Lower Mind

1 Level 1 - Virtualidade Real


Notas iniciais
Já havia postado e refeito essa história duas vezes, mas essa é a versão definitiva. Encontrei a essência dela, e acho que dessa vez ficará mais fácil e mais interessante.

Chihiro.

Tudo isso começou dia 29 de fevereiro de 2036, três dias após o meu aniversário de dezessete anos. Eu estava no colegial, cursando o terceiro ano. Acho que estudar é um desperdício de tempo e dos meus talentos... bem, se quer saber qual é o meu talento, eu sou um Gamer. Explicando melhor: sou um viciado em jogos online.

Eu tenho um pequeno grupo de amigos, temos as piores notas na escola, mas já zeramos muitos jogos, muitos jogos mesmo. Sou o melhor entre eles, e somos os melhores da cidade. Neste momento, estou em aula, mas logo vamos nos encontrar na casa de Dan para jogar alguns games.

O alarme de saída ressoou. Acompanhei seu toque suave com uma melodia acapella.

– Finalmente – disse, arrumando meus materiais.

Saí pela porta dos fundos da sala de aula e segui pelo corredor congestionado de estudantes até as escadas. A hora da saída era extremamente desorganizada, mas consegui chegar ao meu armário sem que ninguém pisasse no meu pé.

Dentro do pequeno paralelepípedo de ferro, havia um espelho. Não um espelho comum, mas um espelho encoder. Este, era um aparelho preto que emitia uma frequência que só era reconhecida pelo Braincoder. A função do aparelho é transmitir em si mesmo a imagem que meu Braincoder captura, servindo assim de espelho.

Encarei-me por alguns segundos, sem lembrar o que deveria fazer. Meus olhos castanhos estavam vazios, sem brilho, e meus cabelos – lisos e de mesma cor –, estavam bagunçados. Como que automático, guardei meus materiais e peguei meu cabo de Ligação Direta.

Estava cruzando uma rua gélida de Akihabara quando movi dois dedos da mão esquerda para baixo, em meu campo de visão. O menu principal do Braincoder abriu.

Braincoder é um aparelho preto que era conectado à nossa medula espinhal, fazendo uma sinapse artificial com nossos neurônios. Basicamente, transformava nosso cérebro em um computador portátil. Computadores, celulares, televisões e tablets, tudo em um só: era algo essencial para nossa geração.

Cliquei no atalho para músicas e liguei uma qualquer. Era Speedrun, de Racers Prize 2024, um jogo de corrida muito antigo que foi atualizado para o novo aparelho. Caminhei rapidamente até a casa de meu amigo e mandei um e-mail.

Bem, com o Braincoder era possível acessar a rede global e baixar qualquer coisa sem interferência, então e-mails e ligações eram os maiores meios de comunicações desse mundo – fora que a mensagem é enviada instantânea e diretamente ao Braincoder do contato, fazendo com que seja impossível não ver o e-mail.

No meu campo de visão, uma cartinha começou a piscar. Era a resposta de Dan. Cliquei no link e abri o e-mail flutuante.

"Aah, Chihiro! Comprei a nova revista da Melly-chan! Huhuhu, você terá sangramentos nasais infinitos quando chegar aqui. Além disso, comprei refrigerante e hambúrgueres. Já está chegando? Jyuuga já está aqui!"

– Essa foi rápida. Bem, estou aqui no portão – falei comigo mesmo, observando o link em forma de sino que aparecia ao olhar para o dispositivo encoder da campainha, através do Braincoder.

A casa de Dan era enorme. Uma pequena mureta com cerca de meio metro do chão a cercava, sendo que essa mesma continuava com lanças, formando portões. A entrada da casa era meio antiga. A porta era de madeira e possuía muitos traços ocidentais. A residência se estendia por vários metros, fazendo o meu apartamento parecer um cubículo de escritório empresarial.

