Lower Mind

2 Level 2 - O Jogo do Inferior


Horizon.

Quanto mais nos aproximávamos da sala de operações, maiores ficavam os ruídos. Sim, ruídos. Demorou um pouco para notá-los; talvez por causa do barulho de nossos passos, talvez por nossos sentidos ainda estarem um pouco abalados. A mulher dos longos cabelos negros ficava me encarando com um olhar desconfiado – agora que ouvíamos os ruídos, isso ficava cada vez mais constante.

Os outros integrantes do grupo não estavam encarando, mas olhavam com frequência em meus olhos, e logo após eu reparar seus olhares, eles os desviavam. Não achava estranho, achava comum à esta altura. Não é sempre que se vê alguém com os olhos roxos, é uma mutação extremamente rara chamada Alexandria's Genesis.

Devido a esta mutação, eu nasci com os olhos acinzentados, e minha mãe deu-me o nome de Horizon, pois a tonalidade de meus olhos a lembrava do horizonte. Durante seis meses, minha íris mudou de tonalidades de roxo, até que se fixou em uma só. Eu também não menstruo, mas sou fértil, pelo menos foi o que o médico disse.

Quando viramos a esquina da sala, podíamos ouvir um estalo de dentro dela. Alguns recuaram de susto, outros congelaram onde estavam. Chihiro olhou nos meus olhos e entendi que tínhamos de ir na frente – por estarmos armados e pela falta de confiança de algumas pessoas do grupo. Ao aproximar-me da porta, ela se abriu. Tomei um leve susto, mas em seguida nada aconteceu. Era apenas o sensor de movimento. Tirei a arma do coldre e a segurei firme com as duas mãos.

A mira a laser refletiu no chão de ferro e criou um jogo de luzes assustador. Pareciam aqueles alarmes em lojas de joias de filmes antigos. Prosseguimos para dentro da sala e o alívio foi tanto que quase nos fez rir. O ruído era a estática de um dos telões dos computadores de monitoramento.

Chamamos o restante do grupo. A garota loura foi imediatamente para os computadores, buscando pelo artigo que dizia sobre a lei que eu e Chihiro mencionamos. Os cinco estavam concentrados, mas conforme liam, a expressão facial de cada um ficava mais sombria.

– Isso... – ia dizendo o rapaz de cabelos negros, mas se interrompeu.

Algo nos telões chamou a atenção de todos. Havia duas pessoas no salão de onde saímos – aquele com as cadeiras circulares – e elas estavam em perigo. Caminhavam desavisadas, mas pelo ângulo da câmera, podíamos ver um drone vasculhando o lugar. Provavelmente em busca de nós, que deslogamos.

– Temos de salvá-los! – disse o homem de cabelos grisalhos.

No entanto, as luzes neon que iluminavam a sala ficaram carmesim. A porta eletrônica por onde entramos fez um barulho de fechadura, como se tivesse trancado. Os telões apagaram um a um, e logo reacenderam, interligados, formando uma mesma imagem. Um homem careca que usava um headset e óculos escuros de lente azulada estava no centro do que parecia ser uma sala de operações.

– Senhoras e senhores, vejo que conseguiram escapar da prisão mental de vocês – disse, entonando cada palavra com entusiasmo, como se estivesse anunciando um show. – Fico feliz pelo plano de libertar os prisioneiros, arquitetado pro Haizaki Shintarou, ter dado certo, mas não posso deixar as coisas como estão. Serei claro: minhas ordens são de matá-los imediatamente, mas isso faria o esforço de meu colega ser em vão, certo?

– Quem é você?! – gritei para a tela. Um esforço inútil, pois ele continuou seu monólogo.

– Tenho em mente algo muito mais divertido. Que tal fazermos um jogo? O Jogo do Inferior.

– Ele sequer está nos ouvindo! – disse a garota loura. – Que tipo de loucura é essa?!

O homem do telão pegou um tablet e começou a digitar alguma coisa.

– Eu sou seu Supervisor, me chamem de Higher Mind. Vocês serão Lower Mind. O objetivo deste jogo é que vocês me superem em inteligência.

Todos estavam atentos, porém agitados. Cada vez mais a situação parecia séria. A ideia de sair de uma realidade virtual era assustadora e difícil de digerir, mas não tínhamos tempo para isso. A única opção é aceitar que esta é a realidade e seguir em frente, caso contrário, podemos morrer de verdade. É menos arriscado levar uma pegadinha a sério do que levar na brincadeira o que pode me custar a vida.

Olhei de relance para Chihiro, e ele parecia acreditar tanto quanto eu. Sua espressão era de raiva, como se estivesse aceitando a realidade toda de uma vez, mas ainda assim relutando contra isso, querendo vingança. O restante do grupo ainda digeria a situação amargamente, mas ainda com dúvidas, e é por isso que sinto que só posso confiar em Chihiro por enquanto.

