Love and Resistance
5 Júlia
Notas iniciais
O céu parecia cair sobre o Vale do Café, mas essa tempestade não era nada diante dos gritos que Julieta dava em seu quarto. Por mais que Ema e Susana deixassem claro o quanto é perigoso esperar, Julieta afirma que não irá entrar em trabalho de parto. —Mas a criança lhe rasga de dentro para fora com força. É um peso que está prestes a cair e Julieta nega que esteja sentindo dor. —Aurélio prometeu estar com ela quando essa criança viesse ao mundo, ele terá que cumprir sua promessa. Mas Camilo parece não voltar nunca com Aurélio, a tempestade está atrapalhando o nascimento de seu filho ou filha e isso parece ser uma ironia.
—Essa criança não nasce até Aurélio chegar. —Julieta afirma mais uma vez para Ema e Susana. As duas se olharam assustadas com o decreto de Julieta, todavia não obrigariam a rainha do café.
—Me chamou dona Julieta? —Olegário pergunta e fica assustado ao ver Julieta prestes a ter seu filho.
—Vá até a fazenda de Aurélio. —Ela ordena ofegante e dolorida. Acaso seu filho tem um punhal em mãos? É o que parece.
—Você já mandou Camilo. —Susana diz nervosa.
—Mas ele não voltou até agora! —Julieta responde nervosa e brava. —Nem ele, nem Aurélio chegaram! —Exclamou gritando de dor logo após.
—Eu vou procurar um médico, uma parteira ou qualquer outra pessoa que ajude nesse parto. —Olegário sugere, mas é surpreendido por Julieta.
—Essa criança não nasce sem Aurélio aqui. —A rainha do café decreta, assustando todos. —Vá logo antes que eu acabe com você! —Mesmo quase desfalecida, Julieta é intempestiva. A dor estava apenas aflorando sua angústia e transformando em raiva.
Aurélio cuidava das rosas que Julieta mais gostava na estufa de sua fazenda. O mundo parecia cair lá fora em forma de água, mas o seu mundo estava ardendo em chamas com as dúvidas sobre a rejeição de Julieta. Ela não gosta de tempestades, lembrou do medo da amada. Mas rapidamente voltou suas atenções para as rosas vermelhas. —Elas lembravam Julieta e sua personalidade, mas também simbolizam o amor deles. Lembrou da maciez de sua pele e todas as vezes que a tocou enquanto sua mão passeava pelas rosas.
—Inferno. —Aurélio reclama quando sente um espinho furar seu dedo, dando-lhe um calafrio por todo o corpo. —Julieta. —Seu pensamento foi unicamente nela. Acreditava em pressentimento e certamente teve um.
—Aurélio! Aurélio! —Parecia ser Camilo gritando por seu nome. Assustou-se quando viu o príncipe do café entrar na estufa molhado e eufórico. —Largue tudo agora mesmo.
—Algo aconteceu com Julieta, não foi?—Pergunta preocupado. —Ela teve outro sangramento? —Seu coração batia tão forte quanto o filho que desejava nascer e sequer sabia.
—Vai nascer.—Camilo Bittencourt revela sem fôlego. —Seu filho vai nascer e minha mãe disse que só entra em trabalho de parto com você ao lado dela. —Aurélio arregalou os olhos e ficou sem chão com a notícia.
—Meu filho vai nascer. —Ele disse repetidas vezes até acreditar no acontecimento e finalmente correr juntou com Camilo. —Meu filho irá nascer hoje!
A dor é mais forte que dá primeira vez, ela pensou. Camilo nasceu na época certa, essa criança não. Algo faz Julieta tremer de medo, esse algo é receio. Nunca sentiu medo como sente agora. Também nunca esperou ter um segundo filho, mas aqui está ela se contorcendo de dor enquanto evita chorar. Nenhuma parteira irá sair de sua casa durante essa tempestade, nenhum médico também. Essa criança escolheu um péssimo momento para nascer, mas se for a vontade de Deus, que assim seja.
—Eu não aguento. —Julieta diz nervosa e cansada, deitando na cama. —Nenhum deles voltam. —Alega preocupada enquanto tenta se acalmar.
