Love as Sakura | 爱如樱

6 第6章 Uma canção antiga como o tempo


As notas flutuaram pelo apartamento como vagalumes em uma clareira sob o céu enluarado. Shi não sabia como conhecia aquela música, ele apenas a tocava por instinto como se a melodia saísse sozinha de seus lábios na pequena flauta que batizara — por alguma razão também incompreendida — de Yun Fei*. Talvez pelo fato de ela provocar aquela sensação de que as notas pairavam ao redor de quem ouvia como se fossem palpáveis.

Era uma melodia melancólica ainda que lhe trouxesse uma sensação de conforto, de proximidade. Sobretudo, trazia-lhe lembranças de Ka Suo. Era estranho que o irmão ainda não houvesse telefonado desde que partira para Los Angeles. De olhos fechados, enquanto soprava as notas e seus dedos moviam-se como dançarinos pela flauta de jade, Shi se permitia mergulhar na canção e, tal como um filme, imagens explodiam em sua memória.

— Quero que fique com ela. — Disse Ka Suo entregando-lhe a flauta. — Não importa onde eu esteja, sempre que você a tocar eu ouvirei e poderei te responder usando esta folha.

Shi estava maravilhado. Ka Suo tocou aquela canção melancólica e bela como a neve que cercava a floresta. As flores de cerejeira voavam em torno deles como se dançassem ao som da música suave, os cabelos longos de Ka Suo eram soprados pela brisa suave e Shi conseguia sentir, em seu coração, as palavras não ditas por trás das notas. O desejo de liberdade, a tristeza de uma vida que não escolheu e a agonia da perda daquela que ele amava. A dor de seu irmão era sua também. Olhando o semblante cansado, mas sempre plácido e sorridente de Ka Suo, Shi decidiu naquele instante que deixaria livre o coração suave de seu irmão.

Livre para voar como as flores de cerejeira que viajavam ao som da música.

Largando a flauta, Shi abriu os olhos. Seu coração batia acelerado no peito, a pulsação ribombava em seus ouvidos como tambores. Ele olhou em volta como se não reconhecesse o próprio apartamento, as imagens evanescendo na sua memória como uma fotografia desbotada, como as frágeis páginas de um livro antigo que se desfazem ao toque. Mesmo ali, na sala aquecida, ele podia sentir o vento cortante contra sua pele, o cheiro das flores de cerejeira, os longos cabelos voando na brisa, a pressão da coroa contra a pele da sua testa. Ele conseguia sentir a determinação do gelo em seu próprio coração.

— Ge!

A voz ecoou longe, mas pareceu preencher todo o cômodo. Ele olhou em volta, trêmulo, tentando identificar a origem do som. Atestando com assombro que era sua própria voz. O telefone tocou causando-lhe um sobressalto e tirando-o do estado de paranoia. A foto de Ka Suo aparecia sorridente no display enquanto a quinta sinfonia de Beethoven soava abafada sobre o tampo de vidro da mesa de centro.

— Atender. — Deu o comando de voz e a chamada foi aceita. — Ge, como está tudo aí?

Frio. — Ele podia ouvir o sorriso na voz de Ka Suo. — Você está bem? Huang Tuo me ligou e contou sobre o pequeno incidente.

— Estou bem. — Suspirou. — Não fui eu quem acabou com a concussão que pode levar jornalistas para frente da empresa.

Acha mesmo que ela vai armar um escândalo? — A dúvida do irmão quase fez Shi sentir-se infantil.

— Ruim para nós, ótimo para o pai dela. Por que perderia a chance?

Shi, não podemos julgar todos os frutos de uma árvore por um que estraga, podemos? — Censurou-o. — A senhorita Meng é a única que não conhecemos da família de Huo Yi. Ela pode ser mais condescendente.

— Isso não quer dizer que não seja fiel ao pai. — Ele fez uma careta e apertou a ponte do nariz. — Mesmo que ela tenha a graça de ser menos insuportável que Shuo Gang, continua sendo filha de Huo Yi, logo, o que é bom para o pai dela é o caminho certo a seguir. São negócios, ge.

