Love as Sakura | 爱如樱
5 第5章 O Som da sua voz
A claridade que envolvia o cenário álgido poderia ser considerada deprimente em outras circunstâncias, mas não ali sob a cerejeira florescente cujas flores voavam como borboletas no ar cortante espalhando um cheiro adocicado. Ela aprendera a amar aquele lugar que contrariava sua natureza. Sobretudo, porque era parte da natureza dele.
Os cabelos prateados esvoaçavam no ar, tão brilhantes e macios quanto a própria neve. Ela desejava deslizar seus dedos pelos fios, contemplar seu olhar afiado analisando-a enquanto um sorriso divertido se arqueava em seus lábios na certeza de estar provocando-o. Por que ele não lhe levava a sério? Mesmo com o coração partido em mil pedaços, ela era incapaz de se afastar e, ainda que odiasse aquela fraqueza, não podia evitar seus sentimentos.
— Yan Da!
Sua voz parecia cantar os ideogramas de seu nome. Quando ele pronunciava-o, Yan Da sentia-se realmente linda*. Um sorriso infantil iluminava seu rosto, as roupas brancas com detalhes em azul pareciam mesclar-se com a paisagem glacial e as flores de cerejeira pairando no ar ao seu redor formavam um quadro belo o bastante para se compor um poema. Ela nunca se cansava de contemplá-lo.
Os lábios dela formaram o nome dele, mas nenhum som saiu. Ele deu-lhe as costas e começou a se afastar deixando-a ali como se presa ao chão gelado, incapaz de alcançá-lo.
※ ※ ※
Yan Da fitou o teto de gesso do hospital e se sentiu enjoada. Levou um tempo até seu cérebro ordenar os acontecimentos e separar o pesadelo da realidade que lhe levara até ali. As imagens do pesadelo estavam vívidas na sua mente como tentáculos cujas ventosas grudavam nas paredes do seu crânio e interferiam na conexão entre os neurônios, ela não fazia ideia de como podia ter tanta certeza que conhecia aquele homem de cabelos prateados, e era irritante.
As lembranças do seu "acidente" vieram de modo gradual. Ela recordava de ver a silhueta daquele estranho se afastando e não prestou atenção quando atravessou a rua, um carro a surpreendeu e a dor consumiu seus sentidos conforme sua cabeça batia contra o asfalto. Alguém falava com ela, mas a voz era um eco distante e indistinguível, seus olhos sem foco fitavam um rosto embaçado que aos poucos ia sendo engolido pela escuridão. Então o teto branco surgiu, ela não sabia quanto tempo depois.
— Você acordou, como se sente?
Era uma enfermeira. Olhando em volta, Yan Da se viu em uma enfermaria com leitos enfileirados e separados por cortinas que a impediam de ver se os demais estavam ocupados. Ela sempre odiou hospitais, o cheiro forte de éter, o branco dos jalecos e uniformes, as pessoas de aparência tétrica e lânguida pelos corredores e, que Yù Dì* lhe ajudasse, as agulhas! Mesmo naquele momento, olhando o gotejar preguiçoso da bolsa de soro no suporte, Yan Da se recusava a baixar o olhar para seu braço e ver aquele esparadrapo escondendo o fino projétil sob sua pele. Não se atrevia sequer a mover o braço temendo senti-la movendo-se dentro dele.
— Você sofreu uma concussão, pode estar um pouco enjoada, com dor de cabeça ou confusão, mas fora isso você está bem. — A mulher sorriu. — O médico virá vê-la dentro de alguns minutos, quando pegar uma receita, você poderá ir para casa.
Casa. Yan Da reprimiu o desejo de fazer uma careta. Em uma situação normal, seu pai ou seu irmão estariam ao seu lado com faces torcidas pela preocupação e furiosos pela pessoa que batera na sua filha/irmã. Mas normalidade era uma condição muito distante da sua família. Ela estava sozinha. Como sempre estivera desde a morte da mãe. A enfermeira estava prestes a sair quando, quase sem voz, Yan Da a impediu:
— Por favor! — O som soou rouco e grave. — Pode tirar isso de mim? Por favor! — Enfatizou.
A enfermeira franziu o cenho e tentou explicar que era parte do procedimento e que ela estava sendo medicada através do líquido intravenoso, mas Yan Da, quase em pânico, implorou que ela tirasse a agulha de seu corpo e, diante do nervosismo apresentado por ela, a mulher pareceu compadecer-se mesmo contrariada atendendo ao seu pedido. A dor foi fina como a própria agulha, mas a fobia de Yan Da aumentava em proporções tamanhas que era como se metade do seu braço estivesse sendo arrancado junto.