O sentimento de culpa em ter mandado Camilo até a casa de Aurélio lhe tomou o coração. Tinha vontade de chorar, mas não sabia se era de dor ou remorso. Estava com medo da criança não resistir, ainda é tão cedo para ela nascer. Mas não poderia impedir essa vontade, é algo que ninguém pode impedir. Quando um nascimento está marcado, nada ou ninguém pode impedir. Mas ela queria sentir seu filho por mais tempo, pelo menos completar mais um mês. Todavia seu filho ou filha escolheu nascer durante uma tempestade. Sorriu imaginando que talvez fosse da personalidade da criança fazer surpresas, mas seu sorriso evaporou quando viu sangue em suas mãos.
—Pelo amor que sente por mim, Aurélio. Volta para mim... Para nós. —Julieta pediu solitária. —Eu estou tendo seu filho e você não está aqui! —Disse na esperança que ele pudesse ouvir.
—Ela não vai aguentar, Ema. —Susana garante amedrontada pelo estado de Julieta. Porém Ema não ouviu Susana, estava orando mesmo que nervosa. —Só ela sabe a dor que está sentindo.
—Meu Deus, ajude Julieta colocar essa criança viva neste mundo. E eu prometo que quando ela nascer nunca irei permitir que se desvie do caminho de teu caminho.—Ema promete, chamando atenção de Susana.
—Chega, Julieta. Se você quer segurar esse filho nos braços, tem que ter agora. —Susana diz nervosa, mas Julieta recusa. Lavou as mãos e pegou os panos, mas Julieta negou novamente.
O cavalo estava assustado com os trovões, mas Aurélio segurava as rédeas com toda sua força e chicoteava o animal para que ele não parasse de correr. Camilo vinha logo atrás acompanhado de Olegário, ambos correndo para alcançar Aurélio. A tempestade parece ter sido mandada para impedir que o botânico chegasse na fazenda de Julieta. —Por mais que estivesse magoado com ela não poderia deixá-la sozinha neste momento. Prometeu que estaria com ela e assim seria. Ao menos pensava que chegaria a tempo de segurar sua mão e permanecer ao seu lado, ou tentaria fazer isso se um raio não lhe tirasse a vida. —Mas não seria covarde para voltar, seguiria em frente.
—Eu não achei ninguém que pudesse fazer o parto. —Petúlia disse para Ema, mas olhando para Susana. Ela estava mentindo, era tudo um plano para a criança não nascer. Esse filho vai unir Aurélio e Julieta, mas tal coisa não pode acontecer. Essa criança deve morrer, Susana pensou.
—Ela não quer ter a criança. —Darcy falou para seu pai, distante do quarto de Julieta. —Ela quer esperar por Aurélio.
—Ela não vai aguentar esperar. —Lorde Williamson garante, assustando Darcy.—Julieta é uma mulher forte, mas ninguém é tão forte como a morte.
—Não me obrigue, Julieta. —Ema diz nervosa, mas Julieta continua recusando. As mãos de Ema tremiam de medo e sua cabeça parecia prestes a explodir.
—Nenhuma criança vai nascer até Aurélio chegar. —A rainha do café insistiu gritando de dor logo em seguida. Seus gritos eram abafados com o som dos trovões, mas sua dor não.
Sentia tudo girar ao seu redor e seu corpo tremer de tanta dor. Mas era sua vontade que Aurélio estivesse ao seu lado e assim faria, mesmo que o mundo estivesse desabando lá fora. Não poderia impedir o nascimento deste filho, ela sabia disso. Mas poderia matá-lo sem se dar conta enquanto esperava por Aurélio...
—Ele não vem
—Disse melancólica para si mesma. Aurélio saiu decepcionado com ela, seria compreensível ele não vir vê-la.
—JULIETA! —Aurélio gritou enquanto retirava a capa e subia as escadas quase tropeçando nos próprios pés.
—Pai! —Ema chamou por ele, rindo de alegria e alívio. —Faça alguma coisa, pelo amor de Deus. Ela disse que não teria a criança até o senhor chegar. —Ema afirma nervosa.
—Quanto tempo ela está assim? —Aurélio perguntou eufórico.
—Desde o começo da noite. —Ema respondeu aflita. Aurélio olhou para a filha assustado, afinal já era muito tarde. —E não achamos ninguém para fazer esse parto. —Revela.