Na parte da frente, via-se duas janelas quadradas, sendo o vidro dividido em vários retângulos. Um caminho de pedras cor bege vinha da porta até a entrada do portão, de forma que não se pisasse no jardim. Este era pequeno, tinha um playground ao lado esquerdo e algumas flores ao lado direito.

Deixando as observações de lado, cliquei no link em forma de sino. Deletei o e-mail que Dan me enviou e bloqueei alguns arquivos meus em um backdoor, para que ninguém os veja – afinal, todo mundo tem seus segredos.

Levou cerca de quinze segundos até Dan abrir a porta. Ele me convidou para entrar com um copo de refrigerante na mão e um sorriso idiota estampado no rosto.

– Pensei que não ia chegar nunca! – disse ele, guiando-me até a sala.

– Não queria ver sua cara feia, por isso me atrasei – respondi sarcasticamente.

Naquele cômodo tinha um ventilador no teto e uma mesa com três cabos ligados a um aparelho de conexão. Este aparelho iria conectar nossos três Braincoders para que pudéssemos jogar um com – ou contra – o outro.

As portas que davam entrada a outros cômodos eram feitas no estilo oriental: eram de papéis e de correr, como a porta lateral de uma combi. As cores usadas eram branco e um contraste de azul que subia do ponto mais baixo até o meio da porta. Na parede acima do aparelho de conexão, havia um porta-retrato digital da mesma forma da campainha, apenas um arquivo instalado no projetor, mandando-me uma imagem diferente da real, através do Braincoder.

Sentei-me em um dos puffs que estavam diante da mesa de centro, e então decidimos fazer uma partida de sobrevivência de um jogo chamado Handgun Soldiers. É de guerra, e é bem conhecido. Conectei o cabo na segunda entrada USB de meu Braincoder e um banner apareceu. "Deseja iniciar o aplicativo Handgun Soldiers? Sim – Não". Após aceitar, a tela inicial do jogo apareceu. Era um beco abandonado e sujo com barulho de tiros e bombas ao fundo. O nome do jogo e a frase "Say Link Start to play" aparecia na tela com uma fonte antiquada que combinava perfeitamente com o estilo de guerra do jogo. Tudo estava pronto.

"Link Start", sussurrei, no mundo virtual, logando assim no game.

No jogo, começamos com uma arma primária e uma secundária. Minha arma primária era uma Broken Butterfly, uma potente arma antiga para munições de magnum. A secundária era um sabre de plasma. Era um dispositivo cilíndrico que, ao apertar alguns botões, liberava plasma concentrado, extendendo o tamanho do objeto em sessenta centímetros. Estes são os cassetetes dos policiais de hoje em dia – letais, se ativados com o regulador de concentração em nível alto.

Bem, como eu disse antes, sou viciado em jogos online, então não demorou muito para eu acertar meu primeiro head shot. Após algumas horas jogando, fizemos uma pausa para lanchar. O relógio já marcava dezoito horas e a noite começava a cair sobre Akihabara. Jyuuga ainda estava de boca cheia quando disse:

– Ofha iffo Chifiro!

– O quê?

– Você entrou pro ranking!

Abri minha tela de títulos. Há uma pasta em meu Braincoder na qual eu salvo meus emblemas de diversos jogos. Acessei a tela de rankings e olhei para minhas conquistas. Décimo colocado em Handgun Target.

– Você tem razão! Eu sou o décimo melhor no ranking mundial! – disse, impressionado e orgulhoso.

Acessei a rede global para ver os outros colocados, à procura de conhecidos meus. Não tinha ninguém que eu conhecia.

Cliquei no menu principal para fechar a rede, mas vi outro botão. Estava escrito "Log Out". Mas... log out de onde? A curiosidade era grande, então eu cliquei. Minha cabeça latejou, me senti sendo puxado com força e meu corpo fraquejou. Tive a sensação de que cada célula do meu corpo estivesse se desfazendo e então apaguei.

