Love Audit

2 O nascimento de um ESCROTO


Mas você me faz querer agir como uma garota,

Pintar minhas unhas e usar perfume

Sim, você me deixa tão nervosa

(Heart Attack/Demi Lovato)

Saio da sala e vou ao encontro do Sr. Tarcísio. Ele parecia tranquilo.

—O senhor precisa de mais alguma coisa, ou posso treinar os meninos?

—Pode ir.

Aquiesci com a cabeça.

Tinha dois rapazes na minha bancada. O primeiro parecia ser muito jovem, já o outro, também era jovem, mas nem tanto. Acredito ser por conta da barba que ele possuía.

—Oi, gente. Tudo bem? — Eu disse animada.

—Oi, tudo. — Eles respondem quase que em coro.

—Você é o…? — Indago ao mais jovem.

— Eu sou o Alan.

— Eu sou o Gustavo.

— Vou mostrar pra vocês o que eu faço aqui. Mas acho que amanhã vão ser só vocês dois. — Finjo tristeza.

— Sério? Por quê? — Alan questiona, com a voz mole.

Na verdade, esse garoto falava tão mole que parecia que tinha fumado uma plantação inteira de maconha. Seus olhos eram meio caídos, com um semblante “morto”. E sua dicção péssima fazia minha compreensão ser afetada. Não entendia praticamente nada do que aquele garoto falava.

Já o Gustavo, ele era mais tranquilo, mas parecia um pouco lerdo para as coisas. Parecia que tinha fumado metade da plantação de maconha. Era irritante às vezes, mas estava mais me divertindo do que ficando irritada.

Ensinei aqueles meninos… Bom… O que pude ensinar em um dia, pois era muita coisa. Mas eles vão se virando ao decorrer dos próximos dias. Espero ter te ajudado, pelo menos.

Ao final do meu expediente, o último (finalmente) naquela função, vou um pouco apreensiva para casa. Decidi não ir para faculdade, pois queria organizar as coisas antes do meu grande primeiro dia trabalhando ao lado do diretor. Estava nervosa, confesso, mas muito animada ao mesmo tempo. Não era exatamente o que estava buscando no momento, mas vai servir por agora, bom… pelo menos não estarei mais “sofrendo” naquela função braçal que tanto estava me desgastando.

Resolvo tomar um longo banho, o famoso banho premium que toda garota merece.

Uso a minha melhor máscara capilar de hidratação, a mais potente máscara facial. Queria estar perfeita amanhã. Talvez queira impressionar o patrão. Ou não. Estar bem comigo mesma, é a melhor coisa.

Saio do banheiro enrolada em uma toalha. Os meus cabelos enferrujados estavam agora molhados, mas muito cheirosos.

Vou ao meu quarto, e passo aquele perfume. Me sinto cada vez mais leve.

Jantei algo leve, e resolvo dormir mais cedo do que de costume, preciso estar disposta amanhã.

Viro de um lado para o outro, mas não consigo pregar os olhos, parece que minha ansiedade estava ganhando de mim. Mas depois de muita insistência, consigo pegar no sono. E que sono leve. Definitivamente estava muito ansiosa que não estava conseguindo descansar por completo, mas amanhã precisaria enfrentar o dia de qualquer maneira.

Acordo minutos antes do meu celular tocar. Então levanto sem hesitar.

Realizo meus rituais matinais, tomo o café mais rápido que pude. E me arrumo com tranquilidade.

Visto minha calça de alfaiataria preta, com uma segunda pele preta de gola alta. Resolvi ir totalmente all black. Como a partir de agora tenho liberdade de ir com o cabelo do jeito que quiser, sem ser preso, resolvo ir com ele solto.

Verifico minha imagem no espelho, e gosto do que vejo. Finalizo a produção com meu perfume preferido amadeirado, que funciona perfeitamente com o clima que estava fazendo hoje, um clima um pouco mais frio, mas não tão frio ao ponto de colocar uma blusa.

Saio de casa e finalmente faço o trajeto para o trabalho. Tinha que pegar somente um ônibus. Era relativamente perto da minha casa, uns trinta minutos.

Estava me sentindo irreconhecível, logicamente no sentido bom. Estava me sentindo tão desvalorizada, tão inferior naquele antigo cargo, que parece que isso que estou vivenciando é um sonho. Estou muito animada.