O filho do barão entrou desesperado no quarto de Julieta, assustando Susana. A rainha do café sorriu enquanto chorava de dor deitada na cama, pensava que estava delirando quando viu Aurélio na sua frente. Mas bastou suas mãos se encontrarem para Julieta acreditar que ele estava com ela como prometeu. —As mãos da rainha do café estavam gélidas e Aurélio notou mas preferiu acreditar que era consequência da umidade. Mas rapidamente viu sangue e olhou par Julieta. —Estava tão pálida e gélida... Estava ardendo em febre e isso não era nada bom.
—Aurélio? —Chamou ainda descrente.
—Eu prometi e vou fazer. —Aurélio disse antes de beijar sua mão. —Estou aqui, Julieta.
—Não há quem venha fazer o parto. —Julieta diz nervosa e melancólica. O gosto amargo do fracasso fez a grávida chorar.
—Você já teve um filho e eu também vi uma filha nascer. —Aurélio fala lembrando do nascimento de Ema. —Faremos isso juntos.
—Você? —Susana perguntou incrédula, mas Aurélio e Julieta não escutaram. Então se retirou deixando-os sozinhos.
Suas mãos estavam unidas quando Julieta chorou de alegria, assim como Aurélio. Finalmente o fruto desse amor iria nascer. Mesmo que não fosse da maneira como Aurélio queria. Aquele pequeno anjo estava pedindo para nascer e essa era a vontade de Deus, seus pais sabiam muito bem disso. Numa noite tão tempestuosa nasceria o filho de Julieta e Aurélio.
—Eu não queria que você estivesse vendo isso. —Julieta disse envergonhada, mas Aurélio negou rindo.
—Não há vergonha alguma em trazer um filho ao mundo.—Aurélio afirma. —E não há nada que eu não tenha visto. —Sua brincadeira fez Julieta rir, mesmo que fraca.
Estavam juntos como os companheiros que são, trazendo uma vida e sendo responsáveis por ela. Os gritos de Julieta eram estridentes, competindo com os trovões que pareciam sacudir a terra. Sabia do risco que corria entrando em trabalho de parto tão cedo, mas seu filho desejava nascer. Riu imaginando como seria o rosto da criança e sua personalidade. —Seu coração iria bater fora de seu corpo, era essa criança quem levaria seu nome assim como Camilo.
—Vamos, Julieta. —Aurélio incentiva mesmo que Julieta esteja cansada.
Se quisesse ter esse filho nos braços teria que fazer o máximo de força possível e até mesmo impossível. A imbatível rainha do café estava chorando de alegria mesmo que a dor lhe consumisse por completo. Mas não há felicidade sem dor para uma mãe, ela sabia disso. —Aurélio mandava ela respirar profundamente e segurava-a trêmulo, mas sorria para mesmo que o fluxo de seu sangue não parasse. —Algo estava errado, todavia não alertou-a.
—Deus é como o ar que respiramos, não podemos vê-lo mas precisamos dele. —Ema dizia para Camilo. —Ele está presente em cada ser nesta terra. —Falava enquanto ouvia seu pai pedir para que Julieta fizesse força. —Em cada vida que nasce e acaba. Por isso, antes de julgar Deus, tente sentir sua presença. —Disse pensando unicamente na criança que lutava para nascer.
—Eu consigo sentir Ele agora. —Camilo afirmou enquanto chorava.
—Eu também. —Ema garantiu indo abraçar o príncipe do café, ambos chorando.
A vida tocou sua melodia na casa, alertando todos que um milagre acontecia durante aquela tempestade.—Era um choro alarmante que simbolizava a vida enquanto Julieta chorava de alegria. Olhando para o bebê nas mãos de Aurélio que parecia chorar de felicidade pela vida que segurava. —Ergueu o anjo para que Julieta olhasse, sorrindo como uma criança segurando outra. Seu coração batia fora de seu peito, pensou emocionada.
—Nasceu. —Todos disseram em um coro de felicidade do lado de fora do quarto.
—É menina. —Aurélio revela o sexo da criança enquanto ambos riem. Julieta encostou seu corpo nos travesseiros de tão cansada que estava mas sorrindo unicamente para Aurélio.
—Minha filha. —A rainha do café disse segurando a filha prematura em seus braços pela primeira vez.