Ele pôde ouvir o suspiro de Ka Suo. Não era difícil visualizá-lo diante da janela de sua suíte de hotel vendo as luzes de Los Angeles com a camisa aberta e os pés descalços. O olhar perdido no horizonte escuro salpicado por estrelas prateadas que competiam com as janelas de prédios e postes de rua.

— Já entrou em contato com nosso advogado? Seria melhor deixá-lo preparado.

— Liao Jian está em Tóquio a pedido do nosso pai. — Explicou. — Tentei telefonar, mas o telefone só cai na caixa de mensagens, enviei um e-mail.

— Estarei de volta no final da tarde de amanhã, ajudarei você a cuidar disso. — Garantiu. — Não se preocupe, Shi, apenas descanse. Tudo vai ficar bem.

— Descanse também, ge. — Sorriu. — Espero você amanhã.

Falar com Ka Suo serviu para acalmar o espírito ansioso de Shi. Tanto em relação ao problema com Yan Da, quanto às estranhas imagens que se desenharam em sua mente. Ele se recostou no sofá onde sentara minutos antes e fechou os olhos.

— Não sou uma mercenária como você e seu irmão pensam. — A voz de Yan Da fez ele dar um pulo do sofá. Ela estava de pé na entrada do corredor com uma expressão séria enquanto o encarava, os olhos afiados como espadas. — Você não devia ser tão duro com seus julgamentos, Ying xiānshēng*.

— Meng xiaojie, eu a acordei? Sinto muito. — Desculpou-se.

— Poupe o tempo do seu advogado, não vou fazer nenhum show como está pensando. — Atacou. — E não sou tão próxima do meu pai ao ponto de ser cega e injusta. Se me der licença, vou para minha casa.

Ela fez menção de sair, mas acabou pendendo para frente, Shi apressou-se em ampará-la, ainda surpreso por ela ser tão leve. De início, ainda pensou em repreendê-la, mas vendo seu estado fragilizado — em contraste com a força de seu espírito — desistiu e apenas tomou-a nos braços levando-a de volta para o quarto.

— Tudo bem, tudo bem — disse ele, acomodando-a na cama — sinto muito! Eu não deveria ter dito aquilo, mas pode me repreender quando estiver recuperada? Apesar de não ser grave, não leve a concussão tão descuidadamente.

Yan Da fez uma careta, Shi surpreendeu-se por acha-la tão adorável. Havia algo nela que o atraía com um estranho magnetismo, contudo, parecia haver igualmente uma barreira mantendo-os em lados opostos e, ele sabia, não tinha nada a ver com o fato de ela ser filha de Meng Huo Yi, o rival de negócios do seu pai. O som da campainha anunciando a comida que ele pedira momentos atrás tirou-o do seu devaneio e o fez se dar conta de que estava encarando Yan Da de forma socialmente inaceitável*.

Sem jeito, ele levantou depressa e deixou o quarto para atender à porta, onde agora batidas insistentes substituíam o som de sinos da campainha. Yan Da colocou as mãos no rosto sentindo a pele queimar, não podia estar corando! O que há de errado com você?! Repreendeu-se mentalmente. Ainda sentia a cabeça pesar e a visão oscilar, do contrário já teria ido embora. Ouviu vozes do lado de fora, mas não se atreveu a levantar.

Shi surpreendeu-se ao ver Lan Shang bem atrás do entregador do restaurante. Ele reprimiu um revirar de olhos enquanto ela entrava na sua casa sem pedir licença. Pedindo paciência a Buda, Shi assinou o recibo do entregador e pagou. Fechando a porta, ele passou por ela como se não a visse e foi até a cozinha colocar a comida em um prato e arrumar numa bandeja para que Yan Da não precisasse levantar para comer.

— Lan Shang, eu aprecio que veja minha casa como a sua, mas não é um bom momento para visitas agora. — Disse, cortante, sem virar para ela.

— Você não atendia o telefone, vovó quer ter uma reunião com Ka Suo o quanto antes. — Anunciou ela cruzando os braços.

Shi apertou as bordas do prato e apoiou-o novamente sobre a ilha da cozinha erguendo um olhar sério para a jovem sentada em sua poltrona na sala. Os longos cabelos escuros de Lan Shang caíam lisos sobre o busto em uma blusa preta de gola rulê.