– A cada andar desta base militar, a Colmeia do Pesadelo, haverá três salas seguras. Nestas, vocês poderão descansar em camas macias, repor os estoques de nutrientes e de munição, e se preparar para os próximos desafios. Mas vocês não podem ficar mais de vinte e quatro horas nessa sala. Acima da porta, um relógio fará a contagem regressiva, e se o tempo esgotar, uma toxina será liberada e vocês morrerão. As salas seguras podem ser identificadas por ter a porta vermelha.

Ele está brincando com nossas vidas. Em vez de simplesmente nos matar, prefere jogar conosco para o próprio entretenimento. Esse cara é o pior!

– Por andar, haverá também uma sala de veludo. Dentro desta, enviarei um amigo de confiança para ajudá-los, vendendo equipamentos, nutrientes, medicamentos, peças para melhoria de armas e informações. A unidade monetária será o LoG, que vocês receberão ao passar por cada desafio.

Para ele é tudo um jogo. Ele se sente o Game Master, e nós somos seus jogadores. Todas essas regras são um absurdo, e não há outra opção a não ser segui-las.

– Agora o mais importante. Os desafios. Cada um será único, e poderá ser de dois tipos: tático ou físico. O desafio tático requer conhecimento e sabedoria, enquanto o físico requer agilidade. O primeiro dará menos LoG, porém é menos perigoso que o segundo. E, é claro, ambos serão mortais.

Desafio tático e físico, então. Uma mente saudável precisa de um corpo saudável. Se for possível escolher o tipo de desafio, o jogo será balanceado. É claro que os jovens farão os desafios físicos mais facilmente, enquanto os mais velhos farão os desafios táticos sem muitos problemas. Esse homem é completamente insano... Pensou nisso tudo?

– Que tal iniciarmos o jogo com um desafio físico, onde vocês poderão escolher três pessoas para participar? O drone irá matar aqueles dois rapazes, então vocês precisam encontrar um meio de salvá-los. Os escolhidos para este desafio devem levantar dois dedos da mão direita. Vocês têm dois mimutos.

– Eu irei – disse. – Tenho experiência em combate pois jogava um jogo de guerra no outro mundo.

– Eu também jogava – acrescentou Chihiro. – Acho que devo ir.

Ninguém parecia ser contra. Estavam hesitantes, com medo de se arriscar. Para mim, eram covardes. Havia dois homens prestes a morrer, e ninguém era voluntário para salvá-los.

– A vida de dois homens estão em risco – manifestou-se o rapaz cujo cabelo vai até o queixo. – Eu também irei.

Ele andou até o armário e pegou um coldre para pistola, uma faca e um sabre de plasma. O tempo estava se esgotando, mas conseguiu se equipar a tempo. Quando ficou pronto, levantou dois dedos da mão direita. Eu e Chihiro fizemos o mesmo.

– Os escolhidos foram Iwase Horizon, Kurosaki Chihiro e Kurono Shu – anunciou o Supervisor.– Que a sabedoria esteja a vosso favor.

Kurono Shu. Irei me lembrar deste nome. O rapaz fora corajoso o suficiente para decidir se arriscar por dois desconhecidos. Ele era extremamente calmo e quieto, acho que ninguém no grupo esperava que ele fosse voluntário.

Os telões apagaram, um a um, ao mesmo tempo que a luz normalizara em azul. A porta destravou e um número três apareceu na tela do sensor de movimento, acima da mesma. Provavelmente indicava a quantidade de pessoas que seria permitido sair.

– Bem, não temos tempo a perder – disse, mas estava nervosa. Não deixei ninguém perceber, queria parecer forte, pois era a única que poderia demonstrar tanta confiança. Ninguém além de mim e Chihiro parecia aceitar bem a realidade, e ele não parece ser um bom líder.

Saímos da sala de operações com o passo acelerado. Correr era complicado, pois não tínhamos músculos e nem preparo físico para se manter em exercício. E meus seios eram um pouco grandes demais para correr.

Chegamos no salão das cadeiras circulares com o sangue quente. Tudo parecia calmo, mas tínhamos que nos apressar. O local era amplo, porém os círculos de cadeiras atrapalha a visão. Se não estou enganada, eles estavam no centro do salão.

– Devemos nos separar ou seguir juntos? – perguntei.

– Estamos todos armados, então acho que não seria um problema nos separar – disse Kurono. – Mas pode ser perigoso.

– Não devemos perder tempo. A vida de dois homens depende da nossa competência, então separados cobriremos mais terreno – disse Chihiro, confiante.

