Love as Sakura | 爱如樱

67 第58章 O sol adormecido - Parte I


O clima na sala de jantar era como Huang Tuo esperava: desconfortável e tenso. Ele reprimiu um suspiro de tristeza e, por baixo da mesa, Yue Shen segurou sua mão lhe oferecendo um sorriso solidário. Ka Suo estava sentado na ponta oposta da mesa, os assentos ao seu lado foram ocupados por Liao Jian e Xing Jiu. Chao Ya e Pian Feng sentavam ao lado de Yue Shen, Shi estava de frente para o guerreiro do vento e ao lado de Lan Shang. Li Luo sentou-se de frente para a sereia ao lado do advogado. Todos comiam em um silêncio lúgubre, o que tornava a sopa diante do curandeiro uma mistura insípida e, por vezes, amarga.

Fazia tanto tempo que não se reuniam, o curandeiro sentia-se triste por aquela nuvem pesada impedindo-os de desfrutar a companhia uns dos outros, mas entendia que perdão não podia ser forçado, era uma escolha pessoal de cura. De algum modo, Huang Tuo se preocupava com o tanto que aquilo podia interferir no que aconteceria a seguir. Ninguém se atrevia a fazer o menor comentário e, ao invés de um café da manhã, mais parecia que estavam andando sobre o gelo fino de um lago. O que era para durar meia hora pareceu se estender por anos inteiros dentro daquele silêncio perturbador e asfixiante. O príncipe dos curandeiros estava com uma reprimenda pronta para sair, mas se deteve, não adiantaria nada censurar o comportamento de corações fechados.

Quando a refeição terminou, eles se dirigiram ao salão de cura, por ser mais amplo serviria melhor para discutirem o que foi descoberto na biblioteca secreta. Todavia, recusando os antigos costumes, Huang Tuo não tomou seu lugar ao trono da tribo que um dia fora ocupado por seu pai, mas sentou-se ao lado dos amigos em cadeiras postas na parte baixa do salão. Ka Suo estava em um canto mais afastado, Liao Jian e Xing Jiu eram os únicos ao seu lado em um apoio discreto e diplomático. Yue Shen e Lan Shang se puseram ao lado do curandeiro e dispuseram sobre uma mesa — que ele pedira para ser colocada no salão — os antigos pergaminhos de bambu que encontraram nos arquivos.

— O primeiro registro de uma tentativa de trazer alguém do mundo dos mortos remonta dos primeiros anos do mundo imortal, na época dos grandes guerreiros. — Começou a sereia. — Naquele tempo, os feiticeiros viviam pacificamente entre os imortais como uma parte de sua sociedade e eram tidos como superiores pelos mortais. Isso até Liu Wei*[1], um dos sacerdotes do mundo mortal desafiar as leis da vida e morte ao tentar trazer seu irmão, Liu Qin, de volta à vida.

— Liu Qin falecera na primeira grande guerra entre as tribos imortais onde ocorreu o cisma da paz e a tribo xamã, como pacificadora dos conflitos, se tornou a primeira líder entre as demais cedendo posteriormente a posição para a tribo do gelo. — Continuou a envenenadora. — Magias de ressuscitação eram perigosas e tidas como imprevisíveis, além disso, o mundo imortal via o ciclo vital como um código inquebrável e sagrado que não devia ser maculado com nenhuma espécie de interferência mágica. Mas Liu Wei, cego pela sua dor, realizou o ritual proibido das sete ervas para trazer seu irmão de volta à vida. Acontece que deu errado e Liu Qin se transformou em um demônio, precisando ser exterminado após assassinar e consumir várias vidas humanas. Por seus crimes, Liu Wei foi condenado ao exílio na rocha das punições do mar de gelo.

Ela ergueu o olhar para Ka Suo que sentiu um gelo subindo pela sua espinha. O rosto de Xing Jiu ficou ainda mais pálido ao reconhecer aquele cenário narrado pelas duas amigas, ele virou o rosto para encarar o rei do gelo cujo corpo estava enrijecido pela tensão. Todos viraram o olhar na direção dele, nem todos sabiam sobre a primeira vida de Ka Suo e Ying Kong Shi.

