Lua De Queijo
5 Capítulo 4
Os aposentos daquele lugar eram até confortáveis, apesar de pequenos, mas devem ter colocado apenas o necessário para nossa sobrevivência. Chamei Thomas para dar uma olhada no local, e como não podíamos ter certeza sobre se iriam ou não tentar nos separar, — não fariam isso enquanto estivéssemos vivos — decidimos ficar o maior tempo possível juntos.
Eram quatro cômodos: cozinha, banheiro, quarto, sala. Como haveria muito tempo para fazer o que quiséssemos faz, decidi olhar tudo com calma e reparar em todos os detalhes.
Começamos pela sala: sofá, uma poltrona com um abajur ao lado, piso decorado com arabescos e um televisor acoplado à parede, e à sua direita, o pequeno monitor que seria utilizado para a comunicação com meus pais.
Então seguimos para o quarto: duas camas de casal, — talvez um pouco menores — piso de textura completamente lisa, um criado mudo entre as duas camas e uma pequena estante de frente para elas, cheia de livros. Um monitor com quatro botões assim como o da sala. Dois closets já contendo nossas roupas e alguns pares do estranho traje branco que nos mandaram vestir antes da decolagem. Esse sem dúvidas era o maior dos cômodos.
Em seguida o banheiro: igual a todos os outros. Vaso, pia e chuveiro, sem luxo nem detalhes significativos.
No final do corredor, a cozinha, ou uma copa, era nada mais que uma mesa com duas cadeiras, um tubo por onde deve chegar a comida e um aparelho que julguei ser um micro-ondas, localizado sobre uma outra mesa, munida apenas de quatro gavetas, duas contendo talheres e duas estavam vazias. No banheiro e na cozinha-copa também havia monitores. Reparei que tudo era grudado ou ao chão ou às paredes, todos os cômodos possuíam comunicação e tudo em todos os lugares era em tons de branco e cinza claro.
Não sei por quanto tempo fiquei observando, — procurando alguma forma de escapar — mas eu já estava exausta.
— Só eu que estou cansada? — Thomas pareceu estranhar o fato de eu finalmente falar com ele depois de tanto silêncio.
— Não. Vamos descansar? — Foi mais um pedido que um convite. Ele me seguiu calado por todo esse tempo, provavelmente para me fazer companhia, porque não demonstrou interesse algum no lugar. Eu tive muita sorte por encontrar um amigo assim, por isso gosto tanto dele.
— Vamos, Tho. — Dei um beijo em seu rosto e seguimos para nossas respectivas camas. Não sei quanto a ele, mas assim que eu deitei, virei para o lado e caí em um sono pesado e sem sonhos.
Ao abrir os olhos notei que nada havia mudado. Em minha direita Tho ainda dormia, eu não tinha noção de quanto tempo poderia ter passado. Sentei na cama — desconfortável — e esperei por algo diferente enquanto fitava o teto. As luzes estavam baixas, — eu ainda não havia entendido como elas funcionavam — mas para mim estavam boas, nunca tive grande simpatia por ambientes muito claros. O teto possuía detalhes nos quais eu não reparara. Linhas escuras e finas que se espalhavam de forma irregular. Era interessante acompanhá-las com os olhos. Após finalmente encontrar um padrão para as centenas de linhas, vi que Thomas já me encarava há algum tempo:
— Há quanto tempo está acordado? — Indaguei, ainda olhando para cima.
— Ahm? É… Alguns minutos.
Ele ainda estava cansado e possivelmente escondendo algo de mim. Ele não esperava que eu falasse algo tão cedo. Pude perceber tudo isso apenas com essa resposta. Eu o conhecia bem demais, aposto que nem ele saberia disso algum dia.
— Hm, — é claro que eu não verbalizaria nenhum desses pensamentos, então decidi resumir tudo em uma única pergunta — tem algo que você queira me contar?
— Em relação a…? — Ele pareceu não fazer ideia do que eu estava falando.
