— Chris, telefone! – Chris ouviu a voz de Sr. Brown lá de baixo e ele, cambaleando, pôs a se levantar. Alex automaticamente levou as mãos embaixo dos braços dele, coisa que quase o fez recuar momentaneamente, e o ajudou a se levantar e Chris foi aos tropeços.

— Agh! – Gemeu ao sair pelo portal da porta, colocando as mãos na frente dos olhos, a luz mais intensa dali o perturbando mais ainda, o que o fizera cambalear pra trás.

— Precisa de ajuda com as escadas? – Alex perguntou um tanto em voz alta.

— Eu to de ressaca, não de cadeira de rodas. – Ouviu Chris responder e um outro gemido e um barulho seco. – Eu devia ter aceitado, já foi.

Alex sacudiu a cabeça negativamente e olhou pelo quarto do rapaz, tinha um cheiro estranho então ele abriu as cortinas, deixando a luz iluminar o quarto azul e abriu as janelas para poder dar uma refrescada naquele cômodo.

Assim se virou novamente e se sentou no sofá mais uma vez, o quarto era em formato retangular, um ponta a janela, a outra a porta na lateral, com outra porta na frente que era o armário. A ponta da janela tinha o sofá de dois lugares embaixo, um pouco na frente do sofá havia a cama que se encaixava num canto feito especialmente para ela então era parede em 2 lados. Ao lado do sofá e na frente da cabeceira da cama havia um criado-mudo com um abajur de lava vermelha, desligada no momento. Do outro lado do sofá, a escrivaninha longa, com um computador ali, a tela lotada de adesivos na moldura e ao lado uma televisão com um PlayStation 2 ao lado com vários jogos jogados do lado, era um belo desleixe.

Chris retornou ao quarto logo depois e se jogou na cama que o fez quicar uma vez e levemente. Alex não pôde ver seu rosto, aparentemente parecia querer evitar a luz ainda, mas não fecharia a janela.

— Então? – Perguntou Alex.

— Era Nishi, estava preocupada que não fui à aula. – Respondeu sem emoção.

— Ela nem sabe o que ocorreu, talvez eu conte. –

Chris gemeu.

— Está louco para se vingar, não é? – Disse Chris depois de um silêncio. – Me perdoe.

Alex suspirou, inclinou a cabeça um tanto pra trás e pra frente novamente, devagar.

— Me diz pra que foi beber.

— Eu estava zangado, com tesão e queria aliviar tudo isso.

— Acabou aliviando tudo isso mesmo, não foi? – Alex retrucou com certa raiva na voz, bem visível. – Você é incompreensível e teimoso, você queria transar na minha casa na presença da minha mãe...

— Não é só transar... Não é só isso... Aquilo dentro... Meu coração... Ele não aguenta mais esperar por você. Dói me segurar, dói me segurar pra não te beijar, pra não te agarrar, pra não te... Pra não te dar um carinho... Todas essas coisas. – A voz de Chris ficou um tanto chorosa, ele falava alto, parecia não se preocupar com a presença de seu pai ou que ele ouvisse aquilo, Alex já tinha receio disso. – Eu quero te namorar, eu to pouco me lixando para o que vão pensar.

— Chris... Sabe que a situação é um tanto mais complicada do que isso, né? O que o seu time na escola vai pensar? Os seus pais, a minha mãe... A violência lá fora. – Alex respondeu, aturdido pela confissão mas sinceramente, estranhamente, feliz.

Chris ficou a choramingar na cama, em posição fetal, ele nunca parecera tão vulnerável quanto agora e parece que o estado atual deixou-o mais sincero do que nunca, Alex sentia um forte desejo de se jogar por cima dele, o abraçar, o acariciar, dizer que vai ficar tudo bem, beijá-lo... Mas as coisas não eram tão fáceis assim, pra nenhum LGBT era fácil, nem naqueles anos 2000, talvez nem nos 2020 ou nenhum outro lugar. E também não o fizera pois não queria dar falsas esperanças ao rapaz.

