Love and Resistance
6 Sampaio e Cavalcante
Notas iniciais
Julieta
Não acreditei quando vi os hematomas em Camilo, todavia a culpa era toda minha. Eu sei que meu filho estava fazendo algo errado, mas não pensei que poderia ser algo tão violento. —Meu filho parece ter virado um saco de pancada e não é de longe o príncipe do café. —Eu não quero imaginar o ambiente que ele estava, todavia sou obrigada a aceitar que a culpa é minha. Eu coloquei Camilo nessa situação e terei que mudá-la. Vejo-o na cama adormecido enquanto Rômulo tratá-o, mas minha atenção vai até Júlia que está no berço.
Um sorriso estampou meu rosto quando minha filha mexeu seus braços involuntariamente. Seus olhos abriram vagarosamente, olhando na direção de Camilo. Mas Júlia rendeu-se ao sono novamente. —Aurélio ainda não voltou e creio que ele tenha visto Olegário com a certidão de Júlia. Mesmo odiando o fato de minha filha ter que carregar o sobrenome de Osório, não me restou outra alternativa que não fosse essa. —Pelo menos ele não terá nenhum poder sobre Júlia, está morto e ardendo no inferno.
—Eu não entendo como ele está tão machucado. —Digo olhando para Camilo.
—Eu tenho uma suspeita. —Rômulo Tibúrcio diz temeroso. —É certo que foi uma surra. Mas há hematomas recentes e antigos. —Afirma. —Dona Julieta, acho que Camilo está entrando em lutas clandestinas.
—Por dinheiro. —Presumo entristecida. —Eu deveria imaginar.
—Ele não pode continuar apanhando. Hoje foi um desmaio, talvez amanhã ele nem acorde caso apanhe. —O jovem médico afirmou me assustando.
—Ele não vai mais. —Garanto.
—E como Camilo está? —Susana perguntou entrando no quarto.
—Péssimo. —Respondo enraivecida pela situação de Camilo. —E é culpa minha.
—Não se puna tanto. —Susana pede. —Eu mandei que Petúlia fizesse um chá calmante para você. —Disse me oferecendo o chá.
—É melhor não se exaltar. —Rômulo garante enquanto bebo o chá oferecido por Susana. —Camilo precisa da senhora. Assim como a pequena Júlia. Aliás, se me permite... Posso vê-la? —Ele pergunta risonho e permito.
—Lorde Williamson desejava ver Júlia, mas precisou viajar ao amanhecer. —Susana revela.
—Acho melhor. —Afirmo. —Aliás, se retire. Júlia ainda é uma prematura e sua imunidade é baixa. Não pode ter contato com todo mundo.
—Eu entendo.
(...)
—Não deveria estar de pé. —Ouço Aurélio falar enquanto estou cuidando de minhas rosas. —Aliás, não deveria fazer muitas coisas. —A raiva era notória em seu olhar. Aurélio retirou o paletó enfurecido, me fazendo perder minha concentração. —Júlia Bittencourt. Um belo nome para uma bela criança. Pena que esse não seja seu nome verdadeiro. —Como ele pode ficar ainda mais atraente quando irritado? Não faço a mínima ideia.
—Ela é minha filha e vai levar o nome que eu quiser. —Falo irritada. Quem Aurélio pensa que é para mandar em mim? É certo que não gosto da ideia de minha filha levar o sobrenome de Osório, mas ele não está vivo e por isso não tem direitos sobre ela. Júlia é apenas minha filha e de mais ninguém. Ela e Camilo são apenas meus e não aceito que ninguém me diga como tratá-los. Júlia e Camilo são como partes de meu coração que batem fora de meu peito e em meu coração ninguém toca!
—Ela não é apenas sua. —Aurélio lembra e lhe dou as costas, voltando minha atenção para as rosas. Corto uma delas vagarosamente e grito ao ver sangue sair do caule da rosa. Minhas mãos estão gélidas e penso ter me cortado, mas isso não aconteceu. —Se machucou? —Pergunta vindo até mim cuidadoso.
—A rosa, Aurélio! —Digo nervosa enquanto o sangue jorra no caule. Olho para minhas mãos tentando entender se o sangue é meu, mas não é. —A rosa está sangrando! —Tomo distância das rosas e choro assustada.
—Não há sangue, Julieta. —Aurélio alega, mas eu nego. —Se acalme, por favor. —Pede nervoso.
—A rosa está sangrando! —Afirmo eufórica, todavia Aurélio segura meus braços. —Eu não estou mentindo!
—Eu sei, Julieta. —Aurélio fala suavemente antes de me abraçar. —Tem razão... Como eu não vi? A rosa está suja de sangue. —Ele finalmente enxerga o sangue enquanto seguro seu braço.—Venha, Julieta. Vamos para o quarto, afinal você precisa descansar.
—Não, eu preciso ir para o leilão. —Nego me lembrando do leilão.
—Não deve ir. Você acabou de ter uma filha, Julieta. —Ele diz incrédulo.
—Ela fica e eu vou, afinal Júlia não pode ter contato com tantas pessoas. —Digo.
—Julieta, fique em casa. —Aurélio pede e eu nego.
—Camilo pode olhar a irmã. —Afirmo olhando a rosa. —Ainda está gotejando sangue, Aurélio. —Digo assustada, batendo o pé como uma criança.
