Notas iniciais
Finalmente voltei! Fico feliz que as Julietas da minha vida estejam empolgadas com a história. Estão prontas para hoje? Não? Sim? Mesmo assim trago algo para matar essa ansiedade... Ou não rs

Julieta

Fecho os olhos enquanto minhas mãos deslizam em meu ventre volumoso. Sinto meu filho chutar com força e acabo sorrindo ao imaginar o quanto ele será forte. —Respiro fundo ainda sentada na varanda recebendo os primeiros raios de sol do dia. Hoje completo sete meses de gestação e no entanto sinto como se fosse hoje o dia que soube da existência desse filho. —Não me lembro de um só dia em que essa criança tenha me feito sorrir.

—Você é forte. —Falo ainda acariciando minha barriga. —E está pesando. —Confesso ao me levantar lentamente.

Uma doce lembrança toma posse de meus pensamentos e um sorriso nasce em meus lábios. —Enquanto toco em meu ventre também lembro dos toques de Aurélio. Eram toques intensos e delicados que me faziam estremecer da cabeça aos pés. —Ser sua mulher naquela noite foi o ápice do meu amor. O desejo era mútuo de ambas as partes e a confiança também.

Flashback On

—Aurélio. —Chamei por ele quase num sussurro sentindo suas mãos traçarem um percurso de minha cintura até meu quadril.

—Eu quero amar você. —Aurélio revela olhando bem em meus olhos.

Fecho os olhos e sinto novamente seus lábios nos meus. Suas mãos tocam em meu cabelo, desfazendo o penteado. —Toco em seu rosto suavemente e ele acaba fechando os olhos sentindo meu carinho. Beijo-o suavemente, mas logo faço por onde meu desejo ser notável. Fico envergonhada ao demonstrar meu desejo por ele, mas Aurélio me passa confiança.—Estou me entregando aos poucos, sendo guiada pela atenção e amor que Aurélio tem por mim.

Seguro firme em seu braço sentindo o nosso desejo aumentar a cada toque. —Um leve gemido escapou de meus lábios ao sentir sua boca em meu ombro após Aurélio deslizar o tecido de meu vestido aos poucos. —Não me lembro de como viemos parar na cama, mas sorrio ao sentir o mácio dos lençóis. Ouço um gemido seu próximo ao meu ouvido, me excitando ainda mais.

—Eu te amo. —Disse antes de fazermos amor.

Flashback Off

Minhas lembranças são interrompidas após sentir meu filho mover-se novamente.—Em alguns momentos penso que talvez essa criança nascerá forte e enorme, sendo essa a única explicação para o tamanho de meu ventre. —Aurélio é alto e certamente essa criança também será.

—Você será o príncipe do café. —Converso com meu filho. —E se for uma menina, a princesa do café. —Acabo rindo ao imaginar uma filha minha sendo como eu. —Ou parecida com ele. —Penso em Aurélio.

Todos os dia eu penso nas falhas que tive quando fui mãe na época de Camilo. Eu era apenas uma garota assustada que acabava de ter seu primeiro filho. —Camilo era a criança mais bela que eu tinha visto até então. Perdia a noção do tempo olhando para ele e vendo seu crescimento. —Era uma criança adorável e que eu tentava me distrair cuidando de cada detalhe seu.

—Eu preciso preparar tudo para seu nascimento. —Falo com meu filho. —E preciso de alguém comigo. —A primeira pessoas que veio em minha mente foi Aurélio. Em seguida penso em Susana, mas meu coração pede para não fazer isso.

—Dona Julieta, carta para a senhora. —O empregado avisou colocando o envelope na mesa. Era mais uma das cartas de Lorde Williamson para mim.

"Estimada Julieta Bittencourt, antes de mais nada quero lhe assegurar sobre os negócios que deixou no Brasil. Tudo está indo conforme suas instruções, porém me preocupo com sua ida tão repentina para a Inglaterra. Camilo ainda está em São Paulo, porém sempre telefona perguntando sobre a sua chegada. Não sei até quando pretende ficar inacessível para todos, mas lhe informo que sua partida gerá desconfianças..."

