Love and Resistance
4 Prenúncio
Notas iniciais
Julieta
Agradeço por estar em terras brasileiras após dias viajando. Durante todo percurso não pensei em outra coisa que não fosse as reações das pessoas por me verem grávida. —O carro faz seu percurso enquanto leio cada página de meu livro. Há tempos estou com ele e no entanto não terminei a história. —Mas durante minha viagem consegui folhear algumas páginas, porém nenhuma palavra tinha sentido e sentia como se não estivesse lendo absolutamente nada. Minha angústia atrapalhou meu dom pela leitura voraz que sempre tive. Angústia essa que aumenta somente pela maneira como irão me olhar. Pareço uma adolescente amedrontada e me sinto ridícula por isso.
—O Mito de Andrógino.—Aurélio lê a capa de meu livro. —Diz a mitologia grega que originalmente havia três sexos: homem, mulher e a junção deles.
—Também gosta de mitologia grega? —Pergunto curiosa e surpresa.
—Eles tinham quatro braços e quatro pernas. Tinham também uma cabeça com dois rostos virados para lados opostos e um formato arredondado. Podiam caminhar para frente e para trás e tinham um poder imenso e podiam também rolar. —Aurélio acaba afirmando e rimos pela descrição do livro. —Os andróginos se tornaram ambiciosos e quiseram se igualar aos deuses, mas Zeus castigou cada um deles.
—Não acredito em politeísmo. —Digo ironicamente e Aurélio acaba rindo de minha ironia.
—Dividiu-os ao meio feito maças e enquanto fazia isso Apolo ia virando-lhes os rostos para frente, para que olhassem para sempre para a parte amputada e ia lhes moldando e costurando. —Aurélio narra a história e começo a me irritar. —Eles então ficaram parecidos com os dois primeiros sexos, homem e mulher. Entretanto, não eram mais inteiros. Isso fez com que estes seres morressem de fome e desespero.
—Entendi. —Digo irritada, fazendo-lhe rir. Eu gostaria imensamente de saber da história ao decorrer da leitura, mas Aurélio parece se divertir com meu aborrecimento.
—Abraçavam-se e ficavam assim até a morte. O primeiro que morria fazia com que o outro ficasse perdido no mundo, e sem sua metade, acabava morrendo também. —Seus braços então me envolveram e sorrimos. —Mas Zeus era misericordioso e, com pena das criaturas virou então suas partes reprodutoras que estavam nas costas para a nova frente onde estavam agora os seus rostos para que, num abraço, eles pudessem se unir novamente. Eles, que antes copulavam com a terra agora poderiam copular uns com os outros, porém a alma saberia que só o reencontro com sua antiga metade em um abraço os libertaria da saudade e da busca eterna. —Ele conta o final da história e com fecho o livro.
—É assim que nasce as almas gêmeas? —Minha pergunta foi respondida com um beijo suave. Permaneci de olhos fechados após seus lábios separarem dos meus e mantendo minha sobrancelha arqueada, respondo. —É... —Falo olhando para sua boca. —Talvez seja assim. —Sorrimos.
—São apenas contos que explicam o amor. —Aurélio garante, mas nego. Bocejo demonstrando meu sono e cansaço. Não consegui dormir a noite inteira e estou sendo vencida pelo sono.
—Vale do Café. —Falo assim que entramos na cidade. —Nada mudou.
—Algumas coisas não mudam, outras sim. —Aurélio fala sobre nosso filho. —Mexeu. —Diz contente, quase explodindo de alegria ao sentir nosso pequeno anjo. Fico comovida com o carinho que Aurélio tem por essa criança, assim como eu.
—Ele gosta de vo... —Paro de falar imediatamente após sentir uma forte batida no carro. Meu coração bate forte devido ao susto e tento entender o que aconteceu.
—Xavier. —Aurélio fala por entre os dentes, irritado. O fazendeiro acena para nós enquanto cavalga em seu cavalo, mas antes que eu faça alguma coisa ele vai embora. —Você está bem?
—Eu acho que sim. —Respondo assustada. Minha respiração está descompensada conforme meu coração bate forte.
Seguimos olhando para cada esquina que passamos, procurando por Xavier. Pela primeira vez após anos estou com medo. Me arrependo imediatamente por ter voltado, mas não posso parar minha vida por causa de um covarde como Xavier. —São longos sete meses carregando essa criança e preciso ter calma. Não é agora que irei me irritar por qualquer coisa. —Involuntariamente um gemido escapa de minha boca após sentir uma cólica insuportável.