Quando acordei, eu estava sentado em uma cadeira. Havia tubos conectados a um bracelete em meu punho esquerdo. Tentei me levantar, mas fui puxado por algo mais que prendia minha cabeça. Tentei removê-lo, mas uma dor de cabeça latejante tomou conta de mim. Fiquei sentado por alguns segundos, sem me mover. Meus sentidos foram voltando, pouco a pouco, até que pude remover o que quer que estivesse na minha cabeça.

Quando o tirei e vi o que era, meu coração se apertou. Com letras maiúsculas, as iniciais NG estavam gravadas na frente do aparelho. O que me espantou era que eu conhecia aquilo. Era um NeuroGear. Ao olhar o local, haviam muitas pessoas com tubos conectados a seus pulsos e o capacete em suas cabeças. Ninguém se mexia.

– O que diabos...

Tirei os fios que se conectavam às minhas veias e me esforcei um pouco para me levantar. Eu me sentia fraco, meus músculos doíam e minha visão estava um pouco turva, mas consegui reconhecer uma forma feminina. Estava de pé à minha frente, encarando-me.

– Sabe o que está acontecendo? – perguntou a garota. Ela devia ter dezoito anos, era muito magra e tinha cabelos escuros. Vestia um moletom branco com detalhes em preto, um mini-short marrom e calçava coturnos. Os olhos eram de uma intensa tonalidade roxa, e ela estava corada. – O que está olhando? Eu fiz uma pergunta.

– Ahn... ah, sim. Eu também não sei o que é isso, eu estava na casa de um amigo lanchando quando... não me lembro bem, mas vim parar aqui.

– Você não foi o único. Eu estava navegando na rede global, vendo os links diários quando uma enorme dor de cabeça me atingiu e eu apaguei. Acordei aqui.

– O que será que está acontecendo...? – percebi que minha pergunta foi idiota assim que ela saiu, pois a garota havia me perguntado a mesma coisa.

Era um enorme salão com paredes e teto de ferro. Aliás, quase tudo ali era de ferro. Olhando bem para a cadeira de onde saí, percebi que o fios eram como os usados em hospitais para injetar nutrientes nos pacientes. Não era apenas uma cadeira, mas oito que formavam um círculo – e no centro deste, tinha um enorme aparelho medicinal e um tablet. Por todos os lados, o círculo de cadeiras, computadores, tablets e NeuroGears iam se estendendo até o final do salão.

– Aquilo ali pode nos ajudar – disse para a garota, por fim.

Andei até o tablet e o peguei. Sua tela projetou-se holograficamente assim que cliquei no botão iniciar.

Os novos tablets são bastante diferentes dos antigos: aparelhos pequenos, nos quais quando você clica no botão de ligar, eles iniciam uma tela holográfica do que deveria ser físico em modelos ultrapassados.

Procurei por informações, mas tudo que encontrei foram códigos de programação e um mapa do primeiro andar. Primeiro andar de onde? Pensei.

– Procura uma saída – ela sugeriu.

– O.K.

Não dizia exatamente onde a saída ficava, mas tinha uma sala de operações. Talvez lá a gente conseguisse informações... seguimos por essa pista. Atravessamos o salão penosamente – devido à fraqueza que sentíamos.

As paredes tinham pelo menos seis metros. O chão era feito de metal e eu podia sentir o frio subindo. Nem tinha percebido as roupas que usava até agora – estava usando um casaco branco com um capuz preto: uma manga era comprida e a outra era regata; provavelmente por causa dos tubos que me davam nutrientes nas veias. A manga comprida era preta, o casaco tinha um bolso grande de duas mãos e um símbolo estranho entalhado no peito, exatamente posicionado onde ficava o coração. Era o mesmo casaco da garota.

Também vestia uma calça marrom. Percebi também que agora usava óculos... antes o Braincoder consertava a miopia. Ao pensar nisso, notei que não estava mais usando meu Braincoder. Olhei para a garota do meu lado e observei que ela também não o usava. Puxei assunto:

– Nós também não estamos com nossos Braincoders... Er... – procurei um nome para chamá-la, mas não o tinha. – Desculpa, não sei seu nome...