— Exatamente. — Afirmou Huang Tuo. — Foi a sua primeira vida, Ka Suo. Você foi o primeiro a quebrar o tabu da vida e morte. Shi era o passado da neve que escolheu libertá-lo do seu destino e assim a roda do destino ligou vocês através da morte. Lian Ji se aproveitou disso em benefício próprio realizando o seu desejo de ser príncipe do gelo e manipulou-o recriando Ying Kong Shi, tal como o laço que os uniu. Ela só não esperava que isso fosse se tornar real.

Zenme keneng?*[2]— O astrólogo estava estupefato. — Quando Fa Ta leu o destino de Ka Suo nunca mencionou isso. A menos que...

Seus olhos encontraram os de Shi e ele entendeu. Ying Kong Shi assassinara Fa Ta no passado quando ele descobriu a verdade sobre os dois. Naquele tempo ele já havia aprendido a magia do fogo como artifício para alcançar o trono do gelo e libertar Ka Suo das exigências da corte. Só quando ele próprio leu o destino do jovem príncipe nas estrelas descobriu o fato, mas Shi o deixou viver por confiar que ele não diria a ninguém. Todavia, naquela época, Xing Jiu não tinha como saber em que aquele passado implicava na vida de Shi e no destino de Ka Suo. E, ainda mais, como o próprio Shi poderia ter tal lembrança daquela vida?

Mei cuo.*[3]— Ying Kong Shi assentiu para o astrólogo. — Naquela época, Lian Ji me ordenou que matasse você também, mas consegui ludibriá-la afirmando que você ainda era útil para mim. Foi como consegui poupar sua vida. De todos os astrólogos que testei, você, Xing Jiu, era o único com poder suficiente e talento para ajudar Ka Suo no caminho da liberdade.

O silêncio opressor novamente reinou no salão. Ka Suo não se atrevia a olhar na direção do irmão, embora sentisse angústia na sua voz. Xing Jiu parecia chocado demais para esboçar qualquer frase coerente. O curandeiro, a envenenadora e a sereia deram uma pausa para que todos absorvessem essa verdade antes de continuar o relato das descobertas.

— Ao que parece, alguns curandeiros e chefes das demais tribos se interessaram pela audácia de Liu Wen, começando a desejar saber onde o ritual das sete ervas dera errado. — Continuou Huang Tuo. — Claro que nenhum deles podia discutir essas ideias abertamente, em especial as pessoas da tribo xamã, responsáveis pelas punições de uma quebra de lei tão grave. Por isso, junto com a tribo de música xamânica, a tribo do gelo, a tribo do espírito do vento e a tribo das sereias, eles começaram a pesquisar secretamente e fazer experimentos, modificando algumas partes do ritual para ver o que funcionava e o que não.

— Como eles conseguiram fazer isso sem ninguém descobrir? — Indagou Chao Ya.

— É onde entra o segredo da cidade de fantasia. — Contou Lan Shang. — Eles usaram a Montanha Huan Xue para isso. Por essa razão, ela se tornou o lugar que controlava a tribo regente, porque os primeiros líderes imortais escolheram esse como o lugar da descoberta da vida e morte.

— Deixe que eu adivinhe, Lian Ji estava no meio deles? — Ironizou Liao Jian, de braços cruzados ao lado de Ka Suo. — Foi quando ela descobriu que gostava de controlar fantoches?

— Ela era uma das primeiras representantes da tribo das sereias. — Anuiu Yue Shen. — E por mais que eu odeie admitir, foi graças a ela que as sucessivas tentativas se tornaram frutíferas e começaram a dar resultados positivos. Mesmo que tenha sido uma mente cruel, Lian Ji era inteligente e sua habilidade de criar superava muito a dos outros imortais. Junto com Yu He*[4], o segundo rei da tribo Xamã, ela conseguiu aperfeiçoar o ritual das sete ervas e chegar no resultado perfeito, foi desse mesmo resultado que nasceu a Lótus Escarlate.