—Sentiu alguma coisa? —Aurélio pergunta preocupado.
—Não. —Minto apenas para não preocupá-lo ainda mais. —Estou bem.
(...)
Durante o trajeto até minha casa, olhando para o nada, acabo lembrando de quando estava grávida pela primeira vez. Eu não tinha noção de que havia um ser crescendo dentro de mim, não conseguia me acostumar com meu corpo mudando ao longo dos meses. Camilo nasceu quando eu ainda era uma menina. Concebido da pior maneira possível.
—Chegamos. —Aurélio avisa, mas não tenho forças para sair do carro.
—É Camilo? —Pergunto ao ver meu filho junto com Ema.
—Acho que é hora de conversar com ele. —Aurélio aconselha risonho. Ele desce antes e me ajuda a descer em seguida, mas minhas pernas estão bambas. Há algo errado comigo, todavia sigo andando tranquilamente.
—Mãe. —Camilo chamou por mim enquanto sorria. Meu filho parece ter esquecido nossas desavenças e acredito que eu tenha que fazer o mesmo.
—Pai. —Ema apressou os passos até Aurélio. Ela e Camilo vieram até nós e nos abraçaram. —Veja, Camilo. —Ela diz olhando para mim.
—A senhora mudou. —Meu filho diz, mas não esboço emoção alguma. Apenas olho para Camilo e vejo o quanto magro ele está. Há algo errado com meu menino.
—Você também. —Respondo um pouco tonta. Deve ser o cansaço e o calor, ou será que vou enjoar? —Eu estou cansada. —Digo ofegante. Todos olharam para mim com zelo e acho graça nisso.
—Eu ajudo. —Camilo disse com excesso de cuidados, assim como Ema.
—Cuidado com o degrau. —Ema pediu, quase me carregando.
—Acho que meus tornozelos estão inchados. —Reclamo preocupada comigo.
—Não há nada inchado, você está ótima. —Aurélio mente somente para me confortar, mas recorrendo-o com meu olhar. Por pouco não tropeço na barra do meu vestido e sorrio com o tecido vinho que estou usando.
Ao entrar em minha casa me deparo com toda família Williamson e Susana na sala. Mas ao olhar melhor para o canto vejo Olegário olhando curioso para mim. Sinto medo e desconfiança ao entrar. —Ora, Julieta. Você é a rainha do café. Eu sou o mar e todos são apenas mariscos que quebram diante minha força. Sou Julieta Sampaio e nunca senti medo ou fraqueza. Não até Aurélio derrubar os muros de meu orgulho. —Mas ninguém precisa saber disso.
—Julieta Bittencourt. —Susana fala saudosa.
—Sampaio. —Digo, ganhando o olhar curioso de Camilo. —Não atendo mais por Julieta Bittencourt.
—Como quiser. —Susana concorda desconfiada. —Senti sua falta, minha amiga.
—Todos nós sentimos. —Darcy diz e sorrio para ele. Por algum motivo Aurélio parece inquieto e permanece ao meu lado.
—Fugir nunca é a melhor opção. —Lorde Williamson diz enquanto todos esperam que eu fique irritada com sua acusação de fuga. Todavia eu acabo rindo e todos também.
—Afinal, o senhor disse onde eu estava. —Digo.
—Quem descobriu foi o sobrinho de Aurélio. —Darcy revela me deixando confusa.
—Sobrinho? —Pergunto confusa.
—É uma longa história. —Ema garante risonha.
—Antes que Susana ou alguém fale sobre negócios, é melhor a senhora descansar. —Camilo sugere carinhoso.
—Deveras estou muito cansada. —Afirmo.
Ema
Ajudo Julieta antes dela finalmente descansar. A água está em temperatura ideal para ela entrar, no entanto Julieta parece gostar de seu reflexo na água da banheira e por isso sorri. —Ajudo-a entrar com cuidado mesmo ela dizendo que não é necessário. Mas se eu não fizesse isso, meu pai faria e imagino o constrangimento de Julieta. —Bobagem minha, eles não conceberam essa criança sem antes mostrarem seus corpos.
—A água está muito quente?—Pergunto ao notar a expressão de incômodo em Julieta.
—Não. Eu estou apenas sentindo um incômodo. —Ela diz um pouco irritada com algo. —Deve ser o cansaço. —Diz antes de fechar os olhos enquanto está inerte na banheira.