—Venha, Julieta... —Aurélio pede enquanto me leva para o quarto.
Ema
Eu nunca senti falta de uma irmã pelo fato de nunca ter uma. Não posso sentir falta de algo que nunca tive e isso é fato. Entretanto, ter Júlia comigo neste momento é como se eu estivesse voltando para a minha infância e ela fosse uma de minhas bonecas favoritas. Discordo que Júlia ainda não tenha seu próprio quarto, mas sei que Julieta quer a filha por perto. —Amor de mãe é algo que tive por pouco tempo e invejo isso em Júlia e Camilo. —Observo-a com curiosidade e nego o fato de Julieta ainda negar que essa menina seja filha de meu pai.
—Que susto! —Digo ao ver Camilo me olhando curioso. —Pensei que estivesse dormindo.
—Já dormi o suficiente. —Ele garante antes de sentar ao meu lado e olhar para Júlia.
—Júlia Bittencourt. —Digo irônica.
—Está errada, esse não é o sobrenome dela. —Camilo fala risonho. —Ela é uma Cavalcante, esqueceu?
—Não, mas Julieta sim. —Digo irritada. —Sua mãe colocou o nome de seu pai na certidão de Júlia.
—Ela não pode fazer isso. —Camilo se mostra indignado. —E Aurélio?
—Está decepcionado, mas você conhece papai. Ele ama-a tanto que basta Julieta sorrir que tudo está resolvido. —Uso um pouco de minha ironia. —Julieta já deu o entender que Júlia não é filha de meu pai, Camilo.
—E então quem poderia ser? —Camilo pergunta irritado. —Minha mãe perdeu o juízo?
—Eu não estou louca, eu vi! —Ouvimos Julieta conversar com alguém e então olhamos com atenção para ela e meu pai. —Já acordado? —Ela pergunta para Camilo.
—Me sinto melhor. —Camilo confessa.
—Ema, você poderia cuidar de Júlia e Julieta? —Meu pai pergunta e antes que eu responda algo Julieta se manifesta.
—Não preciso que cuidem de mim. —A rainha do café protestou. —Eu irei ao leilão
—Não deveria. —Camilo alerta. —A senhora acabou de ter uma filha.
—E de uma gestação delicada. —Dou ênfase. —Ademais, Júlia precisa ser alimentada e como bem sabemos a única mãe dela é você.
—E não pode levá-la. —Meu pai alerta para Julieta. —É melhor você ficar.
—Esquecer os negócios e lembrar que agora tem uma filha. —Digo um pouco irritada com Julieta. —Ou vai ser negligente com Júlia como foi com Camilo?
—Ema. —Meu pai chama minha atenção.
—Ela tem razão. —Julieta afirma nervosa. —Fui negligente com Camilo e não quero fazer o mesmo com Catarina.
—Júlia Catarina. —Camilo corrigiu sua mãe e rimos. —Um nome forte.
—Desta vez você fica. —Meu pai fala para Julieta.
—Pode ir. —A frieza de Julieta nos assustou.
—Eu preciso entender uma coisa. —Camilo chama nossas atenções. —Qual a razão de Júlia ser uma Bittencourt?
—Sua mãe assim quis. —Meu pai respondeu ressentido. —Mesmo Júlia sendo uma Cavalcante.
—Ela não é uma Cavalcante. —Julieta nos surpreendeu. —Eu já deixei isso bem claro.
—Então Júlia não é filha de Aurélio? —Camilo pergunta indignado. —Muito menos de meu pai. —Julieta então olhou para mim assustada. —Quem é o pai de Júlia, mãe?
—Ela é minha filha. —Julieta respondeu. —Apenas minha. —Olhou para meu pai no momento.
—A menina tem os olhos de Aurélio. —Camilo rebate. —Não há como negar.
—Qualquer um pode ter olhos desta tonalidade, Camilo. —Foi a vez de meu pai falar magoado. —Eu não deveria ter vindo aqui.
—Veio por vontade própria. —Julieta e meu pai permaneceram mudos enquanto eu olhava impaciente para Camilo.
—Vamos, Ema. —Meu pai chamou irritado, olhando para Julieta. Olho para Júlia que começa a chorar assustada, fazendo a mãe ir até ela.
—Se afaste. —A rainha do café ordenou quando meu pai tentou acalmar Júlia. —Minha filha não precisa de você.
—Mas foi ele quem trouxe Júlia ao mundo. —Camilo se manifestou. —Não vamos acreditar nessa história até a senhora provar o contrário.
—Se eu não sou o pai de Júlia, quem é? —Meu pai perguntou eufórico e decidido escutar a verdade.
—Eu. —Era Olegário quem havia respondido na porta. Espero um pouco até rir de nervosa.
—Ora, doidivanas! —Digo exaltada. —É um concurso para ser pai? —A ironia sempre foi minha válvula de escape para o nervosismo.
—Digo a verdade. —O homem afirmou seriamente. —Seria um escândalo Julieta revelar, então eu revelo. —Ele fala fazendo Camilo olhar para mim enojado.
—É verdade? —Camilo perguntou para Julieta. Que situação constrangedora e deprimente. Todos esperam a resposta de Julieta e finalmente a rainha do café fala algo.
—É. —A voz de Julieta era inaudível. —Mas nenhum homem terá direitos sobre ela! —Ela afirmou irritada olhando para Olegário e em seguida para meu pai.