— Chris, me escuta... – Alex disse, levando a mão até os cabelos loiros do rapaz e lhe acariciando. – Chris?

Ele havia adormecido em meio as lágrimas. Alex suspirou, lhe acariciou os cabelos e ajoelhou-se na frente do rapaz, podendo ver os olhos, a face molhada, as lágrimas que escorreram “horizontalmente” dos seus olhos em direção ao colchão, molhando a roupa de cama neutra.

Alex decidiu então partir, silenciosamente, a deixar o rapaz dormir e se recuperar totalmente.

— Já vai indo, Alex? Chris não vai lhe acompanhar até a porta? – O Sr. Brown disse, ele estava no hall de entrada anotando algo na agenda e disse ao ver Alex descendo as escadas.

— Ele dormiu, achei melhor deixá-lo descansar. Bebeu até demais na noite passada. – Disse Chris.

— Bebeu, foi? Me disseram outra coisa. Acho que vou ter uma conversinha com ele depois. – O Sr. Brown respondeu, franzindo o cenho.

Alex gemeu, baixo, forçando os dentes e esticando os lábios, não sabia que o padrasto de Chris não tinha o conhecimento que o rapaz bebera. Ele levaria bronca por causa de Alex.

— Então, levei uma bronca.— Chris disse ao telefone quando Alex o atendeu ao chegar em casa. – Meu pai descobriu que eu bebi, acho que meu cheiro denunciou, não sei.

Alex esticou os lábios, um tanto em agonia.

— É-é... Bem... Você estava mesmo cheirando quando eu cheguei aí e... Espero que tenha tomado um banho, seu fedegoso. – Zoou Alex depois da gaguejada e a hesitada que dera. – Eu vou ter de tomar o meu agora, falando nisso, até depois.

— Ah, vai se f... CLICK

Estavam quase no meio do ano, as férias logo chegariam mas havia mais um pouquinho da escola para aguentar.

— Eu não aguento mais. – Um mal humorado e exausto Chris estava jogado em sua carteira, o rosto na mesa e os braços estendidos ali, deitado.

— Ah, já já tudo acaba. Mas nunca vai acabar se você não estudar direito, seu pateta. – Falou Chris, que estudava para as provas que se aproximavam. Nishi ao lado deles lendo febrilmente um livro e coçando a cabeça e só falou, sem tirar os olhos do livro.

— Vai ficar de recuperação as férias inteirinhas. – Falou Nishi.

Chris gemeu e lentamente foi se levantando, jogando a cabeça ao ombro de Alex e olhando o livro.

— Você me ajuda?

— Sim, eu ajudo. Quer que eu vá até sua casa para ajudar a estudar?

— Sim, venha até minha casa para me ajudar a estudar. – Chris ergueu as sobrancelhas.

— Isso não é um filme pornô, Chris, é sério. – Respondeu Alex, entre sério e entre dar um riso. Chris fez biquinho, um biquinho que Alex quis dar uma bitoca.

— Táá.

Alex e Chris foram para a casa do segundo depois das aulas, este tentou tomar a mão de Alex para segurar. Foi pego desprevenido mas segurou a mão do outro, seu coração deu um pulinho.

Atravessaram o caminho de pedra no jardim e Chris abriu a porta dando visão do hall, o corredor entre o hall e a escada aceso e Chris foi até lá.

— Ah, já vou. – Chris disse, respondendo a quem estivesse la. Olhou para Alex e ele acenou com a cabeça para que acompanhasse.

Alex o acompanhou e foi para o corredor que dava para direto a sala e ao lado o banheiro. Na sala estavam os pais de Alex e uma garota.

— Anne? Oi! O que faz aqui? – Disse Chris com um sorriso para a garota. Ela era um tanto mais alta que Chris, tinha cabelos negros e pele do tipo café com leite.

Os pais de Chris suspiraram, Alex ficou na entrada da sala, a observar depois de cumprimentar os pais de Chris.

— Chris. – Anne disse, pegando nas mãos de Chris. – Eu estou grávida.