Lost In Paradise
9 The Hero
Notas iniciais
CAPÍTULO OITO — O HERÓI
"Maldita, maldita hora!" dizia Humphrey, enquanto caminhava de um lado para o outro; uma mão coçando o queixo e a outra carregando a trombeta desajeitadamente. "Maldita hora em que fui confiar naquele miserável! Ele vai estragar tudo!"
No momento seguinte, o corpo do valete esbarrou em algo sólido. O choque fez com que o homenzarrinho fosse ao chão, com um estrépito e um xingamento ecoando pelo ambiente. Olhando para cima, o valete percebeu, quase como que em contradição a seu prévio discurso, que aquilo contra o qual havia se chocado era o Curinga, que cambaleava desalentado.
"Então, imprestável! Que lhe fez demorar tanto? E que me traz de novo?" perguntou Humphrey, levantando-se e sacudindo o pó de suas roupas.
O Curinga coçava a cabeça com um dedo ossudo, visivelmente confuso. "Por que temos de nos encontrar nas masmorras?"
"O valete estendeu as mãos no ar, sacudindo-as veementemente. "Ora, por quê!" exclamou o homenzarrinho. "Porque a Rainha não pode tomar ciência disto, anencéfalo!"
"Isso me cheira a conspiração!" exclamou o Curinga, erguendo o punho bravamente no ar.
"Cale a boca, vaníloquo, e preste atenção! Preciso saber o que ouviu!" exigiu o valete.
"Ah! Um monte de baboseira!" exclamou o Curinga, cruzando os braços. "Aquelas duas não falam nada com nada."
"Relate-me tudo que ouviu, imprestável," demandou Humphrey, ameaçando o Curinga com um punho.
"Bem," começou o Curinga, afastando-se um pouco do valete, a fim de evitar a agressão. "Entreouvi as damas discutirem sobre quem era a mãe de alguém chamado Kendrick, ou algo do tipo..."
"Kendrick?" perguntou o valete, estreitando apenas um olho.
"Depois ouvi a morena ameaçar a loira de morte e, confesso, dessa parte eu gostei!"
O valete, como de costume, deu um soco na cabeça do Curinga, que cambaleou em suas pernas, mas manteve-se de pé.
"Pare com isso!" gritou o Curinga, esganiçado. "Pare com isso, ou vou direto à Rainha, contar sobre sua conspiração!"
"Conspiração da qual você também faz parte! Agora conte-me o que mais ouviu!" retrucou Humphrey.
O Curinga cruzou os braços e bateu os pés no chão, de modo infantil. "Apenas isso."
"Apenas isso? Não mencionaram nada sobre algum portal? Sobre alguma forma de voltar? Sobre para onde estão indo? De onde vieram?"
O Curinga coçou a cabeça com o indicador outra vez, enquanto pensava. "Errrrm... Acho que vieram de um lugar chamado Story sei lá das quantas..."
"Story?"
"Ah! E também ouvi a morena falar sobre recuperar seus poderes!"
"Recuperar poderes? Então, quer dizer que em Story não há mágica?" deduziu o valete. "Não, não, isso não vai servir. Não é para lá que vamos."
"Então já posso cortar-lhes a cabeça?" perguntou o Curinga, empolgado, esfregando uma mão na outra.
"Não, apedeuta! Não vamos lhes cortar a cabeça! Não ainda! Isso chamaria a atenção da Rainha. Só o faremos quando esta mandar. Por enquanto, vamos nos aproximar das jovens damas e ganhar sua confiança. Vamos fingir querer ajudá-las a escapar desta maldita prisão e, assim, ouviremos seus planos."
"E isso servirá para quê?" perguntou o Curinga, quem apresentava grande dificuldade de seguir o raciocínio do valete.
"Ora, para que roubemos a energia do portal que pretendem abrir e a canalizemos para o portal que nós pretendemos abrir... Rumo à Terra Encantada!"
O Curinga abriu um sorriso malicioso, que deu um brilho quase que maníaco a seu olhar. "Rumo à Terra Encantada!" ele repetiu.
* * * *
"O que vamos fazer é o seguinte," disse Regina, falando em tom de voz baixo e sério, segurando Emma pelos braços, com urgência. "Você vai lá fora, procurar o Jardim das Flores. Lá, a Rosa-Rainha vai dizer onde encontrar o cogumelo azul."
