Love and Resistance
3 Orgulho
Notas iniciais
Julieta
Foram anos escondendo minha pele macia e translúcida com meus vestidos negros. Prometi sufocar cada vestígio de mim mesma depois que Osório Bittencourt me manchou com sua podridão. —Eu era uma garota tão feliz e sonhadora. Pensava em conhecer o mundo que existia fora dos jardins de meus pai. Adorava sentir o sol aquecendo minha pele e dando-lhe cor conforme o tempo que passava no campo. —Mas foi justamente em um desses dias de calor que Osório aproveitou de minha inocência.
Foram anos suportando o peso de sua mão em minha pele. Quando percebi já não mostrava sequer meus braços, o tecido foi estendido até meus pulsos. Eu não queria mostrar para ninguém o quanto era fraca perante a força descomunal de Osório. —Mas com isso acabei matando a verdadeira mulher que eu sou. Nunca mais cuidei de mim com o zelo que merecia.
Eu pareço ser o reflexo de Osório agora. Tão fria e distante da garota que morreu após o abuso sofrido. Por isso sinto aversão de mim mesma por estar usando o par de alianças no dedo anelar esquerdo. Em estar de luto por um homem que me matou em vida. E por ainda carregar seu sobrenome junto ao meu nome. —Mas Aurélio fez nascer em mim um sentimento que eu já não sabia mais como era ter: amor.
Amor por mim mesma. Sempre recebi elogios por minha agilidade e trabalho, mas nunca recebi um elogio de mim mesma. Nunca mais olhei para meu reflexo no espelho e disse o quanto elegante ou bela poderia ser. Eu fui maltratada pelo meu próprio desleixo e ódio que me consumiam diariamente. —Mas o amor de Aurélio é tão real que me fez enxergar que eu não poderia amar ninguém se antes não me amasse. Sem antes ser segura e apaixonada por mim mesma. Como eu poderia amá-lo sem antes amar a mulher que sou? O amor deveria transparecer de dentro para fora. E o amor dele foi capaz disso. Aurélio Cavalcante semeou o amor em mim e exonerou minha solidão.
Eu amo esse homem e admiro sua capacidade de amar apesar de meu orgulho. O amor dele me obrigou a cometer loucuras que até hoje não entenderia como fui capaz de fazê-las.
Flashback On
—Eu cresci nesse cafezal. —A voz de Aurélio era plena de saudade. —Foi onde vi Ema crescer também. —Havia afeto em sua voz todas as vezes que falava sobre Ema.
—Quem sabe um dia essa propriedade não volte para sua família. —Falo sugestiva. Me sinto tão culpada agora que vejo Aurélio lamentar, mas é tarde demais.
—Não acredito que isso seja possível. —Ele diz magoado, mas não me culpa por isso. Caminhamos tanto que estamos distante o suficiente para que nos vejam juntos. Hoje é um dia extremamente quente no Vale do Café e meu vestido parece colaborar com isso.
—O que está fazendo? —Pergunto recebendo seu carinho em meu rosto. Olho ao redor temendo que alguém nos veja.
—Sinto sua falta. —Aurélio revela olhando para meus lábios. Sua voz está rouca e reflete seu desejo por mim enquanto minha respiração está totalmente descompensada.
—Prometi que seria a única vez. —Digo sobre a noite de amor que tivemos.
—Não pode prometer por nós dois. —Aurélio brincou e acabo sorrindo. Seu dedo desliza suavemente em meus lábios, me torturando por saber que anseio pelos seus.
A força do desejo foi maior que qualquer outra coisa. Minhas mãos percorrem pelo seu paletó com a mesma veracidade que suas mãos levantam a saia de meu vestido. —A loucura parece ter tomado conta de nós dois. Mas pela primeira vez me permito enlouquecer nos braços dele. —A terra seria um empecilho se ele não tivesse me colocado em seu colo. Seguro seu rosto suavemente, no entanto nosso beijo não é tão suave como antes.
—Aqui não é o lugar. —Chamo sua atenção, todavia não me desvencilho de seus braços. Meu corpo deseja o corpo dele com urgência. Aurélio é o único homem que preenche minha intimidade de mulher. E agora que sei disso não quero me sentir incompleta nunca mais.
Nossos lábios se afastam bruscamente quando nos completamos perfeitamente. Um gemido suave escapou de meus lábios e fez Aurélio me procurar com urgência e ardor. Minhas pernas prendem sua cintura, indo contra suas investidas com veracidade. Sua boca estava em meu pescoço sugando minha pele enquanto suas mãos seguram minha cintura. Meus gemidos vão aumentado gradativamente junto aos seus conforme o ápice de nosso prazer.