—Você conseguiu. —Aurélio disse antes de beijar o rosto de Julieta. —É nossa filha, Julieta. —Falou entre risadas. —Nossa menina. —Somente nossa, Aurélio pensou emocionado. Apenas minha, Julieta decretou mentalmente.
—Bem-vinda, minha filha. —Julieta deu as boas vindas para a sua filha caçula. —Seja muito bem-vinda e abençoada. —Desejou antes que seu gemido de dor deixasse claro que ela não está bem.
—Julieta? —Aurélio chamou-a, mas ela foi perdendo os sentidos, obrigando Aurélio segurar sua filha. —Julieta! —Chamou nervoso ao ver a rainha do café fechar os olhos. —Ema! Camilo! —Chamou completamente desesperado. Sua filha caçula chorava em seus braços enquanto olhava desesperado para Julieta.
—Papai? —Ema atendeu seu chamado e então entendeu o nervosismo do pai. Segurou sua irmã pela primeira vez, mesmo que sem jeito, olhando para Julieta. Precisa de algo para vestir a criança, mas estava confusa. Todavia encontrou uma manta vermelha próximo ao berço.
—A minha mãe. —Camilo disse atordoado, mas abraçou Ema novamente. Agora olhando para sua irmã mais nova nos braços de Ema após ser coberta por uma manta vermelha.
Camilo tentava não chorar para confortar Ema e acalmar o bebê, mas estava prestes a chorar em ver Aurélio fazer inúmeras massagens cardíacas em Julieta. —Não suportava a ideia de que a rainha do café desfaleceu enquanto dava a vida por uma filha. Não acreditava que aquela mulher forte não resistiu, tão pouco gostaria de olhar. —Abraçou suas irmãs como se fosse um irmão mais velho. Sim, Ema agora era como sua irmã também. Estavam unidos pela criança que acabava de nascer durante aquela tempestade. Uma única vida uniu várias outras.
"Eu fui feito para você. Você foi feita para mim, Julieta."
Ema
A tempestade se foi e com ela, a noite. Não consegui dormir enquanto balanço minha irmã nos braços, a mesma coisa fez Camilo durante o tempo que esperamos Rômulo chegar. A tempestade deixou seus estragos pela cidade e um grande caos nas estradas, por Isso ele demorou tanto para chegar. Ainda estou assustada com o que aconteceu, mas feliz por ter ganhado uma irmã. No entanto ver Julieta inerte na cama é angustiante. —Seu semblante me assusta e seu sono profundo não permitiu que meu pai saísse um instante sequer daquele quarto. Já perdi as contas de quantas vezes orei, talvez esteja errando em minhas súplicas de tão cansada que estou. —Choro ao ver minha irmã acordar e olhar para tudo. É uma vida que está nos meus braços e sinto o poder disso.
—Sua primeira manhã. —Camilo diz, também chorando de emoção. —Os olhos. —Disse incrédulo.
—São verdes azulados como os de meu pai. —Digo emocionada. —Ela herdou os olhos de nosso pai.
—Ela acordou. —Charlotte avisa quando entra no quarto. Ela? Julieta!
(...)
—Você nos assustou. —Camilo diz nervoso e aliviado em ver Julieta acordada.
—Foi uma estafa. —Rômulo revela. —Ter adiado o nascimento lhe cansou.
—Passaria tudo novamente. —Julieta afirma rindo unicamente para minha irmã.
—Melhor não. —Meu pai brinca e então rimos.
—Você teve a honra e coragem que poucos homens tem, Aurélio. —Camilo fala orgulhoso por meu pai ter feito o parto de nossa irmã.
—Como ela vai se chamar? —Meu pai pergunta para Julieta. Chegou o momento de dar um nome para minha irmã.
—Júlia. —Julieta responde sorrindo unicamente para Júlia. —Júlia Catarina. —Olhei para meu pai completamente incrédula. —Em homenagem a Júlio Sampaio, meu pai. E à Catarina Cavalcante, sua mãe. —Julieta revela suas homenagens.
—Saúde à Júlia Catarina. —Rômulo deseja verdadeiramente.
—Mas, minha irmã está bem? Ela é tão prematura. —Camilo fala preocupado.
—A princesa do café é forte mesmo que prematura. —Rômulo afirma fazendo Julieta sorrir ao ouvir chamarem Júlia de princesa do café. —Mas não devemos extrapolar. Nada de visitas por enquanto até que Júlia esteja com o peso ideal. A imunidade dela é muito baixa e não deve receber tantas visitas.
