Love Story
9 Reconciliação
Notas iniciais
3:34P.M.;CALÇADA DO BAIRRO DO LIMOEIRO.
Eu nem ao menos sabia o que fazer. Correr; pensei; eu tinha de correr muito. Mas o meu pé protestava quando apressava o passo, e o gesso era pesado. Não podia obrigar minhas pernas a se moverem mais rápido, então simplesmente sai a passo rápido e mancando igual a uma doida pela rua (se eu tivesse visto uma cenoura naquele dia do caramelo, já estava no hospício faz tempo).
O caminho era muito conhecido para mim. Já o tinha feito tantas vezes que poderia fazer de olhos fechados, se quisesse. Quando finalmente pude avistar a entrada de vidro da padaria, suspirei de alivio. Meu coração não estava batendo forte igual às outras vezes que estive ali, e aquilo era sem duvida um péssimo sinal.
Mas a noticia na Mônica havia virado meu mundo de cabeça para baixo, e eu nem entendia o motivo de toda aquela reviravolta. O que eu tinha haver com ela e com o recente namorado dela? Nada. Eu só tinha haver com o garoto que estava naquela padaria.
E de repente com umas bofetadas básicas naquela loira de segunda categoria.
— Quinzinho! – disse eu, assim que abri a porta de vidro, e o vi contando umas notas de dinheiro perto do caixa. – Me desculpa!
Ele percebeu que eu estava mancando na hora. Veio mais para perto de mim e eu tropecei nos meus próprios pés, caindo direto para os braços dele. Joaquim me acolheu, me abraçou. Não consegui erguer o rosto de seu abraço, e aquilo foi o limite para minha cabeça. As lagrimas presas desde o dia anterior jorraram dos meus olhos como de uma torneira aberta, logo ele ia pegar baldes. E lá estava eu, chorando igual a um bebê recém nascido.
— Calma, calma. Passou. – ele disse no meu ouvido. Nem percebi que estávamos sentados nas cadeiras. Só estava preocupada em chorar e em acabar com a camisa do Joaquim (que eu dei pra ele, vê se pode?). – Está tudo bem. Tudo bem.
Claro que não estava tudo bem. Os soluços sacudiam meus ombros, e eu fiquei cada vez com mais vergonha de estar fazendo tudo aquilo com ele ao meu lado. Havia sido tão injusta e grossa com ele no dia anterior, e Joaquim agora era tão gentil. O que seria de mim sem ele?
— De-desculpa. – solucei, levantando o rosto para ele. Sentia as lagrimas em minha bochecha, mas me pergunto se estava realmente ruim o meu estado. – Fui tão bu-burra ontem que nem sei se vo-você deveria me per-perdoar.
— Não. Está tudo bem. – Joaquim disse, beijando o topo da minha cabeça. – Você não é burra. Você é a garota mais linda, mais doce e mais meiga que eu conheço. E eu te amo tanto que faria qualquer coisa para você parar de chorar e sorrir.
— E gu-gulosa! – disse, tentando recuperar o humor.
Ele assentiu com a cabeça, lembrei que estava triste e com a mesma rapidez com que o bom humor veio foi embora.
— Eu tam-também te a-amo. – solucei mais. Até para mim mesma aquelas palavras pareciam falsas e vazias. Poucos dias atrás, não eram. – Promete que nunca vai me de-deixar, mesmo se eu for uma idiota co-como fui ontem? – Ai! A verdade dói!
— Eu prometo que vou estar sempre do seu lado. – ele disse, alisando meus cabelos negros. E será que para ele aquele choro era apenas uma crise histérica? E para mim mesma, o que significava? – Você é minha namorada, eu preciso de você tanto quanto você precisa de mim.
Naquele momento tive a impressão de ouvir um soluço contido, mas quando olhei em volta não via nada. Ali havia apenas mesas, uma delas com um pão integral com queijo branco e alface comido pela metade, e um café desnatado quase vazio. E eu reconhecia a embalagem do dia em que havia terminado com Quinzo. Em cima da mesa existia dinheiro, notas de grande valor que com certeza valiam mais do que aquela refeição.
Mas resolvi não pensar nisso naquele momento, estava vivendo uma coisa tão boa, tão positiva. E agora todas as células de meu corpo precisavam do apoio de meu namorado.
— Ótimo. Porque eu estou precisando muito de você. – finalmente, meus soluços haviam passado e as lagrimas agora eram completamente raras. Enxuguei minha bochecha e limpei a garganta, saindo do colo do namorado que nunca deveria ter deixado de ser meu. Minha vida estava uma confusão agora. Sentei reta na cadeira.
(N/A: a música é da miley, mas é boa,escutem: http://www.kboing.com.br/miley-cyrus/1-1028845/ )
— Com um café ou com um pedaço de bolo você iria melhorar? – ele propôs.
Sorri fraco, Joaquim era lindo e fofo. Não aceitei nem o café e nem o bolo, mas quando ele ofereceu um suco de laranja feito na hora, não consegui recusar; com a condição de lhe pagar depois. Logo, estávamos nós dois, conversamos sobre nosso namoro dês de criança, mas algo faltava, eu sempre ia refletindo que tudo que eu sentia naqueles momentos era diferente do que eu sentia hoje, mas eu não ia me deixar abater, foi apenas a briga, logo tudo vai voltar ao normal!