Eu concordava com ele, mas algo nesse plano me incomodava. E se o drone superasse nossas expectativas e nos pegasse um por um? Não, não. Afastei a ideia, e aceitei a sugestão de nos separarmos. Precisávamos ser rápidos.

Chihiro foi pela direita, Kurono pela esquerda, e eu fui pelo meio. Era complicado avançar por entre as cadeiras, pois havia muitos caminhos por onde eu podia ser surpreendida pelo drone. Toda atenção era pouca, e conforme meu coração acelerava de ansiedade, eu me sentia cada vez mais fraca.

Foi quando algo me puxou por trás, e logo gritei. Este algo me jogou no chão e pôs uma mão gelada em minha boca, impedindo-me de gritar.

– Silêncio, quer nos matar? – sussurrou o homem, em tom repreensivo. A princípio, pensei que era Chihiro, pois tinha olhos e cabelos castanhos. Os óculos também eram iguais, porém o cabelo era maior e tinha uma barbixa horrível. Devia ter uns trinta anos. – Irei te soltar, e você não gritará, entendeu? Pisque um olho duas vezes se entendeu.

Não gostava do tom autoritário dele, mas seu peso me deixava sem ar, e ficava cada vez mais eufórica. Pisquei duas vezes, então ele finalmente saiu de cima. Inspirei o ar, sentindo meu peito inflar, depois o soltei, recuperando o fôlego.

– Quem é você? – perguntou o homem.

– Eu é que pergunto, com uma recepção destas! – é lógico que eu estava brava, mas precisava me focar no objetivo. – Eu vim para ajudar vocês, cadê o outro cara?

– Estou aqui – disse um dos homens sentados à cadeira. Ele retirou o capacete e olhou nos meus olhos. – Uau! Você tem Alexandria's Genesis! – disse ele, admirado. Tinha cabelos pretos, lisos, e seus olhos eram azuis. Aparentava ter mais de vinte e cinco anos, mas não sabia dizer exatamente quantos.

– Não é hora de ficar admirando, há um drone aqui querendo matar vocês! Venham comigo!

– Nós sabemos disso – disse o homem dos olhos castanhos. – Estive observando o padrão de movimentos dele há um tempo, sei exatamente como evitá-lo.

Antes que eu pudesse evitar, Chihiro chegou atacando o homem, que foi rápido o suficiente para aparar o golpe e revidar. Ele segurou o pulso de Chihiro, evitando a lâmina da faca, então jogou o corpo o garoto por cima do ombro, desarmando-o e usando a faca contra o próprio dono.

– Pare! – exaltei-me. – Ele está comigo.

Os dois se entreolhavam, ferozes. O outro homem, o que estava sentado, levantou para separar a briga. Ele puxou seu companheiro de cima do meu, e me interpus a eles, ajudando Chihiro a se levantar. Meu coração acelerado e a adrenalina percorrendo meu corpo me fazia sentir um enjoo e uma fraqueza quase que dominante. Mas resisti, precisava ser forte.

Então ouvimos um grito. Um grito masculino de dor, vindo da nossa esquerda. Indubitavelmente era Kurono, então meu coração apertou. Senti um nó na garganta, uma insuficiência assustadora.

– Droga! Kurono! – gritou Chihiro, e antes que pudessem impedi-lo, ele correu por entre o labirinto de cadeiras atrás da origem do som.

Não tinha forças para segui-lo, mas tentei. Não consegui correr no mesmo ritmo. Sentia-me cansada, tonta e extremamente fraca. O homem de olhos castanhos me seguiu, alertando-me que o drone estaria naquela direção.

– Eu sei, mas preciso evitar que Chihiro faça alguma besteira! E também tem Kurono... Preciso ajudá-los!

– Iremos com você então! – disse o rapaz de olhos azuis.

Corremos os três. A situação parecia a pior possível. Kurono estava caído, inerte, e uma poça de sangue crescia debaixo dele. Chihiro usava o sabre de plasma inutilmente para se defender do drone. Peguei minha pistola e mirei com cuidado. Minha visão estava turva, eu estava muito tonta.

– Vocé está maluca?! Vai acabar acertando o garoto! – disse olhos castanhos.

Atirei. Errei o primeiro tiro. Era mais difícil atirar na vida real que no jogo: a arma era mais pesada, minhas mãos tremiam mais e o recuo era no mínimo duas vezes maior. Atirei de novo, e dessa vez acertei o drone em cheio. E então desmaiei.

Quando acordei, estava na sala de operações novamente.

– O que houve? – consegui dizer, sentindo a garganta seca.

O homem dos olhos dos olhos azuis me encarava, incrédulo. Ficava me olhando nos olhos, admirado com minha mutação.

– Você sabe que olho azul também é mutação, né? – disse. – Não fica me encarando assim, é esquisito.