Paro de ler imediatamente após sentir uma dor em meu ventre. —Respiro fundo antes de me sentar na cama para me manter confortável. —Dores são constantes no inicio deste sétimo mês. São apenas consequências dos constantes chutes que meu filho dá contra mim, mas começo a ficar preocupada.

(...)

Caminho sozinha pelas ruas e acabo recebendo os olhares curiosos de algumas pessoas por me verem grávida e vestida de preto simbolizando o luto. Alguns acreditam que fiquei viúva antes de descobrir sobre minha gravidez. Às vezes prefiro que pensem assim, mas fico irritada também porquê isso me lembra Osório.

Um pequeno cavalo de madeira chama a minha atenção numa vitrine. —Acabo me lembrando de Aurélio novamente e minha mão acaricia minha barriga como de praxe. —Entro na loja e pego o brinquedo, pensando que talvez eu seja mãe de outro menino. Mas eu posso muito bem ter uma menina e ela um dia querer cavalgar.

—Esse é o meu primeiro presente para você, meu pequeno anjo. —Falo risonha olhando para o pequeno cavalo de madeira. Uma suave melancolia toma conta de meu peito e transborda em meus olhos após imaginar os pensamentos de Aurélio sobre minha partida.

Acho que fui insensível com ele e deixei meu medo ser maior que meu amor. Todavia é tarde para surgir novamente no Vale do Café aparentando ser uma louca que fugiu para esconder uma gravidez. —Tenho medo que essa criança me prenda a Aurélio como um dia Camilo me prendeu ao seu pai.

—Eu preciso acabar com isso.

Aurélio

O aroma forte de café tomava conta do ambiente enquanto Ema tocava em seu piano. Era uma melodia triste que acabou me fazendo lembrar de cada momento difícil que passei nesses últimos tempos. —O gosto forte do café que bebo me lembra a personalidade de Julieta. Que por sua vez é a causa da minha tristeza. —Não há como saber dela. Nem em sonhos devo imagina em qual lugar ela está. Julieta é imprevisível e começo a achar que a rainha do café brincou com meus sentimentos.

Embora tudo tenha parecido ser tão verdadeiro e recíproco não consigo entender a fuga de Julieta. — Eu tinha planejado não esquecer seu amor e seu carinho, mas aos poucos minhas dúvidas se tornam maiores. —A verdade é que sempre tive desconfianças sobre o passado de Julieta. Ela sempre fez questão de nunca responder mais que o necessário até para mim.

Uma dor aguda ao ponto de me fazer soltar a xícara me assusta. É como milhões de agulhas em meu peito, fogo que arde sem ver e me faz gritar no exato momento em que Ema dá ênfase na maior nota da melodia.

—Papai? —Ema chamou por mim preocupada. —Papai... —Foi a última coisa que ouvi antes de fechar os olhos.

(...)

—Papai. —Ouvi uma voz de criança chamar por mim enquanto eu estava concentrado no escritório.

—Ema? —Chamei pela minha filha, olhando para a criança na porta. —Olhe para você. —Sorrio. —Como cresceu tão rápido? Deveria ser uma criança para sempre.

—Sim, ela cresceu rápido. —Ema surgiu segurando a mão da criança e sorrindo. —Papai?

Desperto do sonho com o chamado de Ema. —Minha filha olha para mim com medo e, meio desnorteado olhou em minha volta. Estou em meu quarto e não na sala. —Vejo que Rômulo está olhando para mim e presumo que tive uma síncope.

—Sorria enquanto sonhava. —Rômulo revela. —Mas a notícia que tenho não vai lhe fazer sorrir.

—Estou doente? —Pergunto.

—Sim e essa doença é incurável. —Rômulo revela me assustando. —Ou melhor, o remédio é raro de encontrar.—Fala enquanto espero o pior. —O senhor está angustiado.

—Ele está preocupado com Julieta Bittencourt. —Ema revela sem pensar duas vezes a causa da minha angústia.

—Ema!

—Julieta? —O filho de Tibúrcio pergunta.

—Viajou sem dar explicações. —Revelo.

—E qual sua ligação com a rainha do café? —Ele pergunta.

—Amor. —Ema responde por mim, me deixando constrangido.

