Love Story
10 Escapada
Notas iniciais
10. ESCAPADA
8:45 A.M., ESCOLA DO LIMOEIRO.
Após passarem os primeiros dias, eu percebi que estava completamente enganada. As coisas não voltaram facilmente ou rapidamente a serem o que eram. Na verdade, não voltaram.
Era cada vez mais difícil ficar ao lado de Joaquim, e ainda fingir que estava feliz da vida. E com Irene a situação se agravava muito mais – por sorte, era só comentar que a raiz do cabelo dela estava aparecendo que a loira-nem-tão-loira saia correndo chorar na mamãe.
Mas este não era o maior e pior problema. Meu pior e maior problema tinha nome e sobrenome, identidade e para meu completo azar, estudava exatamente na mesma sala de aula que eu.
A semana foi, para mim, solitária. Não que eu estivesse muito tempo sozinha, longe disso. A Mô continuava a ir todos os dias lá para casa, para nós duas fazermos os deveres de casa juntas. E eu voltei a ir à padaria toda noite para tomar um suco com o Joaquim.
Mas ainda assim, quando via minha melhor amiga e seu mais recente namorado de mãos dadas na saída da escola, meu coração se apertava. E realmente não entendo o motivo disso, já que tenho o Joaquim. E sei que o amo. Quero dizer, estamos juntos há muitos anos, é impossível não amá-lo.
Então, no final das contas, qual é o meu problema?
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- Magali! – minha melhor amiga me chamou, e sua voz veio da carteira a minha diagonal, onde ela estava sentada desde o inicio da semana; junto ao Cebola. Levantei pesadamente minha cabeça do livro de ciências e olhei. – E então, mulher? Vai ou não para o shopping quarta-feira depois da aula?
Demorei alguns segundos para processar. Eu andava tão lerda nesses dias, e me sentia uma sortuda toda vez que podia colocar a culpa nos remédios para a dor no pé; dizendo que era comum eles darem sonolência e cansaço em excesso – além de febre e enjôos, que foi a desculpa que dei a todos quando não apareci na aula segunda feira, já que eu estava muito deprimida.
Shopping. Pensei. O que diabos eu tem a ver com shopping? Lembrei vagarosamente de ter marcado com a turma – lê-se: um encontro de casais, só eu e o Joaquim e a Mô e o Cê – de sair depois da aula. E aquilo era um saco, já que eu estava adorando afundar a cara no travesseiro todo dia depois da aula enquanto a Mônica não chegava para estudar (passatempo legal né?).
- De novo? – respondi, e, antes de virar para voltar ao livro e ao exercício que o professor passou, acrescentei: – Fazer o quê lá?
- Oras! – ela sorriu zombeteira, parece que perdi muitas coisas. – Não vamos ver o novo filme que está passando? Eclipse?
Sorri fracamente, dando graças a Deus por ter me dado uma desculpa perfeita para não ir para esse maldito shopping.
- Sabe Mô, eu adoraria, mas, além do Joaquim não poder ir — isso era verdade, ele me falou no dia anterior que a gripe voltou com tudo – eu não vi os primeiros filmes e...
- Esquece isso, garota! Eu te dou uma introdução e você assisti sem maiores problemas. – disse Mô, achando que sabia de tudo.
-Não, poxa! Eu odeio ver seqüências de filmes sem ter visto os anteriores, você sabe disso! – me zanguei. Estava realmente muito irritada esses dias.
- Tudo bem, vou aceitar isso por hora. Mas ainda temos muito tempo para quarta-feira, vou arrumar um jeito de você ir. – respondeu ela com um biquinho.
Eu ri sem humor algum e suspirei aliviada por ter escapado dessa.
- Certo!
Mônica sorrio. Cheirou o pescoço do Cebola, que estava bem do ladinho dela, já que eles estavam fazendo a tarefa em dupla. O garoto, que conversava com Cascão sobre algum jogo de futebol no dia anterior, gargalhou e puxou o queixo da Mô em encontro com a boca dele. Virei rápido a cabeça antes de ver a cena e voltei a fazer meu exercício com aquele bolo esquisito na garganta.