Flashback Off
Mas eu temo sofrer novamente e minha angústia apenas cresce. Não suportaria ver Aurélio sendo para mim o que um dia Osório foi. Eu não aguentaria esse golpe duas vezes. E por isso dei adeus ao amor de minha vida. —Ouço a criada chamar por mim, mas estou tão perdida em meus pensamentos que apenas saio de meu quarto em direção a sala e atendo ao telefonema. —É quando finalmente volto para a realidade. Antes de perguntar quem é, sou surpreendida.
—Mãe. —Camilo chama por mim e meu coração bate forte.
—Camilo. —Falo sem ação.
—Mãe, que loucura é essa? —Sua voz é de tristeza, todavia preocupada também. —Eu soube da gravidez.
—Como ficou sabendo? —Pergunto assustada.
—Todos já sabem que a rainha do café está grávida. —Meu filho afirma. —Eu não posso ir até onde está e acho prudente que volte com meu irmão.
—Me deixe falar. —Era Ema quem lutava contra Camilo pelo telefone. —Julieta?
—Ema. —Tento não rir, mas é inevitável.
—Fico aliviada por estar rindo. Onde está meu pai? —Ema pergunta, mas não ouso responder.
—Alô, dona Julietinha? —Era Ofélia Benedito. Minha risada não foi estridente pela sensatez que uso para não causar nenhum constrangimento. —Mas a senhora é pior que erva daninha. —Me assusto com sua crítica. —Olhe, estamos todos aqui preocupados com a senhora.
—Agradeço...
—Não seria melhor voltar para o Vale? Afinal, o filho da rainha do café deve nascer em terras brasileiras. —Dona Ofélia sugere e acabo concordando. —Eu mesma já disse e aposto que é uma menina, mas todos acreditam que seja um menino.
—Não há como saber. —Falo acariciando meu ventre.
—Claro que há. —Ela afirma. —Eu mesma tive cinco filhas. Repito, cinco filhas. E conheço muito bem quando uma mulher está gerando outra. —Ofélia garante. —Pelo tamanho já sabemos. Oras! Se a barriga for pequena é menino.
—A senhora pode estar certa. —Digo segurando minha risada.
—E se for uma menina, a barriga é farta. Afinal, toda menina gosta de espaço. —Diz e então rimos. Sento no divã prevendo o quão longa será essa conversa com Ofélia Benedito.
(...)
Olho para meu reflexo no espelho e custo acreditar que estou devidamente vestida. Ainda sinto como se o vermelho de meu vestido fosse algo ímpio, mas sorrio ao lembrar que é apenas um vestido aveludado que realça minha silhueta. —Meu ventre é notório conforme o tempo que passa. Acariciá-lo parece tomar meu tempo sem que eu sinta. —Meu cabelo está levemente preso enquanto algumas mechas estão soltas e enfeitam meu rosto suavemente. Sequer pareço a Rainha do Café que todos estão acostumados a ver.
Pela primeira vez em minha vida tenho receio pelas críticas das pessoas. Já não lembro mais como é ser o centro das atenções. —Ora, talvez sequer notem minha presença.
Aurélio
Dei meu adeus à Julieta, mas não voltei para o Brasil como deveria ter feito. Aproveitei minha vinda para a Inglaterra e resolvi ampliar meus negócios no ramo do café. —Mas não consigo tirar Julieta de meus pensamentos e na boa sensação que tive ao vê-la grávida. —Mesmo que ela dê ao entender que esse filho não é meu, eu sei que é. Senti a mesma felicidade que um dia senti com a chegada de Ema, quando toquei em seu ventre. —Eu não vou permitir que Julieta separe meu filho ou filha de mim. Mas também não posso obrigá-la fazer algo que não quer. Estou literalmente em uma sinuca de bico.
—Isso é tudo. —Graziela concorda, me trazendo para a realidade. —Meu pai irá gostar de saber que tudo foi resolvido sem ele ter vindo.
—Você sempre foi o braço direito de seu pai? —Pergunto. Graziela me lembra Julieta em relação a força e determinação no ramo dos negócios.
—Nem sempre. —Seu olhar perdeu o brilho ao lembrar do passado. —Meu pai sempre sonhou em ter um filho, não uma filha. Mas o destino parece brincar com nossas vidas. —Voltou a sorrir. —Sempre fui a filhinha dele até o dia que minha mãe faleceu. Éramos só nós dois e ele precisava confiar em mim.