—Então você é o pa... —Rômulo para de falar imediatamente após lembrar de algo. —Você e Julieta tinham um caso?

—Nos amamos, ou amávamos! Não sei! Julieta Bittencourt desapareceu sem dar satisfação. —Revelo.

—Aurélio, eu sei o motivo mas não sabia que era tão próximo dela. —Rômulo fala. —Eu atendi Julieta antes dela viajar.

—Então ela está doente? —Ema pergunta por mim.

—Ela está mais saudável que nunca. —Rômulo revela. —Eu sei que a rainha do café me pediu segredo mas agora que sei da sua relação com ela, presumo que você só pode ser o único.

—Único? —Indago.

—Aurélio, preciso que mantenha a calma. Não sabemos onde a rainha do café está mas posso revelar o possível motivo dela desparecer. —Rômulo pede. —Eu examinei a rainha do café e ela me pediu para guardar segredo sobre isso. Mas não posso omitir algo tão belo. —Ele sorri, me deixando confuso. —Julieta está grávida, Aurélio.

—Meu Deus. —Ema sussurra. —Papai, Julieta fugiu com meu irmão sem dizer para onde!

—Presumo que ela esteja no sétimo mês. —Falo após contar os meses. Claro que sim! É exatamente o tempo em que nos entregamos pela primeira vez. —Eu vou ser pai. —Falo anestesiado. —Preciso procurar por minha mulher e meu filho. —Falo ao tentar me levantar, mas Ema e Rômulo me impedem de fazer isso.

—Eu sei que deseja muito fazer isso mas precisa cuidar de sua saúde. —Ema aconselha.

—Sua filha tem razão. Não vai ajudar em nada se piorar. —Ele afirma.

—Não me peçam para ficar aqui de braços cruzados enquanto Julieta está sozinha pelo mundo! —Exclamo.

—Ela não está sozinha! —Ema ressalta pensando no irmão. —Julieta é uma mulher forte, não está correndo perigo.

—É aí que está o problema. —Rômulo assegura. —Sem um acompanhamento médico a gestação pode se tornar vulnerável.

—Eu vou agora mesmo procurar por Julieta Cavalcante em cada esquina deste mundo. —Falo ao me levantar da cama eufórico.

—Papai? —Ema chama por mim incrédula.

—Diga. —Lhe dou atenção.

—O senhor chamou a rainha do café de Julieta Cavalcante. —Minha filha fala e então me dou conta do meu desejo.

—Ela será uma Cavalcante. —Prometo. —E também será mãe de um.

(...)

—Grávida? —Meu pai perguntou eufórico. —Aurélio, não me diga que esse filho é seu.

—E de quem mais seria? —Pergunto ao fazer minha mala.

—Talvez daquele segurança dela. —Meu pai fala de Olegário, me deixando surpreso.

—Eu ainda acho imprudente o senhor ir sem rumo. —Ema adverte. —O senhor não sabe onde ela está!

—Irei descobrir! —Falo nervoso. —Julieta está pelo mundo com um filho meu no ventre!

—Mas o senhor está doente. —Ema afirma preocupada.

—Estou ótimo, Ema. —Garanto. —Agora eu preciso achar Julieta.

—Meu filho. —Papai me chama preocupado. —Apesar de não gostar de Julieta, ela será mãe deste meu neto, também sabemos que ela é uma mulher de personalidade forte. Criou Camilo sozinha e saberá se cuidar agora.

—Ela criou o primeiro filho sozinha por causa da viuvez. Eu estou vivo e também tenho obrigação de criar essa criança. —Afirmo seriamente.

—Então traga Julieta e o meu neto para casa. —Meu pai fala com sua voz embargada devido a emoção.—Ele é meu sangue, mesmo sendo filho de Julieta.

Darcy

Procuro incansavelmente por um documento no escritório, todavia parece que ele desapareceu de todos os lugares desta casa. —Sem querer derrubo uma pasta de meu pai e em seguida um envelope chama a minha atenção. —Era uma das várias cartas assinadas por Julieta Bittencourt, destinadas ao meu pai. Abro a mais recente delas e leio rapidamente, me perdendo em algumas palavras de tão apressado que estou.

