Love as Sakura | 爱如樱
66 第57章 A chave mestra - Parte IV
A noite avançava depressa e a lua erguia majestosa no céu escuro e salpicado de estrelas. Nuvens arrastavam-se sem pressa no firmamento cobrindo, por vezes, o régio astro cuja luz infiltrava-se por meio da fina névoa diáfana. A claridade leitosa banhava o jardim da tribo xamã, permeado pelo aroma adocicado de flores e amargo das ervas medicinais. Havia uma aura purificadora em torno daquele lugar, enquanto olhava o céu noturno, Lan Shang pensava que qualquer enfermidade que lhe agitasse o âmago podia ser curada só por estar ali.
Uma brisa gélida arrastou o frêmito pelo seu corpo e também o aroma balsâmico das ervas, que inundou suas narinas, convidando-a a fechar os olhos por um momento e apenas sentir. Esfregou as mãos nos braços desejando ter trazido a coberta sobre os ombros, mas, insone, não desejava voltar a rolar impaciente na cama pelo resto da madrugada. Foi quando algo bloqueou a brisa gélida mitigando o frio e ela notou o manto de pele que a cobria.
— Sem sono? — Liao Jian parecia mais alto e belicoso sob a luz pálida da lua.
— Pelo visto não sou a única. — Retrucou com um sorriso pueril. — Obrigada.
Ele anuiu, sentando-se ao lado dela após pedir permissão. A presença estoica e arguta dele trazia à sereia uma sensação de conforto e segurança. Sentiu-se um pouco triste por demorar tanto a se abrir à amizade dele pelo tempo em que moraram juntos, ainda assim, se orgulhava do estreito laço que cultivaram.
— Quando estava em casa, sempre ficava com os turnos noturnos de guarda. — Explicou, o brilho da nostalgia reluzia em seus olhos. — Demorei a perder esse hábito naquele mundo diurno e barulhento. Gosto da noite, a meu ver tudo fica mais bonito na escuridão cercada de estrelas.
— Deve se sentir aliviado por estar tão perto de casa, não é? — Indagou com cautela. — Sei da sua vontade de voltar para a fortaleza.
Liao Jian não respondeu de imediato. Baixando a cabeça, encarou o chão gramado sob seus pés e pareceu, aos olhos de Lan Shang, dolorosamente triste. Ela se arrependeu de ter perguntado aquilo, por mais que soubesse da vontade do advogado em retornar ao mundo imortal, conhecia muito pouco dele, que tipo de lembranças ou o que estaria esperando por ele na fortaleza do norte? Estava prestes a se desculpar, mas ele falou primeiro.
— No episódio em que a lágrima ancestral ficou presa na mão da princesa, fui junto a Huang Tuo e Shi ajudá-la… ela estava em nosso território, na planície gelada do norte. — Fez uma pausa. — Foi apenas ali que me dei conta de não haver um lugar para voltar. Não restou nada além de quilômetros de terra soterrada pelo gelo e as ruínas do que um dia foi meu lar. Apesar de não ter dito nada a ninguém, essa realidade veio sobre mim como uma tortura cruel.
A tristeza dele, acompanhada por uma lassitude aguda, tocou o coração da sereia de tal forma que desejou abraçá-lo, mas se deteve. Mesmo que amasse seu lar, não compartilhava da saudade que o advogado sentia de casa, Lan Shang não desejava permanecer no mundo imortal, tinha lembranças amargas de deveres reais e da preparação para um trono que ela não se julgava apta a ocupar. Tudo que lhe restava do seu antigo lar eram lembranças amargas, ela tinha a esperança de construir uma vida nova no outro mundo, começar do zero e, sobretudo, ser autora da sua felicidade.
— Eu sinto muito, Liao Jian…
— Não sinta. — Um sorriso amargo nublou seu rosto. — Uma hora ou outra eu teria de encarar a realidade, esse mundo não é mais o que foi um dia, não há mais espaço para nenhum de nós aqui.