— Lan gūniáng* — sua voz soou dura — todos nós somos gratos pela ajuda da sua família à ZhangYing em um momento de necessidade, e agradecemos mais ainda o carinho que sua avó tem pela nossa família. Contudo, não me lembro da liberdade amorosa do meu irmão estar incluída no contrato de colaboração entre a Hǎowán Hǎi* e a ZhangYing.

— Eu não...

— Sei bem o que está tentando fazer. — Shi cortou-a, indiferente à expressão angustiada que contorcia o rosto dela. — Ka Suo não tem qualquer pretensão de se casar com você. Pode ser que outras famílias ainda optem pelo retrógrado sistema de arranjar casamentos com base em benefícios mútuos, mas a nossa não é uma delas. Minha mãe é contra esse tipo de coisa e, acredite, Ka Suo vai escolher sua própria esposa quando achar que é o momento certo. Quanto antes entender isso menos tempo vai sofrer. Agora, por favor, volte para casa, já está bem tarde.

Uma mistura de mágoa e indignação tornou o rosto de Lan Shang uma máscara sombria. Ela encarou Shi com olhos aquosos e tempestivos antes de pegar sua bolsa e sair batendo a porta. Com um suspiro, ele massageou levemente as têmporas e voltou para a cozinha terminando de preparar o jantar da sua convidada. Conforme a raiva pela desagradável — porém necessária — conversa com Lan Shang se esvaía, ele se pegou sorrindo por seu encontro inusitado com Yan Da.

Ela tinha uma expressão aturdida quando atravessava a rua e, planando no susto, Shi não pôde captar os traços angustiados do seu rosto. Quando ela ergueu os belos olhos amendoados na sua direção, o sangue manchando o lado esquerdo de seu rosto, ele gostaria de entender as palavras que ela dissera antes de perder a consciência. Sua expressão era pacífica, ela tinha traços delicados de uma boneca da mais fina jade branca, as linhas de seu rosto eram tão suaves que parecia pecaminoso o vermelho vivo que borrava sua beleza — ainda que não a diminuísse.

Era loucura, ele pensara. Em 28 anos, Shi nunca se interessara por nenhuma mulher, seu foco era manter Ka Suo o mais longe possível das exigências por vezes desumanas de seu pai, contudo, se via estranhamente atraído por Yan Da. Quando a viu entrando num elevador do seu condomínio, imaginou que estivesse ali para ameaça-lo com o ocorrido, de longe ela parecia muito altiva para alguém a quem Huang Tuo descrevera com uma concussão. Sentiu-se um pouco pressionado e acuado diante da ideia, mas precisava falar com ela antes que as coisas ficassem piores.

Apressou-se para alcançar o elevador quando a viu cambalear, estava muito pálida e mal se sustentava de pé, os olhos não focavam em nada e uma fina camada de suor cobria seu rosto.

— Meng xiaojie, você está bem?

Ele a segurou firmemente quando o corpo dela pendeu e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, seu terno foi inundado pelo vômito de Yan Da. O odor ácido e repugnante fez Shi franzir o cenho, mas ainda assim a manteve firme, tomando-a nos braços com cuidado e sentindo-se mais culpado por tê-la deixado sozinha no hospital.

Balançando a cabeça, Shi levou a bandeja para o quarto onde uma Yan Da ainda confusa estava encolhida sobre a cama. Eles eram quase da mesma altura, Shi devia ter apenas uns poucos centímetros a mais que ela. Aproximando-se com cautela, ele colocou a bandeja sobre seu colo.

— Eu não estava certo sobre o que você gostava, então pedi algo leve. — Seus olhos encontraram os dela.

— Por que está fazendo isso? — A voz de Yan Da era fria. — Já disse que não vou fazer nada contra sua empresa. Não tem que me bajular.

— É por minha causa que você está assim, o mínimo que posso fazer é cuidar de você. — Explicou. — Me deixe saber se precisar de mais alguma coisa.

— O que eu poderia pedir a alguém que nem me conhece, mas já pensa o pior de mim? — Alfinetou.

Shi sentiu o rosto arder.

— Eu realmente sinto muito. — Desculpou-se. — Não tive as melhores experiências com seu irmão Shuo Gang e acabei julgando a senhorita por ele, por favor, aceite minhas desculpas.

