Notas iniciais
Oi, gente! Estou nervosa ao extremo neste momento... Quero postar e sair correndo o mais rápido possível, mas também quero saber o que cada um achou. Bom, sem mais delongas eu apresento o primeiro capítulo de "Love and Resistance" intitulado "Parvus Vitae" que significa "pequena vida".

"Vossos Olhos, Senhora, que Competem
Vossos olhos, Senhora, que competem
Com o Sol em beleza e claridade,
Enchem os meus de tal suavidade,
Que em lágrimas de vê-los se derretem.
Meus sentidos prostrados se submetem
Assim cegos a tanta majestade;
E da triste prisão, da escuridade,
Cheios de medo, por fugir remetem.
Porém se então me vedes por acerto,
Esse áspero desprezo com que olhais
Me torna a animar a alma enfraquecida.
Oh gentil cura! Oh estranho desconcerto!
Que dareis c' um favor que vós não dais,
Quando com um desprezo me dais vida?"
Luís Vaz de Camões

Julieta
Vale do Café. Quem diria que esse lugar mudaria a minha vida... É aqui onde Aurélio estava todos esses anos, como se estivesse escondido de mim para só agora eu encontrá-lo. —Com ele eu sei como é ser admirada e amada, mesmo que eu tenha medo de perdê-lo por alguma aventura da vida. —Ele derrubou todos os meus muros e certezas com seu amor pouco a pouco. Fiquei amedrontada com a possibilidade de demonstrar fraqueza depois de tanto tempo, todavia assumo que tenho medo em me ferir novamente.


—Julieta, você está me ouvindo? —Susana chama por mim enquanto penso em Aurélio. —Claro que não estava. —Olho tudo ao meu redor e noto que ainda estou na mesa tentando me alimentar.


—Me distraí. —Afirmo. Olho para os alimentos em meu prato, mas sinto repulsa.


—Faz alguns dias que você está assim. —Susana percebe. —Algum problema? —Pergunta. Antes que eu responda uma vertigem me faz perder os sentidos. Tudo parece girar ao meu redor enquanto sinto frio.


—Susana.—Chamo-a em um sussurro. —Não estou me sentindo bem. —Revelo. —Chame um médico. —Seus olhos transmitiam medo ao ouvir meu pedido.


—Você está pálida. —Ela falou ao levantar-se assustada.


(...)


—Pode sair, Susana. —Ordeno assim que Rômulo, filho do Almirante, prepara-se para me examinar.


—Com licença. —Susana pede assim que olho para o jovem médico.


—Vem se alimentando bem? —Ele perguntou antes de verificar o meu pulso.


—Tentando. —Respondo.


—Algum problema na alimentação? —Rômulo pergunta.


—Quase todos os dias fico enjoada. —Revelo.—Hoje senti como se minhas forças estivessem indo embora.


—São sintomas de uma gravidez. —Ele revelou risonho, mas seu semblante mudou ao ver meu espanto e indignação. —Me perdoe, sei que não poderia estar grávida já que é viúva há tantos anos. —Ele fala e eu acabo rindo.


—Não precisa se desculpar, afinal como eu poderia estar grávi... —Fiz amor com Aurélio, lembro. Minha mão direita repousou levemente em meu ventre e Rômulo olhou para mim entendendo minha situação.


—São sintomas de uma gravidez, dona Julieta. —O jovem médico afirma ao ver meu espanto.


—Sim. —Afirmo para mim mesma. —Claro que é uma gravidez. —Falo para mim mesma, mas ele escuta.


—Meus parabéns. —Ele deseja risonho, embora eu não consiga sorrir.


—Espero que, conforme a ética exigida em sua profissão, essa conversa não saia daqui. —Falo e com isso sua expressão alegre desaparece. —Ninguém deve saber sobre isso.


—Entendo perfeitamente.


Permaneci imóvel em minha cama, com as mãos em meu ventre pensando no resultado que o médico acaba de me dar. Assim que ele saiu me senti perdida. —Não consigo imaginar-me novamente com um filho nos braços. Muito menos com o meu estado civil. —Como vou conviver com uma criança em meu ventre se sou viúva há anos? Embora eu saiba quem é o pai da criança que carrego, não gosto da ideia de ser mãe novamente.