Me lembro de quando minha esposa faleceu e da idade de Ema naquela época. Minha filha tinha apenas doze anos quando a mãe adoeceu e me deixou sozinho. —Passei todos esses anos dando atenção para minha filha com medo dela sentir a solidão que uma órfã pode sentir. —Eu acabei mimando Ema ao extremo e fiquei acomodado com o carinho de minha filha.
—E o senhor? —Graziela pergunta curiosa. —Tem filhos?
—Uma filha. —Respondo, mas logo trato de corrigir. —E outro prestes a nascer. —Falo imaginando como será meu filho com Julieta.
—Aurélio? —Julieta surgiu próximo a mesa, ganhando toda atenção.
Seus cabelos estavam soltos e diferente de quando nos vimos pela última vez. Julieta já não usava mais o luto como de costume. O vermelho do tecido de seu vestido trazia um belo contraste com sua pele translúcida. —Seu olhar caiu sobre Graziela com uma certa curiosidade, o desdém era nítido eu seu rosto. —Uma de suas mãos estava em seu ventre, me fazendo sorrir pelo carinho que ela tem pelo nosso filho. Admiro suas feições e seu olhar noturno, analisando cada detalhe de Graziela. Já havia visto seus cabelos soltos, mas não canso de admirar cada detalhe seu. Julieta parece ter ganhado sua liberdade e agora deixa transparecer.
—Imagino que essa seja a sua esposa. —Graziela falou extrovertida como sempre. Como eu queria que isso fosse verdade...
—Como disse? —Julieta pergunta confusa e acabo sorrindo.
—Se me permite dizer, a gravidez lhe caiu muito bem. —Graziela acaba elogiando Julieta.
—Apenas deixou em evidência a beleza que já existia. —Falo após me levantar e ganhar seu olhar curioso. Há ciúmes da parte de Julieta e sua expressão não nega isso.
—Se sua filha mais velha for parecida com a senhora então devo dizer que a beleza é hereditária. —Graziela fala ao pensar que Ema é filha de Julieta. —Bom, eu adoraria conversar mais um pouco. Mas tenho obrigações.
—De qualquer maneira fizemos um bom negócio. —Falo antes de beijar a mão direita de Graziela.
—Até breve, senhora Cavalcante. —Graziela se despede de Julieta.
Olho para Julieta e não canso de admirar sua beleza. Toco em seus cabelos enquanto ela olha para mim com curiosidade sobre Graziela. —Estranho o tamanho de seu decote e tento ajustá-lo para que não mostre mais do que deve. —Julieta me repreende com seu olhar e afasta minhas mãos de seus seios, olhando ao redor envergonhada pela minha atitude.
—Sempre nos separamos, mas o destino parece trabalhar para nos unir. —Falo.
—Pensei que tivesse ido embora. —Ela está na defensiva como sempre. Ofereço a cadeira para ela sentar. E mesmo que contrariada, assim faz e olha para mim. —Esse restaurante é um dos meus prediletos e não esperava encontrar você aqui.
—Curiosamente temos os mesmos gostos. —Falo risonho e ela acaba rindo também. —Deveria sorrir mais, Julieta.
—Agora tenho um motivo. —Ela responde se referindo ao bebê. —Eu só não entendo porquê aquela mulher me chamou de senhora Cavalcante.
—Entenderia se não fosse tão orgulhosa e unisse sua vida com a minha. —Não deixo esconder meu desejo de desposar Julieta.
—Não há razão evidente para isso.
—Existe e está crescendo dentro de você. —Falo segurando sua mão. —Algo está perturbando você, Julieta. Você está com medo e confusa. Me permita ajudar você, meu amor.
—Não estou confusa. —Ela rebate.
—Mesmo que grite aos quatro ventos que esse filho não é meu, eu sei que é. —Minha afirmação assusto-lhe.—Não dou motivos para me afastar de sua vida, Julieta. —As barreiras de seu orgulho estão caindo aos poucos novamente, é notório em seu olhar. —Você está confusa diante dessa mudança.
—Eu já estive grávida antes. —Julieta afirma e sorri demostrando a pior de suas artimanhas: o cinismo.
—Está bem. —Desisto. Ela parece não acreditar que desisti, mas disfarça. —Mas pelo menos volte comigo para o Vale do Café. —Peço.