— Quem ela reviveu para testar a teoria do seu ritual? — Xing Jiu perguntou com apreensão.

Nenhum dos três pesquisadores respondeu imediatamente, eles se olharam entre si como se tentassem buscar um consenso sobre a melhor forma de revelar aquela informação. Pareciam desconfortáveis e os demais começaram a pensar no pior cenário, até que Yue Shen, tomando a frente e sendo prática como era da sua natureza, usou um tom surpreendentemente suave ao responder.

— O pássaro de neve que salvou Liu Wen milênios atrás. Ela se passou por mãe do menino na corte de gelo e lhe deu o nome de Ying Kong Shi.

A face de Shi ficou lívida, como se todo o sangue tivesse sido drenado do seu corpo. Com as vestes brancas e os longos cabelos prateados ele mais parecia um fantasma que um príncipe do gelo. A cantora, que estava sentada ao lado dele, segurou sua mão com delicadeza em um gesto protetor como para lembrá-lo que aquele passado não lhe pertencia mais. Todos ficaram tão chocados com as palavras de Yue Shen que a tensão dentro do salão de cura era quase palpável, o aperto de Chao Ya em sua mão era a única coisa que mantinha Ying Kong Shi com a mente atada à consciência do presente.

— Claro que algo dessa magnitude deu um grande poder a ela e foi quando a corrupção do mundo imortal ganhou força. — Continuou Huang Tuo após um longo tempo de silêncio. — Nenhuma das tribos queria, tampouco, que os imortais descobrissem esse poder e começassem a ressuscitar pessoas de modo desmedido, isso ia quebrar o equilíbrio do universo. Lian Ji ergueu a tribo do gelo ao poder e subjugou-a junto com as demais sob suas ordens. Ela criou todo um universo de fachada controlado por seus jogos.

— E começou a achar divertido brincar com a vida dos outros. — Cuspiu Liao Jian.

— Certo, certo — interrompeu Pian Feng — onde isso nos leva? Obviamente esse ritual novo não existe sem um preço e imagino que deve ser caro. Como fazemos isso de uma maneira que Yan Da ou o resto de nós não se condene?

— É nesse ponto que está a divergência. — Apontou Lan Shang. — Segundo os registros da tribo Xamã, não importa quão bem sucedido o ritual seja, é impossível trazer alguém ileso do Diyu. As condições para isso são que: 1– A pessoa em questão ainda precisa estar ligada, de algum modo, ao fio da vida. Almas que já atravessaram alguma das cortes não podem ser trazidas de volta. 2 – Mesmo que ela consiga ser reconectada à linha do destino, não é garantido que se lembrará de quem é e das experiências que viveu. 3 – Nenhum imortal, salvo aqueles que ascenderam a deuses ou semideuses, podem trazer uma alma do Diyu sem comprometer sua própria alma ou essência mágica. E por fim, 4 – Só pode se realizar o ritual quando o mundo encontrar a escuridão de um dia, luz e trevas serão confundidos, vida e morte podem ser iguais.

— Que nome Lian Ji deu a esse ritual? — Pian Feng franziu o cenho.

Rito do Sol Adormecido. — Yue Shen foi quem respondeu após consultar um dos pergaminhos.

Shi sentiu o sopro da esperança no seu coração se tornar uma brisa suave. Era muito arriscado, se tentassem puxar Yan Da de volta, poderiam colocar em risco as próprias existências, além disso, não era certeza de que ela se lembraria quem era ou quem eles eram. Ainda assim, por mais doloroso que fosse, ele ainda preferia tê-la de volta com a chance de construir um futuro do que a impossibilidade de nunca mais vê-la. Todavia, a última parte ainda era uma incógnita, ele não compreendeu o que ela queria dizer com aquilo.

— O que a última parte quer dizer? — Inquiriu. — Quando o mundo “encontra a escuridão de um dia”?

— Já ouvi falar sobre isso. — Li Luo se pronunciou pela primeira vez. — Antigamente, no mundo mortal, havia um ritual que era determinado sobre a orientação da tribo dos astrólogos. Os reis morais fechavam seus castelos para as cerimônias, feiticeiras e xamãs vestiam-se de branco para invocar o poder do casamento celestial sobre a terra.