—É mentira. —Meu pai disse indo até Julieta, mas Olegário impediu. —Se afaste da minha filha! —Ordenou alterado para Olegário.
—Calma, Aurélio. —Camilo pede segurando meu pai. —Não adianta brigar. Temos uma recém nascida presente. —Ele lembra enquanto Júlia chora.
—Ela não é sua filha. —Julieta desferiu a verdade em meu pai. —Tê-la trazido ao mundo foi uma caridade. Mas a mãe dela sou eu. —Falou sobre meu pai ter feito o parto de Júlia. A rainha do café está esmagando meu pai e eu não posso fazer nada.
—Ela é minha filha. —Meu pai insistiu. —E se for preciso vou tirar Júlia de você! —Revelou totalmente for de si
—Petulante! —Julieta ofende meu pai enquanto vai até o criado mudo. —Antes eu acabo com a sua raça! —O revólver estava em sua mão direita apontando para meu pai enquanto segurava Júlia com o outro braço. Meu coração parece errar as batidas nessa situação e apenas choro.
—Mãe... —Camilo tenta acalmar Julieta. —A senhora está com uma criança no colo. —Lembrou, todavia Julieta não ouviu. A mãe que segura Júlia nos braços é a mulher que ameaça meu pai com um revólver.
—Está totalmente desequilibrada. —Meu pai alega. —Você não teria coragem. —Seu desafio atiçou Julieta. Retire essas palavras, pensei nervosa.
—Papai, cale-se. —Peço enquanto choro com medo de Julieta atirar.
—Largue a arma. —Olegário pediu nervoso, temendo pela vida de meu pai.
—Atira, Julieta. —Meu pai enfrentou a rainha do café. —ATIRA! —Gritou enquanto Julieta tremia. Não sei se é de ódio ou medo, mas choro mesmo assim.
—Você pode não ser o pai de minha filha, mas ainda é pai de Ema. —Julieta fala olhando para mim. —Vá embora. —Ordenou irritada novamente.
—Como tem coragem de falar isso? —Meu pai insiste. —Você deu o nome de minha mãe para nossa filha.
—Um gesto de gratidão por você ter ajudado no parto. —Julieta revela magoando meu pai novamente. —Eu digo e repito: Júlia não é sua filha. —Decreta.
—Julieta! —Era Darcy. —Desculpe atrapalhar, mas é import... E esse revólver? —Pergunta incrédulo olhando para Julieta.
—Pode falar. —Ela disse pondo a arma no criado mudo como se nada tivesse acontecido.
—Uma praga pelo cafezal. —Darcy revela. —E parece que seu cafezal também está assim, Aurélio. —Revela para papai.
—Eu vou agora mesmo ver meus cafezais. —Papai disse sem se despedir de Julieta.
(...)
—Eu sei. —Digo olhando para Julieta se arrumando para sair. —Você está com medo de meu pai tomar Júlia de você.
—Ele deixou isso claro, mas ele não é o pai. —Ela responde.
—Eu pensava que você estava com medo. —Digo ganhando sua atenção. —De meu pai ser como Osório Bittencourt.
—Tanto ele quanto Aurélio acham que podem mandar nos filhos. Mas como bem sabemos ele não fará isso.
—Não queria registrar Júlia como filha de Olegário para não ser coagida. —Digo sem pensar e vejo Julieta irritada. —Eu entendo agora. Você usou meu pai! Como teve coragem?
—Nunca duvide de mim, Ema. —Julieta diz friamente. —Agora não há nada que eu deva fazer.
—É triste ver que meu pai teve uma síncope de tanta angústia sem notícias suas e quase morreu de alegria quando soube da sua gravidez. Ele te ama, Julieta. E eu sei que está mentindo para não se sentir dominada por um homem. —Digo irritada enquanto ela escuta calada. —Eu sei do seu segredo e entendo seu receio, mas vê-la mentir para meu foi a sentença de morte deste amor.
—Eu não menti sobre Júlia. —Ela afirma mais uma vez. —Eu preciso sair. —Julieta prefere fugir de nossa conversa.
—E Júlia? —Pergunto.
—Vou levá-la. —Julieta afirma e nego. —Vou ao leilão e depois verei meus cafezais.
—Eu levo-a. —Falo olhando para Júlia. —Não deveria mas ela precisa de você.
—Eu fico admirada que depois de ter apontado uma arma para teu pai e negar que Júlia é sua irmã, você ainda queira cuidar dela. —Julieta confessa incrédula.
—Ela é uma criança, um bebê indefeso. Eu peguei Júlia quando ela nasceu e estive com ela na primeira manhã de sua vida. Se ela não é minha irmã então que seja a boneca que nunca tive. Uma boneca que precisa de cuidados e amor. —Digo quase chorando. —Ela é linda, Julieta. Já reparou nos lábios dela? São tão vermelhos como um botão de rosa. Júlia é uma boneca, um anjo e estou apegada à ela.
—Muito bem. —Julieta se recompõe. —Não vejo mal nisso.
—Não há maldade no meu afeto por Júlia Bittencourt.