—Meu Deus. —Digo assustada com o vermelho rubro que a água está se tornando.
—Não. —Julieta nega assustada com o sangue da banheira. —Não, não...
—Calma, Julieta!—Peço ajudando-a sair da água.
(...)
—Foi um sangramento devido a alguma emoção. —Rômulo diz enquanto deixo a cama mais confortável para Julieta. —Eu acho prudente a senhora ir para São Paulo caso algo grave ocorra. —Alerta olhando para a rainha do café.
—Há riscos? —Pergunta preocupada.
—Infelizmente sim. —Rômulo afirma. —Foi muita imprudência fazer uma viagem tão longa. —Adverte. —Não estava sendo acompanhada por nenhum médico?
—Não. —Julieta responde envergonhada.
—Isso é grave. A sua gestação é de placenta de inserção baixa. —Rômulo adverte. —Corre o risco da criança nascer prematura.
—Meu Deus. —Digo nervosa, levando minhas mãos até à boca.
—Eu diria para a rainha do café ir até São Paulo e ficar internada até a criança nascer, mas uma viagem tão longa só iria agravar a situação. —Rômulo lamenta enquanto prepara algo para Julieta. —O correto é manter repouso absoluto.
—Eu não sou mulher de repouso absoluto. —Julieta fala indignada.
—Mas essa criança é. —Rômulo mostrou estar mais indignado que ela. —Se me permite. —Diz mostrando a injeção para Julieta e pedindo seu braço. —É base de corticóide. —Os olhos dela arregalaram e seguro o riso. —Vai estimular o amadurecimento dos pulmões do bebê. Sendo assim evitará problemas respiratórios caso nasça prematuro. —Minha madrasta fechou os olhos e mordeu o lábio inferior quando a agulha perfurou sua carne.
—Isso é tudo? —Julieta pergunta curiosa.
—Como já disse, descanso absoluto. A senhora não vive apenas por um, mas sim por dois. —Ele ressalta. —Mantendo o devido repouso e nenhuma emoção forte tudo irá ficar bem.
—Até quando isso? —Pergunto.
—Até seu irmão ou irmã nascer.
—Eu me assustei assim que cheguei... Há alguma relação? —Ela pergunta tranquila, mas seu olhar transmite raiva.
—Não resta dúvida.
Rômulo despediu-se enquanto Julieta se acomoda na cama e fica pensativa. Não será fácil para ela ficar inerte numa cama, sem poder fazer o mínimo de esforço. Vejo raiva em seu olhar e presumo que seja pelo fato de ficar em repouso.
—Você vai ficar bem. O ócio é bom em alguns casos. —Digo.
—Eu e o ócio somos como água e óleo. —Ela diz e acabamos rindo.
—Eu vou ficar com você durante esse tempo. —Prometo. —Assim teremos tempo para escolher um nome para essa criança.
—Confesso que estou com medo. —Julieta me assustou com sua revelação.
—A rainha do café com medo? —Pergunto em tom de brincadeiras, ganhando seu sorriso. —Estamos perdidos então.
—Venha cá. —Julieta pede segurando minha mão delicadamente. Sinto o fruto de seu amor com meu pai mexer em seu ventre. É algo estranho e bom, não sei distinguir e acabo rindo. —Ele gosta quando seu pai põe a mão. —Ela revela risonha. —Fica calmo apenas com ele.
—Você já tem preferência? —Pergunto para meu irmão e Julieta gargalhou. Sua risada era tão... Julieta! —Eu já imagino as roupas.
—Eu também. —Ela diz contente.
—Já pensou na roupa de batismo? —Pergunto animada com a ocasião. —Vai ser a criança mais bem vestida de todo Vale do Café e além!
Aurélio
Ema e Julieta conversavam animadas no quarto e prefiro não interromper tal momento de alegria entre as duas. Vê-las juntas me faz sorrir com a cumplicidade que existe. Ema sempre sentiu falta da mãe e agora vejo que Julieta está preenchendo este vazio que minha falecida esposa deixou. Elas realmente parecem mãe e filha, todavia ainda tenho minhas dúvidas sobre Julieta aceitar ser minha esposa. Há algo que parece impedir de Julieta confiar em mim assim como confio nela.
—Eu também fui negligente. —Digo para Rômulo. —Julieta engravidou e sequer percebi sua mudança.
—Percebeu e não deu importância. —Ele diz e sou obrigado a concordar. —As mulheres tem esse dom.