— Casamento celestial? — Yue Shen perguntou.

— Sei do que está falando. — Xing Jiu anuiu lembrando-se algo que seu pai fazia durante alguns anos. — Na tribo dos astrólogos também celebrávamos esse ritual, era onde o portal dos sonhos aumentava sua energia e os céus tornavam-se acessíveis para ascensão do poder. Era chamado de Sono das Estrelas pelos meus antepassados.

— Nós dávamos um nome diferente no reino mortal. — Continuou a feiticeira. — Era a única vez no ano em que quebravam-se as barreiras entre nós e os humanos. Nós o chamávamos de Festival da Lua que Abraça o Sol.*[5]

Apenas nesse instante Ying Kong Shi conseguiu entender do que se tratava. Eles não celebravam aquele ritual na tribo do gelo, poucas vezes o fenômeno acontecia no mundo imortal e por isso era tão poderoso. A preocupação dominou o seu rosto, aquilo seria mais complicado do que parecia. Para salvar Yan Da, além de todos os demais riscos, eles precisavam esperar por um eclipse total do sol.

※※※

Yan Da não tinha certeza do que era pior: a noção de que o tempo passava rápido ou a ignorância completa de quanto tempo havia se passado. Encolhida ali dentro da caverna, o silêncio era quase uma entidade que ela podia personificar ao seu lado. Não sabia desde quando Peng Peng havia partido, mas a ausência dele permanecia como um punhal no seu coração. Tentava se consolar com o pensamento de que ele encontraria uma nova vida e dessa vez ninguém poderia tirá-la dele ou atrapalhá-la, seu bom amigo cresceria em um lar feliz, com sorte seu pai naquela vida receberia a graça de ser seu pai novamente e a mãe dele teria uma vida mais longa para ver seu filho crescer saudável, lindo e com o coração mais puro que já existiu.

Imaginar a felicidade de Peng Yan mitigava a sua solidão, a culpa e o medo. Era um bálsamo para a dor no seu peito. Ela queria poder testemunhar o amigo se apaixonando pela “segunda primeira vez”, os olhos brilhando quando segurasse a mão da garota pela primeira vez, o sorriso bobo e cheio de argúcia que só ele tinha, a intensidade na sua voz sempre que falasse com ela, sobretudo, a certeza de não haver impedimentos para o futuro deles juntos, a possibilidade de uma merecida felicidade finita nos anos completos da sua existência mortal. Então ele se casaria, não um casamento ocidental porque o pai dele era um severo defensor dos costumes, não, Peng Peng ficaria lindo em seu hanfu vermelho com dragões dourados e apreciaria sua noiva deslumbrante em seu belo hanfu de fênix. Uma lágrima escorreu pelo rosto adorável de Yan Da enquanto visualizava a cena com um sorriso, queria poder assistir a felicidade de seu melhor amigo mesmo que ele não se lembrasse quem ela era.

Mas logo os pensamentos com Peng Yan foram substituídos pelo rosto de Shi. Ela visualizava os traços angulosos do homem que escolheu como seu destino, o olhar sempre intenso — para o bem e para o mal —, a postura altiva, o sorriso doce, a voz melodiosa, o toque abrasador. O coração da princesa doeu pela saudade. Também desejava poder vê-lo novamente. Mesmo que Peng Yan tenha lhe dito que havia uma chance de voltar à vida, ele nunca lhe deu garantias de ver Shi outra vez ou de compartilhar um destino com ele. Yan Da, por vezes, queria muito entender as razões que levaram-lhe a amá-lo daquela maneira. O que no universo do seu coração mudou quando o puxou daquele lago gelado e encarou seu rosto adormecido pela primeira vez.