Julieta
O leilão estava repleto de pessoas dando suas ofertas enquanto eu esperava o melhor momento para dar a minha. Júlia sequer se incomodava nos braços de Ema, não parecia ouvir ninguém falar. —Lembro da comparação que Ema fez com Júlia e um botão de rosa. Todavia lembro do caule da rosa que cortei e sangrou. Aquilo não era real e só agora estou me dando conta. Será que o cansaço está me fazendo ter alucinações? Estou com medo de enlouquecer agora que Camilo e Júlia precisam de mim. Mas ninguém precisa saber que tive momento de loucura.
—Pago o dobro. —Digo ao ouvir a última oferta. Todos os homens presentes olham irritados para mim como de costume e sorrio por isso. A rainha do café voltou.
—Mais alguém? —O leiloeiro pergunta e sorrio ao me dar por vencida.
—Pago o triplo da oferta de Julieta Sampaio. —Era a voz de Aurélio quem tomava conta do lugar enquanto ele entrava no salão. Quem ele pensa que é para cobrir minha oferta? Maldita hora que ensinei Aurélio sobre o ramo dos cafés!
—Calma, Julinha. —Ema pede quando Júlia se inquieta com a chegada do pai.
—Dobro a oferta dele. —Digo irritada em ser desafiada por Aurélio. Sorrio provocativa e ele funga irritado. Eu não me curvo, nem me dobro diante homem nenhum. Muito menos ao rei do café!
—Cubro a oferta. —Aurélio diz olhando para Júlia nos braços de Ema. Mas logo me lança um olhar provocativo como fiz minutos antes. Minha vontade é de agredir Aurélio mas também sinto a necessidade de beijá-lo. Céus, a luxúria é um caminho sem volta.
—A fazenda nem vale tudo isso. —Digo baixo para ele. —Essa propriedade é minha! —Minha irritação fez Aurélio rir. Sua risada me deixa ainda mais irritada e não consigo reagir.
—A rainha e o rei do café disputando pela fazenda Olho D'agua. —O leiloeiro disse chamando a atenção de todos.
—Essa fazenda é minha. —Digo novamente para Aurélio. Ele vai ceder, eu sei que vai! Eu nunca perdi nenhum leilão e não será agora que irei perder.
—Desta vez você perdeu, Julieta Sampaio. —Aurélio fala desafiador. Que horror vê-lo me irritar chamando pelo nome e sobrenome.
—Eu nunca perco, Aurélio Cavalcante. —Desafio-o também.
—E então? —O leiloeiro pergunta curioso enquanto olho para Aurélio. A tensão é gritante e não conseguimos falar absolutamente nada.
—Os dois compram. —Ema disse ao levantar com Júlia nos braços. Todos olham para a moça sem entender até ela falar. —Os dois pagam pela fazenda e ela pertence aos dois.
—Vendido. —A última palavra foi dada antes que eu e Aurélio fizéssemos algo. —Prosperidade à fazenda Sampaio e Cavalcante.
(...)
—Eu disse para não vir. —Aurélio fala quando nos afastamos da mesa de negociação.
—Eu não obedeço homem algum. —Digo. —Muito menos um concorrente. —Que irônica é a vida. Concorrentes nos negócios, mas amantes na cama entre quatro paredes.
—Então se acostume, Julieta. Não terá Ema para apaziguar a situação todas as vezes. —Aurélio disse antes de entrarmos numa sala reservada.
—Ela gosta de Júlia e se ofereceu. —Revelo.
—Ema ainda tem esperança que Júlia seja irmã dela. —Aurélio garante irritado. —E você se aproveita disso.
—Entenda como quiser. —Minha voz foi fraca assim como eu quando Aurélio se aproximou. Seu perfume ainda é o mesmo de sempre e lembro vagamente do cafezal da fazenda Ouro Verde. Pelas minhas contas foi naquele dia que concebemos Júlia.
—Eu não quero minha filha perto de você. —Era quase uma ofensa para mim. —Diante de uma má influência. —Minha mão pesou em seu rosto pela segunda vez.
—Então prenda sua filha e afaste-a da minha Júlia. —Ordeno.
—É a segunda vez que você bate em mim. —Aurélio lembra incrédulo.
—Não vai me beijar como fez da primeira vez? —Pergunto olhando para seus lábios
—Você me traiu. —Ele lembrou e eu nego. —Eu ainda tinha esperança que você estivesse mentindo. Mas até apontar um revólver para mim você teve coragem.
—Você faria o mesmo por Ema. —Digo completamente irritada. —Júlia é minha filha, Aurélio. Apenas minha.
—Mas você me traiu mesmo assim. Olegário? Justo ele? —Aurélio pergunta indignado. —Eu não entendo você, Julieta. Eu realmente não entendo seus motivos e talvez você queira rir agora por brincar com meus sentimentos. Agora entendo o motivo de nunca aceitar se casar comigo e de fugir para outro país. —Meu coração está em pedaços ao ver Aurélio magoado comigo. —Meu coração arde de amor verdadeiro por você e simplesmente odeio isso. Odeio amar você, Julieta. Odeio pelo simples fato de não conseguir parar de amar uma mulher que não confia em mim e só pisa no meu ego. —Era uma misto de tristeza e raiva em Aurélio, todavia não deixo nítido que estou abalada. —Eu sou o rei do café, mesmo tendo entrado no ramo agora sou prestigiado e tenho um sobrenome a zelar. Eu sou Aurélio Cavalcante, filho do Barão de Ouro Verde. Mas eu amo a rainha do café, uma mulher que se esconde e é incapaz de amar. Mas vejam só, ela é capaz de apontar uma arma para mim.