— Sei que isso não é de muita ajuda, mas quero que se lembre sempre, não está sozinho lá. Não precisa estar.
Vendo o estado desarvorado do advogado, Lan Shang não conseguia distinguir os traços da sua natureza inexpugnável, Liao Jian parecia tão frágil que era quase como outra pessoa e ela descobriu gostar daquela nova faceta dele, ainda que lhe doesse vê-lo tão triste.
— Obrigado. — Respondeu o guardião e foi sincero. — Você parece mais madura, cresceu muito no meio de todo o caos, sinto orgulho de você, Lan Shang.
— Ora, você também está diferente, mais maleável, isso é bom.
— Será que é isso que aqueles mortais chamam de “ficar velho?” — Fez uma careta.
Lan Shang deu uma risada baixa e o advogado a acompanhou. Ficaram sentados ali, sob o manto da madrugada escura, desfrutando a companhia um do outro sem quaisquer intenções ocultas, apenas pelo prazer que descobriram de simplesmente estar juntos compartilhando palavras e silêncios.
※※※
Shi entrou na floresta sombria sem reconhecer onde estava. O céu nublado estava carregado de nuvens escuras, as árvores altas eram silhuetas tenebrosas espreitando nas trevas infinitas. Uma camada fina de suor cobria seu rosto,uma brisa gélida que soprava pelo meio dos troncos grossos tinha um efeito aziago sobre ele, como sussurros espectrais de uma catástrofe à espreita. Todavia, seus instintos lhe diziam para prosseguir e, conforme ele avançava, a paisagem agourenta se tornava brumosa dificultando a visão.
— Ying Kong Shi?
Ele se virou na direção da voz, sem saber exatamente de onde vinha, um tom de medo manchava as notas agudas do seu nome naquela voz aveludada, Shi não precisava ouvir duas vezes para saber que pertencia a Yan Da. Seu coração estava disparado no peito, tinha de ser real, não se lembrava quanto tempo fazia desde que saíra da tribo xamã, já nem importava mais a razão para estar ali, tudo que importava era encontrar Yan Da. Chamou o nome dela, mas por longo tempo não obteve resposta, a bruma espessa cresceu mais até nem mesmo a visão das árvores estar visível, Shi se virava para todos os lados chamando pelo nome dela.
— Yan Da! — O desespero em sua voz era latente.
— Ying Kong Shi! — Gritou ela de volta em algum lugar no meio do nevoeiro. — Você precisa ir embora, é perigoso aqui.
— Não sem você. — Objetou. — Vamos juntos!
Yan Da não respondeu, o aroma das cerejeiras inundou o ambiente e, conforme a bruma desaparecia, as enormes árvores com pétalas rosadas se tornavam visíveis no declive gelado. Um frio lúgubre subiu pelas veias do príncipe do gelo ao reconhecer o lugar, como fora parar ali? A névoa o teria guiado pela floresta? Não fazia sentido. A princesa do fogo estava parada sob a mesma cerejeira onde um dia ele fizera um túmulo em sua homenagem, em suas mãos havia uma espécie de chave. Erguendo os olhos para encará-la, ele viu tanta dor na expressão de Yan Da que só desejava abraçá-la, cobriu a distância que os separava, mas antes que seus braços a alcançassem, ela empurrou a chave contra ele enterrando-a no seu peito.
A dor veio para Shi como um choque, arrancando-lhe o ar. Suas pernas fraquejaram, incapazes de sustentá-lo, e ele caiu ajoelhado diante dela. Yan Da se abaixou segurando o rosto dele entre suas mãos, o príncipe não conseguia falar engolfado na algia, mas viu o tormento e o terror nos olhos da sua princesa, cujo olhar lacrimoso mergulhava no seu. Ele não entendia, o que ela estava fazendo, por quê?
— A chave mestra está com você agora — disse ela, baixinho, em tom espavorido —, encontre a essência do silêncio dentro de você e achará a saída. Você precisa ir embora daqui.