Pensar em Shi enchia-a de sentimentos contraditórios. Desejava abraçá-lo e estapeá-lo com a mesma intensidade. Beijá-lo e chutá-lo. Amá-lo e odiá-lo. Ver toda a verdade pelos olhos de Peng Yan não mudava completamente as escolhas que ele havia feito, mas pelo menos ajudava-a a entender seus sentimentos por ela e as circunstâncias que o tornaram a pessoa que era quatro mil anos atrás quando ela o conheceu. Yan Da se sentia pronta para perdoá-lo. Mas haveria mesmo essa chance? Ela poderia vê-lo novamente e abraçar a coragem de ser feliz ao lado dele, aceitar o seu amor? Lembrava-se da forma como ele prendia seu cabelo no hospital, as flores que ele lhe trazia todos os dias e a maneira como seus olhos sempre buscavam por ela. O modo como lhe acalmava quando ela entrava em pânico, a dor torcendo sua expressão quando lhe pediu perdão pelo mal que lhe fizera no passado. Ele estava diferente, tinha um coração mais aberto e não era mais aquele príncipe do gelo insensível e cruel. Ela sentia isso todas as vezes que ele lhe beijava, demonstrava o quanto se importava com ela e mesmo quando disse que a amava.

Sim. Não havia maneira de Yan Da não escolher Ying Kong Shi.

Abraçou as pernas com mais força enquanto ouvia o sussurro da brisa soprando as copas das árvores altas, Peng Peng havia dito para ela escutar o silêncio dentro de si, encontrar sua chave mestra. Teria aquele conselho alguma razão com Shi? Em seu coração, Yan Da pensava que ele era a única linha mantendo-a sã para lutar pela vida. Não. Era errado dizer aquilo. Meneando a cabeça ela se corrigiu. Pian Feng e Chao Yan também eram razões, ela não duvidava que eles a amavam, eram os pais que ela nunca teve. Sua família. Queria vê-los de novo, abraçá-los apertado e dizer que os amava. Ajeitando a postura e sentando-se em posição de lótus, a princesa do fogo renovou sua determinação e fechou os olhos. Encontraria a chave mestra dentro de si, acharia seu caminho de volta para casa.

※※※


— Como vamos saber se Yan Da ainda está atada ao fio da vida ou se não passou pelos julgamentos das cortes? — Li Luo perguntou para Lan Shang.

— Esse é outro problema. — Suspirou. — Não há como sabermos, a menos que façamos o ritual e não dê certo.

O grupo se olhou entre si receosos por dizer as palavras que lhes vinham à mente. Todos ali estavam cientes não apenas da complexidade, mas dos riscos que aquela escolha trazia.

— Então é um tiro no escuro. — Liao Jian deu voz ao que ninguém tinha coragem de falar. — Arriscamos nossas almas e nossos núcleos dourados sem garantias.

— Bem, talvez não totalmente. — Interrompeu Chao Ya. — Nossa tribo, ainda no auge das relações com a tribo do Espírito do Vento, tinha uma partitura chamada Som da Tempestade. Foi um presente de um clã recluso do mundo marcial além do oceano de gelo. Minha mãe visitou, com a ajuda do mestre do vento Feng Yu, esse clã nas montanhas remotas de Lan.

— Está falando daquele Som da Tempestade? — O semblante de Liao Jian ficou estupefato. — Não sabia que você conseguia executar essa partitura, ao que parece precisa de anos de prática para aprender a língua do vento.

— É a melhor chance que temos. — Contrapôs. — Se o Som da Tempestade não conseguir alcançar Yan Da significa que ela já passou por uma das cortes ou atravessou o rio do esquecimento.

— Tudo bem, mas onde vamos encontrar alguém que entenda a língua do vento? — Devolveu Yue Shen.

— Posso fazer isso. — Suspirou Pian Feng. — Minha mãe me treinou desde que era criança, até porque, o mínimo que os guerreiros da minha tribo precisam saber é entender o elemento que dominam.

— Apesar de eu não ser habilidosa ao ponto de garantir que o espírito não mentirá para mim, mas com as perguntas certas, sou capaz de ter certeza se é ou não Yan Da. — Acrescentou a cantora.