Ela perguntou o que havia acontecido e como fora parar ali ao que a mulher explicou sem dar muitos detalhes — uma vez que ela mesma não sabia mais do que fora contado pela pessoa que a levara até ali. Antes mesmo que pudesse sequer pensar em sair do leito para ir embora, um jovem homem, trajado um jaleco branco, com um sorriso carismático iluminando seu rosto delicado e um brinco adornando a orelha esquerda entrou na enfermaria. Ele parecia mais um idol do que um médico embora Yan Da pudesse sentir uma espécie de sagacidade emanando da sua postura relaxada.
— Ah, doutor Huang. — A enfermeira se desmanchou em sorrisos.
— Muito bem, vejo que já acordou. — Ele sorriu para ela e se aproximou olhando dados em uma prancheta. — Eu sou Huang Tuo, o médico responsável pela sua internação. Pode me dizer o seu nome completo e a data de hoje?
— Meng Yan Da... — Balbuciou tentando se orientar nas informações. — hoje é... 22 de setembro?
— Não, hoje é 15 de Agosto, senhorita Meng. — Huang Tuo sorriu. — Sua confusão é um sinal normal da concussão, fizemos uma ressonância magnética em você e não há lesões graves, por sorte a pancada na sua cabeça foi moderada. Alguns arranhões, mas você está bem. Vou te receitar ondansetrona caso sinta enjoo persistente e você pode usar seu medicamento habitual caso sinta dor de cabeça.
Ele ainda fez algumas recomendações e, por fim, Yan Da estava liberada. Ela sentiu uma vertigem leve quando levantou do leito, mas estabilizou-se, sendo acompanhada pela enfermeira até a recepção onde pegou a receita do medicamento e um cartão deixado pela pessoa que lhe atropelara. Na parte frontal, retas entrecruzadas azuis era o destaque sobre o fundo preto brilhante, o nome ZHANG YING vinha em grandes letras da mesma cor e fez o estômago de Yan Da dar um giro de 180º. Ela virou o cartão para se sentir ainda mais chocada.
Quando ouvira os nomes dos filhos de Zhang Lin Chao não lhe ocorreu nenhuma espécie de sensação, mas vendo os ideogramas do nome de Ying Kong Shi destacando-se em um azul intenso no fundo brilhante do cartão ela sentiu uma vertigem. Imagens desconexas tumultuavam sua mente depressa demais e um fluxo inconstante e violento de sentimentos fazia seu coração comprimir-se até quase parar dentro do peito. Apoiando-se no balcão, Yan Da foi ajudada por duas enfermeiras que insistiram que voltasse para a enfermaria, coisa que recusou e apenas pediu que lhe chamassem um táxi.
Sentia-se sortuda por ninguém ter avisado seu pai ou Suo Gang, certamente usariam aquilo para pressioná-la com a possibilidade de entrar na Zhang Ying como espiã. Estava cansada, não queria pensar.
※ ※ ※
O táxi parou diante do condomínio e Yan Da lançou as notas na mão do motorista sem prestar atenção. Sentia-se zonza e a cabeça doía de modo insuportável. Ela cambaleou levemente até as portas duplas e foi ajudada pelo porteiro que questionou se ela estava bem. Atravessou o saguão cuja claridade lhe doía os olhos que tornavam a paisagem luxuosa em uma imagem embaçada e oscilante. O ar frio do interior do prédio arrepiou sua pele e os sons ecoavam distantes como se os ouvidos dela estivessem sob alta pressão atmosférica e fossem incapazes de distinguir com nitidez os barulhos à sua volta.
As luzes do mostrador do elevador era uma imagem borrada quando ela se aproximou e tateou a parede em busca do botão. Se demorasse mais para chegar ao seu apartamento no sexto andar ia vomitar ali mesmo. Incapaz de enxergar os botões no painel, Yan Da quase soltou um palavrão frustrado quando seu corpo pendeu para frente e foi segurado por braços fortes que a firmavam.
— Meng xiaojie, você está bem?
Aquela voz. Ao contrário de todos os demais sons, aquela voz penetrava com nitidez pelo canal auricular de Yan Da despertando todos os seus sentidos. Ela tentou erguer os olhos na direção da pessoa, mas sua visão continuava um borrão indistinguível, ela sentiu uma dor ácida subir pela sua garganta e preencher sua boca, as luzes manchadas e dolorosas do elevador tremularam até apagarem completamente.