— Ying Kong Shi, você é como o sol no meio de uma tempestade de neve.*

Ele não conseguia parar de olhá-la, o modo como seu nome soava na voz de Yan Da lhe causava um estremecimento de prazer que se alongava por todas as terminações nervosas. Ele tentava dizer a si mesmo que era apenas a curiosidade por ela ser tão diferente do irmão, mas no fundo sabia que a verdade era que estava fascinado por aquela mulher. Yan Da ergueu uma sobrancelha encarando-o com um olhar desafiador:

— Vai ficar aí me olhando?

— Oh... sinto muito. — Balbuciou ele.

— Estou vendo. — Ironizou ela. — Você realmente sente demais.

Shi deu uma leve risada e deixou o quarto para que ela ficasse à vontade com sua refeição. Nenhum dos dois verbalizava, mas, dentro deles, a insistente sensação de que se conheciam era como uma chama insistente no meio da neve gelada. Ele meneou a cabeça incapaz de tirar o sorriso do rosto, havia algo muito sensual e divertido em ter Yan Da na sua cama, especialmente por ela ser a primeira mulher ali. Era quase como a sensação de que aquilo fosse algo certo, embora ele não entendesse o porquê e o que tornava toda a situação ainda mais confusa era que ele não sabia nada sobre ela.

Ainda que fosse muito diferente de Shuo Gang ou Hu Bing, com quem ele tivera contato anteriormente, Yan Da ainda demonstrava certa hostilidade com ele, como se quisesse mantê-lo longe, o que, se levado em conta que ela não desejava prejudicar a ele ou a empresa de seu pai, contrastava com a ideia de ela vê-lo como inimigo ainda que fosse uma possibilidade. A única certeza naquele momento era que desejava conhecê-la melhor, Meng Yan Da era o tipo de mistério fascinante que ele gostava de desvendar.

※ ※ ※

— Você tem certeza disso? — Ka Suo perguntou baixinho ao objeto em sua mão enquanto olhava a noite estrelada do telhado do hotel.

Sim. Não posso precisar quando ela começará a agir, mas tenho observado os passos dela.

— Me mantenha informado. — Pediu.

Não se preocupe, vamos impedi-la de conseguir o que quer. — A voz garantiu.

— Alguma chance de Shi se lembrar? — Ele fechou os olhos sentindo o coração tremer ante a possibilidade de uma resposta.

Eu seria incapaz de lhe mentir — a voz do outro lado tinha um tom lamentoso como se estivesse se desculpando com antecedência. — Mesmo que tenha sido feito com o máximo de eficiência, nada é perfeito. Há sim a chance de ele lembrar, contudo, não posso dar certeza do quanto.

— Nenhum deles se lembra ainda... — Ka Suo soava especulativo, conversando mais consigo mesmo. — Procure uma forma de retardar ou limitar isso.

Por favor, mantenha-se firme, meu rei. Eu cuidarei de tudo para que o jovem príncipe seja livre.

Ka Suo nada disse. As estrelas pontilhavam o céu como glitter sobre um papel enegrecido, a lua minguante era como um sorriso perverso do universo. Um forte vento gelado circundou-o fazendo-o fechar os olhos para se permitir senti-lo, ao longe, em sua mente, ele podia escutar a melodia da flauta de jade.

—Shi...

Notas:

*Yun Fei [云飞] é um nome próprio. 云 (yun) significa nuvem e飞(fei) é o verbo voar. Se fôssemos pensar pelo significado, seria algo do tipo "voar através das nuvens".

*Xiānshēng [先生] — Senhor. Ela usa linguagem formal aqui.

*encarando Yan Da de forma socialmente inaceitável — Na China (e acho que em boa parte da Ásia) é falta de educação encarar as pessoas, principalmente se você não as conhece.

*Gūniáng [姑娘] — significa "menina", mas pode significar senhorita em um sentido formal. Ainda mais formal que xiaojie. Aqui, Shi usa essa palavra de forma irônica.

* Hǎowán hǎi [好玩海] — Se traduz como "oceano divertido"

*como o sol no meio de uma tempestade de neve — ela usa isso no sentido de contradição.