– Ah, me desculpa! – atrapalhou-se. – É que é realmente raro, e é lindo.

– Obrigada. Mas agora responde minha pergunta, o que aconteceu? – tentei levantar, mas não encontrei forças. – Kurono e Chihiro estão bem?!

– Eu estou ótimo, só cansado – respondeu a voz de Chihiro. – E você? Desmaiou do nada...

– Hipoglicemia – disse olhos azuis. – Estávamos sendo alimentados com nutrientes injetados na veia, mas isto não dá sustância o suficiente, nem impede a atrofiação de músculos. O que nos manteve em forma foi a gravidade, a pressão e provavelmente massagem. O nível de adrenalina em seu corpo estava alto, e a taxa de glicose no sangue, baixa. Seu corpo não tinha mais energias para manter todas as funções trabalhando, então meio que seu sistema entrou no modo de economia.

– Como você sabe tudo isso? – perguntei.

– Eu era médico no outro mundo – respondeu ele. – eu sou Mashiro Ryouta, prazer em conhecê-la.

– Iwase Horizon. E Kurono? Ele está... – perguntei, sentindo um aperto no coração.

Se ele estiver morto, a culpa é minha. Ele aconselhou ficarmos juntos, e eu decidi que era melhor nos separar. Fui irresponsável, uma líder ruim. E Chihiro agiu como um herói. Talvez eu tenha o julgado errado: ele era melhor em liderar que eu.

– Consegui estabilizar o estado dele, mas não acho que vá durar muito. Ele precisa de atendimento médico urgente, e não tenho os equipamentos necessários para tratá-lo aqui...

Pedi ajuda para me levantar. Consegui sentar, mas ainda me sentia fraca. Todos pareciam preocupados comigo e com Kurono. Começaram a perguntar como me sentia, se estava bem, mas não conseguia responder todos ao mesmo tempo.

– Obrigado por se preocupar, mas estou bem – afirmei. – Espero que agora possam confiar em nós.

Eles assentiram, dizendo que confiam. Começaram a se apresentar. A garota loura se chamava Elizabeth Harper, tinha vinte e três anos e estudava engenharia de TI na faculdade de Tokyo, por intercâmbio. Parecia mais nova do que realmente era, o que me surpreendeu. O homem dos cabelos grisalhos era Igarashi Taira, de cinquenta e seis anos. Trabalha como investidor bancário, mas isso eu já suspeitava. Ele tem perfil de funcionário empresarial. A garota de cabelos longos se chamava Irie Mea. Tinha dezenove anos – um ano mais velha que eu – e trabalhava em uma loja de sapatos em Ikebukuro. A garotinha bochechuda era Tachibana Mayuri. Era estudante do fundamental, tinha onze anos.

Olhos castanhos na verdade se chamava Katsura Kazuto. Tinha vinte e seis anos, e trabalhava como psicólogo há dois anos em Kyoto. Mashiro, o médico, tinha vinte e nove anos e trabalhava em Aomori. Após todos se apresentarem, achei que seria minha vez, mesmo que todos já soubessem meu nome. Era um formalidade.

– Sou Iwase Horizon, dezoito anos. Não tenho profissão. Prazer em conhecê-los.

Um som de estática preencheu a sala, e uma voz saiu do nada.

"E eu sou Higher Mind, seu Supervisor. Parabéns por terem concluído o primeiro desafio. Como foi o primeiro, era esperado que alguém se machucasse. Mas como estamos apenas começando nosso jogo, seria ruim se um de vocês já morresse, certo? Então darei-lhes uma recompensa bônus. Marquei em seus mapas a localização da primeira sala segura. Encontrarão um kit de primeiros socorros para tratar seu ferido. Que a sabedoria esteja a vosso favor."

Então outro som de estática, e tudo ficou em silêncio novamente. Abri o mapa do primeiro andar e uma salinha vermelha piscava. Finalmente podia ter um pouco de descanso dessa loucura. Tudo que precisávamos fazer era levar Kurono para a sala segura.

Chihiro ajudou a me levantar. Mashiro e Katsura carregavam Kurono, e andávamos lentamente pelos corredores labirínticos da Colmeia do Pesadelo. Assim como o Supervisor dissera, a porta era vermelha. Entramos na sala segura, e era extremamente organizada.

Havia uma mesa de centro, uma televisão embutida na parede à direita e sofás a nossa frente. Na parede direita e ao fundo, nove portas abertas revelavam dormitórios, cada um vom seu próprio banheiro e cama. Arrastei-me até o quarto mais próximo, deitei-me na cama macia e dormi. Precisava descansar.

Notas finais
Se tu chegaste até aqui, és corajoso. Mas para se tornar um verdadeiro Jedi, jovem Padawan, precisas comentar. Aceito críticas, comentários e sugestões.