—Julieta não é qualquer mulher. —Ressalto olhando para ela e Ema uma última vez. —Acha mesmo que a criança nascerá antes do previsto?
—Assim como tenho certeza que não será um parto fácil. —Rômulo garante. —Na capital ela teria um melhor acompanhamento, mas levando em consideração que já fez uma longa viagem. —Fico pensando em como convencer Julieta mas desisto de imediato. Ela não combina com o ócio, sempre foi ativa e agora será um martírio ficar em repouso. —Com licença. —Ele pediu antes de se retirar.
—Ainda bem que chegou, Aurélio. Ema está quase escolhendo o nome do nosso filho. —Julieta diz ruborizada e então sorrio.
—Ema, minha filha! —Digo entre risos. —Não tome o tempo de Julieta.
—Ela não está incomodando, mas ajudando. —Julieta garante. —Me ajude ir até o escritório.
—De jeito nenhum. —Digo preocupado.
—Eu não posso ficar aqui me dando ao luxo de...
—Descansar. —Completo. —Mas se é tão importante assim para você, eu tenho uma solução.
—Qual? —Julieta pergunta curiosa.
—Se você não pode ir até o trabalho, o trabalho vem até você.
(...)
—Eu não acredito nisso. —Digo após trazer todos os documentos que Julieta pediu. —Eu estava brincando quando disse sobre trazer o trabalho até você.
—Eu não. —Sorriu unicamente para mim, corando seu rosto. —Mas está me fazendo bem. É isso ou tricotar.
Olho para Julieta e sinto uma alegria inexplicável somente em tê-la perto de mim. Queria explicar para ela todo meu amor, mas conhecendo a mulher da minha vida sei muito bem que irá apenas acreditar quando meu amor for baseado na razão. Mas razão é o oposto do amor, não há como explicar
—Julieta. —Chamo por ela, tirando os papéis de suas mãos e me sentando ao seu lado da cama. —Precisamos conversar. —Falo seriamente e Julieta olha para mim com um misto de curiosidade e temor. —Nós vamos ter um filho e todos sabem do nosso relacionamento. Então eu pensei que já está na hora de sermos uma família.
—Nós já somos. —Ela parece não atender.
—Perante a lei. —Me faço entender de uma vez por todas.
—Casar? —Julieta pergunta confusa e um pouco irritada. Eu não consigo entender esse temor de Julieta quando falo sobre nosso casamento. —Parece incorreto.
—Incorreto? —Pergunto confuso. —Eu e você já somos um só. Pensei que estivesse ansiosa para um pedido de casamento, mas...
—Você quer me prender com um casamento por causa dessa criança? —Julieta pergunta incrédula. Me assusto com sua maneira de pensar, mas evito dialogar para não lhe aborrecer. —Você é igual a ele. Como eu fui tão cega? —Pergunta tomada pela indignação.
—Ele? —Pergunto confuso. —Quem, Julieta? —Mais uma vez fico desconfiado deste mistério na vida de Julieta. É notório sua angústia perante minha pergunta, mas ela sabe disfarçar mais uma vez. —Você pode confiar em mim, sabe disso. Mas há um grito preso na sua garganta e por mais que disfarce, eu ouço. —Seu orgulho mais uma vez foi exonerado. —É esse grito, esse medo que te impede de falar para mim algo que te machuca. Vamos, Julieta... —Peço preocupado com ela.
—Eu...—O chão parece não estar sob seus pés e sua voz embargada me deixa mais preocupado. —Eu não... —Julieta está perdida em seus pensamentos pela primeira vez. —Eu não quero falar sobre isso.
—Isso? —Indago estimulando que ela fale.
—Eu não quero me casar com você, Aurélio. Não quero e não posso. —Julieta revela.
—Somos desimpedidos, Julieta. —Insisto.
—Você não ouviu? —Pergunta aborrecida. —Eu não quero me casar com você.
Julieta ainda me julga um inútil apesar de ter recuperado minha honra e conforto de minha família, essa é a explicação. Tanto ela quanto eu ganhamos as alcunhas de soberanos do café e no entanto isso nos separa. Julieta é minha concorrente no ramo dos negócios. —Quanta ironia. Eu que a ajudei contra Xavier e ela quem me ensinou como negociar... Agora somos concorrentes. É outra explicação para ela não querer esse casamento. —Nunca chorei por mulher alguma, não será agora que irei fazer isso. Meus olhos estão vermelhos, presumo. Todavia, não dou esse gosto para Julieta.