Todos ficaram pensativos por longo tempo. Quanto mais demoravam para chegar a uma decisão mais perto ficavam de perder Yan Da, Shi estava começando a se sentir nervoso, se seus cálculos estivessem certos, desde a morte de Yan Da, eles tinham apenas 49 dias, 14 já haviam passado e nenhum deles tinha saído do marco zero, não podia mais continuar inerte.

— Precisamos tentar. — Disse, por fim. — É a melhor chance que temos no momento. Chao Ya, consegue encontrar a partitura?

— Está na tribo de música xamânica, Pian Feng e eu podemos ir buscar. —Anuiu.

— Ótimo, também desejo estudá-la. — Concordou. — Xing Jiu, temos 35 dias, quanto tempo até o próximo eclipse total? Consulte as estrelas. Huang Tuo, você e Yue Shen são membros da tribo Xamã e por isso os melhores a entender a composição do ritual, vamos procurar uma maneira de causar o menor dano. Liao Jian, por favor, escolte Lan Shang até a tribo das sereias. — Ele olhou para a sereia com um discreto sorriso. — Está na hora, não acha?

Lan Shang assentiu, agradecida ao príncipe do gelo. Li Luo foi recomendada a descansar e Ka Suo se juntou aos curandeiros para buscar alternativas para o ritual do Sol Adormecido. O problema estava nas consequências para aqueles que desafiavam a vida-morte, além dos perigos para aquele que voltava. Shi não entendia como podia se lembrar da sua primeira vida ao ponto de entregá-la em sonho para Xing Jiu no passado, talvez o segredo para preservar a memória de Yan Da estivesse em descobrir como Lian Ji fizera aquilo.

O grupo se dispersou para cumprir suas atribuições, mais uma vez a corrida contra o tempo mostrava-se implacável e em seu coração o príncipe do gelo só pedia que ainda houvesse uma chance, que Yan Da estivesse esperando a salvo do outro lado. Ainda não era a hora dela, não podia ser. Ele a queria de volta livre das amarras da maldição e de qualquer outra sombra que pudesse atrapalhar a sua felicidade. Se os riscos permanecessem, ele estava disposto a dar sua vida e o que mais tivesse para ela, não permitiria que nenhum dos amigos se machucasse. Shi nunca cometeria os mesmos erros de Ka Suo, ele teria todas as garantias que não haveria roda do destino ou nenhum outro mal à espreita de atrapalhar a sua felicidade.

※※※

Lan Shang sentia o estômago dar voltas enquanto a carruagem de Huang Tuo seguia a estrada em direção ao mar de gelo. Ao seu lado, Liao Jian a escrutínio ciente de suas emoções mesmo ela tentando disfarçá-las sob a falsa camada de tranquilidade. Em dado momento do percurso, quando ele calculava não haver mais de dois ou três quilômetros até a vila mortal, percebeu que o pânico dela aumentava ao invés de diminuir e decidiu intervir.

— Vamos lá, o que poderia acontecer de tão ruim? — Disse em tom descontraído, algo incomum dada sua personalidade. — Sua avó ama você e vai revê-la com alegria.

— Depois de tudo que eu fiz? — Um sorriso triste se formou no rosto bonito da sereia. — Não tenho tanta esperança disso.

— Lan Shang, todos nós cometemos erros, a diferença está no que fazemos com eles. Você usou os seus para crescer, se tornar alguém melhor. Sua avó vai conseguir ver isso como todos nós vimos.

Os olhos dela se encheram de lágrimas e ternura. Agradeceu a Shi por ter mais consciência que ela mesma e enviar alguém confiável para acompanhá-la, Lan Shang podia imaginar quão agonizante teria sido todo o caminho sozinha remoendo suas atitudes e prevendo o olhar acusatório e decepcionado de Shen Hairong. Não sabia até onde o príncipe tinha consciência da amizade que ela construiu com o advogado, mas estava grata por ele estar ali.

— Obrigada, Liao Jian. — Sorriu.

— Não precisa agradecer, só pare de se preocupar com a sua avó, você tem um advogado bem aqui, do que está com medo? Meu dever é, antes de mais nada, inocentar pessoas. — Brincou. — Tenho até seu discurso de defesa pronto bem aqui. — Apontou para a cabeça.