Fui interrompida de minha auto-avaliação da vida quando Joaquim (quero dizer, Quinzo) apertou a minha mão com um pouco de insegurança, e eu comecei a prestar mais atenção ao que ele falava – pois devia estar “ausente” há minutos.
-Magali...Sobre a Irene, eu...
-Shhhhhh! – falei, colocando meus dedos sobre sua boca. – Fofo, eu não sei se quero saber o que houve entre vocês dois, mas eu preciso saber – falei, meu coração doendo com o peso da dúvida – você ficou com ela ou algo do tipo?
Ele tombou a cabeça sobre o peito no qual tantas vezes eu me aninhara para desabafar e deixar qualquer lágrima que os meus pais não soubessem correr.
Naquela posição, de cabeça baixa, eu comecei a tremer, tive muito medo da resposta que ia se seguir, mas não era ciúme, era uma espécie de esperança que eu temia que fosse quebrada, temia, temia muito, mas não sabia o que eu temia.
-Magali, eu tenho que te contar, eu realmente não queria, mas...
A esse ponto eu já havia me levantado, eu sabia que devia estar com uma fúria sem igual, uma tristeza que dificultaria até meus movimentos, mas aquela esperança permanecia, apesar de, pela lógica, ela já deveria ter se estilhaçado em minha frente como um espelho. Por isso, quando ele me pediu suplicante e cheio de culpa, que eu me sentasse na cadeira da padaria de seus pais, eu o fiz, com o rosto imóvel.
- Antes de tomar qualquer decisão, e sair mancando pela porta furiosa, me deixe contar o que aconteceu, então você pode sair dessa padaria e se quiser pode nunca mais falar comigo.
Eu assenti, agora mais relaxada, pois do jeito que ele falava, não parecia nada tão horrível – e eu nem esperava que fosse.
Ele começou, depois de um longo suspiro:
-Sabe ontem, quando você saiu, eu não consegui explicar nada do que realmente estava acontecendo.
“Mas isso agora não interessa, o que interessa é que você saiu e eu fiquei muito triste, e me virei para dar uma bronca na Irene por ter te irritado.
O que eu não esperava era o que aconteceu logo a seguir. Eu me virei e ela estava do lado de dentro do balcão, muito perto de mim, eu dei um passo para trás para me afastar dela, e então ela se aproximou e...”.
- Tudo bem, Quinzo. – falei, tentando segurar as lágrimas. – Apenas me fale, depois de te beijar o que aconteceu?
- Eu empurrei ela com violência para longe e disse que ela era louca achando que eu ia gostar dela depois de tudo que ela fez. Ela começou a chorar e disse que um dia eu ia ser dela. Depois me deu uma nota de dez reais e saiu correndo. Magali, eu juro, não aconteceu nada além disso.
-E quando você riu quando ela disse que eu ia virar uma baleia e tal? – perguntei, curiosa para saber o que estava rolando “antes” e “durante” o meu ataque histérico.
-Eu ri porque pensei: coitada, não tem nem idéia de como a Magali é mais rígida com dieta do que ela mesma.
- Como assim mais rígida? – falei, começando a me arrepender do exagero da calda de caramelo.
- Você não vê, mas, logo antes de você fazer sua visita diária, ela pede aquele lanche com café e meia dúzia de bombas de chocolate.
Senti minha boca salivar, mas ignorei e voltei a fazer perguntas:
- Então ela passa por aqui todos os dias? Nunca a vi.
- Ela vai embora assim que você chega, eu já devo ter uns R$100,00 de lucro depois de todas as vezes que ela deixou notas sorteadas e não aceita o troco de volta.
- Ah! – exclamei distraída.
- Você me odeia? – ele perguntou um tanto surpreso com minha indiferença.
- Meu amor, é claro que não! – respondi beijando as duas bochechas dele. – Eu te amo tanto, não poderia encontrar um namorado assim em mil anos. E você simplesmente me contou o que aconteceu, e nem fui eu que toquei no assunto! E depois aquela oferecida da Irene dá em cima de todo mundo.
- Eu também te amo. Não quero te perder nunca. – falou ele com o rosto enterrado em meus cabelos negros e rindo um pouco, feliz.
Dei-lhe um selinho e o convidei para vir á minha casa, para comer os restos do bolo que mamãe fizera na manhã anterior. Infelizmente, ainda era cedo e ele tinha muito trabalho pela padaria.
Apesar de super ocupado, Joaquim arrumou tempo de ser o namoro perfeito e fez questão de ser o maior fofo e me levar em casa, conversando e dizendo que me amava á cada cinco minutos.
Após me despedi dele, fechei a porta de casa e encostei as costas na parede, tombando a cabeça para o lado, me sentindo completamente derrotada. Eu havia reatado o namoro com o Quinzinho, e o peso doloroso no meu coração não sumia. Estava me matando por dentro.
Subi as escadas com dificuldade para o meu quarto e me joguei na cama, repetindo milhões de vezes para mim mesma que rapidamente e facilmente as coisas voltariam a ser como eram.
Que delícia a minha vida, não?
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