—Eu...—Tento falar alguma coisa enquanto Aurélio olha furioso para mim. —Você precisa me entender! —Peço ganhando suas costas e sua risada nervosa.
—Julieta! —Ema chamou por mim enquanto Júlia chorava. —Ela não para de chorar. —Disse me entregado Júlia. Ema saiu apressada novamente e me deixou sozinha com Aurélio.
—Calma, meu amor. —Peço enquanto Júlia chora. —Não precisa fazer alarde.
Aurélio
Viro as costas para Julieta não se intimidar enquanto amamenta Júlia. Mas minha curiosidade fala mais alto e por isso olho acima dos ombros, disfarçando enquanto Julieta alimenta Júlia com o néctar da vida. A menina se cala e demora um pouco a segurar o peito da mãe, mas rapidamente entende que é dali que vem seu leite. —Talvez não demore muito para a menina ganhar peso graças ao leite de Julieta. —Retiro meu paletó para cobrir o colo de Julieta enquanto ela amamenta Júlia.
—O que pensa que está fazendo? —Julieta perguntou incrédula quando me viu sem o paletó. Quando ela notou minha intenção ficou ruborizada e sorriu.
Júlia Bittencourt se alimentou tranquilamente conforme sua mãe acariciava seu rosto. Como essa menina não é minha filha? Meu coração não pode estar tão enganado assim. Eu trouxe essa menina ao mundo e Julieta esperou por mim para Júlia nascer. Júlia é minha filha e Julieta está tentando me enganar por algum motivo. —A menina tem meus olhos e não nega para ninguém que tem meu sangue.
Uma preocupação toma conta de meus pensamentos. Mais cedo Julieta estava com ar de louca dizendo que jorrava sangue do caule de uma rosa e logo em seguida perdeu o controle de si mesma ao apontar um revólver para mim. —Mas ela parece perfeitamente bem, embora tudo indique que Julieta está louca. —Não pode ser! Julieta não pode ter adoecido!
Saio do local imediatamente, fechando a porta tão forte que Ema olhou para mim assustada. —Minha cabeça esta girando e não consigo raciocinar direito. Julieta enlouqueceu e tenho como provar tal coisa. —Sinto alguém tocar em meu ombro e me viro bruscamente assustando Susana.
—Julieta está nesta sala. —Digo antes que ela fale algo.
—Aconteceu alguma coisa? —Susana pergunta confusa.
—Eu quem pergunto: Julieta está apresentando algum comportamento fora do normal? —Pergunto preocupado. —Eu estou preocupado com ela.
—Ela fez alguma loucura? —Susana pergunta temerosa.
—Hoje pela manhã Julieta viu uma rosa sangrar e apontou uma arma para mim. A arma foi o de menos, mas antes ela disse ver uma rosa sangrar. —Revelo assustado. —E rosas não sangram, Susana!
—Bom... —A mulher parece saber de algo. —Aconteceu algo parecido e mais grave. —Revela nervosa. —Julieta estava perturbada, fora de si quando foi para São Paulo antes do casamento de Camilo e Jane. E num descontrole duradouro contratou um ator para se passar por um padre no casamento de seu primogênito. —Susana revela me deixando assustado. —O casamento de Jane e Camilo não é válido perante Deus e muito menos perante à lei. Mas depois de concluído seu plano Julieta simplesmente desabou a chorar arrependida.
—Isso é grave. —É a única coisa que consigo dizer.
—E agora com a pequena Júlia... —Susana fala entristecida. —Imagine se Julieta faz algo contra a menina. —Ela supõe.
Nada respondo à Susana. Julieta saiu da pequena sala com Júlia nos braços e devolveu meu paletó, sorrindo agradecida enquanto penso na possibilidade dela fazer alguma coisa contra Júlia. —Como ela teve coragem de contratar um ator para o casamento de Camilo? Eu não sei sentir nada além de raiva. —Por outro lado penso que esse seu ato foi consequência da sua loucura.
(...)
—Parece preocupado. —Ema percebe quando parou de tocar piano
—E estou de fato.—Confesso. —Mesmo dizendo que não quero mais saber de Julieta...
—Pai. —Ema me interrompeu. —Preciso revelar algo para o senhor. —Minha filha falou vindo até mim, sentando ao meu lado. —Eu descobri algo sobre Julieta, mas é algo muito... Íntimo.
—É algo tão grave assim? —Pergunto curioso.
—Sim e acho que ela deveria falar para o senhor, mas é tão íntimo que Julieta vai negar —Ema fala indo até seu piano e pega um diário. —É o diário de Julieta. —Revela me entregando. —Eu li e acabei descobrindo coisas que não deveria sobre ela.
—Ema, você não poderia ter feito isso. —Repreendo minha filha.
—Julieta precisa de ajuda, pai. —Ema garante me deixando assustado. —Ela sofreu em seu casamento e até hoje carrega essa dor.
—Isso é algo muito pessoal, Ema. —Aviso. —Não vou ler esse diário. Estarei sendo invasivo com Julieta.
—Se quer ajudar Julieta a única maneira é entendendo os medos dela. —Ema garante abrindo o diário. —Leia, papai. —Pede quase chorando. —Mas seja forte ao ler.
—Eu não vou ler nada! —Digo assustando minha filha. —Vou devolver esse diário à Julieta.