Do que ela estava falando? Ele não entendia. E de novo aquela essência do silêncio, antes, na tribo do fogo, o fogo sagrado havia dito algo semelhante. Yan Da parecia realmente com medo, ela ajudou Shi a levantar, mas antes que o afastasse de si o príncipe a abraçou apertado, recusando-se a soltá-la, as lágrimas dela pingavam sobre seu ombro molhando o fino tecido da camisa azul que vestia, puxou-a ainda mais contra si numa tentativa de mitigar o sofrimento dela e o seu próprio.
— Não vou a lugar algum sem você. — Repetiu com mais ênfase apesar da dor excruciante em seu peito. — Nunca mais, Yan Da, vou permitir que saia do meu lado, eu prometo, meu amor.
Um frêmito sacudiu levemente o corpo da princesa nos braços dele, Shi abriu os olhos e viu Huo Yi parado a alguns metros atrás dela, Yan Da foi ficando mais pesada até Shi precisar firmá-la e descobrir-se banhado em sangue, ela ofegava em sua agonia final, novamente tomada pelo iníquo destino, o príncipe se viu atordoado sem entender o que estava acontecendo, como salvá-la, a mão ensanguentada dela tocou seu peito lembrando da chave cravada ali. As árvores tremularam e se converteram na ponte tomada pela neve, a risada de Lian Ji preenchia o ambiente e ronyu bing estava cravada no corpo da sua princesa morta.
— YAN DA!
O grito de Shi ecoou pelo quarto quando ele sentou assustado sobre a cama olhando para seus braços vazios e sentindo uma dor pungente devorar seu peito. As primeiras luzes da manhã clareavam o céu do lado de fora, o príncipe não fez esforço para conter as lágrimas e encolheu-se abraçando as pernas. Desde que recebera de Xing Jiu o sonho da princesa, nunca tinha sonhado com Yan Da, precisava conversar com o astrólogo sobre aquele sonho e se havia ali algum significado. Afastando as cobertas, saiu da cama tentando focar na esperança que ouviria boas notícias de Huang Tuo sobre as pesquisas nos antigos registros da tribo xamã.
※※※
Li Luo foi ajudada por uma criada a sair da cama e entrar na tina de madeira posicionada atrás de um biombo. A água quente ajudou seu corpo a relaxar, ainda se sentia muito cansada, mas a fraqueza extrema com que acordou após sair da câmara dos sonhos diminuíra de maneira considerável. Vestiu roupas cedidas por Huang Tuo através da criada, um hanfu simples em tom de ouro velho com quatro robes.
Ainda perdurava no seu coração se tomara a decisão certa ao escolher viver. Mesmo que as duras palavras de Xing Jiu a tenham atingido inicialmente e ela se sentisse, de alguma forma, em débito com Yan Da, não conseguia abandonar a sensação de deslocamento que a atingia ali, no velho mundo onde havia tantas lembranças ruins. E havia Ka Suo. Lii Luo tinha consciência que em algum momento precisaria enfrenta-lo, mas não tinha certeza como reagiria quando acontecesse, em seu coração havia uma mistura confusa de raiva, mágoa e decepção.
Lian Ji encontrara seu fim, mas Yan Da perdera a vida em sacrifício por todos eles, quantos nós mais se formariam até que eles finalmente encontrassem a liberdade que buscavam? Cada vez que pareciam ter encontrado uma saída, uma nova parede se erguia no caminho. Li Luo tinha suas dúvidas sobre a possibilidade de salvar a princesa do fogo do Diyu, especialmente se Yan Da já estivesse em julgamento por alguma das cortes. Mil pensamentos pairavam na sua mente enquanto os nós se acumulavam à sua volta num emaranhado que, à primeira vista, parecia impossível de desfazer.
