nome é Micael, vou dar as noções básicas do que está prestes a acontecer”, instruções de segurança, bla bla bla, viagem sem volta, um planeta conhecido como “Zix”, estava na hora, mais meteoros estavam caindo naquele momento, segundo ele. Sentimos um tremor, Thomas me abraçou e por algum motivo eu sabia que eu estava segura, eu não sentia nada além de seus braços me envolvendo, tudo poderia acabar naquele momento que eu não me importaria. Nos conduziram a um quarto. Eu, minha família, meu melhor amigo. Mandaram colocar “roupas especiais” por cima das nossas, que segundo eles, manteria nossos corpos em uma temperatura agradável. Depois seguimos em direção aos enormes foguetes, onde havia cápsulas que nos levariam a diferentes níveis, o nosso era chamado de “Delta”, pelo menos foi esse nome que li nas pequenas letras luminosas localizadas no interior da cápsula. Assim que a porta se abriu, demos de cara com uma espécie de apartamento, pequeno, porém aconchegante, móveis presos ao chão, nossas malas se encontravam dentro de um armário de material incolor, que provavelmente não abriria até estarmos bem longe e em segurança. Uma voz robótica surgiu de sabe onde, nos instruindo a sentar mas quatro poltronas desconfortáveis e estranhas, localizadas na “sala”. Assim fizemos, e colocamos os cintos exagerados que deviam ter sido designados exclusivamente para essa situação. Tudo pareceu se ajustar automaticamente, aquele lugar aparentava possuir uma autonomia incrível, eu não fazia ideia de como funcionava, mas a curiosidade não era tanta. Capacetes — como de astronautas — baixaram sobre nossas cabeças.
— Tho…? — Ele estava ao meu lado, mas não podia me ouvir, também vi sua boca mexer sem que som algum chegasse a mim. Seria inútil continuar tentando, encostei minha cabeça onde consegui e esperei.
Um tremor, seguido de um clarão e uma pressão esmagadora sobre meu corpo, tudo embaçado, a pressão aumentando, nada mais existia. A sensação de estar subindo, subindo, subindo, e então, um breu. Era impossível enxergar quinze centímetros a minha frente. Me senti leve, completamente fora de mim. Confusão, mas no fundo, paz. Não havia como saber exatamente o que estava acontecendo, ou porquê. Ao invés de perder tempo com essas dúvidas sem sentido, decidi refletir. Eu consegui o que queria. Mesmo sem poder olhar para qualquer lado, eu sabia que meu melhor amigo estava bem ali, na minha esquerda, eu venci meu pai. Tudo agora vai mudar. Kelly está morta, nossas histórias com ela acabaram naquele túmulo, não há mais nada para ser acrescentado em relação a isso. Escapamos da morte por enquanto, sabendo que o ser humano falha, qualquer coisa pode acontecer a qualquer hora. Tudo o que sei é que tenho o que preciso, minha família e o Thomas, mas será que ele sente que tem a mim, que não está sozinho? Havia também muitas perguntas pairando no ar, cujas respostas talvez eu nunca encontre. A pressão se acabou totalmente, eu não sentia meu corpo, não me sentia viva. Outra voz robótica:
— Atenção. Em questão de minutos seus equipamentos serão retirados. Mantenham a calma, todos estão seguros. Localização: espaço. Tempo aproximado de duração da viagem: indeterminado, mas sugere-se que seja algo em torno de um ano. Mais informações em breve. Obrigada.
Um ano? Estão falando sério? Tempo demais confinados aqui, isso se não acontecesse algo errado e tudo ficasse em chamas ou coisa parecida. Não tive certeza, mas me veio a impressão de que o ambiente estava clareando, um pouco. Talvez fossem meus olhos se ajustando. Não, havia mesmo um pouco de luz, e estava aumentando. Mais. Parou. Nada aconteceu nos minutos seguintes. Havia luminosidade suficiente para enxergar o cômodo a nossa frente. Não reparei muito nos detalhes de imediato, era informação demais para ser assimilada, e eu não podia mover um músculo para tatear objetos ao meu redor. Todos aqueles cintos e travas me impediam, e isso estava me enlouquecendo. Comecei a me sentir verdadeiramente desconfortável naquela posição, eu necessitava recuperar os movimentos.