Um ser inocente está crescendo em meu ventre enquanto caminho e estou sozinha. Não mais sozinha agora. —Carrego um Cavalcante em meu ventre. —Para onde eu for estarei levando um filho de Aurélio comigo. Levanto da cama com cuidado e caminho até a porta, andando lentamente pela casa e com cuidado. Sinto como se o monstro do meu falecido marido fosse aparecer para me ferir, porém meu medo é maior ao sentir uma mão forte em meu ombro.


—Julieta. —Era Aurélio. —Eu soube que estava efêmera.


—Apenas um mal estar. —Falo quase num sussurro, fazendo Aurélio me olhar desconfiado. —Mas isso não é algo que eu deva esclarecer para você.


—Como não? —Ele pergunta ao lembrar que agora há intimidade entre nós. —Há algo mais?

Minha mão esquerda foi até meu ventre automaticamente, num ato natural que agora me faz pensar no futuro que darei para essa criança. —Carrego um filho seu, Aurélio. Pensei em revelar diante de seus olhos. —Talvez nosso filho herde os olhos do pai, ou não. Quem sabe seja uma menina e se pareça com ele. Ou um menino e se pareça comigo. Uma criança que leve nossos nomes e traços, símbolo dos nossos sentimentos.


—Julieta, você está bem? —Ele pergunta mais uma vez ao me ver tão calada.


—Assunto de mulher, foi esse meu problema. —Minto, olhando desconfiada para ele. Aurélio parece acreditar e com isso me sinto aliviada. Não sei por qual motivo escondo que em breve teremos um filho, ou melhor, sei muito bem. É medo.


—Eu pensei por uns momentos que você estivesse doente. —Ele falou preocupado me fazendo sorrir. —Está diferente, notei esses dias. —Aurélio fala tocando em meu rosto suavemente.


—Diferente? —Pergunto desconfiada.


—Sim, um pouco diferente. —Aurélio fala se aproximando de mim cautelosamente. —Seu semblante mudou.


—Sua imaginação. —Falo, tremendo com seu toque. —Aurélio, não... —Peço sentindo seu rosto próximo ao meu. Me afasto subitamente após sentir uma forte ânsia de vômito.


—Julieta... —Ele chama por mim assim que dou as costas e levo minha mão até a boca. Sua mão massageia minhas costas até a ânsia passar, me deixando desconcertada.


—Já passou. —Afirmo. —Não se preocupe. —Peço mesmo que ele não fale nada.


—Você não deve mentir para mim. —Aurélio adverte segurando meu queixo levemente, prendendo seu olhar ao meu.


—Não minto. —Minto mais uma vez para ele. —É apenas uma indisposição tola.


—Então descanse. —Ele pede zeloso antes de beijar minha testa.


(...)


—Está tudo bem, Julieta? —Darcy perguntou ao me observar fielmente.


—Sim. —Respondo em poucas palavras.


—Hoje vi Aurélio Cavalcante saindo daqui mais cedo. —Darcy fala curioso, mas evito seu olhar. Minha relação com Aurélio é um segredo, por isso evito ao máximo que ele seja visto comigo. —Algum problema?


—Não, nenhum.—Respondo.


—Nem das outras vezes que ele esteve aqui? —Darcy pergunta curioso.


—Isso não é assunto seu. —Respondo.


—Bom... Soube que teve uma pequena indisposição hoje de manhã. —Ele fala e imediatamente minha mão vai até meu ventre. Indisposição que cresce dentro de mim com o passar do tempo.


—Nada muito grave. —Respondo.


—Sendo assim. —Darcy fala ao pegar sua taça de vinho. —Um brinde. —Pede. Mesmo que eu pegue a taça e erga, não bebo o vinho.


Olho desconfiada para Darcy, mas ele parece ignorar ou não perceber que estou diferente. —Aurélio notou sem sequer imaginar o motivo de meu semblante mudar. —Não posso beber o vinho que está servido na taça, estou grávida. Meu Deus, estou grávida. Parece que somente agora me dou conta da gravidade da situação. Sou viúva há muito tempo e não terei como argumentar a paternidade dessa criança. Mesmo sendo a Ranha do Café, ainda sou uma mulher numa sociedade que não admite uma mulher grávida sem um homem ao seu lado.


—Você está pálida. —Darcy fala assustado olhando para mim. —E trêmula. —Sua observação é real, somente ao olhar para minha mão noto que estou tremendo. —Julieta, você quer que eu chame um médico?


—Não! —Nego, assustando Darcy. —Ou melhor, não. —Me acalmo. —Não é para tanto.


—Se assim prefere. —Darcy consente. —Alguma novidade? —Ele muda de assunto.