Vou caminhando em passos ágeis até o escritório do meu chefe. Subo um lance de escadas relativamente estreitas, e me viro em um corredor curto de algumas salas fechadas. Deveria ter umas quatro salas ali naquele corredor. A sala do Caio era a última. Então em passos curtos, com certo receio, caminho naquele curto corredor em direção à sua sala.

Ergo a mão, cerrei os punhos, e deixei ir de encontro a madeira da porta. Dou duas batidas suaves.

Após a minha ação, ouço movimentação vindo do interior da sala. Até perceber que ele estava de pé na minha frente, fazendo sinal para entrar.

Eu me sinto um pouco desconfortável ao notar que ele estava me analisando de cima a baixo.

— Bom dia. — Digo sorridente.

— Bom dia. — Ele parecia estar mais sério que ontem. — Pode sentar ali. — Apontou para a cadeira de frente para sua mesa.

— Então, oficialmente sou seu chefe. E eu tenho algumas regras pra você… Você vai trabalhar em alguma daquelas salas, lembra que eu comentei ontem? Pois então… vai ser lá. E vou tentar te dar espaço e provavelmente você só vai precisar me ver pessoalmente quando acontecer alguma coisa muito séria. Então a primeira regra é essa: só venha até mim quando tiver um meteoro caindo do céu. Acho que fui claro, certo?

Ele estava esquisito, diferente de ontem. Acho que ele revelou sua verdadeira face. Um escroto.

Então eu apenas concordei com a cabeça.

—Segunda regra básica: chegar no horário. E terceira e última: quero me manter informado de tudo que você está fazendo. Então, todo dia quero um relatório enviado por email. Ok?

— Sim. — Respondo, sem sorrir.

—É… — Coçou a cabeça. — Eu quero te mostrar a planilha que você tem que manter sempre atualizada. — Falou com os olhos fixos no computador, esperando que eu me levantasse e me aproximasse dele.

Fui em sua direção, me aproximei e me inclinei, apoiando uma mão sobre a mesa. Estava a pouquíssimos centímetros de distância dele. Ao me inclinar um pouco mais para observar a tela, percebo que meus cabelos estão no seu ombro, então faço a ação de passar o braço por trás da orelha e colocar o cabelo do outro lado.

Percebo um certo desconforto da parte dele. Ele parecia um pouco agitado. Senti seus olhos em mim. Agora foi a minha vez de me sentir um pouco desconfortável.

Senti sua respiração próxima do meu pescoço. Tento me manter calma.

Sinto ele colocando sua mão na minha cintura e se levantou, dizendo:

— Vou pegar a cadeira pra você. — Disse em um tom calmo, e um tanto sedutor.

É impressão minha ou ele está tentando flertar comigo?

Ele coloca a cadeira pra eu sentar. Dessa vez colocando a mão nas minhas costas, me guiando.

Eu estava tentando me manter tranquila, tentando disfarçar meu rosto quente. Não olhei para ele. Apenas agradeci.

Estava tentando me concentrar naquilo que estava dizendo, e funcionou, pois por um momento esqueci do momento embaraçoso.

— Tudo certo? — Indagou.

— Sim. — Concordo.

— Então é isso. Você tá liberada pra começar. — Olhou para mim e sorriu com os olhos.

— Vou começar imediatamente. — Tento manter o profissionalismo. Levantei da cadeira.

Quando ia pegar a cadeira para colocar no lugar, ele me interrompe.

— Não precisa, pode deixar.

— Ah, tudo bem. Deixa que eu coloco. — Disse firme, quase que seca.

Ele se levanta parecendo uma enorme muralha. Segura a cadeira no chão. — Eu disse pra deixar aí. — Disse em um tom ríspido.

Dei um passo para trás como uma garotinha. Ergo a cabeça para ele, levantando as mãos em tom de rendição. Senti minhas sobrancelhas se erguendo e a testa franzindo. — Se você insiste. — Minha voz soou seca, quase que ríspida.

Caio percebe meu incômodo com o seu tom. — Quarta regra: se eu disser pra você não fazer algo ou mandar fazer, é pra obedecer. — Seu semblante era arrogante.

— Sim, senhor. — Disse, quase debochando.

— Agora pode ir.

— Com licença. — Saio rapidamente da sala dele.

Que merda foi essa?