Huang Tuo manifestou o desejo de coadunar seus conhecimentos em uma reunião onde apresentaria as descobertas que fizera nos antigos registros da tribo xamã. Embora no dia anterior ela tenha conseguido evitar o fatídico encontro com o antigo rei do império da neve, naquele dia precisaria suportar sua presença, assim como os demais, durante a refeição matinal que antecederia a reunião. Nervosa, ela fechou as mãos em punho e deixou o quarto atravessando o corredor a passos largos na direção do salão de cura, foi no meio do caminho que encontrou Ka Suo.
Os dois se olharam por algum tempo, as mãos de Li Luo apertaram-se com mais força quando ele se aproximou dela com uma expressão esperançosa que ia morrendo gradualmente conforme via o rosto dela impassível e seus olhos em chamas.
— Como se sente? — A pergunta inocente veio carregada de cautela.
— Huang Tuo está esperando. — Ela passou por ele, mas Ka Suo a deteve segurando sua mão.
— Li Luo... não podemos falar um instante apenas?
— O que você quer, Ka Suo? — Puxou a mão em um gesto brusco como se o toque dele queimasse sua pele. — Desculpas? Eu não lamento. Explicações? Não estou disposta e nem te devo nenhuma.
— Eu só quero entender. — Meneou a cabeça. — Você ainda é a mulher que eu amo.
— Amor? — Riu sem humor, a voz soando mais dura do que esperava. — O que nós sabíamos sobre amor, Ka Suo? Você não me conhecia, eu não conhecia você, éramos dois jovens estúpidos deslumbrados pela chance de uma vida diferente da que levávamos, achamos que era uma boa ideia nos apaixonar e isso só nos arruinou. A única coisa que você amava realmente era a ideia da liberdade que acreditava que eu te concederia.
— Isso não é verdade...
— Não? — Ergueu a sobrancelha. — Quando Lan Shang e eu voltamos em corpos trocados graças a crueldade de Lian Ji você a abraçou e amou cegamente sem nunca perceber que não era eu. Não era de mim que você gostava, era de como eu me parecia. Minha casca. Foi naquele momento que percebi isso, o tempo todo eu estava ao seu lado, mas você me deixou sozinha.
— Li Luo...
— Não pedi por essa nova chance, mas Xing Jiu tem razão, eu não devia desrespeitar os esforços de todos aqueles que se arriscaram para me proteger e me ajudar, vou agarrar essa oportunidade, mas não por você nem para você. — Ela encarava Ka Suo com uma expressão dura sem deixar-se comover pelos olhos aquosos dele. — Vou seguir a minha vida, fazer minhas próprias escolhas e me permitir ser livre e eu mesma como nunca pude antes. E essa nova vida não inclui você, Ka Suo, portanto não me procure nunca mais.
Ele baixou a cabeça e respirou fundo, lágrimas caindo pelo seu rosto ouvindo as palavras duras da mulher que amava, todavia não podia retrucar, ela tinha certa parcela de razão.
— Se é essa sua decisão eu respeito sua escolha. — Disse por fim. — Não vou mais incomodá-la e espero que seja realmente feliz, Li Luo. Sinto muito... por tudo.
— Você sempre sente muito. — Devolveu, agora em tom mais ameno. — Mas sentir muito não muda nada.
Virando as costas ela seguiu seu caminho deixando-o para trás. Talvez mais tarde se arrependesse daquelas palavras, mas naquele momento a única coisa na qual queria se concentrar era em ajudar os outros a salvar Yan Da, não pensaria em Ka Suo e em nada do passado. Evitaria novos encontros como aquele sempre que possível, ainda não estava aberta a perdoar ou a conversar. Merecia ter a chance de trilhar seu próprio caminho e descobrir se aquele amor do passado era uma ilusão ou realmente existira, mas aquele não era o momento para isso.
Ka Suo observou-a partir. Ali, cercado pelas pessoas que mais amava e por quem desistira de tudo, nunca antes se sentira tão sozinho. Seria aquela a sua punição? Ser odiado por todos eles? Ao contrário do que vinha dizendo a si mesmo, aquele era um castigo com o qual percebia não conseguir lidar.
Fale com o autor