—Charlotte! —Chamo por minha irmã nervoso.

—Darcy? —Ela aparece eufórica no escritório.

—Nosso pai sabia onde Julieta está. —Revelo lhe mostrando as cartas. —Ela está na Inglaterra.

—E qual o motivo fez a rainha do café fugir? —Minha irmã pergunta curiosa.

—Ela não diz. —Falo infeliz. —Camilo não sabe sequer onde a mãe está. Aurélio está atrás de Julieta por causa da compra das terras do barão.

—Mas aquela propriedade é nossa. —Charlotte lembra.

—Essa foi a desculpa que ele deu. —Respondo.

—Então diga para ele onde Julieta está. —Minha irmã aconselha.

—Ninguém vai falar onde Julieta Bittencourt está. —Meu pai nos surpreende. —Ela pediu sigilo absoluto.

—Qual o motivo? —Pergunto saudoso.

—Julieta não quis ser clara comigo. —Meu pai fala friamente. —Mas também não quer que as pessoas saibam. —Lembra mais uma vez o pedido de Julieta. —E acho que vocês devem respeitar esse momento dela.

Ema

Me anima a ideia de ganhar um irmão. Sempre fui sozinha e sem querer invejava Elisabeta por ter tantas irmãs. Era apenas uma inveja boba de criança, afinal fui acolhida por elas como uma irmã. —Já consigo imaginar quais roupas meu irmão ou irmã irá vestir e com esse pensamento acabo rindo sozinha. —Quem sabe eu também não ajude minha futura madrasta quando ela finalmente tirar o luto inexorável que deixa em evidência há tantos anos.

—Eu deveria ir também. —Falo preocupada com meu pai. A verdade é que estou ansiosa para ver como Julieta está.

—Não, minha filha. Você deve ficar aqui. —Meu pai pede. —Eu tentarei ser o mais rápido possível.

—Não pode garantir isso. Não sabe se vai encontrar Julieta.

—Fala como se ela estivesse morta. —Meu pai fala nervoso. —Não fale assim. —Foi quase como uma súplica.

—Ema, Ema! —Era Estilingue quem chamava por mim, eufórico.

—Agora não. —Peço pensativa.—Preciso ajudar meu pai com suas malas.

—Para onde vai, tio Aurélio? —O menino pergunta curioso. Olho desconfiada para o menino que acaba de chamar meu pai de "tio". Ainda não consigo me acostumar. Aliás, é difícil imaginar meu pai com um filho nos braços.

—Procurar por Julieta. —Meu pai responde decidido.

—Eu posso ir? Sempre quis conhecer a Inglaterra. —O menino pede com um sorriso.

—Gostaria muito de te levar mas a Inglaterra é muito longe. —Meu pai fala.

—Acho que foi por isso que a rainha do café foi para lá. —Meu primo diz, nos causando espanto.

—Isso é alguma brincadeira? —Meu pai pergunta nervoso.

—Eu ouvi o lorde Williamson falando com Darcy e Charlotte sobre a rainha do café estar nesse lugar.

—Eu vou para lá agora mesmo.

—Enlouqueceu? —Pergunto incrédula. —Não sabe exatamente onde ela está.

—Não é difícil procurar pelo endereço. —Meu pai insiste confiante. —Julieta não pode mais fugir de mim.

Julieta

Olho meu reflexo no espelho pela milésima vez, dando atenção ao volume existente em meu ventre. —O negro de minhas vestes não combinam em nada com a vida que está sendo gerada dentro de mim. Novamente tenho outro coração além do meu dentro de mim batendo forte. —De fato esse vestido preto não condiz com a felicidade que estou sentindo.

O luto é por Osório Bittencourt, mas este filho e essa felicidade eu devo a Aurélio Cavalcante. Como eles podem ser tão diferentes? No entanto tenho minhas reservas com Aurélio. —Ninguém continua o mesmo após o casamento. Muito menos um homem. —Eu tenho medo de sofrer mais uma vez. E se antes sofri nas mãos de um homem que nunca me amou, pior será os abusos de alguém que amo.

—Seremos eu e você. —Falo risonha.