—Depois que nosso filho nascer. —Julieta garante enquanto sorrio. —Qual o motivo para rir?
—Você acaba de afirmar que esse filho também é meu. —Falo rindo ao ponto de algumas pessoas olharem para mim. —Venha comigo. —Peço novamente. —Você precisa de alguém ao seu lado nesse momento.
—Vai ficar ao meu lado? —Julieta pergunta suavemente como uma criança.
—Eu vou estar com você quando essa criança nascer. —Prometo segurando suas mãos e beijando-as em seguida.
(...)
—Cuidado. —Peço ajudando Julieta ao descer o degrau da escada.
—Lembra de quando o barão arquitetou aquele complô contra mim? —Ela pergunta e acabamos rindo. —Você me carregou no colo.
—Foi a primeira de muitas vezes. —Falo ironicamente deixando Julieta ruborizada.
—Me dê sua mão. —Ela pede risonha. Julieta segurou minha mão e levou-a até sua barriga. Senti meu filho chutando inquieto causando um incomodo visível em Julieta.
—É sempre tão inquieto? —Pergunto prestes a chorar.
—Desde a primeira vez que se fez notar. —Julieta responde olhando para nossas mãos juntas.
—Eu tenho sorte. —Digo olhando para Julieta.
—Não acredito em sorte. —Ela diz apenas para me contrariar.
—Então é nosso destino.
Julieta
Há anos não sorria despreocupada como faço agora. Nunca caminhei de mãos dadas com ninguém e agora faço isso com Aurélio. Tento evitar todas as vezes que ele fala sobre unirmos nossas vidas e agradeço por ele não notar meu medo. —Minha vontade é de lhe contar sobre meu passado. Eu já deveria ter feito isso e no entanto tenho medo de como Aurélio irá reagir. —Tenho medo dele dar razão às monstruosidades que Osório fez comigo alegando ser algo aceitável em um casamento. E se ele assim fizer, deixará evidente a espécie de marido que seria para mim também.
—Não pensamos em nenhum nome. —Aurélio fala extrovertido mas eu não entendo. —Para o nosso filho. —Ele lembra animado e então sorrio.
—Eu escolho se for menina. —Digo. —E você se for um menino. —Faço minha proposta.
—Arthur. —Aurélio responde rapidamente e permito uma risada estridente sair de minha garganta. —Qual o motivo da risada?
—Escolheu tão rápido. —Digo ainda rindo. —Foi o primeiro nome que veio em mente?
—Também pensei em homenagear meu pai. —Paro de caminhar imediatamente e olho apreensiva para Aurélio.
—Não me diga que pensa em colocar o nome de seu pai nessa criança. —Meu medo fez Aurélio rir.
—Seria como um acordo de paz. —Ele diz enquanto nego freneticamente. —E se for uma menina?
—Ainda não sei. —Respondo sincera. —Na primeira vez que estive grávida desejei uma menina, mas acabei tendo Camilo.
—Quem escolheu o nome dele foi você? —Aurélio pergunta mas eu nego.
—Eu tinha apenas dezesseis anos e meu pai acabou influenciando na escolha de nome do meu primogênito. —Revelo.
—Você casou tão nova. —Aurélio fala um pouco espantado. —Qual o motivo? —Sua pergunta me deixou nervosa, mas trato de me recompor e respondo sua pergunta.
—Meus pais assim quiseram. —Minto olhando desconfiada para Aurélio.
—Me lembro de papai falar vagamente sobre Osório Bittencourt. —Aurélio fala nostálgico e sinto meu coração bater descompensado.
—Ele era um pouco mais velho que eu e por isso o barão conhecia Osório. —Respondo. —Eu tinha apenas dezesseis enquanto Osório já era um homem feito.
—Você amava s-seu marido? —O nervosismo de Aurélio é notório, todavia não é maior que o meu. Ninguém nunca me perguntou sobre isso e não tenho coragem de mentir.
—Não. —Foi a única coisa que consegui responder. —Eu nunca amei o pai de Camilo. —As lágrimas escorriam pelo meu rosto mesmo que eu lutasse contra elas.
—E qual o motivo dessas lágrimas? —Aurélio pergunta preocupado.
—Eu... —Tento falar, mas rapidamente lembro de meus medos. —Eu acabei me lembrando de quando Camilo era uma criança. —Minto.
—Eu também me lembro de quando Ema era uma criança. —Aurélio sorri nostálgico. Seu sorriso cessou minhas lágrimas sendo notório seu poder sobre mim.