– Iwase Horizon – apresentou-se. – Também reparei nisso... – ela botou a mão no pescoço para verificar inutilmente se o aparelho estava lá. – Estranho. Eu estava jogando Handgun Soldiers, depois disso eu acessei a rede global para ver se eu tinha caído de ranking... não me lembro de nada depois disso. Só sei que uma dor de cabeça latejante me consumiu e então estava aqui.

– Idem aqui. Estava jogando e entrei pro ranking mundial, então fui dar uma olhada no top dez para ver se tinha algum conhecido meu...

– Você deve ser o Chihiro, certo? Eu recebi uma notificação sobre você ter entrado no ranking, por isso fui verificar se eu tinha sido rebaixada.

Então ela jogava o mesmo jogo que eu. E me conhecia. Seria coincidência? Foi quando tive um insight: o botão de Log Out!

– Ah! Acho que me lembro o que aconteceu depois... vi um novo link na rede global e cliquei nele... acho que era Log Out.

Horizon pareceu estar em outro mundo, por um instante. Pôs a mão na cabeça e fez uma careta, como se estivesse com dor.

– É... agora eu me lembro. Foi isso mesmo que aconteceu! O que diabos está acontecendo aqui...

Disse para ela que iríamos descobrir e seguimos silenciosamente. Chegamos ao final do salão e achamos uma porta que também era feita de ferro. Funcionava com um sensor de movimento, pois ao me aproximar, ela se abriu. Saímos em um corredor estreito, mas ainda dava para duas pessoas andarem lado a lado. Horizon veio um pouco atrás, se apoiando na parede. Era difícil se manter em pé, mas resisti.

Seguimos o mapa por alguns minutos. Notei que nos corredores tinham tubos de ventilação, pois uma brisa gélida nos atingia ao longo do caminho. Logo, chegamos à sala de operações.

Como eu havia suposto, tinham computadores de monitoração e informações. Uniformes de algum tipo de empresa com o mesmo símbolo do meu casaco estavam pendurados em cabides num armário de ferro a nossa direita e à esquerda, armas e coldres usadas pela secretaria de segurança. Sentei em um dos computadores e comecei a procurar por informações. Horizon ficou vendo tudo de perto, logo atrás de mim.

"Projeto Virtualidade Real (PVR), aprovação em lei n° 8.967/24, dia 21 de dezembro de 2024. Foi aprovado, após a revolta de Secret System Online, que o Japão terá de prender todos os manifestantes em uma realidade virtual para causar menores impactos mundiais. [...]"

Resumidamente, foi aprovada uma lei que prenderia todos os japoneses vivos em uma realidade virtual, inabitando assim o país e escondendo do mundo a crise de SSO. Esta crise começou em junho de 2024, quando uma empresa de tecnologia inventou a realidade virtual. Com a descoberta, foi possível ter acesso à informações na mente de quem estava no mundo virtual, o que resultou em roubos de contas bancárias, ameaças na vida pessoal da sociedade e muitos outros problemas.

O principal atuante nessa crise foi o NeuroGear. Houveram muitas rebeliões para tirar o produto do mercado, processos contra a empresa, pois todos os que foram roubados queriam ser indenizados. O país quase quebrou economicamente e politicamente.

O que o arquivo dizia era que durante essa crise, um plano foi executado para prender toda a população em uma realidade virtual, onde suas memórias seriam apagadas e o país seguiria em frente, gerando lucros através de trabalhos efetuados pelas pessoas, dentro dos computadores.

– Que coisa horrível... o governo é mesmo capaz disso?! – era realmente assustador, e difícil de acreditar. Eu devia estar em algum tipo de pegadinha que a rede global postou.