— Ying Kong Shi, o que eu sou pra você?
A voz que fazia a pergunta carregava uma mágoa tão forte que as notas soavam inconstantes. O vento sacudia os galhos das árvores altas fazendo o farfalhar das folhas quebrar o silêncio pesado entre as duas pessoas no meio da estrada de terra coberta de folhas mortas. As mãos de Yan Da queimavam enquanto as fechava em punho com força, enterrando as unhas na carne sem se importar com a dor. À sua frente, a figura de branco com longos cabelos prateados se recusava a olhar em seus olhos, as mesmas feições belas e esculpidas trancadas no gelo da indiferença.
— Uma inimiga.
As palavras atingiram Yan Da como uma lança atravessando seu corpo. Ela o havia salvado mais vezes do que seria capaz de contar, traíra sua própria família mesmo quando descobriu que ele era seu inimigo e, ainda assim, tudo que ele via nela era a filha de um clã oponente? Ela desejava ser capaz de atingi-lo com seu poder, queimá-lo até não restar nem mesmo a alma para se imortalizar no espaço, mas tudo que conseguiu fazer naquele instante foi impedir as lágrimas de fazerem o vergonhoso percurso de fraqueza pelo seu rosto.
— É claro. — Devolveu, cortante. — Por isso você mentiu para mim todo esse tempo e, mesmo assim, tive você como um amigo. Da próxima vez que nos virmos estaremos de lados opostos no campo de batalha e eu mesma cobrarei essa dívida.
Dando as costas a ele, Yan Da seguiu seu caminho enquanto as lágrimas traiçoeiras nublavam seus olhos e desciam quentes pelo seu rosto. Nem mesmo se chorasse sangue seria capaz de suportar sua vergonha e fúria contra si mesma. Fúria por se permitir cair naquele buraco sem volta. Por ter confiado no estranho homem encontrado inconsciente num lago. Por ter se iludido quando ele lhe salvou de um casamento forçado. Maldição! Odiava-se por ter tido a estupidez de apaixonar-se por ele.
Tão logo abriu os olhos, Yan Da vomitou. Dessa vez, havia um pequeno balde à espera do fluxo ácido com o restante de seu café da manhã. Ela se sentia horrível, havia um zumbido irritante nos seus ouvidos, seus músculos pareciam gelatina e a cabeça doía ferozmente. Aliado a tudo aquilo, seu coração pesava com aquele pesadelo, mesmo que ela não soubesse porque, de repente, o personagem de longos cabelos prateados tenha recebido o nome de Ying Kong Shi a quem ela nunca tinha sequer visto.
— Acho que foi uma má ideia você ter deixado o hospital cedo.
O tom carregava certa preocupação, mas não continha nenhuma censura. Foi um choque quando os olhos de Yan Da conseguiram focar e ela viu diante de si a mesma face esculpida e pálida de seu pesadelo. Os olhos profundos não eram azuis, mas carregavam matizes da cor em seu tom achocolatado, os cabelos não eram prateados e longos, mas caíam sobre a testa, grossos fios castanhos e brilhantes na baixa luz do quarto.
Quarto.
O choque de ver o rosto do seu pesadelo diante dela foi cedendo um espaço para o terror adicional de não fazer ideia de onde estava. Era um quarto luxuoso decorado de modo minimalista em tons de preto e prata. Um escritório dentro do quarto era separado da cama por uma parede de vidro com porta. Lá dentro havia estantes abarrotadas de livros, uma mesa, poltrona para leitura, um divã e até mesmo uma lareira elétrica. Do lado de cá, onde ela estava, uma cama king projetava-se contra a parede escura, ao lado um criado mudo com um abajur e um despertador digital — muito parecido com algum que ela já tinha visto, seria o seu? —, do outro lado uma cadeira estava ao lado da cama onde o estranho de seu pesadelo lhe direcionava um olhar confuso e, atrás dele, janelões de vidro davam vista para a selva de pedra.
Três portas ficavam de frente para a cama. Uma no final de um pequeno corredor que devia levar ao resto do apartamento, outra seria talvez o banheiro privativo e a outra o closet. As paredes nuas eram pintadas de preto e apenas uma delas ostentava uma frondosa cerejeira florida cujas pétalas voavam contra o vento invisível. Yan Da não tinha certeza se o desconforto que sentiu ao ver a pintura era devido à beleza de suas pinceladas ou ao fato de ela ser idêntica a que ela via em seus pesadelos. Seus olhos voltaram-se outra vez ao estranho de seus pesadelos que ainda lhe fitava com uma mistura de confusão e preocupação.