— Não sei…
— Bem, acho que não, — obviamente ele estava escondendo alguma coisa, mas não havia como eu descobrir o quê — ainda não.
Um dia sem dúvidas ele me falaria, mas pelo visto ainda não era a hora.
Um aviso em vermelho aparecera na pequena tela por onde era feita a comunicação:
“Sem mensagens”.
Tive a impressão de que isso não se alteraria tão cedo, então surgiu a ideia de me certificar se meus pais estavam bem.
De novo apertei todos os botões até um deles funcionar:
— Mãe, pai, estão acordados?
Alguns angustiantes segundos depois:
— Sim querida, você está bem? E Thomas?
Nos encaramos por um curto período de tempo e finalmente gravei a mensagem:
— Estamos bem, e vocês? — Tho estava do meu lado, e em nossos rostos, as expressões mais tranquilizadoras que pudemos fazer, tudo para não assustar meus pais, afinal, ficar ali não era exatamente bom, mas a presença do outro tornava a situação suportável. Ou até… aconchegante, afinal tudo fica melhor quando estou com…
— Bem também, estão precisando de alguma coisa? Comida? Água? — Dessa vez era meu pai.
— Na verdade, água seria uma boa. Está com fome, Thomas?
— Quando você for comer, eu como também. — É assim que ele diz que está com fome perto dos meus pais.
— E comida também, pai. Onde podemos conseguir?
Enviei. Sobre o que estava pensando mesmo? Esqueci.
Sem motivo aparente, me senti fraca e vi o chão se aproximando. Tho me pegou a tempo e estava com um olhar desesperado:
— Liz? O que houve? Como está se sentindo? Pode me ouvir?
Apertei os olhos e ao abrir vi que ele estava perto. Perto demais. Nem eu sabia o porque de eu ter caído. Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz do meu pai.
— Na cozinha há uma espécie de filtro, será fácil achar a água, comida é enviada a cada quatro horas em uma quantidade razoável por um tubo. Caso não estejam com fome, ou guardem os compartimentos — gavetas — ou apertem o botão de devolução, mas recomendo guardar. Caso haja alguma emergência e precisem de algo em particular, me chamem e darei um jeito de providenciar. Acho que é só isso que vocês precisam saber por enquanto. Algo mais?
Por algum motivo consegui ouvir tudo, mas meus olhos tinham como foco os do meu melhor amigo. Eu nunca reparara no quão bonito era aquele mel, que naquela hora me lembrou o anoitecer que tantas vezes vimos juntos. E agora toda a tranquilidade que esses mesmos olhos um dia me passaram simplesmente se esvaiu. Ele ainda esperava por uma resposta. Qual o motivo de eu ter caído mesmo?
— Liz. — A cada segundo ele ficava mais preocupado.
Lembrei.
— Calma, é só fome, Tho. — Disse enquanto me levantava com sua ajuda — Vamos comer.
Enviei uma última mensagem agradecendo meu pai e seguimos para a cozinha, onde duas cápsulas nos aguardavam.
— O que fazemos com isso? — Ele perguntou.
— Acho que é pra colocar ali — apontei para o “micro-ondas”.
— Ah.
Em cima do aparelho tinha um aviso: “Retire a parte externa antes de colocar o alimento aqui”.
Fizemos isso com uma delas, não sabíamos quanta comida havia lá dentro então preferimos dividir o conteúdo de apenas uma. Ao abrir, dois pequenos sachês caíram, neles estava a frase “coloque na água”, deixamos para depois.
Após depositar o sachê maior no micro-ondas, apertamos o botão verde e a coisa pareceu preparar tudo sozinha. Enquanto isso decidimos colocar os pequenos sachês na água. Realmente era como um filtro, e ao derramar o pó, o líquido mudou de cor e, após com cuidado experimentar, Tho disse que era suco de pêssego. Interessante.