Julieta
Cantava para Júlia enquanto ela rendia-se ao sono novamente no berço. Eu sei que mentir para Aurélio é o maior pecado que estou cometendo, entretanto ele deixou claro que iria tirar Júlia de mim. Pelo menos Olegário se ofereceu para mentir e quase todos acreditam nessa mentira. Júlia é apenas minha filha e de mais ninguém. —Ouço um gemido baixo e suave de Júlia enquanto ela se mexe no berço.
—Você é igual ao seu pai. —Digo orgulhosa pelos olhos que Júlia herdou. Bebo todo o café que pedi, sem açúcar todavia noto um gosto diferente.
Olho para Júlia e lembro de quando eu era uma criança e jogava bola com os meninos, deixando minha mãe completamente enfurecida. Eu deveria gostar mais das bonecas e no entanto preferia estar correndo. —Eu era uma criança arteira e minha mãe sempre estava preocupada comigo. —Ela costumava dizer que eu era o filho homem que meu pai não teve. Dona Rosa era uma mãe preocupada e carinhosa, coisa que nunca fui com Camilo. Ela me contava das gravidezes anteriores que nunca vingavam e no dia que soube da minha existência. Disse que estava feliz mas tinha medo de não me trazer ao mundo como aconteceu com os filhos que perdeu.
—Eu já volto. —Digo para Júlia, mesmo que ela não ouça. Saio rumo ao meu escritor pensando em como vou manter uma fazenda junto com Aurélio. Não será uma tarefa fácil, mas não sou de me abater.
—Julieta. —Ouço alguém me chamar e grito ao ver quem é. —Você demorou no quarto. —Osório reclama enquanto nego para mim mesma que ele esteja em minha frente.
—Você morreu. —Digo trêmula. —Eu vi você definhar naquela cama! Eu vi! —Esbravejo enquanto Osório não para de rir diante meu sofrimento. —Volta para o inferno! —Ordeno aos berros.
—Veja! Eu não disse! —Ouço Susana falar para alguém enquanto choro. —Ela não está bem!
—Julieta! —Aurélio chamou por mim, me segurando quando minhas pernas me traíram e não consegui me sustentar. —O que houve? —Pergunta preocupado segurando meu rosto e prendendo seu olhar ao meu.
—Ele estava ali! Ele estava rindo de mim! —Digo apontando para o final do corredor. —Osório estava rindo de mim! —Revelo.
—Julieta, seu marido morreu há anos. —Susana fala assustada e nego. —Ela enlouqueceu.
—Eu não estou louca! —Exclamo irritada e Aurélio me prende em seus braços. —Ele estava bem ali! —Aponto para onde Osório surgiu. —Não deixem ele entrar novamente! Fechem as portas! —Ordeno.
—Faremos isso. —Aurélio afirma nervoso e olha para Susana. —Ordene aos empregados para que ninguém entre na fazenda, Susana. —Pede enquanto choro assustada. —Ninguém vai te machucar, Julieta. —Ele garante enquanto olho para o local procurando Osório.
(...)
—Deve ter sido o cansaço. —Rômulo fala após me examinar. —A senhora está se medicando sem acompanhamento médico? —Sua pergunta me assusta.
—Claro que não. —Afirmo ganhando os olhares desconfiados de Aurélio e Rômulo.
—Essa seria a única explicação. —Rômulo afirma olhando questionador para mim. —Quando falo sobre repouso é realmente repouso absoluto.
—Então é melhor que descanse desde já. —Aurélio afirma nervoso. —Muito obrigado, Rômulo. —Ele agradece por mim enquanto tento disfarçar minha vergonha.
—Me desculpe por isso. —Peço para Aurélio mas ele não esboça nenhuma reação. —Você, nem ninguém merecia me ver tão descontrolada. Mas afinal... Qual o motivo da visita?
—Eu voltei para devolver isso. —Aurélio então mostra meu diário. —Ema pegou e levou para casa. Peço desculpa pelo atrevimento de minha filha.
—Você não teve a ousadia de ler, teve? —Pergunto receosa enquanto Aurélio nega.
—Eu não seria capaz de ser tão evasivo em algo íntimo. —O rei do café afirma. —Eu só vim para entregar seu diário. —Disse colocando-o no móvel e olhando para Júlia adormecida no berço. —A única coisa que nos une agora é aquela fazenda. —Lembra friamente enquanto me levanto da cama.
—Lembra do primeiro beijo? —Minha pergunta fez seu semblante fechado mudar rapidamente.
—Assim como do nosso desejo de não se largar. —Aurélio afirma ao se aproximar sorrateiro. Então não me largue, penso.
Seus lábios pesaram nos meus enquanto sua lingua pedia passagem, lutando por espaço contra a minha conforme o beijo ganhava intensidade. Seus braços me prendiam em um abraço saudoso enquanto meus dedos afagavam seus cabelos, puxando vagarosamente expressando a falta que senti. —O resguardo ainda não passou e lembrar disso é torturante. —Sinto seu membro enrijecido quando minha mão direita pousa abaixo de sua cintura. Interrompemos o beijo por falta de ar e permanecemos calados, mas ofegantes. Seus lábios estão vermelhos assim como os meus e fico ruborizada por isso. Sua mão apalpava lentamente um de meus seios fartos de leite fazendo-me fechar os olhos e segurar firme em seu braço.