—Irei para São Paulo amanhã. —Falei para mim mesma a única solução que existe para ninguém descobrir sobre minha gravidez, mas Darcy acabou ouvindo. —Tenho assuntos importantes para resolver. —Completo.


—Camilo. —Darcy supõe, mas eu nego. Acabo sorrindo ao imaginar Camilo com um irmão mais novo.


—Com licença. —Peço desfazendo meu sorriso ao lembrar que meu primogênito preferiu Jane e foi embora.


Aurélio

Sentimentos são difíceis de entender, principalmente o amor. Amar Julieta talvez seja o ato mais difícil de ser realizado em minha vida. —Ainda posso lembrar de quando começamos a nos entender após a intimidação pública que ela sofreu. Desde então aprendo com ela tanto nos negócios quanto no amor. —Não há nenhuma mulher como Julieta Sampaio. Mesmo tão longe ainda posso lembrar de todas as vezes que senti a maciez de sua pele e o calor de seu corpo quando a tive em meus braços. Mas esconder nosso romance já passou todos os limites, não posso e nem quero esconder nosso amor. Afinal, Julieta não é qualquer mulher para que eu não declare meu sentimento para todos.


—Aurélio? —Era lorde Williamson quem surgia assim que subi o primeiro degrau da escada rumo ao quarto de Julieta.


—Como vai?—Pergunto desconfiado.


—Estou bem, mas intrigado ao vê-lo subir a escada sem ninguém saber para onde vai. —Para os braços de Julieta, penso irônico.


—Onde está Julieta? —Pergunto curioso.


—Viajou. —Não pode ser, ela não me falou nada. —Segundo Darcy, Julieta foi para São Paulo. Mas minha sócia não é de levar tantas malas quando volta para a capital.


—Ela não tem razões para mentir. —Falo nervoso.


—Até onde eu saiba Julieta Bittencourt é reservada e se mentiu foi por algum motivo muito grave. —Lorde Williamson garante enquanto tento disfarçar meu incômodo em ouvir o sobrenome Bittencourt. —Acho que o mal estar que Julieta teve pode ser a resposta para essa viagem.


—Acha que ela está doente? —Pergunto preocupado. Claro que ela está doente, como não percebi isso? Sempre desatento...


—É a única explicação.


(...)


—Doente? —Camilo pergunta durante a ligação. —Tem certeza disso?
—Ainda não, mas tudo indica que sim. —Respondo.—Sua mãe viajou sozinha para São Paulo e...


—Não se preocupe, talvez Olegário esteja com ela. —Camilo tenta trazer algum conforto para essa situação, mas eu acabo sentindo o pior dos sentimentos: raiva.


—Tem razão. —Finalizo a ligação ríspido. Fecho o punho ao imaginar Julieta e Olegário mesmo sabendo que ela seria incapaz de despertar algum sentimento por ele.


Algo me diz que Julieta está passando por um momento difícil atrelado ao mal estar recente. Fico angustiado ao imaginar que seja algo grave e ela não tenha pensado em me contar com medo ou por pressa em viajar. —No Vale do Café não há tantos métodos profiláticos para específicas doenças. Doenças graves... —Penso em viajar para São Paulo mas penso em meu pai sozinho aqui. Além disso, Julieta me ensinou que não devo jogar tudo para o alto por causa de meus sentimentos. Talvez eu faça melhor em seguir seu raciocino enquanto não tenho noticiais suas.


Julieta


—Julieta?—O Padre falou surpreso ao me ver no confessionário.


—Eu cometi algo grave e agora preciso de ajuda. —Falo.


—Pode falar, minha filha. —Ele permite enquanto tento achar as palavras certas.


—Me deixei levar pela luxúria novamente e agora carrego a consequência disso. —Falo olhando para meu ventre. —Eu estou grávida. —Revelo após muito pensar.


—Mas a senhora estava pagando uma outra penitência. —O padre falou confuso. —Quem é o pai dessa criança?


—Aurélio Cavalcante. —Respondo trêmula.


—A chegada de uma criança é uma bênção, Julieta. No entanto, mais cedo ou mais tarde seu ventre irá crescer e todos vão perguntar sobre o pai da criança. Agora você não poderá mais esconder seu relacionamento com Aurélio. —Ele adverte. —Mesmo sendo tão respeitada como é, sabe que essa criança precisa do pai. As pessoas não vão aceitar isso tão facilmente.


—E qual seria a solução? —Pergunto.
—Casar-se com Aurélio. —Ele revela me deixando amedrontada.