—A corte deve esperar. —Brinco.
Julieta
O falatório cessou finalmente e agora posso olhar para minha pequena Júlia com mais atenção. Seus olhos são de um verde quase azulado como os de seu pai. É indescritível sentir o seu cheiro e ver o quanto ela é pequena e frágil. —Nem mesmo quando Camilo nasceu tive tanto receio em segurar um recém nascido. Todavia, Júlia é uma recém nascida prematura e merece mais atenção. Tão pequena e tão valente por lutar pela sua vida e querer nascer antes do previsto. —Não sinto meus braços cansarem enquanto ela dorme tranquila,
—Júlia Catarina. —Aurélio chama por nossa filha enquanto ela dorme. —Um nome forte para uma recém nascida tão frágil.
—Mais uma mulher neste mundo de homens. —Digo pensativa sobre o futuro de Júlia e no preconceito que ainda existe com as mulheres.
—Júlia será como você, Julieta. —Aurélio garante orgulhoso. —Eu preciso ir até o cartório. —Avisa.
—Cartório? —Pergunto desconfiada. Acho que essa ida de Aurélio até o cartório é um meio de registrar Júlia como sua filha, tendo total direito sobre ela.
—Nossa filha precisa de um registro. —Aurélio garantiu risonho. —Eu volto o mais rápido que puder. —Disse antes de acariciar meu rosto e beijar a minúscula mão de Júlia. Eu estou certa em meu pressentimento. Aurélio vai mesmo registrar Júlia como sua filha e isso não pode acontecer.
—Desculpe, eu só queria saber se dona Julieta estava bem. —Olegário diz assim que se encontra com Aurélio na porta.
—Com licença. —Aurélio pede como se não estivesse vendo Olegário em sua frente.
—Vem da casa de chá? —Pergunto para Olegário.
—Sim, e acabo de saber que a fazenda Olho D'agua está para ser leiloada. —Olegário relata.
—É bom saber disso. —Digo ambiciosa.
—A senhora está bem? —Olegário perguntou curioso. —A princesa do café tem mesmo os olhos do pai?
—Claro que tem. —Respondo risonha. Ele estava na porta, olhando de longe para Júlia. —Eu preciso que você vá até o cartório, Olegário. —Tenho uma ideia e preciso ele seja rápido.
—Cartório? —Olegário perguntou curioso.
—E você precisa ser rápido. Chegar antes de Aurélio. —Ordeno. —Você vai me representar naquele cartório, basta apenas que me ouça com atenção o que deve fazer.
—Sou todo ouvidos. —Olegário fala pronto para ouvir.
(...)
—Quem é a coisa gostosa da mãe? Cadê? —Pergunto com voz suave enquanto troco a roupa de Júlia com cuidado.
—Perdi a senhora para minha irmã. —Camilo diz emocionado e rindo em seguida.
—Claro que não. —Nego. —Não fique na porta. Você não é um estranho.
—Eu soube que minha irmã não pode receber visitas. —Camilo acaba me lembrando.
—Então vou até você. —Digo me levantando rapidamente. —Você está magro.
—Talvez seja o trabalho. —Camilo supõe olhando para os lados.
—Eu estive pensando, Camilo. Eu errei ao atrapalhar sua busca por emprego. —Revelo assustando meu filho. —Você não merece ter a vida atrapalhada por mim.
—Eu não deveria acreditar em seu arrependimento. —Camilo afirma seriamente. —Mas estou tão feliz com a chegada de Júlia que não consigo sentir nenhum sentimento ruim agora. —Sorrimos e nos abraçamos forte.
—Camilo? —Chamo por meu filho quando ele se afasta de mim sentindo dor. —Camilo! —Me assusto vendo meu filho desmaiar de dor.
Aurélio
Não há outro assunto na cidade que não seja o nascimento de Júlia. Como eu gostaria de trazê-la para a cidade toda inteira vê-la. Uma pena ter que esperar mais alguns meses para ela finalmente ser apresentada para todos. —Enquanto vou até o cartório, passo pela igreja e imagino o dia do batizado de Júlia. —Sorrio imaginando minha filha sendo batizada e em seus possíveis padrinhos. Mas meu sorriso se desfaz quando entrei no cartório e vejo Olegário novamente. Como ele chegou tão rápido?