—Como quiser. —A minha decepção não foi maior que minha tristeza. Saio do quarto sem olhar para Julieta, mas pensando no quanto ela está pisando em mim.
Ema
"Aquele dia foi o pior de toda minha vida, mesmo que tenha sido o dia em que concebi Camilo. Minha vida era perfeita e eu não sabia... Me lembro das diversas vezes que meu pai me levou até a fazenda Bittencourt quando o dono da casa precisava de alguém para cuidar de seu jardim. Haviam várias pessoas para fazer isso mas Osório Bittencourt escolheu Júlio Sampaio, o meu pai. A minha desgraça foi ter sido seduzida, bastou Osório se aproveitar de minha inocência."
—Ema? —Era Camilo quem chamava por mim enquanto leio o diário de Julieta. Escondo-o rapidamente e enxugo minhas lágrimas. —Olhe para você. Minha mãe ficaria feliz em ter uma filha no lugar dela.
—Ora, Camilo. —Digo nervosa. —Julieta se orgulha de você também.
—Não minta para você mesma. —Camilo diz sincero e sorrimos. —Ela está linda, não está?
—A gravidez realçou sua beleza. —Digo pensativa. —Mas agora que seremos os irmãos mais velhos...
—Eu não quero nem imaginar Julieta Bittencourt... Ou melhor, Julieta Sampaio vendo seu filho caçula em uma de suas travessuras. —Camilo brinca e mais uma vez rimos.
—Você lembra de seu pai? —Minha pergunta quase não foi feita ao lembrar das palavras de Julieta.
—Muito pouco. —Camilo respondeu pensativo. —Quase nada. Minha mãe era mais presente que ele.
—Vamos, Ema. —Meu pai chama por mim, eufórico.
—Para onde? —Pergunto confusa.
—Para casa. —A resposta de meu pai me surpreendeu.
—Eu quero ficar mais um pouco. —Digo. —É melhor alguém ficar com Julieta.
—Parece nervoso. —Camilo nota a inquietação de meu pai.
—Imaginação sua. —Meu pai responde. —Sendo assim, volto sozinho.
(...)
As palavras não saem de minha mente. Meu choro é de medo após ler a confissão de Julieta naquele diário. Olhando agora para ela parece que nada daquilo que estava escrito aconteceu. Julieta é uma mulher reservada e agora entendo o motivo disso, mas a minha vontade de chorar é maior que a admiração que eu tenho por ela ter criado Camilo após a violência que sofreu. —Ela olhou para mim, finamente esquecendo os papéis em suas mãos. Tento disfarçar minhas lágrimas, evitando que apareçam mas é inútil. —A raiva me consome somente em cogitar a hipótese de ter conhecido Osório Bittencourt. Felizmente este homem morreu ou não sei como eu reagiria perto dele.
—Eu sei, Julieta. —Digo chorando, sentada de frente para ela na cama.
—Sabe? —Julieta pergunta confusa.
—Eu li. —Digo mostrando o diário dela. —Eu li sobre sua infância até s adolescência. —Seus olhos estavam marejados e seu rosto pálido. —Sobre o pai de Camilo.
—Ema... —Julieta fica espantada comigo. —Não deveria ter feito isso.
—Eu fiz e nem sei qual o motivo, mas eu li tudo. Eu me deixei levar pelas histórias e quando notei... —Falo nervosa, tropeçando em minhas lágrimas e palavras. —É essa sua dor. —Essa altura nós duas estávamos chorando. —Essa é sua raiva, não é? Por isso Darcy encontrou você desfalecida no cemitério.
—Ele contou isso? —Pergunta incrédula.
—Sim, Darcy me contou sobre o dia que você desmaiou quando foi visitar o túmulo de Osório. —Revelo. —Eu sei que não temos nenhum parentesco, Julieta. Mas você pode confiar em mim, contar para mim. —Prometo e me ofereço para um abraço.
Repeti várias vezes que estaria com ela enquanto nos abraçamos fortemente. Certamente ninguém fez isso por Julieta quando ela mais precisou. Mas agora eu estou com ela e não vou permitir que esse seu trauma impeça Julieta de ser feliz. —Suas lágrimas molhavam meu ombro, assim como eu molhava o seu.
—Mas agora não é momento para chorar. —Digo quando toco em sua barriga. —Você não pode se emocionar.
—Não conte para ninguém. —Julieta pede rouca. —Eu não quero que ninguém saiba.
—Calma, Julieta. —Peço preocupada. —Eu não vou contar para ninguém. —Prometo.