—E como ela está? —Pergunto quando voltamos a caminhar.
—Noiva de Edmundo Tibúrcio. —Aurélio revela totalmente feliz, todavia fico surpresa.
—Sua filha vai casar? —Pergunto incrédula.
—Qual o espanto? Seu filho também é casado. —Meu coração ficou apertado ao lembrar que o casamento de Camilo é uma farsa.
—Eu só estou surpresa em saber que Ema e Edmundo se amam. Nunca soube de nada sobre eles.
—É um casamento de negócios. —Aurélio responde e rapidamente largo seu braço.
—Não existe casamento de negócios! —Minha irritação só não foi maior que meu tom de voz. —Você vendeu sua própria filha, Aurélio!
—Claro que não! —Ele ainda tem a audácia de negar. —Isso é natural.
—Covarde! —Minha acusação ganhou olhares curiosos na rua. —Você vende sua filha como uma mercadoria e acha algo normal?
—Você não entenderia. —Aurélio rebate.
—Eu passei por situações constrangedoras em minha vida e nunca precisei vender Camilo. —Acabo ferindo o orgulho de Aurélio.
—Claro, Julieta. Camilo é um homem. —Suas palavras me dão ânsia. —Não tente me corrigir como pai. Afinal, você também comete erros com Camilo.
—Então somos falhos com nossos filhos, essa criança só precisa de mim para errar com ela. —Digo, lhe causando espanto. —Eu não quero um pai como você perto de meu filho, Aurélio.
—Você pode não precisar de mim, mas essa criança vai. —Ele garante nervoso.
—Eu vou suprir a sua ausência. —Garanto. —Eu soube criar Camilo sozinha e posso fazer o mesmo agora.
—Eu não vou permitir. —Aurélio ousa me desafiar.—Está agindo como uma louca, Julieta. —Era Aurélio quem movia seus lábios, mas foi a voz de Osório que saiu. Ele está agindo exatamente como o pai de Camilo costumava agir. —Julieta! —Chamou por mim após olhá-lo pela última vez antes de seguir caminhando sozinha.
(...)
—Não faça isso nunca mais. —Aurélio pede assim que entramos em casa.
—Não consegue alcançar uma mulher grávida? —Pergunto irritada.
—Eu não estou entendendo você. —Aurélio fala nervoso. Vejo o quanto irritado ele está, todavia não me deixo intimidar. —Desde que cheguei a única coisa que fazemos é brigar.
—Sinal que não temos futuro. —Falo sem pensar e me arrependo.
—Eu não sou covarde ao ponto de abandonar a mulher que amo com um filho. —Aurélio afirma aquilo que já sei. —Afinal, é isso que deseja? Que abandone-a com um filho que também é meu? Nenhuma mulher gostaria disso.
—Eu não sou qualquer mulher! —Elevo minha voz com tal comparação. Aurélio sinaliza com suas mãos para que eu me acalme, todavia não consigo.
—Pare, Julieta. —Pede apreensivo e olha para meu ventre. —Não está vivendo apenas por você agora.
—Eu realmente não consigo entender nós dois. —Digo irritada comigo mesma. —Eu amo você e no entanto não suporto esse seu pensamento dúbio sobre o casamento de Ema. —Seus olhos estão marejados assim como os meus também estão. —Você me agrediu. —Seu olhar foi de espanto antes mesmo que eu pudesse continuar. —Agrediu o meu orgulho e sou grata por isso. Seu amor me fez renascer, ele é tão forte que despertou em mim todos os outros sentimentos bons.
—Então, por que quer me afastar? —Aurélio pergunta confuso, se aproximando de mim.
—Eu tenho medo. —Digo mesmo que haja um nó em minha garganta. —Medo de sofrer novamente como um dia sofri.
—Está errada. Eu não posso te fazer sofrer porquê te amo. —Ele afirma mais uma vez. —Você precisa me falar a razão desse medo ou nunca poderá ser feliz.
—Não. —Nego enojada por imaginar que contaria meu passado para Aurélio. —Eu ainda não posso falar. —Digo plenamente desconfiada.
—Seja lá qual for o motivo, eu estarei com você. Vamos voltar agora para o Vale, Julieta. —Pediu me envolvendo em seus braços. Finalmente aceito voltar para o Brasil, mesmo que insegura. Aurélio beija minha testa carinhosamente e sorrio aliviada. O melhor a se fazer é voltar para o Vale e lá ter meu filho.
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