—Você aqui? —Pergunto curioso.
—A rainha do café mandou que eu viesse. —Olegário responde.
—Julieta não precisava mandar você para me ver registrar Júlia. —Digo irritado.
—O senhor não precisa fazer isso. —O subalterno afirmou mostrando uma certidão de nascimento em mãos. —A rainha do café pediu para que eu mesmo fizesse o registro de sua filha. Aliás, não vejo seu nome aqui.
—Como não? —Indago furioso. —Vai me dizer que é o seu nome que está ai? —Pergunto pleno de ironia.
—Deus me livre ser pai, mas quem me dera ter um filho com a rainha do café. —Olegário debochou de mim, sentindo o peso de meu punho fechado em seu rosto. —Deveria fazer isso com o pai da pequena Júlia.
—Que brincadeira é essa? —Pergunto temendo sua resposta. Olegário apenas abriu uma pasta e me entregou o documento.
—A rainha do café pode não assinar mais como Julieta Bittencourt, mas a lei não aceita tal coisa. Afinal, uma vez casada ela leva o sobrenome do marido. —Olegário lembra.
—Júlia Bittencourt. —Digo o nome de minha filha e sinto a raiva tomar conta de mim.
(...)
A decepção mais uma vez tomou conta de mim. Começo a achar que talvez Julieta tenha mesmo me enganado, talvez Júlia não seja minha filha. Mas e dar o nome de minha mãe para a menina? Eu não consigo entender qual a razão de Julieta brincar com meus sentimentos. —As rosas vermelhas de minha estufa morreram simbolicamente. —Quem sabe eu não deva esquecer Julieta? Afinal, ela parece não me querer por perto.
—Papai. —Ema chamou por mim enquanto eu estava perdido em meus pensamentos. —Eu acabei de saber que uma fazenda está para ser leiloada aqui no Vale e pensei que poderia ser importante para o senhor.
—Com certeza é, mas agora não tenho humor para isso. —Digo frustrado.
—O rei do café desistindo tão rápido? —Ema pergunta em tom de brincadeira. —Esqueceu que agora tem uma filha para educar?
—Tem razão. —Digo mesmo que na dúvida sobre Júlia. Mas não há como duvidar. Júlia tem meus olhos e eles não mentem. —Eu preciso voltar ao trabalho.
—É assim que se fala. —Ema fala animada, beijando meu rosto. —Parece triste, papai.
—Estou decepcionado. —Digo.
—Com quem? —Minha filha pergunta sentando ao meu lado.
—Eu estava indo registrar sua irmã. —Começo a falar, mas a raiva mais uma vez se apossa de mim. —Mas Julieta se antecipou.
—Mas Julinha está registrada e isso é o que importa. —Ema concluiu. Sorrio ao ouvi-la falar da irmã com carinho.
—Sim, Júlia está registrada. —Afirmo. —Júlia Bittencourt.
—Mas... —Ema não consegue falar mais nada. —Eu pensei que Julieta não usasse mais o sobrenome do crápula do Osório.
—O que é isso, minha filha? Não é culpa dele. Ademais, Osório Bittencourt está morto e merece respeito. —Digo exaltado.
—Respeito? O senhor quer mesmo que minha irmã leve o nome de um... —Ema parou de falar imediatamente após ver minha atenção. —Esqueça, afinal Camilo também leva o nome dele. Mas Júlia não é filha dele!
—Também não deve ser minha. —Minha dúvida assustou Ema. —Julieta deu o entender várias vezes e agora isso.
—Eu não consigo entender o motivo disso. —Ema afirma nervosa. —Se Julieta não quer mais nada com o senhor, entendo. Mas ela não tem o direito de separar um pai de uma filha.
—Eu estou confuso. Não quero duvidar, mas Julieta me obriga.
—Ela tem seus olhos, papai. —Ema ressalta.
—Aquela menina é minha filha, Ema... —Afirmo e minha filha mais velha sorri. —Eu não posso obrigar Julieta a me amar, mas não vou permitir que ela tire minha filha de mim.
—Vai tirar Júlia da mãe? —Ema pergunta incrédula.
—Se preciso farei isso...
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