—Esse segredo é minha vergonha, Ema. Já imaginou como vão olhar para mim?—Pergunta enojada. —Vão me culpar como de praxe. E Camilo? Meu filho é muito sensível, Ema. Não vai suportar saber que o próprio pai usou da força comigo para que ele...
—Chega. —Peço ao notar que Julieta está se exaltando. —Agora você tem Camilo novamente. Você tem esse bebezinho que cresce dentro de você. —Ela sorriu e olhou para si mesma. —E tem a mim. —Garanto segurando suas mãos. —Uma enteada metida à filha. —Brinco fazendo-a rir após tantas lágrimas. —E meu pai.
—Eu não tenho certeza. —Julieta diz desanimada. —Seu pai propôs um casamento e eu recusei.
—Mas... —Não consigo falar absolutamente nada por não entender.
—Eu não vou me casar obrigada. —A rainha do café afirma. —Não pela segunda vez.
—Aurélio Cavalcante não é Osório Bittencourt. —Afirmo para a rainha do café. —Meu pai não seria capaz de obrigar você, nem outra mulher como o pai de Camilo fez.
—Ele me afirmou que o casamento seria feito por isso. —Julieta diz nervosa, mas rapidamente volta a ter calma.
—Mas é assim que tem que ser segundo a igreja. —Digo. —Você melhor do que ninguém sabe disso. Ademais, vocês se amam. Ou estou enganada?
—Não, Ema. Eu amo seu pai e também amo tudo que venha dele. —Julieta revela e me sinto mencionada. —Mas o meu maior medo é sofrer o mesmo calvário novamente. Todavia, desta vez por alguém que amo. —Finalmente consigo entender Julieta. —E eu não vou suportar ser tão inferiorizada em um casamento onde amo Aurélio. Eu vou amá-lo e respeitá-lo sim, mas vou me martirizar enquanto isso. Eu não me vejo casada novamente, nem ao lado dele como esposa e sendo associada a ele como um dia fui com Osório.
—Eu entendo você. —Afirmo. —Mas eu tenho certeza que meu pai não. Você não contou para ele, Julieta. Meu pai vai pensar mil coisas, menos isso.
—É melhor que ele não saiba. —Julieta garante amedrontada.
—Você mudou de dentro para fora, na aparência... —Digo. —Mas esse seu medo ainda está prejudicando você. —Minha afirmação assustou-a. —Eu estarei no quarto ao lado, se precisar de alguma coisa basta chamar. —Aviso risonha. —Boa noite.
Me retiro do quarto de Julieta e vou para o meu, todavia não tenho sono ou cansaço suficientes para dormir. Estou eufórica e nervosa, pensando no futuro de meu pai e de Julieta. Meu pai deve estar confuso com as atitudes de Julieta e lhe dou razão. Também dou razão para o medo de Julieta em não contar a verdade. Todavia eles irão perder tempo com esse empecilho. Eu preciso fazer alguma coisa para ajudar os dois. Mas a verdade é que a situação é delicada e não sei como ajudar.
—E minha mãe? —Camilo pergunta quando apareço na sala.
—Deixei Julieta no quarto, ela precisa descansar. —Afirmo desconfiada.
—Eu precisava falar com ela mas é melhor deixar para amanhã. —Camilo fala ansioso. —Ela realmente precisa de tranquilidade.
—E ajuda. —Digo pensando no trauma de Julieta.
—Ela já escolheu o nome? —Camilo pergunta ansioso sobre o nome de nosso irmão.
—Não sabemos se é menino ou menina, Camilo. —Digo entre nossos risos.
—E se forem dois? —Pergunta sugestivo. Nos assustamos com o barulho dos trovões e a tempestade que começa.
—Você se assustou. —Camilo então sorriu de mim.
—Ora, ora! Você também! —Digo incrédula. —Eu não gosto de chuva.
—É uma tempestade. —Camilo afirma nervoso. —Mas estamos seguros aqui e não precisamos de nada ou ninguém que esteja lá fora.
Somos surpreendidos com a presença de Julieta na ponta da escada, com uma mão no ventre e outra se apoiando na parede. Seu rosto está mais pálido que o habitual e a dor é notória em seu semblante. A claridade dos relâmpagos assusta Julieta. E antes que eu ou Camilo falemos algo, Julieta grita de dor e volta a olhar para nós, afirmando àquilo que já presumimos com o seu estado.
—Vai nascer.
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