A sereia deu uma risada baixa sentindo-se imediatamente mais leve. Gostava de como Liao Jian conseguia fazer parecer que o mundo não estava desmoronando à volta deles. Quando chegaram ao Mar de gelo, a travessia devia ser feita sob a água até o Palácio de Corais, ela segurou a lágrima ancestral e fechou os olhos por um momento, a pedra brilhou em suas mãos emitindo uma forte luz prateada que evanesceu lentamente. Após isso, entregou-a ao advogado. Liao Jian sabia que a lágrima de uma sereia era capaz de fazer alguém andar sob a água sem riscos, ainda assim nunca tinha feito aquilo, todavia, por mais apreensivo que estivesse ainda escolheu confiar em Lan Shang.

Tão logo entraram na água, as pernas de Lan Shang se transformaram em uma bela cauda de peixe em matizes de azul e lilás, os cabelos tingiram suas pontas de um azul profundo como as águas e seu busto foi coberto por uma camada de escamas da mesma cor da cauda. Ela esperou que o advogado a encontrasse, estranhando a demora hesitante dele, ali dentro, depois de muito tempo, a sereia sentiu-se mais viva que nunca. Não se lembrava de sentir tanta saudade da água até estar novamente dentro dela sendo quem nasceu para ser. Uma felicidade pueril encheu seu coração cercada pelo mar, os peixes e a beleza dos corais que coloriam o fundo do mar.

Na margem, Liao Jian encarava a pedra encantada em sua mão tentando dizer a si mesmo para entrar de uma vez. Preferia enfrentar um exército de soldados furiosos da tribo do fogo a deixar que uma pedra decidisse se ele se afogava ou não. Com um suspiro, meneou a cabeça e, devagar, começou a entrar na água. Porém, para sua surpresa, tão logo pisou dentro do mar de gelo apertando a pedra com força na mão, a água que deveria ensopar suas botas e calças não se aproximou dele. Liao Jian imergiu ileso e seco como se tivesse entrado em um parque aquático onde tudo era o enorme vidro de um aquário. Olhando sua expressão chocada, Lan Shang deu uma risada sob a água e o advogado sentiu-se tolo com o rosto queimando.

Ela fez sinal para que ele a acompanhasse e os dois nadaram até o Palácio de Coral onde deveriam encontrar Shen Hairong. Agora que passaram anos no mundo mortal, Liao Jian podia comparar a tribo das sereias com uma espécie de Atlântida, um mundo mágico submerso a que poucos tinham acesso a menos que lhes fosse concedido tal. Era uma construção imponente e gigantesca toda feita em coral cujas cores combinavam de uma maneira que deixaria os modistas mortais em êxtase. Os guardas que vigiavam os enormes portões, ao contrário do que ele esperava, estavam sobre duas pernas bem humanas enquanto seguravam longas lanças afiadas de conchas.

Tão logo a sereia atravessou a barreira mágica que envolvia o palácio, sua cauda voltou a ser um par de pernas e as roupas voltaram ao vestido que usava anteriormente na tribo xamã. Liao Jian sentiu-se ridículo por viver em um mundo mágico e ainda se surpreender com magia, talvez tivesse passado tempo demais naquele mundo mortal e esquecido como era viver no seu próprio mundo. Ele parou diante dela e, sem jeito, devolveu-lhe a lágrima ancestral notando a sobrancelha erguida e o sorriso provocador dela.

— É sua primeira vez no Palácio de Coral, não é? — Deu uma risadinha. — Costuma acontecer com todo mundo quando vem aqui pela primeira vez, não se sinta constrangido. Vovó me disse que a primeira visita oficial de Ka Suo aqui parecia um menino deslumbrado em um parque de diversões.

— Isso não ajuda muito a me sentir melhor. — Resmungou ele.