—Vá embora. —Ordeno me afastando de Aurélio, dando as costas para ele.
—Como preferir. —Aurélio disse se aproximando sorrateiro e retirando meu cabelo dos ombros, beijando meu pescoço e inalando meu perfume. Sugando minha pele com seus lábios até marcá-la enquanto mordo os lábios. —Nosso amor acaba aqui. —Decreta antes de partir e me abandonar tomado pela razão.
É duro mentir para Aurélio sobre Júlia e matar nosso amor. Todavia é mais duro ainda saber que iremos conviver juntos naquela maldita fazenda enquanto essa praga nos cafezais comprometem nossa produção. —Matei nosso amor por medo de Aurélio tirar Júlia de mim. Mas antes isso que ter minha filha longe de mim. —Eu não suportaria perder Júlia diante do ultimato de Aurélio. É mais fácil esquecer o meu amor por esse homem que abrir mão de minha filha.
Ema
Oito longos meses se passaram e a convivência de meu pai e a rainha do café está insustentável a cada dia. Já não basta conviverem no âmbito de trabalho, o rei e rainha do café estão diante de uma crise na produção de café graças a uma praga resistente. Os ânimos estão a flor da pele e todos os cafeicultores estão temendo pelos prazos de demanda. Alguns já faliram e os poucos que sobrevivem não comprar as fazendas improdutivas temendo gastar dinheiro em vão. —Julieta está estagnada e sem alternativas tal como meu pai. Mediante aos problemas meu casamento está cada vez mais próximo e Júlia está com exatos oito meses de vida. Um milagre que aos poucos ganhou peso e imunidade adequados.
—Eu não sei como ter esperança diante esse problema. —Ouço Julieta falar no escritório da fazenda Sampaio e Cavalcante enquanto brinco com Júlia.
—Não há outra escolha que não seja arrancar cada pé de café. —Meu pai já não vê solução e Julieta confiava nos conhecimentos dele em botânica.
—Será um gasto sem previsão de lucro. —A rainha do café afirma nervosa e sorrio ao vê-los juntos. Júlia engatinhou pelo chão extremamente limpo como Julieta exige por causa de sua filha. A princesa do café largou tudo e caminhou até os soberanos do café e assim permiti, mas me arrependo ao vê-la bater seu corpo contra o móvel de madeira quando perde o equilíbrio. —Júlia!—Julieta alardou assustada quando viu sua filha prestes a chorar. A mão foi até seu peito e sua expressão era de medo.
—Muito bem! Levanta, papai
—Meu pai disse involuntariamente para Júlia e impediu o choro da menina. Ele afastou o móvel e Julieta olhou para meu pai cuidando de Júlia. —É sempre bom não fazer alarde quando ela se machucar. —Meu pai ensina enquanto põe Júlia sentada em seu colo. —Mas, voltando... —Retomou o trabalho enquanto eu admirava seu cuidado com Júlia. A menina olhava tudo em sua volta com seus olhos verdes e parecia curiosa com meu pai.
—Venha, meu amor. —Julieta pediu ao lembrar que meu paí tratou Júlia como sua filha. Mas ao erguer seus braços para Júlia, a menina não foi para a mãe. —Júlia? —Chama incrédula.
—Deixe ela comigo. —Meu pai pede cauteloso. —Quer minha caneta? Pode ficar. —Disse quando Júlia pegou a caneta e jogou no chão logo em seguida gritando e me fazendo rir.
—Imperativa como a mãe. —Digo baixo enquanto Júlia arranca sorrisos de meu pai.
—Júlia! —Julieta chamou a atenção da filha e riu. Meu pai tocou no rosto de Julieta e um silêncio foi instaurado na sala enquanto eu me afastava deles.
—Seria perfeito se ela fosse nossa filha. —Meu pai falou enquanto eu sorria esperando Julieta falar algo.
—Não insista. —Pede a rainha do café temendo uma discussão árdua com meu pai, pegando Júlia dos braços dele mesmo que a menina não queira. —Acho que isso é tudo por hoje. —Diz pegando sua bolsa quando levanta do sofá.
—Está tarde, Julieta. —Meu pai afirma tentando fazer por onde a rainha do café ficar na fazenda. —Não é prudente você e Júlia saírem essa hora.
—Meu pai tem razão. —Falo ao voltar para a sala, ganhando a atenção de Júlia nos braços da mãe. —É tarde da noite e não é aconselhável que você volte para a fazenda Bittencourt.
—Afinal, essa casa também é sua. —Meu pai e eu insistimos de todos os lados.
—Tem razão. —Julieta é vencida por nós. —Vamos ficar.
Aurélio
Nos últimos meses, mesmo que um pouco distante emocionalmente, não me afastei de Julieta como ela pensa. Ema usa a desculpa de cuidar de Júlia mas minha filha faz isso para observar Julieta. Precisei fazer isso para que ninguém soubesse dos rompantes que a rainha do café tinha. Em alguns dias Julieta dá indícios de sair da realidade, mas rapidamente volta. —Já me dei por vencido sobre a paternidade de Júlia, todavia Ema nega que Júlia seja filha de Olegário.
—Que criança linda. —Meu pai diz vendo Júlia nos braços de Ema. —E a cobra da mãe dela?
—Vovô! —Ema chama a atenção de meu pai. —Julieta foi se preparar para o jantar.