Aos poucos vou desfazendo meu penteado e sorrio com os poucos fios brancos que tenho por consequência dos aborrecimentos que tive durante todos esses anos. —Foram tantos anos usando-o preso e escondendo uma das belezas que uma mulher pode ter. —Olho para o vestido que deixei na cama, pronto para ser usado.

É de um tom aproximado ao vinho e vermelho. Nada muito chamativo, porém diferente de qualquer outro vestido que eu já tenha usado. —Meu pai costumava dizer que essa cor realçava minha beleza. —Sorrio por lembrar dele depois de tanto tempo. Mas choro por sua tristeza ao me ver desonrada. Minha dor foi maior quando ele soube da minha desgraça. Todavia, meu pai era um homem diferente dos outros.

Me lembro de seu carinho e afeto e de uma das vezes que fazia questão de fazer me sentir especial. —Eu observava meu pai cuidando do jardim enquanto minha mãe chamava por mim eufórica. Ela havia dito para não usar o vestido novo até uma ocasião especial, mas eu adorava vê-lo sorrir e cantar para mim todas as vezes que me arrumava. —Júlio Sampaio foi o melhor pai que eu poderia ter.

Flashback On

—Julieta! —Meu pai falou surpreso assim que me joguei em suas costas para abraçá-lo.—Não deveria estar com sua mãe? —Perguntou.

—Saí de casa. —Respondo.

—Você tem apenas dez anos e deve obediência a sua mãe. —Meu pai fala fingindo estar chateado, mas acaba rindo. —Beijo de esquimó. —Pede como sempre faz todos os dias.
Encosto o meu nariz ao nariz de meu pai enquanto balançamos a cabeça de um lado para o outro levemente, ambos rindo.

—Te amo, papai. —Falo segurando seu rosto.

—Eu não te amo. —Meu pai falou seriamente, me dando medo. —Eu te venero. —Disse antes de me carregar nos braços enquanto eu gargalhava. —Obedece teu pai, Julieta. —Pede olhando para mim. —Não cresça.

—Prometo não crescer. —Falo, mas ele nega.

—Você é a única rosa que eu cuidado e não quero ver desabrochar.

Flashback Off

—Calma, meu filho. —Peço após sentir meu filho chutar novamente. —Eu choro mas não é de tristeza.

Olho mais uma vez para o vestido e não imagino ele em meu corpo. Todavia é um pecado me esconder neste luto simbolizado à morte enquanto tem uma outra vida dentro de mim. —Oras! Eu sou a rainha do café! Passei todos esses anos levando o sobrenome de Osório Bittencourt como uma cruz. —Hoje eu irei me livrar desta escuridão e de seu sobrenome. Eu sou Julieta Sampaio, a rainha do café. Ninguém deve me confrontar e me intimidar. Hoje, Julieta Bittencourt já não existe mais. Volto a ser uma Sampaio, mas agora não posso ser a garota que era antes de adotar o sobrenome Bittencourt. Essa como se estivesse voltando de onde fui obrigada a parar. Nem lembro mais como é ser chamada pelo sobrenome de meu pai, mas farei por onde apagar o Bittencourt.

—Me desculpe, dona Julieta. —A empregada pede antes de entrar e acabo enxugando minhas lágrimas. Olho para a janela e noto que já é noite, me assusto um pouco por isso. Os dias estão passando rápido e estou perdendo a noção do tempo. —A senhora tem visita.

Antes que eu pergunte quem é a visita sou surpreendida com a chegada de Aurélio. —Seu olhar era um misto de desafio e saudade. Todavia seus olhos passaram a transmitir amor quando detectou minha barriga. —A empregada se retirou me deixando sozinha com ele. Nenhuma palavra foi dita até sua atenção ser voltada para mim. Seu olhar era de pura irritação enquanto eu olhava para seus lábios. Por impulso nos abraçamos fortemente após tantos meses.

Seu perfume invade minhas narinas e fecho meus olhos. Me sinto segura em seus braços, fazendo um pequeno esforço para não desfazer o abraço. —Ele afaga meus cabelos enquanto sente meu perfume, me levantando do chão minimamente. —Ficamos assim até Aurélio se afastar e olhar para minha barriga.