O rosto de Emma se contorcia em uma careta, e um tique nervoso se apoderava de seu olho. Sentia-se quase como um robô entrando em curto, bem após ter sido estocado com mais informações do que poderia suportar.
"Preste atenção!" disse Regina, firmemente. "Há vários cogumelos, porém, o único que nos interessa é o azul. Entendeu?"
"Azul," repetiu Emma, assentindo. "Compreendido."
Regina exalou o ar que nem percebera estar prendendo. "Ótimo. Agora, repita: o que vai fazer?"
Emma encarou a morena nos olhos; a expectativa estava radiante em suas íris chocolate. Com um sorriso travesso, ela disse: "Vou até o Jardim Azul, perguntar ao Cogumelo-Rei onde posso encontrar uma Rosa das Flores," e então, abraçou o próprio torso, a fim de evitar um ataque previsto, porém, não ocorrido.
Regina bateu com a palma da mão em sua própria testa. Emma deu uma risada alta. Valera a pena, pensou.
"Estou brincando!" disse Emma, dando uma cotovelada amigável no braço de Regina. "Vou ao Jardim das Flores, pedir informações à Rosa-Rainha sobre o Cogumelo Azul."
Regina revirou os olhos, claramente irritada com a brincadeira fora de hora de Emma. "E o que está esperando?" perguntou, ceticamente.
"Certo..." disse Emma. "Diga-me outra vez por que tem de ser eu..."
"Porque, Srta. Swan, lá fora tem um Sugador de Alma pronto para me matar, e uma velha amiga que me arrancaria a cabeça no primeiro momento em que me visse."
"Jesus!" exclamou Emma, arregalando os olhos, embora sua surpresa fosse mais devido ao fato de estar surpresa, do que ao fato de alguém querer arrancar a cabeça de Regina. "Que foi que você fez a essa amiga, para ela querer matá-la?"
"Eu a trancafiei aqui," disse Regina, casualmente, como quem comenta o clima.
A testa de Emma se enrugou. "Céus! Se é assim que trata seus amigos, preciso dizer que estou contente em ser sua inimiga. Pelo menos você está tentando me salvar."
"Não fique muito cheia de si, Srta. Swan. Só estou salvando sua vida por causa de Henry. Dependesse de mim, você não haveria nem nascido."
* * * *
Emma saíra do quarto, em direção ao caminho apontado por Regina, com as palavras desta última rondando sua mente. "Dependesse de mim, você não haveria nem nascido." Era orgulhosa demais para admitir, mesmo nos confins de sua mente, que aquilo lhe havia doído, embora não soubesse ao certo o motivo.
Decerto, não pedira para nascer. Não pedira para ser enviada para Storybrooke com August—Pinocchio, quando era apenas um bebê. Não pedira para passar sua vida inteira sozinha, sem criar raízes, revolvida por seus muros imaginários; muros protetores. Não pedira para carregar nas costas o peso de quebrar a maldição da Rainha Má. Não pedira para ser o único raio de luz, num poço de escuridão, mas ela era, e não havia nada a ser feito, a não ser dar o melhor de si.
Emma caminhava distraída — sabia que apenas precisava andar em linha reta até avistar o campo onde primeiramente aterrissaram, e de lá seguiria até os estábulos, montaria um cavalo e seguiria a trilha de pedras, que levaria ao Jardim das Flores. Precisava clarear sua mente; a confusão lhe inquietava o coração.
Então a pergunta que lhe rondara a mente desde o momento em que ela e Regina foram sugadas pelo portal fora finalmente respondida. Por que Regina segurara a mão de Emma, quando esta estava escorregando pelo portal? Era tudo que Emma jamais poderia prever e, no entanto, a resposta era simples. Henry. Tudo por causa de Henry.
E, desde o começo, fora tudo por causa de Henry. Fora a criança que a procurara e a levara até Storybrooke. Fora a criança que fizera com que os caminhos de Emma e Regina se interligassem, e que despertara o ódio desta última em relação à primeira. Fora a criança que fizera com que Emma questionasse, vez ou outra, sua própria sanidade mental, e que acabara por expandir os horizontes de sua mente, fazendo-a acreditar novamente em contos de fadas. Fora a criança que, de certa forma, fizera com que a maldição fosse quebrada. E era a criança, agora, a responsável por Regina tentar manter uma relação não-tão-assassina com Emma. Henry podia pensar que Emma era a salvadora, mas esta tinha uma idéia bastante diferente. Para ela, Henry era o salvador. Henry era o herói.
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