O sinal para o intervalo tocou, dei uma desculpa qualquer dizendo estar com dor de cabeça e passei o lanche inteiro na enfermaria, onde já estava começando a ficar conhecida por aparecer muito por lá.
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Estávamos todos na ultima aula do dia, que era História, minha pior matéria. Já no
finalzinho, quando todos arrumavam suas coisas para finalmente ir embora e, no meu caso, afundar a cara no travesseiro e tentar morrer sufocada. – ok, esquece isso, desde quando virei emo?
Então, para o azar de todos, a professora não dos deixou sair e foi para a frente da sala.
- Turma, antes de vocês saírem, Carmem Frufru tem um comunicado a fazer. – disse a professora, a quem eu já estava odiando.
Carminha, que é uma loira riquinha, tomou o lugar da professora e parecia estar esperando uma salva de palmas para começar. Como não houve nada, ela continuou contrariada:
- Bem, – começou orgulhosa, ai, lá vem. – minha família está abrindo um hotel simples em Barra Bonita, eu estive lá nesse final de semana, e o lugar é lindo! Lá tem um programa de cruzeiro que passa pelo rio Tiete, é bem... Razoável. – ela fez uma careta hilária. – Enfim, meus pais irão inaugurar o hotel mais ou menos no meio de agosto, depois das férias, e eles concordaram em fazer um pacote especial para levar os primeiros anos do Colégio do Limoeiro. O diretor concordou e ficou honrado, claro, e amanhã vamos entregar uma circular com todos os preços e passeios e dias. E vamos poder fazer uma viajem de cruzeiro pela costa!
As pessoas ao meu redor começaram a falar animadas sobre como aquilo seria legal, e Carminha pareceu muito satisfeita por todos terem gostado. Eu também gostei e fiquei animada, mas não tanto. Eu estava naturalmente desanimada, na verdade.
- Agora, eu quero que você se sente Carmem, por favor. – pediu a professora, e Carminha não pareceu gostar. – Então crianças, falem logo com seus pais pois todos precisam pagar antes de as férias começarem, nesta sexta-feira.
E depois a professora explicou, com ajuda da Carmem, todos os possíveis preços e os possíveis passeios que poderíamos fazer em Barra Bonita, e todas essas coisas chatas que ninguém quer saber. Mas o impressionante era que, mesmo isso sendo chato, as pessoas estavam tão interessadas e animadas que prestavam toda a atenção nessas baboseiras.
Lembrava que minha avó havia ido há alguns anos atrás para esse lugar, e dissera que era realmente muito lindo, e eu morria de vontade de conhecer. Mas, por algum motivo, eu não estava muito animada agora.
Após todos perguntarem a vontade sobre o tal passeio, a professora liberou a sala e finalmente pude tomar o meu rumo para o portão da escola, onde sairia e iria andando para casa almoçar.
Na verdade, eu até estava semi-animada para esse passeio. Comparando com o meu estado zumbi nos últimos dias, era o equivalente de sair correndo, pulando e gritando pela rua. É, era um começo.
- Ei, Magali, não tão rápido! – ouvi minha melhor amiga gritando. Olhei para trás, de onde vinha sua voz, e a vi correndo em minha direção. O namorado dela não estava com ela, graças a Deus aconteceu esse milagre! – Quero conversar com você.
Suspirei e forcei meus pés a pararem e esperarem pela Mônica. Ela chegou até mim sorrindo, carregando a bolsa gorda nas costas com a maior leveza que sua super-força permitia. Os seus cabelos escuros e curtos estavam bagunçados e havia um brilho de felicidade em seus olhos, que estavam ali já fazia duas semanas.
Inveja.