— Alguém me ouve? — Disse em tom de protesto. Sem resposta. Que seja.
Eu não conseguiria dormir enquanto não saísse dali. Tentei olhar para os lados mas algo pareceu sugar minha cabeça para trás novamente. Que ótimo. Aguente Elize. Surtar não levará a nada. Fechei os olhos e comecei a contar. Um, dois, três… Cento e dezessete, cento e dezoito… Setecentos e oitenta e quatro, setecentos e oitenta e cinco… Até quando teria de esperar? Até mil e quinhentos, talvez? Continuei com os números, o tempo estava passando devagar demais. Dois mil. Estava ficando insuportável. Se alguém pelo menos me dissesse até quando eu teria de esperar.
Em algum lugar entre o quatro mil e trezentos e o quatro mil, trezentos e dez, surgiu outra voz:
— Não façam nenhum movimento brusco, seus equipamentos serão retirados em trinta, vinte e nove, vinte e oito…
Até que enfim. Só mais alguns segundos, meu corpo já estava mole, pensei que fosse ter um ataque ali. Cinco, quatro, três, dois…
Tudo foi removido ao mesmo tempo. Não sabia de onde viera ou para onde fora tudo aquilo, mas o que me veio a cabeça foi um alívio imediato. No desespero de me ver “livre”, levantei, e antes de dar um passo senti minhas pernas trêmulas, seguidas de um par de braços que eu reconheceria em qualquer lugar, ao meu redor. Thomas me pegou no exato momento no qual eu deveria alcançar o chão, e assim que o fez, caiu de joelhos e me abraçou. Retribuí. Quando comecei a me recompor, olhei ao redor. Aquela espécie de apartamento havia se modificado completamente. Analisando bem, percebi que o lugar era uma espécie de espelho: tudo em dobro, duas mesas, dois quartos, duas salas, sempre dois. Até que me lembrei de um detalhe importante. Meus olhos vagaram até alcançarem meus pais, que estavam do lado oposto do cômodo. Antes que eu pudesse chegar até eles, uma barreira transparente subiu na divisão exata onde o espelho que refletia dois espaços idênticos deveria se localizar. Tentamos fazê-la baixar, sem sucesso. Não podíamos ouvir uns aos outros. Respirei fundo e tentei agir com um mínimo de racionalidade. Fiquei imóvel, encarando ao chão branco, restaurando a Elize de dias atrás.
Uma sirene ensurdecedora ecoou por todo o local, tapei os ouvidos e esperei alguma surpresa. Para meu azar, não foi algo bom. Uma grossa barreira de uma espécie de aço aparentemente resistente baixou sobre a transparente, eu não podia mais ver meus pais, nem me assegurar de que estão bem.
A sirene se foi. Um monitor surgiu de algum lugar, junto a uma voz:
— Para sua segurança, o confinamento será feito de acordo com a faixa etária. Alterações poderão ser feitas em breve. Enquanto isso, sua comunicação será realizada através de vídeos. Os controles são simples: aperte o botão azul para gravar, amarelo para visualizar, verde para enviar e vermelho para apagar. Mais informações assim que possível. Obrigada.
Cinco segundos depois minha mãe estava na tela:
— Ellie, você está bem? E Thomas? Responda.
Quais eram os controles mesmo? Apertei o botão verde, nada. Após apertar o azul, meu rosto apareceu na tela, provavelmente estava sendo gravado:
— Estamos bem mãe. Espera um pouco que já converso com a senhora.
Poucos segundos depois de eu apertar o botão verde:
— Tudo bem querida, mas mande algo em breve. Beijos, eu amo você.
A tela se apagou e senti um vazio se aproximando. O que fazer? Virei devagar para me deparar com um Thomas imóvel, sem reação, e logo me vi exatamente como ele. A cada segundo vinha uma palavra para formar frases que jamais imaginei que um dia utilizaria, muito menos em uma situação como essa.
Eu e Tho. Era só o que havia. Uma única certeza. Sozinhos e sem saber para onde ir ou o que fazer. A partir daí, um ao outro seria tudo o que teríamos.
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