—Nós temos uma conversa pendente. —Aurélio revela seriamente, embora seu olhar seja amoroso. Sua mão toca em meu rosto suavemente e acabo tremendo com seu toque. Fecho meus olhos e seguro sua mão para que não interrompa suas carícias em meu rosto. —Você partiu sem me dar adeus. —Ele diz magoado.

—Fiz isso para não te machucar. —Falo enquanto olho bem para seus olhos. —E por medo. —Me afasto subitamente.

—Medo? —Ele pergunta confuso. —Você tem medo de mim? —Pergunta incrédulo, mas não ouso responder.—Você me escondeu essa gravidez. —Aurélio fala indignado. —Esse filho é meu.

—Não, ele é meu. —Falo com medo que Aurélio tente tomar meu filho de mim.

—É nosso. —Ele veio até mim novamente, mas desta vez unindo nossos lábios suavemente. Num abraço seguro, com meu ventre inchado entre nós, me entrego mais uma vez ao nosso amor. —Não fuja, Julieta. —Pede de olhos fechados. —Somos um só. —Fala e acabo concordando. —Me permita cuidar e amar vocês.

—Como me encontrou? —Pergunto me afastando dele.

—Não importa. Isso prova que você não pode fugir de mim. —Aurélio diz se aproximando sorrateiro. —Olhe para você, Julieta. Sozinha e desprotegida!

—Eu sei me defender. —Respondo.

—Voltamos a ser dois estranhos? —Pergunta irritado, me assustando um pouco. —Afinal, qual o problema?

—Não sei! Me diga você! —Acabo me exaltando. Aurélio gesticula com as mãos para que eu me acalme, todavia não consigo. —Se saí do Brasil foi por vontade própria. Sou dona da minha vida.

—Eu não posso obrigá-la a nada. —Aurélio diz magoado. —Eu não entendo você, Julieta. Estávamos tão bem... —Ele tenta se aproximar novamente, mas eu evito. —Teremos um filho e você parece não saber a importância disso.

—Eu terei um filho. —Dou ênfase e Aurélio me olha como se eu estivesse louca. —Essa criança é apenas minha.

—Está querendo me dizer que esse filho não é meu? —Aurélio entende errado.

—Eu estou querendo dizer que esse filho é apenas meu. —Repito fazendo grande esforço para não chorar. —Seu esforço foi em vão.

—Claro! —Aurélio quase gritou e riu expressando seu nervosismo. —Fugiu do Brasil para não dar explicações para todos. —Seus olhos estavam marejados e isso me fazia tremer. —Afinal, quem é o pai dessa criança? Se não sou eu... —Seus olhos estão vermelhos enquanto ele parece lutar contra seus sentimentos para não chorar em minha frente. —Você tem outro homem em sua vida. —Ele tira suas próprias conclusões.

—Volte para o Brasil, Aurélio. —Peço.

—Eu lembro da primeira vez que me chamou pelo nome. —Aurélio sorriu enquanto parecia lembrar de algo. —Meu nome parecia soar mais interessante com o som da sua voz. Aliás, tudo parecia ser mais interessante com você ao meu lado. —Ele veio até mim novamente, mas desta vez não recuso sua aproximação. Sua mão repousou levemente em meu ventre e involuntariamente minha mão foi de encontro a sua. —Eu estava cheio de esperanças pensando que essa criança seria mais um motivo para a união do nosso amor. —Aurélio tenta aproximar seu rosto ao meu, mas consigo vencer a tentação de seus lábios. —Isso é uma despedida? —Pergunta.

—Sim. —Respondo mesmo que isso pareça me matar por dentro.

—Sua boca diz uma coisa, mas seus olhos dizem outra.—Aurélio rebate enquanto tento não olhar para ele. —E os olhos refletem nossos sentimentos, Julieta.

—Adeus. —Tento por um fim nessa conversa. Nossos lábios ficam próximos, no entanto foi Aurélio quem se afastou e me deixou esperando pelo beijo.

Adeus.

"Toda despedida é dor... tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia." —William Shakespeare

Notas finais
Não sou Aurélio, mas vou levar tomatada.