– Pense um pouco, Chihiro... estávamos presos por NeuroGears, recebendo nutrientes na veia... Fora que viemos parar aqui após clicar em um link de Log Out na rede global... será que estávamos vivendo em uma realidade virtual? – apesar de dizer isso, Horizon parecia incrédula também.

– Difícil de acreditar... se for alguma pegadinha da rede global, devemos seguir com o joguinho deles. Então quer dizer que estamos em área do governo? Isso é perigoso, não podemos ser descobertos.

Olhei Horizon nos olhos e entramos em um consenso: seremos sigilosos. Abri o armário de uniformes, as roupas eram iguais a que eu estava usando. Troquei o meu casaco por um que tinha as duas mangas e desloquei-me até as armas, vestindo um cinto de couro com um coldre para arma e uma bainha para faca. Peguei uma blacktail com mira laser, uma faca de combate e um sabre de plasma, exatamente como em Handgun Soldiers – exceto pela blacktail no lugar da Broken Butterfly. Equipei tudo nos coldres.

Notei que Horizon só segurava as armas, não usava cinto nem nada.

– Não vai usar os coldres?

– Não é isso... Eu sou uma garota, O.K.? Preciso que você me dê licença para me trocar...

Aquilo foi realmente constrangedor. Não tinha percebido que estava atrapalhando. Dei licença da sala e esperei do lado de fora. Foi sorte ter encontrado um uniforme com as duas mangas. Os corredores eram ventilados, e a brisa que percorria o local parecia vir de algum ar-condicionado, pois era extremamente frio. O silêncio era absoluto, a única coisa que ouvia era o barulho de pano dobrando enquanto Horizon trocava de roupa. Aquilo me fez imaginá-la se vestindo, e senti meu rosto enrubescer. Quando ela gritou por meu nome – ela não sabia meu sobrenome, então fazia sentido ela me chamar assim –, pulei de susto.

Quando entrei, com certeza fiz uma cara estranha. Ela estava linda com aquele uniforme... vestia-se no mesmo padrão que eu, porém tinha customizado a roupa. Seu casaco não tinha mais capuz, ela havia cortado este. Por baixo do casaco, eu podia ver alças de um top e ela vestia um mini-short marrom. Usava um cinto com um coldre na cintura. Além da arma, tinha uma pequena bainha para faca logo ao lado, e do outro, o sabre de plasma estava pendurado em um dos buraquinhos do cinto, o que era bem prático.

– Como você arranjou tempo para fazer tudo isso? – perguntei, admirado.

– Isso o quê? Customizar o uniforme?

– É, ainda mais deixá-lo... er... bonito assim.

Ela desviou o olhar, parecendo um pouco sem jeito. Eu estava a encarando incessantemente. Segurou seu braço esquerdo, levantando um pouco da manga, inquieta. Percebi que usava uma luva na mão direita, mas na esquerda, não.

– Por que só uma luva?

– Em Handgun Soldiers, ao manejar um sabre de plasma sem luva, ele queima sua mão e seu HP desce lentamente, certo? Acho melhor seguir essa linha de raciocínio, caso o jogo seja realista.

Quantos micos terei de pagar ao estar ao lado desta garota? Ela realmente entende mais do jogo do que eu, e com certeza está pensando alguns passos a minha frente. Peguei um luva discretamente e a coloquei. Tirei o tablet de meu cinto e abri o mapa novamente.

– Bem... agora vamos procurar por uma saída. Aqui no mapa não indica nenhuma, mas não muito longe daqui parece ter um elevador.

– Então vamos dar uma olhada.

Era realmente desconfortável sentir peso da arma em meu cinto. Nossos passos eram pesados, devido aos coturnos, e ecoavam pelas ramificações de ferro da base militar.

Dois corredores antes do elevador, ouvimos um sussurro. Era uma conversa, então suavizamos o passo e nos aproximamos sorrateiramente. Era difícil ouvir com clareza, pois ainda tínhamos nossos sentidos um pouco abalados.

– Um elevador? Por que apenas a luz do segundo andar está acesa? – perguntou uma voz grave.