— Vamos, não fique com essa cara. — Lan Shang bateu de leve no braço dele. — Apesar de fazer parte do mundo imortal, a tribo das sereias é quase como um universo à parte. Apenas aqueles que nascem aqui encaram com naturalidade, qualquer pessoa de fora vindo pela primeira vez teria a mesma reação que você. De todo modo, estou feliz por te receber na minha casa. Bem vindo!

Ele lhe ofereceu um sorriso agradecido e os dois entraram. Por dentro, o palácio era tão deslumbrante quanto por fora, ali, a sensação de estarem em um aquário era ainda mais forte já que as janelas altas e abertas deixavam à mostra os mais diversos — e assustadores — tipos de peixes e seres marinhos passeando livremente. Lan Shang o guiou por uma série de corredores intrincados até o Salão da Pérola Negra, Shen Hairong estava sentada entristecida em seu trono, olhando o nada em seu palácio quase vazio, ainda tentando manter viva a memória de um mundo que ruía contra sua vontade.

Ao ver Lan Shang entrando ao lado de Liao Jian, a mulher pôs-se de pé, as longas vestes reais conferindo-lhe um ar imponente e até intimidador. Liao Jian tocou o ombro da sereia em sinal de conforto e esta deu alguns passos na direção do trono de onde a velha senhora vinha descendo com surpresa e emoção ao encontro da neta que julgava perdida para sempre. Sem inicialmente dizer uma única palavra, ela abraçou Lan Shang entregando-se a um pranto que comoveria mesmo o mais duro dos corações, o advogado assumiu seu papel de testemunha silenciosa ficando mais afastado e deixando as duas aproveitarem o momento.

— Ah, minha Lan Shang... — Chorava a rainha das sereias apertando a neta contra os braços.

— Eu sinto muito, vovó... sinto tanto. — Escondia o rosto nos longos cabelos ondulados da mulher.

Shen Hairong se afastou um pouco para poder encarar a neta e colocou o rosto dela entre as mãos.

— Você não precisa se desculpar de nada. — Sorriu. — Posso ver a mudança em você e me sinto orgulhosa. Às vezes, Lan Shang, a única solução que temos por aqueles que amamos é deixá-los ir. Aprender com nossos erros e escolhas erradas é o melhor caminho para nos melhorar e você abraçou isso. É a mulher que eu sonhei que se tornaria.

Olhando para Liao Jian mais afastado, a rainha se afastou da neta e o cumprimentou formalmente, agradecendo por escoltar a sereia até em casa, algo que ele refutou afirmando não haver qualquer real perigo remanescendo no mundo imortal e afirmando que havia ido mais para fazer companhia à amiga e informar os últimos acontecimentos à rainha da tribo.

— Mas sua majestade podia ter sido um pouco mais difícil — acrescentou em tom brincalhão — não tive a chance de usar meu conhecimento de tribunais.

As duas mulheres deram uma risada cheia de vida e o advogado se sentiu satisfeito por contribuir para o fim do clima estranho que se formou. Uma refeição foi ordenada e o convidado foi levado pelas duas para o salão dos recifes, um agradável lugar onde o som da maresia era a música de fundo, os recifes de coral pareciam brilhar, uma mesa redonda estava posta, junto a Lan Shang, Liao Jian começou a contar os últimos acontecimentos e os problemas que enfrentavam para trazer de volta Yan Da.

— Isso é complicado. — Disse a rainha sereia após ouvir tudo aquilo e renovar ainda mais o orgulho da neta pela ajuda em encontrar e elaborar teses sobre o problema. — Contudo, creio que a tribo das sereias pode fazer uma contribuição para todo esse caos.

— Como vovó?

— Ajudando aquele príncipe impulsivo a achar a essência do silêncio.

Notas finais
[1] Liu Wei [刘伟] — nome próprio sem tradução. [2] *Zenme keneng [怎么可能] — Como é possível? [3] Mei cuo [没错] — Exatamente; isso mesmo; está certo [4] * Yù Hé [愈合] — curar, contudo aqui está sendo usado como nome próprio [5] *A Lua que Abraça o Sol — Uma referência e homenagem minha a meu drama coreano favorito The Moon That Embraces the Sun [해를 품은 달]