— Meng xiaojie, devo chamar o médico para vê-la? — Indagou quando os olhos de Yan Da encontraram os seus. — A senhorita parece confusa.
— Que... quem é você? — Ela tentou ordenar a voz a sair firme.
— Realmente sinto muito pelo que aconteceu. — Disse ele. — Você apareceu diante do carro do nada, sei que deveria tê-la esperado no hospital, mas um assunto urgia minha presença. Sinto-me mal vendo quão mal a senhorita está.
— Yi-Ying Kong Shi? — Os olhos dela focavam o rosto dele com dificuldade. — Você é Ying Kong Shi?
— A senhorita me conhece? — Um sorriso infantil arqueou-se no rosto dele. — Receio não termos sido apresentados apesar de ambas as famílias estarem no mercado.
Ela fez uma careta. Que espécie de cordialidade era aquela? Não queria ser como Shuo Gang e começar a dar respostas sarcásticas, o mero fato de estar ali a fazia sentir como se cometesse um grave erro contra sua família.
— Preciso ir pra casa. — Fez menção de levantar, mas ele a deteve.
— O doutor Huang me disse que você precisa descansar. — Apressou-se em explicar. — Se houver qualquer coisa que possa fazer para compensá-la pelo que aconteceu, por favor, não hesite em me dizer. Perguntei em que andar você morava no elevador, mas a senhorita acabou desmaiando antes de conseguir responder.
— Eu...
Lentamente as imagens vieram à sua mente. O mal estar tempestuoso que nublava seus sentidos, ela lembrava da voz dele ecoando nas paredes da sua mente, o único som nítido em meio ao caos de zumbidos que dominava seus ouvidos. Então, ela vomitou nele.
— Tian de!* — Seus olhos esgazearam quando o fitaram outra vez. Ela colocou as mãos cobrindo a boca. — Eu sinto muito!
Shi deu uma leve risada.
— Não há problemas. Você sofreu uma concussão, Huang Tuo me disse por telefone. Mandei meu terno para a lavanderia, não precisa se preocupar com isso. — Apressou-se em acalmá-la. — Por favor, descanse aqui hoje. Há um quarto de hóspedes e posso ficar lá sem inconvenientes. Tomei a liberdade de mandar trazerem o remédio que ele receitou, está em cima do criado mudo junto com um analgésico. Tome-os e durma um pouco, pedirei que lhe tragam algo para comer mais tarde e, se estiver melhor, pode ir para seu apartamento.
Tudo aquilo era muito confuso e bizarro, mas Yan Da se sentia tão fatigada que não teve forças para recusar a oferta, não tinha, inclusive, certeza se conseguiria caminhar até a porta do apartamento sem cair inconsciente de novo. Sua cabeça ainda doía muito e sentia-se desorientada e sonolenta. Mesmo sabendo que era muito indelicado, não conseguia desviar os olhos de Shi. A impressão de reconhecimento que sentia quanto o via — especialmente por seu rosto ter sido impresso no homem de cabelos prateados de seus pesadelos — tal como a raiva e a angústia que acompanhavam esse sentimento, lhe frustravam.
Ela aceitou o comprimido que ele lhe ofereceu com um copo d'água e acomodou-se nos travesseiros adormecendo quase instantaneamente. Que dia mais estranho! Pensou enquanto mergulhava, pela primeira vez em muito tempo, num sono sem sonhos.
Notas:
*O nome de Yan Da é formado pelos ideogramas Yan [艳] que significa "linda" e Da [炟] que não tem significado sendo um ideograma usado para nomes.
*Yu Di [玉帝] ou Yù Huáng [玉皇], conhecido como Imperador de Jade, e acordo com a mitologia chinesa, é o senhor dos céus (Tian) e de todos os domínios de existência abaixo, incluindo o homem e o Inferno (Diyu). É um dos mais importantes deuses do panteão da religião tradicional chinesa.
*天的! (Tiān de!) é uma interjeição que seria o equivalente ao nosso "meu Deus!" ou "Céus!". 天 significa "céu" e 的 é uma partícula que pode indicar posse ou funciona como uma partícula frasal de período.
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