Lembro-me do dia que estava vestida de noiva, da festa e de meus pais dizendo que seria o melhor para mim. De cada violência que sofri nas mãos de Osório Bittencourt e as humilhações que passei. —Meus gritos, o tecido de meu vestido rasgado tantas vezes, a força bruta contra minha pele, meu corpo...—No dia seguinte era parcialmente obrigada pelas circunstâncias a sorrir para Camilo. Somente com ele perto de mim não era tão maltratada. Todos os dias eram assim, um sofrimento sem fim. Dor que nasceu de meu coração e enraizou em minha alma, transparecendo em minha pele translúcida.


—Não. —Nego.


—Não? —Ele pergunta incrédulo. —Julieta, entenda a gravidade do problema. Você precisa se casar imediatamente.


—Já sofri em um casamento, não quero sofrer novamente. —Afirmo.


—Me perdoe, mas se concebeu essa criança foi com amor. E se houve amor, também houve confiança. —Fala. —Ou não?


Me lembro da noite que me entreguei para Aurélio e senti todo o seu amor. Suas mãos deslizavam suavemente em minha pele, não só despindo meu corpo como também a minha alma. —Nenhuma palavra foi dita, elas eram inúteis naquele momento. Apenas os seus toques foram o suficiente para confiar nele plenamente. Ainda consigo sentir sua mão deslizando o tecido de minha roupa assim como fiz com ele. —Foi naquela noite de amor que concebi essa criança que carrego em meu ventre. Esse filho ou filha é resultado do nosso amor.


—Mesmo assim quem me garante que Aurélio não se torne outra pessoa após o casamento? —Pergunto desconfiada. —Não. —Nego com medo de sofrer novamente. O pior seria sofrer nas mãos do homem que eu amo. —Eu irei para longe e terei essa criança. —Revelo. —Longe de todos e voltarei quando meu filho nascer.


—E o que vai falar para as pessoas quando perguntarem sobre o pai da criança? —Por um momento imaginei Aurélio com nosso filho em seus braços.


—Direi a verdade. —Afirmo. —Direi que é meu filho. —O padre pareceu mais aliviado com isso. —Apenas meu. —Decreto.


Ema


Exatos quatro meses se passaram e cada dia passado foi constituído de muito esforço de meu pai. O pouco que aprendeu com Julieta Bittencourt parece ter sido o suficiente para ampliar seus negócios no ramo do café. —Não estamos com a mesma vida de antes, mas também não sofremos com a vergonha de ter perdido tudo pela má administração de meu avô. —A maior ironia da fama de meu pai nos negócios é a sua alcunha.


—Bom dia, rei do café. —Falo para meu pai assim que o vejo na mesa sozinho.


—Bom dia, minha filha. —Meu pai fala um pouco desmotivado.


Desde que Julieta Bittencourt viajou sem aviso para São Paulo meu pai não consegue disfarçar sua tristeza. Tudo ia bem até a rainha do café viajar novamente sem aviso, mas desta vez para à Europa. —Julieta não deu a localização de onde está e qual o motivo de ter viajado sozinha. Desde então meu pai descontou toda sua frustração em não saber sobre Julieta nos negócios. —Isso rendeu frutos como sua alcunha e dinheiro, mas sua tristeza aumenta a cada dia.


—Eu falei com Camilo. —Revelo. —Ele disse que talvez Julieta esteja em Paris.


—Ela não está lá. —Meu pai afirma sem olhar para mim. —Ela não está em lugar nenhum.


—Mas está bem. —Afirmo. —Ela escreve para lorde Williamson e diz que está bem, mas não diz onde está.


—Garanto como Julieta está doente. —Meu pai fala preocupado pela milésima vez. —É algo grave e ela não quer contar, conheço a mulher que amo.


Essa situação já está se tornando insustentável. Não suporto mais ver meu pai sofrendo sem notícias de Julieta Bittencourt. —Não há razão evidente que justifique essa sua reclusão. Garanto para todos, se perguntarem, que meu pai não fez nada contra a rainha do café. Quanta ironia, ambos são rei e rainha do café agora. —Foi graças aos ensinamentos de Julieta que meu pai agora está onde se encontra, porém infeliz sem saber onde a mulher que ama está.

—Eu sinto muito, papai. —Lamento segurando sua mão.

—Eu sinto mais. —Meu pai garante melancólico.

Notas finais
Aaah, e então? Correndo do Vale do Café até São Paulo ansiosa.