—Ótimo. Assim eu posso mimar essa preciosidade. —Meu pai fala pegando Júlia dos braços de Ema. —Uma pena não ser minha neta.
—Ela é. —Ema insiste.
—Não insista, Ema. —Peço. —Eu me deixei levar pensando que Júlia era minha filha e Julieta provou o contrário.
—Mas esses sapatos estão muito frouxos. —Meu pai fala sobre os sapatos de Júlia. —Melhor tirar. —Diz retirando os sapatos e meias.
—Ora, ela tem um machucado no pé. —Ema fala preocupada.
—Isso é uma marca de nascença. —Digo olhando para o pé esquerdo de Júlia Bittencourt. —É igual a minha. —Lembro e então olho para Júlia.
—Aurélio, essa menina é sua filha. —Meu pai afirma mostrando a marca de nascença em Júlia. —Lembra que Ema também tem uma?—Perguntou no momento que Ema mostra a mesma marca em seu pé esquerdo.
—Contra fatos não há argumentos. —Digo pegando Júlia nos braços. —É minha filha, mas eu não entendo a razão de Julieta mentir. —Falo beijando minha filha e ela grita estridente. —Eu sempre soube mas acreditava em Julieta. Eu não posso acreditar que ela foi capaz de mentir para mim sobre algo tão sério. Sobre colocar o nome de Osório em Júlia e alegando que seu pai era Olegário! —Desabafo abraçando Júlia. —Ela não tinha esse direito! Eu cheguei a duvidar! Eu quase neguei minha filha!
—Julieta só pode ser louca. —Meu pai alega totalmente irritado. —Agradeço por você não ter se casado com ela.
—Mas Júlia é minha filha e Julieta terá que entender isso. —Afirmo decidido. —Eu vou fugir com ela. —Revelo pegando meu chapéu e Ema se assusta.
—Papai, volte aqui! —Ema pede e volto somente para buscar os sapatos de Júlia. —Não cometa essa loucura! —Pede nervosa.
—Eu não vou permitir que Julieta crie minha filha dessa maneira. —Digo irritado. —Diga para a rainha do café que fui passear com Júlia pelo jardim.
—Para onde você vai com essa criança, Aurélio? —Meu pai pergunta preocupado. —Não tire a menina da mãe!
—Papai, Julieta vai será capaz de matar o senhor. Lembra de quando ela mirou no senhor com um revólver? —Ema pergunta nostálgica.
—Lembro de quando ela fugiu com minha filha. Fuga por fuga não há problema. —Digo antes de sair enquanto Ema chama por mim.
(...)
Vejo o motorista colocar a minha única mala no carro enquanto Júlia dorme tranquila em meus braços sem ter noção do que estou fazendo. —Cubro minha filha com uma manta vermelha e entro no automóvel com cuidado. —Olho uma última vez para as ruas do Vale do Café e penso no quanto entristecida e brava Julieta ficará. Mas eu não vou permitir que ela me afaste de Júlia, então eu tomarei nossa filha dela.
—Boa noite, meu anjo. —Digo ao ver Júlia acordar e olhar para todos os lados como se estivesse sentindo falta de alguém, precisamente da mãe.
—Para onde, senhor? —O motorista pergunta.
—São Paulo. —Digo. —O mais rápido possível até o porto. —Exijo enquanto Júlia pega no sono novamente.
—AURÉLIO! —Ouço uma vez feminina gritar por mim.
—Julieta. —Digo ao vê-la se aproximar acompanhada por Brandão e Darcy. Ema correu até o carro, mais rápido que Julieta e olhou para Júlia adormecida.
—Venha, eu ajudo. —Diz pegando Júlia nos braços ao entrar no carro e eu saio.
—Para onde você pensa que vai com a minha filha? —Julieta não esqueceu de dar ênfase e mostrar sua irritação.
—Ela é minha filha. —Enfrento Julieta, fazendo-a vir para cima de mim mas Brandão e Darcy impediram que ela me agredisse.
—Calma! —Brandão pede. —Pela lei Júlia não é sua filha, entregue a menina. —Pede. —É o melhor que pode fazer.
—Lei nenhuma muda os fatos. —Digo irritado enquanto Julieta fulmina de raiva. —Júlia é minha filha e vou levá-la comigo!
—Eu te mato antes! —Julieta afirma fora de si e segurando seu revólver, apontando contra mim.
—Julieta! —Darcy chama a atenção dela ao ver Júlia nos braços de Ema. Minhas filhas estão no carro e faço um final para o motorista levá-las caso algo aconteça.
Em uma distração de Julieta seguro seu punho na tentativa de retirar o revólver de sua posse. "Separem eles!" Ema repetia nervosa acolhendo Júlia nos braços enquanto Darcy e Brandão tentavam separar Julieta de mim. Nossos rostos estão próximos como da primeira vez que nos beijamos após Julieta me agredir. Mas antes que nossos lábios pudessem se unir um disparo foi efetuado entre nós pela arma que estava próxima aos nossos ventres.—Tudo parou em nossa volta enquanto minha mão trêmula estava prestes a tocar no rosto de Julieta com a intenção de enxugar sua lágrima. Há dor física e emocional entre nós assim como há medo e surpresa.
"Estas alegrias violentas têm fins violentos
Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora
Que num beijo se consomem." —William Shakespeare
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