- Oi, Mô. – falei, dando de ombros, fingindo que estava tudo bem. – O que foi?
- Nada. Só queria perguntar se você acha que vai para Barra Bonita. — falou ela.
- Ah! Não sei. – disse eu. – Vou ver com meus pais, mas eu acho que talvez seja legal. Quem sabe, não é?
- Eu gostaria muito de ir. Imagine só, nós todos, em um lugar totalmente lindo, sem pais, praticamente sozinhos! – Mônica parecia muito feliz com a idéia. Ela parecia feliz com tudo, na verdade. – Seria perfeito!
Concordei com a cabeça, dando um sorriso amarelo. Era ótimo conversar com Mônica, principalmente quando ela desgrudava do namorado dela. Nós duas concordamos que seria uma tragédia faltar esse passeio.
Só Deus sabe como, Mônica conseguiu me convencer a ir até a cantina tomar um sorvete com ela e conversar mais um pouco. Afinal, disse ela, as provas haviam acabado e as férias de julho estavam praticamente começando.
- Então, dona Magali – começou ela, toda maliciosa. – pensa que escapou de mim naquela história do shopping, pra ver Eclipse? Claro que não! Eu estive pensando aqui, e acho que hoje ou amanhã eu posso passar na sua casa com os outros dois filmes da saga e nós podemos passar uma tarde inteira vendo. O que você acha?
- Ah, Mô, eu adoraria, mas...
- Não, Magali! Nada de mais desculpas! Não adianta dizer que vai estudar, eu sei que você não vai. – Mô respirou antes de continuar. – Qual o problema? Você não quer sair mais comigo, quero sabe o motivo.
Suspirei. Não tinha mais para onde fugir. Era aceitar a proposta ou inventar um motivo qualquer e sem nexo. Preferi o motivo sem nexo.
- Na verdade, eu gosto de sair com você, só não gosto de ser um candelabro e sair com você e o Cebola. – falei, jogando meu sorvete no lixo. – Vocês são um casal, precisam fazer coisas de casais, eu só atrapalho.
- Nunca que você atrapalharia! Eu adoro quando você sai com agente. – E Mônica me abraçou. — Mas se você se sente assim mesmo, chame o Joaquim e nós faremos programas de casais.
- Ele está doente.
- Ah, Maga... Só essa única vez, por favor, por favor! O Cebola não presta para ver filmes, você que presta! Eu juro que você não vai ser uma vela. – ela insistiu, fazendo um biquinho e esbugalhando os olhos, tentando parecer fofa e abandonada. Eu ri. – Por favorzinho!
- Tudo bem. – cedi, derrotada. Mônica me abraçou dando pulinhos felizes. – Mas só dessa vez.
- Você não vai se arrepender! Vai se divertir de montão!
- Espero... – falei baixinho.
Ela me soltou e começou a falar de como a história dos livros era incrível, e que eu, que adorava ler, com certeza iria amar tudo. Mônica só parou de falar quando eu olhei no relógio e percebi que minha mãe iria me matar, pois eu estava vinte minutos atrasada.
- Vou passar na sua casa hoje, lá para as 14h, tudo bem? Assim dá tempo de assistir todos os filmes. – falou minha melhor amiga ainda eufórica. Ela era tão alegre. Eu costumava ser assim também, não era? Parecia tão distante.
- Certo. – falei revirando os olhos. – Cadê seu namorado hein?
- Ah, ele disse que ia jogar futebol com os meninos. – ela revirou os olhos, e me perguntei por que eu queria saber dele. – Sabe como são meninos, nunca crescem.
- Sei, sim.
Me despedi dela rapidamente, principalmente quando percebi Cebola vindo todo suado em direção a nossa mesa. Já seria vela na quarta-feira, por tempo suficiente para minha vida toda.
Tomei o rumo da minha casa, pensando quando minha vida iria voltar a ser realmente deliciosa.
Notas finais
muitas coisas acontecerão em Barra Bonita!
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