– Não sei, parece um enigma – respondeu, dessa vez, uma voz feminina. – Será que estamos em algum tipo de jogo? Droga, eu tenho aula às sete!

Horizon me cutucou.

– Ei, eles parecem pessoas que também deslogaram. Afinal, não é possível que tenha sido apenas nós dois...

Ela tinha razão, eles não pareciam militares. Talvez devêssemos falar com eles... fiz desse pensamento uma sugestão.

– Hm... – ela estava pensando. Sua expressão quando refletia a fazia parecer mais velha e a deixava realmente culta. Normalmente ela parecia ter dezoito anos, mas quando estava pensando, podia jurar que passava dos vinte e cinco. – O que eles vão pensar de nós? Será que sabem o que está havendo?

Agora que ela disse isso, realmente fez sentido não falar com eles diretamente. Estávamos armados, eles teriam medo de nós.

– Verdade. Vamos aparecer em sinal de rendição, devagar. Talvez assim eles nos deem ouvidos.

Andamos com calma, passo a passo e de mãos erguidas.

– Com licença – disse. – Vocês são pessoas que "deslogaram"?

A reação do grupo foi claramente de susto. Uma garota loura de cabelos curtos respondeu rapidamente:

– Ahn? Ah, sim? – ela deu uma pausa para recuperar o fôlego. Parecia hiperativa, pois seus olhos nos escanearam pelo menos três vezes em poucos segundos. – Deslogaram?

Olhei para Horizon. Tivemos um pequeno diálogo olho a olho. Foi quando me perdi no olhar dela; seus cílios eram grandes, e seu olhar, penetrante. Percebi que estava encarando de novo e desviei o rosto. Gaguejei um pouco antes de começar a falar:

– O-o governo aprovou uma lei para privar o mundo de impactos durante a crise de SSO.

Horizon assumiu a palavra e explicou para o grupo o que sabíamos da situação. Enquanto isso, passei os olhos por eles. Era um grupo bem diversificado. A loura parecia ser da minha idade, havia um homem um pouco gordo já com cabelos grisalhos, um rapaz de cabelos escuros – os quais desciam até seu queixo, uma menininha bochechuda e uma mulher de longos cabelos escuros. Todos vestiam o mesmo uniforme que nós – exceto pela manga regata, que havíamos trocado –, e escutavam atentamente à explicação de Horizon.

– Isso... isso é muito extremo... não é verdade, né? É algum tipo de pegadinha, né? – disse o homem dos cabelos grisalhos.

– É difícil de aceitar, nem nós mesmos temos certeza disso – prosseguiu Horizon. – Mas é coincidência demais... por que tem uma falha nesse sistema logo dia vinte e nove de fevereiro? É uma data fora do ano comum... e o link "log out" é realmente suspeito.

Todos estavam agitados. Alguns começaram a falar ao mesmo tempo e eu não consegui entender. Para nossa sorte, a loura acalmou o grupo.

– Calma, calma, vamos dar um jeito de descobrir se isso é verdade. Antes disso, por que vocês estão armados? Se isso for verdade, qual garantia nós temos de que vocês não são soldados e que não estão nos arrastando para uma armadilha?

– Vocês têm um tablet com um mapa, certo? Procure aí pela sala de operações. Foi lá que encontramos esses uniformes e as armas – eu disse. – E nos computadores de lá que li sobre essa lei.

Eles hesitaram. A loura pegou seu tablet e abriu o mapa. O reflexo do holograma em seus óculos de aro fechado me permitia ver uma parte.

– Ele está falando a verdade – concluiu, voltada para o grupo.

Todos consentiram em voltar à sala de operações. Decidimos não revelar informações pessoais como nome, idade e profissão até que fosse completamente seguro.

Notas finais
Se tu chegaste até aqui, és corajoso. Mas para se tornar um verdadeiro Jedi, jovem Padawan, precisas comentar. Aceito críticas, comentários e sugestões.