O barulho do micro-ondas parou. Um prato farto e pronto estava lá dentro, na verdade um lanche: sanduíches muito bem recheados, palitinhos de queijo, biscoitos variados, pãezinhos e outros aperitivos. Tudo estava ótimo e parecia fresco, mesmo eu tenho certeza de que não estava.
Depois de comer e devolver as embalagens por um outro tubo cuja presença eu não notara, — nem a do micro-ondas, até precisar dele — voltamos para o quarto, lembrei que precisava urgentemente de um banho.
— Tho, preciso de um banho. Mas e se…?
— Não vão fazer isso.
Ele sabia do que eu estava falando. E se nos separarem? Não poderíamos permitir, ou dar brechas a eles. Fitei o box do banheiro: cinza e opaco, duvidei que fosse possível enxergar algo do outro lado. Chequei e estava quase certa. Só pude ver a silhueta embaçada da minha mão. Como confio no Thomas, achei que meu plano funcionaria perfeitamente.
— E se… você for comigo?
— O que? — Ele me olhou como se eu o tivesse pedido para me esfaquear ou coisa parecida.
— Você não entendeu, — depois de rir um pouco, prossegui — você não olha até eu dizer que pode, e vice-versa. Pelo menos estaremos juntos, ou quase.
— Ah, — ele deu uma risada sem graça — entendi. Por mim tudo bem.
E assim fizemos. Pegamos nossas roupas, o banheiro tinha espaço suficiente para ficarmos a cerca de cinco metros de distância um do outro. Isso bastava. Enquanto me despia, mesmo sem necessidade, falei:
— Se olhar, você será um garoto morto.
— Sim, senhora. — Rimos juntos.
Após um banho tranquilo e sem diálogos, coloquei minhas roupas normais, as mesmas que usei no dia em que ele me obrigou a cantar na cobertura da casa de um de meus primos no verão passado: regata preta e shorts dourado, mas ao invés de salto alto, coloquei tênis.
— Pode olhar — devagar ele se virou — se lembra? — Perguntei, olhando para minha blusa.
— Como esquecer? Até violão toquei nesse dia. Agora me deixa tomar um banho — ele deu um sorriso torto.
— À vontade.
Enquanto tirava as peças, Tho cantarolava uma música de boate com strippers. Começamos a gargalhar alto.
— Cala a boca, Thomas! — Disse entre risadas.
— Eu não disse nada — ele rebateu, e por sua voz, julguei haver um sorriso irônico em seu rosto.
— Você é impossível — eu disse, sorrindo.
Depois disso não falamos mais nada. Fiquei fazendo e desfazendo tranças em meu cabelo até ouvir:
— Pronto.
Ele colocou camiseta e bermuda. A temperatura estava agradável.
— O que quer fazer? — Perguntei.
— Não sei, que tal descobrir o que passa naquela TV?
— Dormir é mais emocionante.
— Verdade. Sabe o que me veio a cabeça?
— O que? — Nada. Pelo menos na minha cabeça era isso que se passava.
— E se enquanto estivermos dormindo…?
— Bem lembrado, — eu não havia pensado nisso — e agora?
— Se importa se dormirmos na mesma cama?
— Não, acho que é o melhor que podemos fazer.
Pegamos um edredom de dentro de um dos armários e nos deitamos, um de frente para o outro. Eu estava mais cansada do que pensei, talvez só desanimada com a situação. Presos nesse lugar, arrastar meu amigo que acabara de perder a mãe para cá. Eu precisava de redimir de alguma forma.
— Tho, me desculpa.
— Pelo que, Liz?
— Por te fazer passar por tudo isso — olhei ao redor.
— Não faz isso. Fico feliz por ter você — ele acariciou meu rosto com as pontas dos dedos.
— Não sei o que seria de mim sem você — coloquei minha mão por cima da dele.
Depois disso adormeci, com um peso a menos na consciência. Ou não.
Elize e Thomas no verão passado:
Mãe do Thomas:
Pais da Elize:
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